Dicionário de Política (Volume 1)
Pacifismo. direito como conjunto de condições capazes de tomar
possível a coexistência pacífica das liberdades
I. DEFINIÇÃO. — Por Pacifismo se entende uma externas: um fim que pode ser alcançado por uma
federação de Estados livres, quando cada Estado
doutrina, ou até mesmo só um conjunto de idéias ou
houver adotado uma forma republicana, onde o poder
de atitudes, bem como o movimento correspondente,
de decidir da guerra ou da paz não caiba ao monarca,
marcados por estas duas características: a) condenação
mas ao povo. Em 1814, Saint-Simon, juntamente com
da guerra como meio apto para resolver as contendas
o historiador Thierry, escreveu um opúsculo, Da
internacionais; b) consideração da paz permanente ou
reorganização da sociedade européia, onde auspiciava
perpétua entre os Estados como um objetivo possível
a formação de um parlamento geral europeu,
e desejável. O Pacifismo é contrário tanto ao
constituído à imagem e semelhança do Parlamento
belicismo, isto é, a todas as doutrinas que exaltam a
inglês, que fosse "colocado acima de todos os
guerra como fator de progresso moral, social e
Governos nacionais e investido do poder de julgar
técnico, quanto ao imperialismo, isto é, à doutrina que
seus litígios".
não exclui a paz mesmo permanente, mas quer
No século XIX, os projetos individuais, ligados a
alcançá-la mediante a conquista ou a sujeição dos
pessoas singulares, cedem a passagem à formação de
mais débeis, política e economicamente, pelos mais
associações para a paz, primeiro de caráter religioso
fortes. O Pacifismo distingue-se, por sua vez, tanto do
cosmopolitismo, que é a afirmação de universalismo, como a Sociedade da Paz de New York (1815),
instituída pelo quacre David Dodge, a Sociedade
mais no campo das idéias que das instituições, e
Americana para a Paz (1828), fundada por William
reivindica a superação de todas as barreiras nacionais
Ladd, e a primeira sociedade pacifista européia
quanto aos indivíduos, não quanto aos Estados, como
também do internacionalismo, que proclama a união fundada na Suíça, em 1830, pelo conde de Sellon;
numa segunda fase, se inspiraram na doutrina
supranacional das pessoas pertencentes ao mesmo
econômica do livre comércio, de que foi animador
grupo, classe ou partido, com o objetivo de reforçar
Richard Cobden, nos primeiros grandes congressos da
sua coesão e influência, não necessariamente com fins
pacíficos. paz (Londres, 1843; Bruxelas, 1848; Paris, 1849);
numa terceira fase, elas se desenvolveram por obra de
II. BREVE HISTÓRIA DAS CORRENTES PACIFISTAS. — O grupos democráticos e radicais que aspiravam à paz
mediante o triunfo do princípio da nacionalidade, a
Pacifismo moderno nasceu sob a forma de uma
destruição dos antigos impérios e a instauração de
doutrina filosófico-jurídica, no século XVIII, com
Governos fundados na soberania popular (recorde-se,
Projeto para tornar a paz perpétua na Europa, do abade
neste sentido, o Congresso de Genebra de 1867,
Charles Frené Castel de Saint-Pierre (1658-1743),
organizado pela Liga Permanente da Paz de Frédéric
aparecido em 1713 e alicerçado no princípio de uma
Passy, onde Garibaldi tomou parte com grande
aliança perpétua entre os Estados soberanos,
sucesso; a seguir, os Congressos de Berna, 1868, e de
obrigados, por um tratado internacional, a submeter
Lausana, 1869). Com a constituição da Segunda
todas as suas contendas ao juízo de todos os outros
Internacional socialista (1889), os congressos
Estados reunidos em assembléia permanente. Sua
socialistas representaram uma das maiores
primeira elaboração doutrinai de relevo se encontra
manifestações de Pacifismo internacional.
num pequeno tratado kantiano, Para a paz perpétua (1795), que se inspira no princípio de que a tendência
III. AS VÁRIAS FORMAS DE PACIFISMO. —
da história humana é a de tornar real uma sociedade
As várias correntes pacifistas se distinguem pela
jurídica cada vez mais vasta, entendido o
maneira diversa como explicam as origens das