Dicionário de Política (Volume 1)
de uma economia de base, fundamentalmente natural
I. DA IDADE MÉDIA À IDADE MODERNA cujo único protagonista era o senhor, proprietário de . —
A grande "fase de transição" que leva do sistema terras, que evidenciava sua posição de superioridade,
feudal ao E a nível social, através da reivindicação e do exercício STADO MODERNO , ( V .) e que engloba,
aproximadamente, o período que vai do século XII ao daquele complexo sinalagmático de direitos e deveres
século XVI, também conhecido como baixa Idade que era o direito feudal. Não é por acaso que, até a
Média, teve indubitavelmente um tipo peculiar de Revolução Francesa, a única acepção vigente do
organização do poder que, embora não uniforme nem termo "feudal" tenha sido justamente a jurídica. A
passível de generalizações, pode, todavia, ser multiformidade que substitui o esquema feudal se
reconstruído nas suas grandes linhas, comuns à maior constitui ao invés como o reflexo de uma nova
parte das experiências políticas européias daquele mobilidade social, reflexo, por sua vez, da incipiente
tempo. transformação da vida econômica e da conseqüente
necessidade de serem definidas formas de
Trata-se da época em que é preparada a grande
organização política mais adequadas a condições de
edificação do Estado, mediante a queda e a
vida bastante modificadas.
desagregação daquela estrutura imponente, de base
imperial-religiosa e caracterizada pelo sistema feudal Esta passagem acontece em dois níveis: o
de relações, com que, pela primeira vez, o Ocidente tradicional de base agrária, caracterizado pela manifesta sua unidade política, bem como sua
capacidade de proporcionar a si mesmo
1214 SOCIEDADE POR CATEGORIAS
propriedade fundiária, mediante a progressiva medida em que se estruturam internamente, de forma
transformação do feudo em "senhoria"; e o novo, coletiva, mas na medida em que encontram também
caracterizado pelas nascentes atividades produtoras e uma contrapartida externamente, na existência de
comerciais, mediante a formação de organizações novas relações grupais, de tal forma que acabe
corporativistas de diversa natureza e importância, ocorrendo a criação de um tecido de relações que,
porém com características básicas comuns. O mediante a solução em cada setor de seus respectivos
denominador comum de ambos os processos é o problemas, leve à solução de todos, ao mesmo tempo e
desejo da autogestão: isto é, a procura de uma de forma equilibrada, reduzindo ao mínimo
solução para os problemas relativos a cada contexto indispensável toda a mediação e intervenção superior,
(o senhorial e o comunitário) no interior do próprio até mesmo pela ausência efetiva, neste período, dos
contexto, por parte das forças que nele atuam. É portadores de poderes adequados para o desempenho
evidente, todavia, que, para além desta marca desta tarefa. O resultado é, necessariamente mais uma
comum, é justamente a diferente estrutura de cada vez, uma forma organizacional dos diferentes
caminho evolutivo ora citado que faz com que, em contextos em que se dá a solução dos problemas, não
cada um deles, predomine um diferente critério de heterodirigidos ou gerida de cima para baixo, mas
gestão: o senhorial, justamente, ou o comunitário. que produz, a partir de seu interior, uma composição,
Trata-se, como é sabido, de dois aspectos muitas vezes de certa forma automática, entre as diferentes
apresentados como característicos de toda a história exigências manifestadas pelos diversos setores da
constitucional moderna do Ocidente. Sua presença, vida associativa e pelos diversos setores entre si. O
aliás sua gênese, no período que aqui estamos resultado, em suma, é uma "sociedade", com especial
analisando, serve, por si só, para justificar o estudo realce para as conotações espontâneas do termo e
autônomo da forma organizacional dominante naquele para os conteúdos coletivistas por ele evidenciados.
período no campo político: a Sociedade por Uma Sociedade por categorias que aspira a ser, e é
categorias. em grande parte, uma maneira historicamente definida
de organização do poder, funcionando concretamente
II. DIMENSÃO SOCIAL DO POLÍTICO. — A com base em princípios próprios, mesmo que opere de
análise desta expressão, retirada, por tradução, da maneira diferente (mais sociológica e menos política)
historiografia alemã (ständische Gesellschaft) e da forma organizacional que a antecedeu (o sistema particularmente da elaboração mais recente que dela feudal) e da que a ela irá suceder (o Estado), ambas
faz Otto Brunner (Altständische Gesellschaft) deveria fundadas num tipo de obrigação política mais rigorosa
possibilitar uma percepção fácil e imediata de seus e vinculativa, embora por razões bastante diferentes.
traços característicos. O que se entende, em primeiro Trata-se, com efeito, de uma forma organizacional do
lugar, por "categoria"? (alemão: Stand; francês: poder própria de uma fase de transição, tal como a
Estai; inglês: Estale; latim: status). É o conjunto de descrita no início. pessoas que gozam, pela condição comum em que se Vimos até aqui os elementos pelos quais a
encontram, da mesma posição com relação aos direitos Sociedade por categorias se diferencia do sistema
e deveres políticos. Pelo fato de usufruírem político que a antecedeu, de base feudal: superação da
conjuntamente desta posição, elaboram e praticam base personalista e, conseqüentemente, formas de gestão da mesma que se configuram, predominantemente jurídica do poder, mudança na
justamente, como comunitárias ou, ao menos, como estrutura econômica que lhe serve de suporte e,
representativas. finalmente, passagem de um enfoque acentuadamente
Um primeiro elemento que emerge deste enfoque militarista da relação política para um enfoque mais
dado ao problema é o caráter não mais pessoal e sim social. necessariamente coletivo apresentado pela obrigação Cumpre, agora, identificar os aspectos que
política, decorrente da crise do sistema feudal e que diferenciam esta forma organizacional do poder da
encontra sua caracterização na organização por que nos é mais próxima, própria do Estado moderno.
categorias. Na senhoria, assim como na corporação É aqui que se encontra o aspecto metodologicamente
(tendo como ponto de partida a "casa" que, como mais importante do problema, uma vez que, como já
veremos, é a forma primitiva de toda a organização, até foi evidenciado, a Sociedade por categorias é uma
a nível antropológico), a relação política envolve mais construção conceptual da pessoas ao mesmo tempo. Em suma, trata-se de uma
relação grupai que, enquanto tal, é mais dificilmente
redutível a uma mera definição jurídica apresentando
aspectos, interesses e compromissos concretos de tipo
sociologicamente mais global.
Decorre daí um segundo elemento. Relações
políticas deste tipo podem subsistir não apenas na
SOCIEDADE POR CATEGORIAS 1215
historiografia contemporânea e é, portanto, poder (sempre entendido como algo unitário e necessariamente condicionada, na sua estrutura integrado, mesmo "dividido" ou articulado no seu
lógica, pelos elementos que caracterizam a forma de interior) nem centros periféricos aos quais fosse
organização do poder que, de alguma maneira, delegado o poder pela sede integrada e originária,
também é condicionante. mas no sentido de que o poder brota de fontes
diferentes e se evidencia em sedes diferentes, mais ou
III. POLICENTRISMO DO PODER EM menos em concorrência entre si, mais ou menos
CONTEXTOS AUTÔNOMOS. — Nesta perspectiva, coordenadas. As diferentes fontes correspondem, são dois os aspectos que merecem ser evidenciados: basicamente, às diferentes funções sociais, às
ambos antitéticos com relação a elementos diferentes condições ou "status", enfim, às diferentes característicos do Estado moderno. Trata-se, por um categorias. Por sua vez, as diferentes sedes
lado, da relação entre competência pública e correspondem aos diferentes contextos competência privada, e, por outro, da alternativa entre organizacionais que tais funções se atribuíram: desde
concentração do poder e policentrismo do mesmo. Por a família ("casa") como foi visto, até às assembléias de
sua vez, ambos se resumem numa diferença radical categoria ou das categorias. entre as duas formas de organização do poder: a O que falta à antiga Sociedade por categorias e que
relação-contraposição entre o "Estado" e a a caracteriza, de forma mais clara, em relação ao 'sociedade", inteiramente ausente na Sociedade por Estado moderno, é o elemento que Max Weber
categorias, cuja presença é, porém, essencial para o entende como a própria essência do Estado: o
Estado moderno. monopólio da força legítima. Esta se encontra, ao
Público e privado, afirma-se, não constituem contrário, deslocada, de uma maneira mais ou menos
categorias políticas para a história constitucional que forte, em inúmeros pontos, possuindo cada um deles,
antecede a Idade Moderna. Isto não significa que não como foi visto acima, eficácia política direta e
existissem então as duas dimensões, isto é, que não faltando totalmente (por ser inimaginável) a distinção
houvesse uma qualquer distinção entre atos relativos à entre privado e público. Não existe, em outras
vida privada dos indivíduos e atos que apresentassem, palavras, o Estado, como momento sintético e
ao contrário, uma significação mais ampla, coletiva de unificador da titularidade e do exercício do poder;
alguma maneira. Significa apenas que os dois tipos de conseqüentemente, falta também a sociedade, como
atos não se configuravam como inerentes a dois pólos sede dos interesses privados e das relações a eles
separados e contrapostos (o indivíduo enquanto tal e inerentes. A Sociedade por categorias é, em termos
o detentor do poder político), mas coexistiam nas modernos, ao mesmo tempo, Estado e sociedade:
mesmas situações. A distinção, portanto, não era, de societas civilis sive status. É uma forma autônoma e maneira alguma, causa ou conseqüência da separação original de organização do poder, inspirada em
constitucional entre o exercício do poder, de um lado, princípios antitéticos aos que inspiram o Estado
e a simples satisfação de necessidades individuais, do moderno. outro. Ao contrário, muitas vezes comportamentos
que, de acordo com os parâmetros modernos, podem IV. CONTRADIÇÕES DE FUNDO DA SOCIEDADE POR ser classificados como privados, implicavam, de CATEGORIAS, COM RELAÇÃO AO ESTADO MODERNO. — A imediato, o surgimento de direitos e deveres públicos. última observação permite que voltemos à explicação
É significativo como exemplo, neste sentido, o caso do metodológica feita anteriormente. O quadro da
"senhor de casa" (Hausherr) que, enquanto Sociedade por categorias, até aqui descrito, desempenhava sua função, hoje tipicamente privada, corresponde, na realidade, a um tipo ideal: isto é,
de chefe de família, exercia um real poder político corresponde à abstração de elementos considerados
(jurisdicional, administrativo, de representação) sobre significativos, presentes num processo que durou
os membros da "casa" a ele subordinados. O mesmo séculos e que teve formas diferentes, não apenas
valia para todas as outras formas de "senhorio", quer entre um país e outro, mas também entre um e outro
fossem desempenhadas em termos senhoriais ou território. Além disso, trata-se de um "tipo" elaborado
comunitários. pela historiografia contemporânea: a do Estado
Tal situação só pode ser entendida na medida em moderno. Está, pois, com certeza condicionado na
que for superada a concepção — característica da sua estrutura íntima, em sentido positivo ou em
Idade Moderna — da concentração do poder numa sentido negativo, pelos motivos que inspiraram o
única sede. A Sociedade por categorias é, sem Estado moderno. Não existe aqui a pretensão de ver
dúvida, eminentemente pluralista: não no sentido como funcionaria "realmente" a Sociedade por
moderno, pois não havia nela centros diferenciados de categorias: tarefa, inclusive, impossível controle e/ou participação no
1216 SOCIEDADE POR CATEGORIAS
para qualquer historiografia e, particularmente, para conjunto de condições atinentes a uma categoria
aquela que, neste caso, nos interessa, pelo acervo, prestes a transformar-se em classe: a burguesia
excessivamente limitado, de notícias disponíveis. O nascente. Isto ocorreu também devido ao processo de
que se pretende é, antes de tudo, recordar a esclerose a que, inevitavelmente, está sujeita a
complexidade da história constitucional descrita, Sociedade por categorias, através da formalização,
permeada por tendências e impulsos contraditórios e, cada vez mais acentuada, dos seus elementos
às vezes, até opostos entre si. A "senhoria", a constitutivos, numa estrutura constitucional híbrida, à
conseqüente pluralidade de centros de poder e a qual se dá, tradicionalmente, o nome de "Estado por
autonomia local podem ser, ao mesmo tempo, categorias", cuja característica básica é um certo tipo
momentos de participação no poder e momentos de de dualismo de poder entre o príncipe, de um lado
exclusão, de opressão. Podem refletir os interesses (portador de instâncias centralizadoras e de eficiência
conservadores das situações {status) constituídas ou política), e as categorias organizadas, do outro. O fato
promover e estimular a mobilidade social, facilitando de a organização das categorias (nas assembléias
o surgimento de status novos. A concorrência de locais e territoriais, bem como nos gabinetes
múltiplos centros de poder entre si pode ser também administrativos a elas relacionados) estar em mãos
fator de mobilidade e progresso, mas, ao mesmo tempo, principalmente da nobreza, se constitui, sem dúvida,
pode-se constituir em fonte inesgotável de conflitos. A numa das causas que levaram a radicalizar a
não-existência da distinção entre público e privado exigência racionalizadora das categorias mercantis e
pode enriquecer de responsabilidades e competências produtoras. Esta radicalização levaria tais categorias a
a vida de cada indivíduo, porém, pode, também, uma progressiva tomada de consciência de seus reais
complicar demasiadamente o desenvolvimento correto interesses materiais, colocando-as ao lado do
das relações sociais, confundindo motivações e príncipe, no qual se encarnavam as esperanças, e
justificativas individuais com exigências e aspirações também as reais possibilidades, de uma gestão
coletivas. Na realidade, estas possibilidades racional do poder. coexistiam na antiga Sociedade por categorias, A vitória do príncipe sobre as categorias foi clara,
motivando uma dupla tendência. não deixando margem a dúvidas. A historiografia mais
Por um lado, principalmente no início, em cuidadosa tende, porém, a ressaltar insistentemente que
decorrência do desmoronamento do sonho de as categorias não chegaram a ser, de maneira alguma, unificação imperial e do correspondente sistema feudal totalmente eliminadas. Continuaram a existir, se bem
de organização, o surgimento espontâneo de condições que com uma relevância não já constitucional, mas
sociais dotadas de legitimidade, e, portanto, de poder apenas social e econômica, acabando por serem
político, favoreceu a imponente transformação esmagadas, também nestes setores, pela progressiva
econômica e social que estava se concretizando e, ao consolidação das classes, conseqüência da mesmo tempo, em alguns casos, seu aglutinamento ao consolidação da maneira de produção capitalista. As
redor de entidades territoriais e políticas cada vez categorias continuam a subsistir, nos aspectos
mais unitárias. Por outro lado, principalmente graças positivos e negativos que caracterizaram seu período
a este último impulso, a multiplicidade de perturbação áureo, como fatores de conservação, mas também de
e ineficiência, em contraste com interesses, cada vez participação. Em torno da permanência destas duas
mais evidentes, de paz e segurança, defesa e proteção, características existe uma antiga polêmica manifestados por uma camada crescente de novas historiográfica, nunca resolvida e talvez insolúvel,
categorias sociais: as de origem manufatureira e entre os que insistem em ver nas categorias (e em suas
mercantil. Otto Brunner identificou, sem sombra de assembléias) uma antecipação do moderno princípio
dúvidas, na "faida" um dos principais instrumentos de representativo e parlamentar, e os que, ao contrário,
"política" na Sociedade por categorias. Não se trata de acentuam a dimensão constitucional (para não dizer
um instrumento público nem privado, e sim de uma existencial) da Sociedade por categorias, verdadeira e
maneira considerada legítima para solucionar autêntica forma de organização do poder, dotada de controvérsias. Uma das constantes deste período é a características distintivas originais e exclusivas.
busca contínua da "paz territorial" à qual é sempre Adotou-se aqui a segunda tese, menos formalista e
acrescentado o atributo de "eterna" (fruto de mais "global" (embora mais passível de utilização
esperança mais do que algo real, uma vez que estas conservadora e de lamentações absurdas acerca dos
declarações se sucedem sem fim). belos dias
A dialética entre todos estes componentes haveria
de conduzir, como se sabe, ao Estado moderno,
mediante o triunfo da instância da racionalização e
fortalecimento do poder, e, conseqüentemente, da sua
unificação, tendo por base os interesses ligados a um
SOCIOLOGIA POLÍTICA 1217
de outrora): deve-se, porém, notar que se trata de uma Sociologia política em constituir-se em disciplina
opção efetuada a nível científico, "compreensivo" específica com relação às outras disciplinas
(verstehend), mais do que a nível político e sociológicas. substancial. Optou-se por um "tipo" que, como foi A Sociologia política surge, antes de tudo, como
dito, possibilita "compreender", de maneira reação às carências da análise formal-jurídica das satisfatória, a evolução constitucional do Ocidente, da instituições políticas, com o cunho de um "realismo
Idade Média aos nossos dias. Já foi dito tratar-se de desencantado". Assim acontece com o conceito de
um tipo contraditório. É evidente também que nele se classe política (v. ELITES, TEORIA DAS) que contrapõe encontram presentes os elementos necessários para à teoria da divisão dos poderes e do poder
uma posterior evolução: os que levam ao Estado proveniente "de baixo" a "realidade" de uma minoria
absolutista, em primeiro lugar, mas sem dúvida detentora do poder, organizada, coesa, quase também alguns elementos que encontrariam sua plena hereditariamente perpetuada, malgrado as técnicas realização numa fase posterior, a do Estado liberal e democráticas de controle e de revezamento da classe
representativo. política no poder.
A Sociologia política se constitui, além disso,
BIBLIOGRAFIA.- R. AJELLO, Arcana juris. Diritto e como disciplina específica com a análise das
política nel Settecento italiano, Iovene, Napoli 1976:O. formações político-sociais que surgem tanto como BRINNER, Per una nuova storia costituzionale e sociale. aspecto político da sociedade industrial, quanto como Vila e Pensiero, Milano 1970: H. M. CAM, A. conseqüência, primeiro da ampliação do sufrágio e, MARONGIU' e G STOEKL, Recent works and present depois, do sufrágio universal. A Sociologia política views on the origins and development of representative se apresenta, portanto, histórica e analiticamente, assemblies. in Relazioni del X congresso internazionale como uma "tomada de consciência" da transição da di scienze storiche. I, Firenze, 1955; O. HINTZE, sociedade contemporânea, de um sistema político
Organizzazione. cultura, società. Saggi di storia baseado na participação e no controle de uma elite, a costituzionale, ao cuidado de P. SCHIERA, Il Mulino, sistema político fundado na relevância cada vez Bologna 1980; E. LOUSSE, La société d'Ancien Régime. maior da maioria popular, tanto em sentido Organisation et représentation corporatives. Les democrático-parlamentar ("democracia de massa"), éditions de la Librairie Encyclopedique, Louvain, como em sentido "ditatorial" ("ditadura popular"). nova edição, 1952; Problémes de stratification sociale.
O fenômeno da crescente relevância e participação
ao cuidado de R. MOUSNIER. PUF, Paris 1968; G.
da maioria no processo político e da igualdade de
OESTREICH e I AUERBACH, Die standische Verfassung
acesso às atividades políticas e administrativas influi
in der Westlichen und in der marxistischsovietischen
igualmente nos regimes políticos "democráticos" e
Geschichtsschreibung. in "Anciens Pays et Assemblées
nos "não-democráticos".
d'États", LXV, 1976, pp. 5-54.
A importância deste fenômeno está no fato de que
[P ele provoca uma nova orientação na própria reflexão IERANGELO S CHIERA ]
sociológica, de tal modo que a sociologia "pós-
clássica" do período que medeia entre as duas guerras
mundiais, deve ser considerada essencialmente como
Sociologia Política. Sociologia política.
Nota-se a tendência a substituir o termo "Estado"
I. A por SISTEMA POLÍTICO (V.). Quer-se assim englobar FORMAÇÃO DA DISCIPLINA . — No sentido lato
não somente as instituições políticas, mas,
do termo, a Sociologia política surge no momento em
especialmente, as formas de organização política da
que se inicia a reflexão sociológica sobre o poder, o
Estado e o dever político. A sociologia do século XIX sociedade civil, como, por exemplo, os partidos, e as
— de Comte a Durkheim, de Marx a Weber — opera, formas através das quais a população influi na
atividade das instituições políticas, desde os
na exegese do político, aquela "secularização" da
processos eleitorais às expressões mais "fluidas" da
análise política que se iniciara com os cânones
maquiavélicos da observação da "realidade efetiva". OPINIÃO PÚBLICA (V.). O poder, o Estado, o dever político são vistos como
elementos do "social", quer representem uma II. CAMPOS DE PESQUISA. — As primeiras
"função" da sociedade civil, quer revelem, em vez pesquisas realizadas ocupam-se das causas
disso, em forma institucional, a coercitividade como determinantes da PARTICIPAÇÃO POLÍTICA (V.)., com
elemento da "luta de classes". Neste sentido, a diversos graus de intensidade, desde a simples adesão
preeminência do político na reflexão sociológica foi até a dedicação completa do próprio uma das razões do "atraso" da
1218 SOCIOLOGIA POLÍTICA
tempo e da própria atividade, como acontece no caso estruturação política da sociedade civil. A estrutura do do PROFISSIONALISMO POLÍTICO (V.). "público" — entendida neste sentido — compreende,
A participação política, compreendida como antes de mais nada, o fenômeno pelo qual uma
atividade que se desenvolve com diversos graus de pluralidade de pessoas "juntam-se", associam-se para
intensidade, pode ser orientada para o alinhamento que alcançar um objetivo coletivo relevante, não somente
se autopropõem os partidos "de Governo" e de para os diretamente associados — associação com fins "oposição" através do voto, ou, então, para a formação de "interesse" — mas também para os que não são
e atividade de movimentos políticos e sociais que diretamente associados, compartilhando todavia com
visam à mudança radical do regime político existente, aqueles uma condição existencial importante —
como é o caso dos movimentos sociais- Verifica-se em associação com fins de "solidariedade". Este
ambos os casos um processo de profissionalização da fenômeno é chamado geralmente de associonismo
atividade política: no primeiro, teremos a figura do político. Em segundo lugar o "público" compreende a
"político de profissão", no segundo, a do formação e a atividade de organizações que tenham "revolucionário de profissão". Faz parte ainda da área como finalidade a regulamentação da atividade política
da participação política o estudo da recusa, mais ou dos cidadãos, ou para influir no processo político no
menos consciente, mas traduzida numa escolha quadro das relações "de regime" existentes — como é "eversiva", do alinhamento político existente e que o caso do partido político moderno — ou para mudar
leva, geralmente, à abstenção do voto e de qualquer ex-novo a estrutura do processo político existente — outra forma de "compromisso" político; é a APATIA como é o caso do partido revolucionário. Em terceiro
(V.)política. lugar, o "público" compreende também os fenômenos
É neste caminho e dentro da dicotomia liberal e de "politização" de uma facção de homens
clássica do "cidadão" e do "Estado" que se situa a relativamente próxima do poder constituído e cuja
análise empírica das opiniões, das "atitudes de valor" finalidade é a tomada do poder mediante a
e das IDEOLOGIAS (V.), de que cada indivíduo, apropriação violenta de algumas posições-chaves na
entendido como unidade relativamente "autônoma", é estrutura do poder político, como acontece no caso do
portador. Designamo-la com o nome de CULTURA GOLPE DE ESTADO (v.). POLÍTICA (V.), A análise da cultura política tende, Associações, partidos e facções têm sido um
portanto, a englobar a análise empírica das ideologias importante campo de pesquisas específico da
que a Sociologia política conduziu a um grau muito Sociologia política, particularmente a área do partido
adiantado de maturidade metodológica. político.
Às determinantes puramente sociais da participação O partido político moderno foi visto nas suas
política — idade (geração), sexo, camada social, grau e diferentes formas de existência e de desenvolvimento,
tipo de instrução, etc. — tendem agora a juntar-se como organização em si e como organização
determinantes culturais e psicológico-sociais, como as operante no contexto de um sistema político. Antes
"normas" e os "valores" e, em geral, os instrumentos de tudo, foi estudado como partido de eleição, de comunicação interpessoal de uma determinada orientado para a mobilização eleitoral da postulação
sociedade nacional, a maneira pela qual os em idade de votar; depois, como partido de indivíduos, desde a infância até a adolescência, organização, tendente a suprir através de múltiplas aprendem direitos, deveres e orientações políticas — iniciativas, todas elas dependentes de uma socialização política — e variáveis mais complexas, organização centralizada, as carências da como o caráter mais ou menos "autoritário" das administração estatal; e, por último, como partido de relações entre os indivíduos na sociedade civil, mobilização, formado por um conjunto restrito de relações que se supõe tenham algum efeito sobre a indivíduos dedicados e ativos, denominados visão política dos "cidadãos". "quadros", e capaz de mobilizar um número assaz
Esta série de determinantes expressam-se grande de indivíduos, seja para fins específicos, seja
empiricamente como variáveis estatísticas. Grande com uma finalidade revolucionária. Deste modo, a
parte do debate metodológico em curso na Sociologia análise do partido político converge necessariamente
política empírica versa sobre o rigor com que certas com a análise da mobilização política, entendida determinações assaz complexas são classificadas numa acepção muito vasta, ou seja, não somente
como variáveis. como mobilização da população por parte do Estado,
Visto que a relação "indivíduo-Estado" implica mas também como mobilização extra-estatal e, amiúde,
inevitavelmente uma abstração quanto aos processos extra-institucional, sempre profundamente políticos concretos da sociedade contemporânea, boa
parte da Sociologia política dedicou-se e se dedica ao
estudo do "que está no meio" entre o indivíduo e o
Estado, isto é, a esfera do "público", bem como da
SOCIOLOGIA POLÍTICA 1219
condicionadora dos processos políticos concretos do dos CONSELHOS OPERÁRIOS (v.) e do Estado de Estado moderno. conselhos. Se na direção da sociedade civil, enquanto
Como organização política da sociedade civil, o organizada de modo relevante pelos processos
partido político é uma das estruturas que mais decisórios do Estado, encontramos os grupos de
claramente se colocam numa relação significativa, de interesse e de pressão, na direção do Estado, um encontramos a burocracia, o exército e todos os lado, com a organização particular e
politicamente relevante da sociedade civil, tal como poderes do Estado constitucional moderno: o
se manifesta, por exemplo, nos grupos de interesse e legislativo, o executivo e o judiciário. nos GRUPOS DE PRESSÃO (v.), do outro, com as A Sociologia política considera a burocracia como estruturas institucionais mais relevantes do Estado, fenômeno "civil" e "político". Como fenômeno civil, a
como o exército (v. FORÇAS ARMADAS) e a burocracia é analisada nas determinantes sociais e
BUROCRACIA (V.). psicossociais do racionalismo burocrático — condições
Por sua própria natureza, portanto, o partido sociais e culturais da "eficiência" — e nos efeitos
político moderno, como qualquer outra organização sociais e psicológicos — portanto também a nível
da vontade política coletiva não-civil e não-estatal, se individual — desse mesmo racionalismo. Como
encontra numa situação potencialmente conflitante, de fenômeno político, enquanto instituição estatal, a
um lado, com a sociedade civil e, do outro, com o burocracia é analisada, especialmente nos países em
Estado. O partido é, pois, uma espécie de "espião" da desenvolvimento, como fator de integração coativa da
existência de um nível de fenômenos que não são sociedade e, por conseguinte, como elemento
atribuíveis nem à sociedade civil, nem ao Estado. Por determinante, seja na formação de uma sociedade
isso, na relação entre "Estado" e "Sociedade civil", nacional, seja na formação do Estado, isto é, de uma
bem conhecida da inteligência política do século "infra-estrutura" político-administrativa capaz de
XIX, é preciso inserir um terceiro elemento, mobilizar a população para fins coletivos. específico da política do nosso século. Dá-se em Quando o duplo e importante problema da
sociedades de diverso grau de desenvolvimento formação do Estado e da nação passa a segundo plano,
industrial, por um lado, e de desenvolvimento político- verificam-se, de um lado, análises da relação entre
administrativo ou institucional, por outro. Este nível burocracia e grupos de pressão, isto é, da
ou "campo" de fenômenos poderia definir-se como possibilidade de uso da burocracia para fins "privados"
sociedade política. (tentativas de imposição da sociedade civil ao Estado
É neste nível que encontra espaço o fenômeno do "à custa dos partidos"), do outro, análises da tendência
sindicato (v. S da burocracia a absorver as funções dos partidos ou INDICALISMO ), que suscita uma
problemática muito complexa, na medida em que se mesmo — como na hipótese do "poder dos managers"
apresenta como estrutura da sociedade política. O — a substituir a classe política "eletiva" do poder
fenômeno do sindicato pode aparecer sob formas legislativo e executivo. Grande parte destas pesquisas
diversas. Antes de mais nada, como organização "de — e das hipóteses interpretativas a elas conexas —
massa" para a defesa de interesses específicos, comuns englobam-se na análise da classe política, enquanto
a um grande número de pessoas. Apresenta-se como "classe eletiva" contra "não-eletiva", "responsável"
uma relação "contratual" com uma parte "privada", contra "irresponsável", "dividida" contra "coesa",
como, por exemplo, um grupo de interesse. Tende a "homogênea" contra heterogênea", "organizada" contra
transformar-se também em grupo de interesse e a "desorganizada", e assim por diante. Deste modo, a
operar, por isso, mais a nível de sociedade civil que de análise dos poderes do Estado constitucional, em
sociedade política. Em segundo lugar, temos o termos de Sociologia política, tende a desenvolver-se
sindicato como teoria da classe política, mesmo quando não apenas como organizador de
"interesses" específicos, com uma outra parte privada, concentrada apenas nos seus procedimentos e no seu
mas também como organização de "interesses" que funcionamento. vão além do específico de certas "demandas" e A análise da estrutura militar é realizada dentro de tendem a assumir o cunho da "solidariedade", tendo uma problemática paralela à da burocracia, mas
como a outra parte de preferência o Estado em lugar encontra sua característica na pesquisa das relações
de uma ou mais organizações privadas. É neste caso entre poder militar e poder político. Além disso,
que o sindicato tende ao monopólio da sociedade especialmente nos países em desenvolvimento, o poder
política assumindo uma posição, se não conflituosa, militar se apresenta como alternativa, às vezes
pelo menos de concorrência com os partidos. violenta, à formação e ao Finalmente, o fenômeno sindical aparece como
fenômeno-limite da sociedade política, justamente
quando tende a esvaziar essa sociedade procurando
identificar sociedade civil e Estado com a instituição
1220 SOCIOLOGIA POLÍTICA
desenvolvimento das estruturas da sociedade política. O primeiro se caracteriza, conforme a definição
É esta, portanto, que oferece continuamente, mesmo schumpeteriana, como um sistema político em que as
em última instância, os maiores dilemas da Sociologia posições do poder são objeto de concorrência entre as
política contemporânea. minorias organizadas (os partidos), que as conquistam
Na análise da formação mais ou menos completa apresentando seus programas na disputa eleitoral.
da sociedade política em relação às instituições Mesmo que a teoria da democracia se mantenha, em
estaduais, de um lado (burocracia, exército e poderes grande parte, no âmbito da relação cidadão-Estado,
constitucionais), e, de outro, em relação à sociedade pode-se afirmar que boa parte da Sociologia política
civil, existe uma tendência recente de pesquisa e tem-se dedicado à análise das mudanças estruturais do
conceituação denominada desenvolvimento político e sistema democrático-parlamentar, à medida que se
POLÍTICA COMPARADA (v.), cuja importância, no formaram e desenvolveram as estruturas da sociedade
quadro da sociologia e da ciência política política. O segundo foi definido recentemente como
contemporâneas, está, em grande parte, na análise das um sistema político em que, à falta de uma
formas e dos graus de desenvolvimento diferencial da possibilidade de escolha por parte da maioria dos
sociedade política, da estrutura do "público" que se eleitores entre as minorias organizadas, corresponde,
insere entre a sociedade civil e o Estado, e muito na sociedade civil, à existência de "centros de poder"
especialmente das CRISES (V.), que comportam tais — como é o caso, por exemplo, de uma igreja
condições de desenvolvimento. dominante ou de um exército de longa tradição e bem
A análise das crises políticas, que se diferenciam organizado — que impedem que a classe política possa
das simples "crises de Governo", na medida em que dispor plenamente da sociedade civil. assinalam a passagem de um tipo de regime político a O sistema político autoritário não é, portanto, nem
outro, pode ser feita mais ou menos democrático, nem totalitário. Define-se como um "comparativamente", a nível de sociedade civil, sistema em que a classe política no poder, estruturada
sociedade política e Estado, conforme a preferência não apenas nas instituições do "Estado tradicional",
dada às variáveis que correspondem às três esferas de mas, especialmente, nas "organizações de massa" da
pesquisa aqui indicadas. No primeiro caso, há sociedade política e civil, domina inteiramente e tem
tendência a sustentar que existe crise política, quando ao seu inteiro dispor a sociedade para a consecução
existe uma crise econômica que ameaça mudar a dos fins. É, portanto, um sistema "totalitário",
constelação de interesses econômicos (e do poder de enquanto chega a conseguir (ou ao menos utiliza todos
fato) na sociedade civil. No segundo caso, a crise os pressupostos institucionais para o fazer) uma
política é detectada, quando as estruturas da sociedade atitude "total" do cidadão como indivíduo e como
política evidenciam falta de uma relação de parte de um grupo, organizado pelo Estado. representatividade com a sociedade civil, ou seja, Devemos lembrar a analogia que existe entre esta
quando são incapazes de colocar-se numa posição de tipologia e a que a economia política clássica faz do poder, de influência, de "contratação", em face das mercado. O sistema político democrático instituições do Estado. No terceiro caso, finalmente, se corresponderia, neste sentido, ao mercado de
tenderá a ver a crise política essencialmente no concorrência, baseado na liberdade de escolha do
funcionamento falho das instituições estatais, consumidor. O segundo corresponderia ao mercado
políticas e administrativas. Porém, em geral, os três oligopólico e o terceiro ao mercado monopólico,
níveis estão presentes nas análises das crises, que têm ambos baseados na ausência de liberdade de escolha
o mérito de mostrar claramente a necessidade de uma no consumidor. "interdisciplinaridade" entre análise econômico-civil, Na realidade, estas tipologias têm sua base, ainda
análise política e análise jurídico-institucional. hoje, na relação indivíduo-Estado. A analogia entre o
A Sociologia política desenvolveu muitas tipologias campo da escolha política e o campo da escolha
de sistemas políticos, partindo, ora das condições de econômica (concorrência, "mercado"), é uma escolha política, ora dos próprios partidos políticos abstração que prescinde dos mecanismos complexos da
(em particular do número dos partidos: proposta da classe política, da organização da escolha monopartidarismo em confronto com política e da capacidade ou não do sistema político em pluripartidarismo, este último, por sua vez, apresentar o seu alinhamento e "opções" como os considerado nas duas versões de bipartidarismo e únicos possíveis. multipartidarismo), ora do modo como se processa a
imissão da demanda política e a emissão de decisões
por parte do sistema político. Quase todas estas
tipologias tendem a mostrar, essencialmente, o valor
das condições da escolha política e a considerar a
importância da diferença entre um sistema político
democrático e um sistema autoritário e totalitário.
SOCIOLOGIA POLÍTICA 1221
Os mesmos sistemas "autoritários", por outro lado, particulares, tanto na política interna como na externa,
diferem profundamente não só segundo a relevância características que se podem resumir na expressão
da sociedade civil (a exemplo do nível de "socialismo num só país". Sob o ponto de vista da
desenvolvimento das relações de produção e de troca), política interna, o aspecto saliente do Stalinismo é a
a articulação das relações de poder de fato, etc, mas luta sem tréguas contra os reais ou supostos inimigos
também segundo o nível de desenvolvimento da do socialismo, o antipartido. São afastados das suas
sociedade política e o nível de eficácia política e posições os mais famosos líderes da revolução:
administrativa das instituições do Estado. Finalmente, primeiro Trotski, depois Kamenev e Zinoviev, a
as análises do totalitarismo dos anos 40 e da seguir Bucharin e, pouco a pouco, muitos outros; a
atualidade mostraram como o termo "sistema luta chegou ao auge com os processos de Moscou e
totalitário" foi elaborado com base nas características com a eliminação física de toda a velha guarda
histórico-políticas muito particulares do regime bolchevique, de muitos líderes militares e, por fim, de
nacional-socialista e stalinista. Trotski (1940), no exílio havia mais de dez anos.
A distinção entre os vários sistemas políticos em Esta obra de repressão capilar de toda a forma de
termos de relevância da sociedade civil, da sociedade discordância, identificada tout-court como traição à política e do Estado, pode servir para novamente se revolução e ao partido, exigiu, como é natural, o
definir a distinção entre sistemas políticos mais aceita fortalecimento da polícia secreta, a famosa GRU, o
pela Sociologia política contemporânea e a que nos uso dos campos de concentração para os opositores e a
referimos. Isto vale particularmente quando a centralização de todas as decisões e do poder nas
Sociologia política enfrenta — no plano comparativo mãos do próprio Stalin. Deste modo, o partido acabou
e numa perspectiva de "desenvolvimento político" — por perder a sua função central na estrutura estatal da
a grande variedade de sistemas políticos União Soviética, uma vez que os expurgos lhe contemporâneos, tanto dos países industrialmente enfraqueceram profundamente a estrutura, e a
mais "avançados", como dos países em obediência primária foi prestada, de forma jamais desenvolvimento. vista, a Stalin, cujas ações e escritos foram
considerados como novos fundamentos e continuação
original da práxis e da teoria marxistas. Toda a crítica
a tais ações, e à sua formulação e justificação teórica,
BIBLIOGRAFIA. — R. BENDIX,. Stato nazionale e foi banida como expressão de um pensamento não-
integrazione di classe (1964), Laterza, Bari 1969;N. marxista; nasceu assim uma exagerada exaltação do BOBBIO, Saggi sulla scienza política in Italia, Laterza, líder do partido e a absoluta subordinação à sua Bari 1969; M. DUVERGER, Introduzione alla política vontade em todos os campos (da arte, sob o controle (1964), Laterza, Bari 1966; C. J. FRIEDRICH, Governo de Zdanov, à biologia, sob a influência de Lysenko). costituzionale e democrazia (1937), Neri Pozza, Foi o que os "destalinizadores" definiram como culto Venezia s. d.; M. LIPSET, L'uomo e la política. Le basi da personalidade. social: della política (1960), Comunità, Milano 1963; A. Por conseguinte, as características que distinguem a
PIZZORNO, Schema teorico con particolare riferimento al gestão stalinista do poder, são, no que toca à política partiti politici in Italia, in Partiti e partecipazione interna, o culto da personalidade e o emprego do política in Italia, ao cuidado de G. SAVINI, Giuffrè, terror. Embora o Stalinismo seja amiúde considerado Milano 1971; N. POULANTZAS, Potere político e classi como a encarnação do poder totalitário, tornado sociali (1968), Editori Riuniti, Roma 1971; M. WEBER, possível graças à presença de uma ideologia
Economia e società (1922), Giuffrè, Milano 1964. dogmática, à capilaridade da propaganda e à
onipresença do controle policiesco, nele o papel
[PAOLO FARNETI] tradicionalmente atribuído a uma organização
burocrática como o partido é desempenhado por um
Soviet — V. Conselhos Operários. líder "carismático" (que soube manipular habilmente o
Politburo e o Comitê Central).
Muitas das opções de política interna (v. infra)
Stalinismo.
foram, segundo alguns comentaristas, fortemente
influenciadas pela situação internacional, mas
I. O STALINISMO NOS SEUS ASPECTOS também moldaram o contexto internacional onde o
HISTÓRICOS. — Historicamente, o Stalinismo é o Stalinismo atuou. Não foi só o longo isolamento
período em que o poder comunista se consolida na diplomático — o bem conhecido cordon sanitaire União Soviética sob a guia do partido comunista, a
cuja frente se encontrava, como secretário, Josif
Stalin. Esta fase histórica apresenta características
1222 STALINISMO
estendido pelos Estados ocidentais em volta das bruscamente coletivizada. Este processo chocou contra
fronteiras da União Soviética, para impedir que a a tenaz oposição dos kulaki ou camponeses ricos, que
"infecção" do socialismo revolucionário contagiasse foram totalmente expropriados e exterminados em
outros países — mas também as numerosas tentativas massa. A produção das indústrias pesadas e a
de subversão e a instigação dos bandos de brancos, compressão do consumo foram duramente impostas
sobretudo nos primeiros anos de vida da União por meio de uma planificação centralizada e global,
Soviética, que deixaram impressa na mente de Stalin enquanto que o controle e a subordinação das
e de muitos comunistas a realidade e psicose da organizações dos trabalhadores, já codificados na
contra-revolução. Contra ela reagiram os comunistas, constituição da União Soviética, foram mantidos pelo
fomentando, em primeiro lugar, qualquer tentativa partido e pela polícia secreta. A tudo isto se há-de
revolucionária e anti-colonial, desenvolvendo em acrescentar o fato, sobremodo grave à luz dos
seguida uma luta estratégica que se revelaria nefasta objetivos da construção de uma sociedade sem classes,
na Itália e na Alemanha e que levaria à destruição do da introdução, querida por Stalin, de uma grande
forte partido anárquico espanhol (Partido obrero de diferenciação nos salários.
unificación marxista) durante a guerra civil espanhola, Não obstante os inumeráveis e clamorosos erros
aceitando depois, tardiamente, as frentes populares cometidos, sobretudo no setor agrícola, erros que a
(movidos sobretudo pelo sucesso do Front populaire recente historiografia econômica documentou
francês em 1936) e, finalmente, subscrevendo o pacto amplamente, a União Soviética surgiu, no início da
Molotov-Von Ribbentrop, ato culminante ditado, década de 50, como um país fundamentalmente
segundo alguns, pelo medo do cerco, início, para industrializado, que tinha sabido dar uma solução
outros, de uma "Realpolitik" baseada exclusivamente sobretudo aos problemas sociais, como instrução para
nos interesses nacionais da União Soviética. todos, assistência médica e aposentadoria, embora em
meio de inevitáveis desequilíbrios. Como fase de
II. O STALINISMO COMO FASE DE acumulação originária e como política de
DESENVOLVIMENTO. — Embora os estudiosos do industrialização, o Stalinismo produziu, portanto, os Stalinismo se achem profundamente divididos quanto seus frutos, conquanto os historiadores não possam
ao juízo histórico que é preciso fazer deste "regime", a deixar de ressaltar os aspectos mais macroscópicos de
maioria concorda em considerá-lo uma fase possível, esbanjamento e má utilização dos recursos e, em
mas não inevitável, do desenvolvimento de um país geral, de desorganização econômica. A luz dos
comunista, mesmo que muitos qualifiquem esta resultados obtidos, muitos justificam, contudo, o uso
última hipótese de admissível, pondo em relevo as do terror, a imposição de uma férrea disciplina no
características de excepcionalidade do primeiro trabalho (que obstava grandemente, entre outras
sistema comunista num mundo totalmente capitalista. coisas, à mobilidade interna) e a compressão do
Muitos estudiosos, não todos; vêem, em suma, o consumo como preço inevitável de uma rápida
Stalinismo como uma resposta funcional aos problemas transformação social.
de um vasto país escassamente industrializado, com
profundos desequilíbrios regionais, semidestruído pela III. STALINISMO: CONTINUAÇÃO OU DEGENERAÇÃO DO guerra e socialmente desorganizado. MARXISMO-LENINISMO? — Um problema sumamente
O Stalinismo constituiu uma tentativa de importante e talvez decisivo para a práxis e teoria do
acumulação, no mais breve período possível, dos movimento internacional comunista é saber se o
recursos necessários à industrialização do país, quer Stalinismo constituiu o prosseguimento lógico e
para evitar a ameaça de uma invasão, quer para inevitável do marxismo-leninismo ou se, ao invés, é
responder às necessidades dos grupos sociais mais apenas a sua possível degeneração. Os que sustentam a
importantes. Num sentido bem preciso, o Stalinismo existência de uma continuidade no desenvolvimento
foi o substituto funcional da acumulação originária comunista de Marx a Stalin, e que se situam tanto entre
dos países capitalistas, mas teve de enfrentar os opositores da direita como da esquerda, destacam os
problemas fundamentalmente análogos: transferência aspectos comuns ao leninismo e ao Stalinismo. A luta
de recursos da agricultura para a indústria, de Stalin contra o antipartido pode referir-se ao
acentuação da produção das indústrias pesadas, princípio, sempre defendido com firmeza por Lenin,
compressão do consumo, controle e subordinação das da expulsão de quem minasse a unidade ideológica,
organizações dos trabalhadores. política e orgânica
Se os problemas, pelo menos em parte, foram
idênticos, os modos pelos quais o Stalinismo tratou
de lhes buscar uma solução, é que foram nitidamente
diferentes. A produção agrícola, após haver passado
por diversas fases, foi, por fim, completa e
STALINISMO 1223
do partido com a formação de facções. O uso do terror, de uma cooperação leal e fecunda com os outros
que Lenin criticou, pode no entanto ser imputado à países socialistas e com os outros partidos comunistas,
polícia secreta que ele mesmo criou, à justificação do acabou numa constante e insidiosa tentativa de
caráter dogmático do marxismo revolucionário, por domínio e instrumentalização, sem levarmos já em
Lenin tantas vezes interpretado em tal sentido, e à conta a eliminação física de quase todos os
chamada legalidade revolucionária. O controle e a representantes do Comintern em 1937. Parafraseando
subordinação dos sindicatos, simples corrente de a imaginosa comparação de Deutscher, podemos
transmissão das decisões do partido, são conseqüência afirmar que o verbo marxista, revelado no Ocidente e
direta da doutrina exposta por Lenin, e por ele jamais propagado no Oriente pelo seu profeta Lenin, teve nos
rejeitada, do centralismo democrático. Todos estes burocratas stalinistas seus sacerdotes mais brutais e
aspectos do Stalinismo se podem considerar já intolerantes, sempre prontos para condenar, para
presentes in nuce no leninismo e foram profeticamente anatematizar, para recorrer às declarações de heresia,
apontados por Rosa Luxemburg numa célebre disputa desde que se salvasse a igreja, institucionalizada,
com Lenin, ao afirmar que "a liberdade apenas para visível. os que sustentam o governo, para os membros de um
só partido. . . não é liberdade. Liberdade é sempre e IV. DESESTALINIZAÇÃO E NEO-STALINISMO. — Com a apenas liberdade para quem tem opiniões diversas". morte de Stalin (1953) e, sobretudo, com a "denúncia
São palavras que tiveram uma imediata confirmação dos seus crimes" feita por Kruschev no XX Congresso
na realidade comunista, com a brutal repressão da do P.C.U.S. (1956), começa para a União Soviética e
revolta dos marinheiros de Kronstadt, em 1921. para os demais países da Europa Oriental um período
que se denomina de desestalinização. Não se trata de
É importante, porém, observar como os opositores e
uma verdadeira e autêntica reviravolta, de um salto de
defensores do comunismo têm sublinhado ao mesmo
qualidade, nem da reintrodução da democracia
tempo também os aspectos que fazem do Stalinismo
socialista, mas de mudanças marginais na União
uma degeneração do marxismo-leninismo. Antes de
Soviética e do despontar de movimentos nacionalistas
mais, o culto da personalidade que Stalin fomentou de
e antiburocráticos nos países da Europa Oriental.
todas as maneiras, reduzindo, mediante constantes e
maciços expurgos, o papel do partido, enquanto que A denúncia dos crimes e erros políticos do
Lenin procurou por todos os meios transferir para o Stalinismo, levada a efeito por quem tinha sido
mesmo partido seu próprio carisma e institucionalizá- colaborador de Stalin, responsável e conivente com
lo atendo-se rigorosamente à direção colegial. Em ele, não podia deixar de ser parcial e imperfeita; é por
segundo lugar, a burocratização, a fuga dos dirigentes isso explicável a reticência de Kruschev em apontar as
das respectivas responsabilidades, a corrida aos causas profundas do Stalinismo. A consecução dos
privilégios e, em especial, o abandono dos métodos objetivos de desenvolvimento industrial e de
de controle democrático das bases sobre a cúpula, e o reconstrução após a guerra, a pressão das massas,
enfraquecimento e esvaziamento dos sovietes, embora modestamente aumentada, pela obtenção de
denunciados com firmeza e tenacidade por Trotski em melhores condições de vida, a busca de um
todos os seus escritos. Em terceiro lugar, embora haja reconhecimento internacional de "democraticidade" na
maior discordância sobre este ponto entre os fase da guerra fria e da descolonização (com o fim de
estudiosos, o fim da tendência revolucionária reforçar o apelo socialista aos povos das colônias) e,
internacional, que Lenin, mas sobretudo Trotski, finalmente, a necessidade que a burocracia política
haviam considerado indispensável, não só para a tinha de estabelecer um clima de maior previsibilidade
instauração do socialismo, como também para a sua de comportamento e de menor insegurança social,
consolidação e crescimento rumo ao comunismo, sem levaram a fazer a revisão parcial do passado a que se
fenômenos regressivos. Com sua habitual lucidez, deu o nome de desestalinização. Trotski revelou claramente qual era o verdadeiro Esta revisão foi, porém, parcial, antes de mais nada
objetivo de Stalin: "A teoria do socialismo num só porque o Stalinismo tinha alcançado, sem dúvida,
país, germinada do esterco da reação contra a notáveis resultados no campo econômico e político.
revolução de outubro, é a única teoria que se opõe, de A expansão efetiva do socialismo em escala mundial,
maneira totalmente coerente, à teoria da revolução embora freqüentemente em contraste com as diretrizes
permanente". stalinistas (China e Iugoslávia) e, depois, de forma
Na verdade, a obsessiva política de segurança absolutamente autônoma (Cuba), representa uma
empreendida pelo Stalinismo, em vez da busca tendência de que
1224 STALINISMO
os dirigentes soviéticos se gloriam e donde auferem de uma interferência profunda e capilar em todos os
crédito político para defender os interesses nacionais setores da sociedade. De fato, uma economia industrial
da URSS. Eles foram defendidos com medidas de avançada precisa, para funcionar, de uma maior
cunho stalinista, como a repressão das revoltas de circulação de idéias, de uma melhor coordenação entre
Berlin (junho de 1953), de Poznan e Budapeste os vários setores e de um aumento de produção de bens
(1956), as repetidas ameaças à via iugoslava e chinesa de consumo. A desestalinização é, por conseguinte, a
(desde a retirada dos técnicos soviéticos da China em tomada de consciência da funcionalidade de uma
1959 até à irreparável ruptura no período de 1961-65) moderada liberalização interna para o progresso da
e, finalmente, a intervenção na Tchecoslováquia em sociedade.
agosto de 1968 e a proclamação da doutrina Breznev Outros autores vêem a desestalinização como
da "soberania limitada". conseqüência da maior segurança que a União
Por outro lado, em política interna, quase como Soviética alcançou nas relações internacionais. Esta
confirmação do aforismo de Lenin de que um povo segurança, contudo, não chega até à possibilidade de
que oprime outro povo, não pode ser livre, o tolerar tensões nacionalistas centrífugas nos países do
Stalinismo, ou melhor, o neo-stalinismo, se revela Leste; a manutenção da unidade do bloco socialista
numa acentuada involução burocrática e verticista na ergue-se como princípio modelador da política externa
gestão do poder, no enfraquecimento do partido como soviética, a ela subordinando toda a possibilidade de
instrumento de participação política, no esvaziamento reforma interna nos demais países socialistas.
das organizações operárias e na proibição de qualquer Os críticos que, ao contrário, viram no Stalinismo
forma de dissenso (agora punido não com o campo de a expressão da degeneração burocrática do Estado
concentração, mas com o internamento em hospitais operário, não podem deixar de fazer um balanço
psiquiátricos). muito negativo do próprio regime soviético atual.
Embora seja difícil avaliar a persistência, a Com efeito, se o Stalinismo representou sobretudo a
atenuação e o desaparecimento das características do criação de uma casta burocrática, a repressão da
Stalinismo, é possível, no entanto, fazê-lo no que se participação política das massas e a subordinação da
refere principalmente aos vários modelos explicativos expansão mundial da revolução socialista aos
apresentados para a análise deste fenômeno histórico. interesses nacionais do Estado soviético, a volta
É também necessário e importante proceder a esta simples, mas importante, a uma vida social isenta de
avaliação, já que grande parte da história e do "terror" não basta para assinalar o fim do Stalinismo. A
comportamento dos partidos comunistas foi União Soviética constitui ainda, no bom e no mau, o fortemente influenciada pelo Stalinismo, tanto para o resultado do Stalinismo, e o seu grupo dirigente, no
bem como para o mal. fundo, no que toca a aspectos essenciais, em nada
Quem adota o modelo do totalitarismo na inovou a política seguida por Stalin e pelos seus
interpretação do Stalinismo e utiliza, por isso, como colaboradores. A única alternativa real é, segundo
componentes fundamentais um partido único, o estes estudiosos de orientação predominantemente
monopólio dos meios de comunicação, uma polícia trotskista, uma revolução política que desbarate a
secreta, a nacionalização da economia, o terror e um burocracia e torne a propor a democracia socialista.
líder supremo, tende a acentuar a persistência ou não Hoje se referem abertamente ao Stalinismo apenas
de tais elementos e a atenuação ou não dos seus alguns grupos que reivindicam seus supostos
reflexos sobre a sociedade. Estes estudiosos conteúdos de ascese e de luta sem tréguas contra o
sublinham particularmente o enfraquecimento do capitalismo e o imperialismo. Contam-se entre eles o
papel da polícia secreta e a eliminação prática do partido comunista albanês e o partido chinês. Este, em
terror, para daí deduzirem o fim do Stalinismo, embora especial, parece querer sublinhar, com a reabilitação
persista um Estado fortemente autoritário e positiva da obra de Stalin, uma mais estreita adesão
essencialmente não-democrático. aos princípios do marxismo-leninismo, em confronto
Os que consideram o Stalinismo como um estádio com os desvios imputáveis aos atuais dirigentes
do desenvolvimento político, caracterizado por soviéticos. Uma análise dos princípios do maoísmo,
processos de acumulação e industrialização rápidos e não facilmente identificável com o Stalinismo, faz, de
brutais e por forte compressão das necessidades das resto, pensar que a polêmica entre a China e a URSS
massas, insistem na inevitável diminuição da tensão e impediu até hoje um balanço acurado do Stalinismo
põem na expansão do consumo, mesmo privado, na entre os estudiosos chineses.
União Soviética a prova mais certa do advento do Se o Stalinismo constituiu, não obstante tudo isto,
"comunismo de massa" e o fim da "necessidade" por uma fase talvez necessária da consolidação parte do Estado
STALINISMO 1225
do regime soviético e da instauração de um pólo de é, pois, possível propor uma definição de
referência obrigatório para o movimento operário Subdesenvolvimento válida em absoluto ou aceitável
internacional, o neo-stalinismo parece ser incapaz de por todos. O que parece importante, ao contrário, é
disfarçar a sua verdadeira natureza de instrumento de tentar evidenciar as características conjunturalmente
defesa dos interesses constituídos dos grupos associadas à situação de Subdesenvolvimento e,
detentores do poder em cada um dos países socialistas quando possível, identificar as estratégias propostas
e, em última análise, da própria União Soviética como para sua superação. potência mundial. Parece ser um o juízo que se deve Começa-se a falar em Subdesenvolvimento, pela
fazer do Stalinismo e das suas conseqüências na primeira vez, relacionando-o estreitamente com o
política interna de um país, se o virmos à luz da processo de modernização incipiente ou avançada;
disciplina e da intransigência revolucionária (elementos fala-se nele, porém, em dois sentidos bastante
que os comunistas chineses sempre quiseram manter diferentes. Para alguns autores, particularmente para
vivos), e outro, quando o consideramos em seus os que aderem ao enfoque que vê nos estágios do
efeitos — a manifestação e expansão do monopólio desenvolvimento, mais do que um simples ideológico e um poder exercido por uma oligarquia que instrumento heurístico, quase que uma teoria, o
representa um Estado — sobre 0 movimento operário Subdesenvolvimento representa basicamente o estágio
internacional, nos países comunistas e nos partidos originário do processo. A sociedade tradicional é, pois,
comunistas dos países ocidentais. O Stalinismo quase que por definição, uma sociedade continua sendo, em conclusão, uma tendência inerente subdesenvolvida e seus caracteres constitutivos são
a qualquer partido comunista que se encontre no identificados ex adverso mediante a análise das poder, uma tendência que só constantes ajustamentos sociedades chamadas desenvolvidas. Aos poucos se
na relação quadros-massas poderão debelar. associa a esta interpretação a tese que identifica as
sociedades desenvolvidas como sendo sociedades que,
B .- Stalin, ao cuidado de G. BOFFA, Mondadori, IBLIOGRAFIA mesmo tendo dado início ao processo de
Milano 1979; E. H. C desenvolvimento, não conseguiram avançar neste ARR , Storia della Russia sovietica (1950-
1971), Einaudi, Torino 1968-1978, 4 vols.; P. L. CONTESSI caminho, por falta de recursos, de energias ou de , I
processi di Mosca. Il Mulino, Bologna 1970; 1. D ,Stalin EUTSCHER vontade. Nesta perspectiva, o Subdesenvolvimento
(1965), Longanesi, Milano 1969; J. E , Storia del LLEINSTEIN seria sinônimo de interrupção do desenvolvimento.
fenomeno staliniano Enquanto à sociedade tradicional não chegaram ainda (1975), Editori Riuniti, Roma 1975; A.
K desde dentro, mas mais freqüentemente desde fora, os RESIC , Per la critica dello stalinismo. De Donato, Bari 1972; J.
J. M RIE,Stalin (1879-I953) (1967), Samonà e Savelli, Roma A estímulos necessários para quebrar a couraça da
1969; R. A. M , LO stalinismo. Origini. storia. EDVEDEV tradição em todos os setores — econômico, social,
conseguenze religioso, cultural e político — nas sociedades onde (1964), Mondadori, Milano 1969; A. N ATOLI , Sulle
origini dello stalinismo. foi interrompido o desenvolvimento, foram justamente Vallecchi, Firenze 1979; A. N OVE ,
as forças da tradição que se impuseram aos estímulos
Stalinismo e antistalinismo nella economia sovietica (1966),
demasiadamente fracos e inseguros até abafá-los, pelo
Einaudi, Torino 1968; Id., Stalin e il dopo Stalin in Russia (1975), Il Mulino, Bologna 1976; M. R menos temporariamente. EIMAN , La nascita dello stalinismo (1979). Editori Riuniti, Roma 1980; J. STALIN, Aceitando a tese que considera o desenvolvimento
Questioni del leninismo. como conseqüência da expansão e da difusão de Edizioni di Rinascita. Roma 1952; R.
C. TUCKER alguns estímulos nos mais diferentes setores da , Stalin il rivoluzionario ( l879-1929 ) (1973).
Feltrinelli. Milano 1977; atividade humana, principalmente nos setores Stalinism Essays in historical
interpretation. ao cuidado de R. C. TUCKER, Norton and Co.. econômicos e sociais (encarados como setores New York 1977; A. B. ULAM rebocantes dentro das várias sociedades), o , Stalin. L'uomo e la sua epoca
(1973), Garzanti, Milano 1975. Subdesenvolvimento, quer a nível interno ou nacional,
quer a nível internacional, pode ser entendido como
[GIANFRANCO PASQUINO] fruto de uma difusão incompleta e imperfeita desses
estímulos, que faz com que sempre existam bolsões
ou zonas não atingidos por eles. O desenvolvimento
acontecerá, quando as barreiras que impedem a
Subdesenvolvimento.
difusão destes estímulos forem derrubadas, barreiras
I. DEFINIÇÃO DE SUBDESENVOLVIMENTO. — A formadas, na
análise sistemática das causas do Subdesenvolvimento
tem passado por fases e períodos históricos diversos,
enriquecendo-se consideravelmente, porém registrando também profundas mudanças de postura
com relação à abordagem concreta do problema. Não
1226 SUBDESENVOLVIMENTO
maioria das vezes, por dificuldades na comunicação e II. CAUSAS DO SUBDESENVOLVIMENTO. — não apenas por falta de recursos. Com relação à Obviamente, de acordo com a tese adotada, podem ser
anterior, esta tese procura explicar o identificadas diferentes causas para o Subdesenvolvimento interno e não apenas as Subdesenvolvimento. Às vezes, tratar-se-á apenas de
diferenças, a nível internacional. É a ela, em sua diferentes enfoques, em outros casos, porém, nos
aplicação aos diferentes casos nacionais, que se dá o encontraremos diante de posicionamentos científicos e
nome de dualismo. políticos que não podem ser conciliados. Cumpre
Na sua forma mais simplificada, esta tese considera observar, em primeiro lugar, que a tese do
dualista a sociedade em que se evidencia uma Subdesenvolvimento como estádio originário tem sido
distância significativa entre o setor industrial e o setor refutada de várias formas, sempre todavia de maneira
agrícola. O setor agrícola, na maioria das vezes decisiva, por historiadores e economistas que acabaram
orientado para uma economia de subsistência, é abandonando, na maioria dos casos, o próprio conceito
considerado subdesenvolvido na medida em que não se de sociedade subdesenvolvida ou de economia
acha ainda atingido pela expansão do setor industrial; subsedesenvolvida, optando, em seu lugar, pelo
ao mesmo tempo, é considerado um empecilho conceito de atraso (Gerschenkron, 1965). objetivo, um freio para esta mesma expansão. As Em segundo lugar, uma primeira confirmação das
relações entre estes dois setores são vistas, hipóteses que defendem a existência de uma íntima
alternadamente, como relações de troca entre ligação entre capitalismo e Subdesenvolvimento veio economias diferentes, das quais porém ambos os dos processos de colonização, descolonização e
setores recebem benefícios bastante limitados, ou neocolonialismo. Além do exemplo, citado por Marx,
como relações de exploração do setor industrial sobre do desmantelamento da indústria têxtil na Índia por
o setor agrícola, chegando a contradizer, portanto, pelo obra dos ingleses, exemplo muitas vezes citado e rico
menos parcialmente, o postulado inicial da carência de de conseqüências, é inegável o reconhecimento das
recursos do próprio setor agrícola. A contradição, condições deploráveis nas quais foram deixadas as
todavia, é apenas parcial; de fato, se as relações entre colônias dos países europeus — fosse a mãe pátria, a
os dois setores forem situadas numa perspectiva Grã-Bretanha, a França, a Espanha, Portugal, a Bélgica
diacrônica e dinâmica, são justamente as relações de ou a Itália — no momento de sua independência, não
exploração que poderiam ter causado o interessando o período histórico particular em que os empobrecimento do setor agrícola (e nada impede países coloniais a ela tiveram acesso. A consideração
que relações desta natureza ocorram, também, entre destas condições e das profundas dificuldades
setores com modos de produção diferentes, feudal, o sucessivas, em que se encontraram, com pouquíssimas
setor agrícola, e capitalista, o setor industrial). Na sua exceções, todos estes países, fez cair a teoria que via o
forma mais elaborada, a tese acima citada afirma que desenvolvimento como produto de estímulos, de
o "dualismo é resultado de um complexo de desafios, vindos de fora, evidenciando claramente os desequilíbrios e de diferenças que dizem respeito à condicionamentos manifestos ou ocultos a que estavam
estrutura social de um país na sua totalidade (isto é, há sujeitas estas sociedades (em contraposição com
dualismo entre setores econômicos, entre áreas sociedades de desenvolvimento independente, sendo o geográficas, entre diferentes tipos de realizações Japão o caso mais significativo, o modelo). O
sociais e de instituições políticas)" (Martinelli, 1972). neocolonialismo acabava, assim, sendo considerado
apenas como uma species do genus que era a
Enfim, de acordo com alguns estudiosos, sobretudo dominação capitalista a nível mundial;
de formação marxista, o Subdesenvolvimento seria um conseqüentemente a busca das causas do fenômeno ligado à expansão do capitalismo em escala Subdesenvolvimento ia sendo orientada para a
mundial, quer se trate de um subproduto temporário e identificação dos mecanismos de apropriação-
não inevitável desta expansão, quer se trate, ao expropriação do surplus a nível mundial, na medida contrário, de uma conseqüência lógica a ela em que se afirmava a tese do capital monopolístico intimamente ligada. Basicamente, como salienta o (Baran e Sweezy, 1968). mais conhecido entre estes autores, nos encontramos
Também esta tese, porém, exige uma série de
em presença do desenvolvimento capitalista do
ulteriores elaborações e especificações. Em primeiro
Subdesenvolvimento (Frank, 1969). Esta tese,
lugar, considerando o Subdesenvolvimento
relativamente recente e de qualquer forma mais nova
basicamente como uma relação entre países, acaba por
em relação às outras, tem como ponto de partida uma
identificar a metrópole com os países capitalistas
reinterpretação do imperialismo e objetiva
desenvolvidos e os satélites com os países
correlacionar, organicamente, imperialismo,
subdesenvolvidos, impedindo novas e fecundas
capitalismo e Subdesenvolvimento como veremos
infra.
SUBDESENVOLVIMENTO 1227
distinções entre os países capitalistas e no âmbito de correto falar, na maioria dos casos, em "crescimento"
cada um deles, bem como entre os países quantitativo sem mudanças estruturais) que ocorre
subdesenvolvidos e no interior dos mesmos. Em também nos países periféricos tem um preço e
segundo lugar, não consegue perceber, não sendo de algumas conseqüências bem precisas, embora nem
fato este seu objetivo, as condições e as mudanças da todas plenamente caracterizáveis, para o futuro desses
estratificação social, particularmente nos países países. subdesenvolvidos, resultantes da relação de domínio.
Elimina-se, desta forma, a possibilidade de
III. SUBDESENVOLVIMENTO, DEPENDÊNCIA E
aprofundamento de um tema particularmente MARGINALIZAÇÃO. — A tese clássica da economia interessante, já constatado, por Marx, o da formação
internacional enfatizava as vantagens que as trocas
de verdadeiras aristocracias do trabalho (Arrighi,
podiam trazer para as economias produtoras de bens
1969), acabando, além disso, por privilegiar o sistema
diferentes, uma vez que, especializando-se na
colonial com relação à estrutura de classe e às relações
produção dos bens que ofereciam uma vantagem
entre proprietários dos meios de produção e
comparada, poderiam auferir notáveis lucros.
produtores, que constituem para Marx "a base oculta
Conseqüentemente, a expansão do comércio
de toda a estrutura social" (Córdova, 1972). Em
internacional e o conseqüente impulso à
terceiro lugar, torna-se impossível a análise das
especialização trariam vantagens recíprocas às
contradições entre classes dominantes e classes
economias que entrassem num esquema de relações
exploradas tanto nos países centrais como nos países
diretas. Na realidade, o que ocorreu, e se está
periféricos. Esta análise poderia levar a esclarecer com
verificando cada vez com maior clareza, é a formação
exatidão as condições e as possibilidades de alianças
de um sistema econômico internacional ao qual não
entre as classes exploradas nos diferentes países
interessa expandir seu campo de ação, nem tampouco
capitalistas, desenvolvidos e subdesenvolvidos.
ampliar sua penetração nos setores mais atrasados dos
Porém, o maior perigo do uso analítico não países periféricos. "Verifica-se, pois, uma contradição
plenamente consciente da tese que faz do entre a necessidade que o sistema capitalista, tomado Subdesenvolvimento a conseqüência necessária da no seu conjunto, tem de ampliar seus mercados, para
expansão capitalista a nível mundial, está, para além de possibilitar o aumento dos investimentos, e os
uma série não insignificante de problemas histórico- interesses imediatos que as unidades econômicas do
cronológicos concretos, metodológicos e teóricos, sistema (os grandes monopólios multinacionais) têm de
relacionados com o desenvolvimento do capitalismo aumentar seus lucros, ampliando a conquista e o
bem como com a distinção entre relações de troca e domínio do mercado já disponível" (Dos Santos,
modo de produção, na tendência ao não 1971). aprofundamento da análise da estrutura de classe e da
É à luz desta contradição que devem, portanto, ser
organização do poder nos países periféricos. A
examinadas as freqüentes afirmações acerca da
justificada reviravolta nas interpretações tradicionais,
funcionalidade ou disfuncionalidade do
que buscavam nos fatores endógenos as causas do
Subdesenvolvimento quanto ao desenvolvimento
Subdesenvolvimento, não deve fazer com que se
capitalista. O Subdesenvolvimento é claramente
descuide completamente a análise histórica e sócio-
funcional para a manutenção das relações de
política dos modelos de organização das diferentes
denominação que ocorrem entre as classes dominantes
sociedades, análise que pode ser bastante elucidativa
e as classes dominadas nos países periféricos, bem
(Furtado, 1969). Com efeito, a própria tese de Frank
como para a relação que existe entre o centro e a
reconhece um mínimo de autonomia às classes
periferia; mas esta última relação está perdendo
dominantes nos países subdesenvolvidos, quando os
importância no tocante à coincidência de interesses
laços com os países centrais se tornam menos rígidos,
entre as classes dominantes dos países centrais e dos
como ocorreu historicamente por ocasião das duas
países periféricos. O Subdesenvolvimento é, porém,
guerras mundiais e da grande depressão, isto é, quando,
disfuncional para uma hipotética e melhor utilização
pelo menos teoricamente, eram viáveis as possibilidades
dos recursos nos países centrais e periféricos, na
de opções "nacionalistas".
medida em que, no próprio conceito de
Todavia, também esta observação crítica se torna Subdesenvolvimento, está implícita a conotação de
insuficiente com relação aos novos progressos teóricos subutilização de recursos. Dizemos hipotética, porque ocorridos no estudo de Subdesenvolvimento. Torna-se a melhor utilização dos recursos pode ser obtida, na
cada vez mais evidente a grande autonomia das grandíssima maioria dos casos, unicamente, mediante
empresas multinacionais, capaz muitas vezes de ditar a uma profunda reorganização social, inimaginável com
política externa dos países capitalistas centrais e a manutenção das atuais relações de produção e de
periféricos. Ao mesmo tempo, salienta-se que o troca. "desenvolvimento" significativo (talvez fosse mais
1228 SUBDESENVOLVIMENTO
No que diz respeito às classes subalternas nos países mais relevante da população ativa destes países, sem
centrais, está ocorrendo, no seu interior, uma divisão trazer contribuições significativas para o
significativa. Parte delas está começando a pertencer desenvolvimento econômico, e sim colocando-se como
aos setores tecnologicamente avançados e, barreira ou tampão entre os setores da burguesia
conseqüentemente, recebem vantagens com a industrial, integrados no sistema capitalista mundial, e
expansão do controle capitalista a nível mundial. A as classes populares em processo de marginalização.
outra parte está sendo lenta mas progressivamente A segunda distorção se caracteriza pela criação de
colocada à margem do processo produtivo. Um verdadeiras aristocracias do trabalho que, altamente
processo bastante parecido, chamado justamente de qualificadas tecnicamente, tendem a se integrar nas
"marginalização", ocorre nos países dependentes. "Com classes dominantes, deixando, provavelmente, a tarefa
o desenvolvimento da industrialização nos países de desvendar as bases reais do sistema aos grupos
subdesenvolvidos, a produção encontra, cada vez mais, ainda não integrados ou não rapidamente integráveis
uma saída no mercado interno. Daí o surgimento da que, segundo Habermas, são basicamente formados
esperança de que se torne possível trazer para o por estudantes universitários e médios. Para se
interior dos próprios países subdesenvolvidos o centro defender dos desafios apresentados, de forma muitas
diretor de suas economias; porém, uma vez que esta vezes anômica, pelos grupos sociais excluídos e
industrialização se dá mediante o estímulo do capital privados de organização e representatividade, o
estrangeiro, este acaba por se apossar do setor mais Estado contemporâneo tende, por um lado, a
avançado destas economias e por controlá-las mais instrumentalizar a participação política mediante
rigorosamente, tornando-as ainda mais dependentes do formas populistas e plebiscitárias e, por outro, a
que antes" (Dos Santos, 1971). posicionar-se como instrumento corporativo-
Nos países subdesenvolvidos, nota-se, pois, em repressivo em benefício dos interesses dominantes.
dimensões mais reduzidas, uma expansão econômica
do setor mais fortemente ligado ao mercado mundial. IV. ESTRATÉGIAS PARA A SUPERAÇÃO DO Esta expansão, todavia, não leva à independência SUBDESENVOLVIMENTO. — Que estratégias podem ser econômica, nem tem repercussões favoráveis no setor seguidas para a superação do Subdesenvolvimento? periférico interno; ao contrário, sanciona a sua Uma vez aceita a tese que considera o definitiva exclusão. Finalmente, esta exclusão encontra Subdesenvolvimento como produto da expansão sua legitimação a nível ideológico. Legitimação que se internacional do capitalismo, é lógico e conseqüente baseia na ideologia da contribuição avaliada defender a tese segundo a qual a superação do singularmente, quer se fale em estratificação nacional Subdesenvolvimento só poderá dar-se em decorrência ou internacional assente no contributo que os grupos da derrota do capitalismo a nível mundial. Todavia, sociais ou os países oferecem para o desenvolvimento esta perspectiva se revela paralisante sob dois aspectos. da sociedade (chegando-se a identificar grupos sociais Trata-se mais de uma afirmação de princípio do que da ou países funcionalmente supérfluos), quer se identificação de uma estratégia coerente; além disso evidenciem, com maior vigor, os esforços realizados há aí uma tendência à excessiva e injustificada para fugir das "condições técnicas ou organizacionais" subestima dos reais obstáculos estruturais (ou nas quais é produzida a riqueza social por parte de um hereterogeneidades) que irão permanecer, muito capitalismo industrialmente desenvolvido (Habermas, provavelmente, entre as várias regiões e dentro delas, 1969). mesmo após uma eventual superação do capitalismo.
Falta abordar o problema das distorções A este respeito são citados os desníveis geográficos e
introduzidas na estrutura de classes dos países setoriais existentes não apenas nos países da Europa
subdesenvolvidos, dos reagrupamentos efetuados nos oriental, que se poderiam considerar como
países centrais e, portanto, dos grupos sociais "permeados" e dominados pela política econômica
disponíveis para uma luta aberta contra as relações de soviética, mas também os que continuam dentro da
dependência e de integração em escala nacional e própria União Soviética, mais de 60 anos após a
internacional. A primeira distorção, comum a todos revolução socialista e, com muita probabilidade,
os países latino-americanos, e que abrange também também no interior da China (ambas economias
outros países do Terceiro Mundo mas que apresenta basicamente "fechadas" e quase totalmente auto-
semelhanças significativas nas regiões suficientes).
subdesenvolvidas dos países capitalistas não No que diz respeito à China, sobre a qual não há
dominantes, como a Itália, se caracteriza por uma um estudo econômico exaustivo, salta à vista que,
expansão excessiva e prematura do setor terciário. A embora existindo heterogeneidade e desníveis
classe média "dos serviços" constitui a parte geográficos setoriais, sua natureza os torna
SUBDESENVOLVIMENTO 1229
tais que não provocam distorções na estrutura de subalternas em apoio às opções políticas de
classe nem na gestão e organização do poder político determinados grupos das classes dominantes,
que, ao invés, providencia constantemente provocam uma série de fenômenos e mudanças transferência de recursos a fim de alcançar uma violentas nos detentores do aparelho do Estado. distribuição o mais possível igualitária. A solução, A instabilidade política dos países do Terceiro portanto, é buscada quer nas causas, isto é, no Mundo é, pois, na maioria dos casos, algo induzido, momento da formação das heterogeneidades, quer nas exógeno e não endógeno, e assume proporções mais conseqüências, isto é, no momento em que as graves pelas pesadas interferências oriundas do
heterogeneidades e os desníveis formados sistema capitalista internacional. Porém se, como anteriormente poderiam se ampliar cada vez mais. vimos, a tendência predominante nos países
Toda esta temática, porém, está aguardando uma subdesenvolvidos é a busca de uma progressiva
formulação bem mais documentada e bem mais emancipação do setor central com relação ao setor
rigorosa, principalmente com relação ao caso da periférico e de uma crescente ligação, não
China, por muitos considerado protótipo de uma propriamente com o setor central do país dominante,
tendência completamente diferente. e sim com as grandes empresas multinacionais, por
Voltando aos tempos intermediários para definição sua vez livres de qualquer tipo de controle político e
de uma estratégia de superação do capitalismo e econômico, o futuro dos países subdesenvolvidos não
tendo como ponto de partida o fato inquestionável da é um futuro de instabilidade e sim, ao contrário, um
"internacionalização" do capitalismo e do futuro de estabilidade sui generis. Esta nova forma de Subdesenvolvimento, os dos caminhos procuram estabilidade consistirá, no máximo, na permanência
chegar a uma solução válida justamente no plano no poder dos gestores das opções que forem tomadas
internacional. Os países subdesenvolvidos podem a nível internacional, mas nunca significará ordem exercer pressões sobre o sistema econômico e político completa. De fato, mesmo esporádicos, dominado pelo capitalismo juntamente com desorganizados ou organizados, continuam a surgir defensores, mesmo ocasionais, que eventualmente se no setor periférico ou, mais vezes ainda, em grupos
encontrem nos países dominantes — ou podem que, aos poucos porém constantemente, são
buscar uma forma de se retirarem parcialmente e/ou marginalizados pelo setor central dos países
temporariamente do próprio sistema (Rudebeck, subdesenvolvidos, desafios violentos à ordem 1970). Em ambos os casos, faz-se absolutamente estabelecida que encontram ressonância bastante
necessário que os países subdesenvolvidos cheguem a ampla nos setores periféricos e nos extremos dos
um acordo de cooperação econômica e, em último setores centrais dos países dominantes. O caso, política entre si, de forma a possibilitar a quebra Subdesenvolvimento acaba, assim, por se constituir
dos laços que os prendem aos respectivos países em elemento de contradição permanente nos países
dominantes. capitalistas e, também, por se caracterizar como o
Normalmente são duas as condições principais que estímulo mais eficaz para mudanças no próprio
dificultam estes acordos econômicos e políticos. A sistema internacional. primeira consiste no fato de que as economias dos
países subdesenvolvidos, dentro de determinadas BIBLIOGRAFIA. — I. ADELMAN e C. TAFT MORRIS. áreas, encontram-se orientadas, principalmente, para
Economic groutw and social equity in developing
a produção de bens similares e não são muito
countries, Stanford University Press. Stanford 1973; G
diversificadas; conseqüentemente a
ARRIGHI, Sviluppo economico e sovrastrutture in
complementaridade das economias, que é muitas vezes um potente fator de desenvolvimento, encontra-Africa, Einaudi, Torino 1969; P. A. BARAN e P. M.
SWEEZY, Il capitale monopolistico. Saggio sulla struttura
se, na maioria dos casos, ausente. A segunda diz
economica e sociale americana (1966). Einaudi, Torino
respeito à disponibilidade política das classes
1968; A. CORDOVA, Il capitalismo sottos viluppato di
dominantes dos países subdesenvolvidos que, bem ou
mal, são as beneficiárias do tipo de A. G. Frank, in "Problemi del socialismo", XIV, julho- crescimento
agosto 1972; Crisi economica. Terzo Mondo, nuovo
específico, distorcido e muitas vezes inadequado,
ordine internazionale, in "Política internazionale",
porém real; não porão facilmente em jogo sua
outubro-novembro 1978; Dependence and dependency
posição de poder e de bem-estar num acordo com
outras classes dominantes, nem todas homogêneas, in the global system, in "International organization".
XXXII. winter 1978; T. DOS SANTOS, La nuova
para afrouxar ou quebrar ou vínculos do
dipendenza (1971), Jaca Book, Milano 1971; A. G.
Subdesenvolvimento. As contradições e tensões no
FRANK, Capitalismo e sottosviluppo in America Latina
seio das classes dominantes, os conflitos entre as
classes dominantes e as classes subalternas, e as (1969), Einaudi, Torino 1969; C. FURTADO, La
formazione economica del Brasile (1959), Einaudi,
tentativas de mobilização das classes
Torino 1970; J. HABERMAS, Teoria e prassi nella società tecnologica. Laterza, Bari 1969; Kapitalistische Entwicklung und koloniale Unterentwick-
1230 SUBDESENVOLVIMENTO
lung. Genese und Perspektive. in "das Argument", XV, julho como realidade imaterial cuja alienação se trata de 1975; Politics and chance in developing countries. Studies in the eliminar, e não ainda como força material de theory and practice of development. ao cuidado de C. LEYS, domínio. Contudo, já nesta obra de 1843, surgem
Cambridge University Press. Cambridge 1969; A. MARTINELLI, alguns elementos que serão amplamente Il conceito del dualismo nell'analisi de sottosviluppo, in desenvolvidos em Ideologia alemã e que permitem "Rassegna italiana di sociologia", XII, julho-setembro 1971; T. conceber a Superestrutura, não só como forma
H. MORAN, Multinational corporations and the politics of distinta, mas também como realidade complementar dependence. Copper in Chile. Princeton University Press. e funcional em relação a uma realidade social Princeton 1974; G. MYRDAL,Asian drama. An inquiry into the organizada segundo uma estrutura hierárquica. É poverty of nations. Penguin Books, Harmondsworth 1968, 3 precisamente a análise dos Stände ("Estados") que vols.; L. RUDEBECK, Political development: to wards a coherent permite a Marx ver no Estado a forma política de and relevam formulation of the concept. in Scandinavian political "neutralização" do antagonismo social. Na verdade, studies, Universitetsforlaget, Oslo 1970, vol. 5. enquanto os "Estados" constituem a expressão
política das categorias, existe uma "situação social",
[GIANFRANCO PASQUINO] ou seja, a classe operária, a que não corresponde
nenhuma categoria nem nenhum "Estado": a
diversidade entre "Estado" e "situação social" é
eliminada, dentro do "Estado político", com a
Superestrutura.
ideologia da soberania popular e da igualdade formal.
Marx chega assim a distinguir algumas
I. DEFINIÇÃO. — Superestrutura é uma categoria particularidades da Superestrutura: seu caráter de
usada na tradição marxista para indicar as relações complementaridade com respeito à base, seu aspecto
sociais, jurídicas, políticas, e as representações da de forma ideológica capaz de neutralizar o
consciência que complementam a estrutura ou base. antagonismo social e, enfim, a sua realidade de
Assim escreviam Marx e Engels em Ideologia alemã: "a prática do poder concretamente exercido pelas
organização social imediatamente criada pela produção categorias dominantes dentro dos aparelhos de
e permuta. . . constitui, em todos os tempos, a base domínio. (Basis) do Estado e de qualquer outra Superestrutura (Superstruktur) idealística" (Ideologia alemã, 1967 p. III. SUPERESTRUTURA COMO FORMA DE DOMÍNIO. — 66). Em Ideologia alemã, estes resultados são depois
Uma definição de Superestrutura se apresenta como aprofundados, já que a análise consegue colher as
algo particularmente complexo, já que tem de estruturas orgânicas da "base" e, com elas, também as
identificar as relações que unem três conotações relações que constituem a Superestrutura. Marx
habitualmente usadas: a) as formas ideológicas; b) o emprega pela primeira vez a categoria de "divisão do
aparelho material da ideologia; c) as formas da trabalho", isto é, de uma organização do trabalho que
consciência. Uma análise da Superestrutura implica, se espalha cada vez mais com o desenvolvimento das
em primeiro lugar, o exame das transformações que a forças produtivas. A divisão do trabalho faz aumentar
categoria assumiu na obra de Marx e, a seguir, a a contradição entre o interesse de cada um e o
distinção dos significados que ela engloba, numa interesse coletivo, que se impõe como dependência
visão mais sistemática, capaz de sintetizar as recíproca dos indivíduos. Deste modo, a atividade do
contribuições da tradição marxista e as contribuições homem acaba por se tornar uma força a ele estranha. É mais significativas de diversas abordagens analíticas. este um tema freqüente na reflexão marxista,
amplamente desenvolvido em Grundrisse como transformação da capacidade laborativa do operário
II. DE ESTADO-PREDICADO A ESTADO-IDEOLOGIA. — em capacidade laborativa do capital. Em síntese: o
Nas obras filosóficas da juventude e, particularmente, desenvolvimento das forças produtivas cria relações
em Critica da filosofia hegeliana do direito público. entre os indivíduos que a eles se impõem como
Marx critica a inversão feita por Hegel na relação relações estranhas. A independência que as relações de
Estado-sociedade civil. Hegel concebe, com efeito, a produção adquirem na esfera da divisão do trabalho
sociedade como predicado do Estado, ao passo que estabelece uma diferença indelével entre a vida de
Marx se esforça por reconduzir o Estado às suas bases cada indivíduo como pessoal e como assumida em
reais, ou seja, por fazer dele o predicado, a qualquer ramo de produção. As relações produtivas
exteriorização da família e da sociedade. Mas a são relações de domínio, uma vez que concebem o
sociedade é ainda concebida como multidão de indivíduo indivíduos, cujas relações necessárias Marx não
consegue captar. É por isso que o Estado é entendido
SUPERESTRUTURA 1231
sob condições que não lhe pertencem. Ao mesmo uma parte. Em resumo: para Kelsen, o ordenamento
tempo, estas relações de domínio se apresentam ao jurídico superestrutural é apenas um meio que pode nível superestrutural jurídico como direito, ao nível vir a ter também finalidades diversas da exploração,
político como Estado, ao nível ideológico como como demonstra o fato de que a burguesia liberal
ideologia dominante, etc. lutou contra o Estado — não se havendo, portanto,
O Estado, escreve Marx, é a forma em que a servido dele como de um instrumento de domínio
burguesia faz valer os seus interesses; é por isso que político — e de que política social constitui uma
todas as instituições passam pela mediação do Estado possibilidade de superar e não apenas de manter a
e recebem uma forma política. "Daí a ilusão de que a exploração. Segundo Adler, as posições de Kelsen
lei repouse na vontade ou, melhor, na vontade expressam unicamente a preocupação de precisar em
desarraigada da sua base real — na vontade livre. É que gênero de pensamento nos havemos de situar ao
assim que o direito também é resumido na lei" falar de Estado e de direito, e não a de enfrentar o
(Ideologia alemã, 1967, p. 67). Trata-se, portanto, de problema do que seja o Estado e o direito; ou seja, compreender por que é que a estrutura de domínio, Kelsen oferece um conceito jurídico e não sociológico
que existe de falo na divisão do trabalho dentro do das superestruturas políticas e jurídicas. Na realidade, o
modo de produção, deva também assumir uma forma Estado não tem como finalidade a exploração, mas é
política, uma forma jurídica, uma forma ideológica, somente a forma político-jurídica da exploração, no
etc. sentido de que confere à exploração uma forma
determinada, a do ordenamento jurídico, da lei e da
IV. ESTADO E DIREITO COMO SUPERESTRUTURAS vontade geral, através da qual se expressa o interesse
IDEOLÓGICAS. — Ao abordar o problema do direito e da de uma parte (M. Adler, 1922). O ponto de vista sua relação com a ideologia, observa Pasukanis que o marxista reflete uma abordagem dialética, uma vez direito representa a forma mistificada de uma relação que relaciona a análise sociológica com a análise
social específica, ou seja, que a regulamentação das jurídica, a abordagem causai com a abordagem
relações sociais em certas condições assume um caráter normativa, a estrutura com a Superestrutura,
jurídico. Estas condições inserem-se na passagem do descobrindo aí uma relação de recíproca modo de produção feudal ao capitalista. No feudalismo complementaridade. Pelo contrário, uma elaboração não existia diferença entre direito privado e direito teórica como a do normativismo jurídico tende sempre
público, porque os direitos públicos dos feudatários a distinguir e a separar ambos os âmbitos do discurso,
sobre os camponeses eram também direitos do considerados em suas características abstratas e proprietário privado e, vice-versa, os seus direitos colocados em sua autonomia recíproca. privados podiam igualmente ser interpretados como
Foram identificadas algumas características da
direitos públicos. Quando, a par do domínio,
Superestrutura, que pareceu evidenciar-se como forma
começaram a constituir-se determinadas ações de troca,
ideológica política (soberania popular e igualdade
é que se deu uma distinção entre privado e público. O
formal) e jurídica (lei universal, vontade geral). Estas
direito tornou-se então a forma das relações mercantis
formas superestruturais representam apenas efeitos
de uma sociedade burguesa; uma forma cujo
ideológicos de um domínio existente de fato, como
contributo específico foi o de tornar o homem em
imposição ao indivíduo de relações de produção
abstrato do direito, separado dos atos de permuta no
estranhas. Mas a Superestrutura existe não só como
mercado. Os sujeitos são representados por relações
contributo ideológico.
jurídicas como agentes envolvidos em abstratas
relações de aquisição e alienação, quando, na V. A ESTRUTURA DA SUPERESTRUTURA. — Em Guerra realidade, estão ligados por variadas relações de
civil na França, Marx analisa as vicissitudes da
dependência.
Comuna de Paris; ao considerar o aparelho
O direito se apresenta, por um lado, como lei; do superestrutural que a constituição da democracia
outro, como conteúdo da lei. O caráter impessoal da proletária teve de abolir, nos oferece o quadro
lei é que permite exprimir os conteúdos específicos do sistemático da organização material da Superestrutura.
domínio de uma classe sobre a outra na forma de" A destruição da máquina estatal trouxe consigo, em
"vontade geral". primeiro lugar, a supressão do exército, substituído pela
Kelsen, em polêmica com M. Adler, principal Guarda Nacional, e estabeleceu, em lugar do
teórico do "austromarxismo", identifica o Estado Parlamento, a Comuna, órgão He trabalho em que não
como um ordenamento jurídico coativo que não existe mais a separação do poder legislativo e
assume necessariamente o escopo da exploração. E executivo. Os outros aparelhos materiais, identificados
que o Estado, segundo Kelsen, expressa um interesse e substituídos solidário e não apenas os interesses de
1232 SUPERESTRUTURA
por órgãos responsáveis e revogáveis, foram os da mesmo com aparelhos políticos diferentes da
administração e polícia, o aparelho judiciário e a democracia parlamentar. organização do poder eclesiástico. A contribuição específica dos aparelhos ideológicos
Gramsci de Estado é, segundo Althusser, a de representar a desenvolveu esta análise da
Superestrutura, abordando o problema das estruturas descrição imaginária dos indivíduos relativa às materiais da "hegemonia", ou seja, das estruturas relações de produção, fornecendo a cada sujeito a
mediante as quais se exerce o domínio de uma classe ideologia adequada ao seu papel, e a de apresentar
sobre outra e que ele descobre nos centros de assim as relações produtivas como relações entre
formação e irradiação da ideologia — os partidos, as explorados e exploradores. associações sindicais e eclesiásticas, a escola, a
imprensa (editoras, jornais, revistas), etc. O estudo se
completa depois com a definição dos intelectuais BIBLIOGRAFIA. — M ADLER, La concezione dello como agentes do funcionamento das estruturas Stato nel marxismo (1922), De Donato, Bari 1979; A. materiais da hegemonia. GRAMSCI Note sul Machiavelli. sulla política e sullo
Finalmente, L. Althuser abordou o problema das Stato moderno Einaudi, Torino 1949; H. KELSEN,
estruturas materiais do domínio ideológico, Essenza e valore della democrazia, Il Mulino, Bologna distinguindo sistematicamente os aparelhos 1981; Id., Socialismo e Stato (1923), De Donato, Bari repressivos do Estado (Governo, administração, 1978; K. MARX e F. ENGELS, L ideologia tedesca exército, polícia, tribunais, cárceres, etc.) dos (1846), Editori Riuniti, Roma 1967; K. MARX, Critica aparelhos ideológicos (AIS), entre os quais um é della filosofia hegeliana del diritto pubblico (1843), in historicamente dominante: assim, no tempo do Opere filosofiche giovanili, Editori Riuniti, Roma feudalismo, o aparelho ideológico dominante era a 1963; Id., La guerra civile in Francia (1871), Editori Igreja, que desempenhava também funções escolares e Riuniti, Roma 1974; E. B. PASUKANIS, La teoria culturais; na sociedade capitalista, a escola o é e não o generale del diritto e il marxismo (1927), De Donato, aparelho ideológico político, ou seja, o regime Bari 1975. parlamentar, já que a burguesia pôde sobreviver
[GUSTAVO GOZZI]