Dicionário de Política (Volume 1)
elemento conotativo comum. Desta falta de um…
elemento conotativo comum. Desta falta de um geral (e também a centralização e a Descentralização elemento conotativo comum é prova a esterilidade do administrativas) não são instituições jurídicas únicas,
mas fórmulas contendo princípios e tendências, modos
debate entre fautores das Democracias liberais e
fautores das Democracias populares sobre a maior ou de ser de um aparelho político ou administrativo, são,
menor democraticidade dos respectivos regimes. Os portanto, diretivas de organização no sentido mais lato
dois tipos de regime são democráticos segundo o e não conceitos imediatamente operativos. Além disso,
se for verdade que eles representam dois tipos
significado de Democracia escolhido pelo defensor e
não é democrático segundo o significado escolhido diferentes e contrapostos de ordenamentos jurídicos, é
pelo adversário. O único ponto sobre o qual uns e também verdade que se trata de figuras encontradas na
outros poderiam convir é que a Democracia perfeita — sua totalidade somente em teoria. Se, de um lado, a
Descentralização total leva a romper a própria noção
que até agora não foi realizada em nenhuma parte do
mundo, sendo utópica, portanto — deveria ser de Estado, também de outro, foi detectado o caráter simultaneamente formal e substancial. utópico de uma centralização total no Estado moderno,
caracterizado por uma grande quantidade e
B complexidade de finalidades e de funções. Isso IBLIOGRAFIA . - R. A RON , Démocratie et
totalitarisme, significa que todos os ordenamentos jurídicos positivos Paris 1965; G. B URDEAU , La democrazia
(1956), trad. ital., Comunità, Milano 1964; L. C são parcialmente centralizados e, em parte, AVALLI ,
La democrazia manipolata, descentralizados, isto é, que, considerada a Milano 1965; R. A. D AHL ,
A Preface to democratic theory, centralização e a Descentralização como dois possíveis Chicago 1956; Id.,
Poliarchia valores, não existe um sistema político-administrativo (1971), trad. ital., F. Angeli, Milano 1981;
M. I. F que esteja exclusivamente orientado para a otimização INLEY , La democrazia degli antichi e del
moderni de uma ou de outra. Em conseqüência do (1972), trad. ital..
entrelaçamento dos dois princípios, mesmo em
sistemas limitados da
330 DESCENTRALIZAÇÃO E CENTRALIZAÇÃO
organização de um Estado, à Descentralização e particular, há tempos foi esclarecida a conexão entre
centralização muito dificilmente se encontram em administração pública e a mudança das estruturas
estado puro, mas aparecem como centralização e sociais, com a conseqüente necessidade de que o
Descentralização imperfeitas. desenvolvimento das estruturas administrativas seja
A imagem precedente tem um caráter meramente adequado a esta mudança, ativando uma inteligente
descritivo, pois em se tratando de diretivas de distribuição de funções e de tarefas, obedecendo a
organização no sentido lato, se entende que não é critérios que, à luz das transformações sociais do
correto falar de perfeição tanto num sentido como no momento, permitam que as mudanças realizadas
outro. Além disso, se um ordenamento centralizado em apresentem um substancial conteúdo e uma
estado puro se transformasse em ordenamento operacionalidade real. descentralizado em estado puro, este último não teria Do ponto de vista do direito público, em particular,
nenhuma relação com o primeiro: tratar-se-ia da o problema da subdivisão das funções e das tarefas não
criação de um novo ordenamento. é um problema de organização de responsabilidade
apenas das unidades administrativas centrais e das
Na organização do Estado, o problema da
centralização e da Descentralização estão sempre outras entidades ou órgãos que destas estejam
separados, mas é fenômeno que engloba, em sua
presentes; trata-se, então, de avaliar os instrumentos
generalidade, a maneira de ser, as qualidades e os
jurídicos através dos quais, respectivamente, eles
predicados de um determinado aparelho, seja ou não
podem ser valorizados. O único caminho para uma
transformação é, portanto, o de um movimento gradual estatal, ou a ação de um poder público. Finalmente, não
é um problema de direito administrativo interno, que
e progressivo dirigido a abrandar aquelas tendências
esteja ligado apenas a uma coletividade pertencente ao
que, num ou noutro sentido, tenham sido julgadas em
Estado, mas é um problema de direito público geral
desacordo com a realidade efetiva.
que pode incluir, quando assume a característica de
De um ponto de vista geral nota-se uma contínua Descentralização política, coletividades internas do
troca entre centralização e Descentralização, como Estado ou coletividades superestatais. conseqüência de um processo de concentração e O problema da Descentralização não surge de
desagregação, geralmente gradual e muito lento,
maneira igual em todos os lugares. É indispensável
algumas vezes mais apressado, que se manifesta em
colocá-lo de cada vez num ambiente social e na época
cada sociedade.
histórica nos quais consegue concreta atuação. O
Sempre que for aceita esta premissa e esclarecido problema, porém, assume características de particular
que centralização e Descentralização totais são apenas urgência e importância nos aspectos administrativos,
pólos ideais, pode também ser aceito, com objetivos nos ordenamentos, como os italianos, que reproduzem
descritivos, o critério do mínimo indispensável para o modelo organizativo centralizador do tipo francês. O
poder-se falar de Descentralização. Temos ordenamento italiano é, no seu conjunto, inspirado, até centralização quando a quantidade de poderes das hoje, no princípio de "organização hierárquica", mais
entidades locais e dos órgãos periféricos é reduzida ao do que no princípio de "organização autônoma" em
mínimo indispensável, a fim de que possam ser evidente contraste com os princípios constitucionais
considerados como entidades subjetivas de italianos (art. 5.º da Constituição). administração. Temos, ao contrário, Descentralização
quando os órgãos centrais do Estado possuem o II. A DESCENTRALIZAÇÃO COMO PRINCÍPIO mínimo de poder indispensável para desenvolver as TENDENTE À ORGANIZAÇÃO. — A próprias atividades. Descentralização pode afirmar sua atuação concreta
Atualmente, o valor fundamental da mediante figuras organizativas atípicas e mediante
Descentralização é amplamente reconhecido, seja no instrumentos heterogêneos. Por isso foram negadas em
seio de uma única organização administrativa, seja com linhas gerais as tentativas para identificá-la como uma
referência ao relacionamento entre múltiplas instituição histórica e juridicamente única, tendo
estruturas, que fazem parte de uma organização mais características tecnicamente constantes e bem
abrangente vista em sua totalidade. Os estudiosos da definidas. Além disso, o problema deve ser enfrentado
ciência da administração, da ciência política e do em estreita relação com as várias formas de
direito costumam afirmar que o problema da manifestação e com o grau de efetividade conseguido,
transferência das funções do "centro" para a no âmbito de determinadas estruturas, pelo princípio
"periferia" é natural em qualquer administração que oposto da centralização. Neste sentido, devemos
tenha ultrapassado certas dimensões, compreendendo considerar que centralização e Descentralização
não apenas a administração estatal, mas também a de representam dois princípios
entidades públicas menores e de grandes entidades
empresariais privadas. Em
DESCENTRALIZAÇÃO E CENTRALIZAÇÃO 331
opostos de organização. Esta afirmação, porém, é sobretudo as exigências de caráter democrático do
válida somente no plano conceptual, porque, na ordenamento. prática, a presença de um e de outro princípio parece
essencial e estaremos assim em presença de um III. DESCENTRALIZAÇÃO E FEDERALISMO. fenômeno de recíproca adaptação. DESCENTRALIZAÇÃO POLÍTICA. — Com base nas
Um e outro princípio não subsistem completamente considerações até agora desenvolvidas é possível
em sua totalidade, mas manifestam-se sob várias incluir na noção de Descentralização uma série de
formas, que poderíamos considerar intermédias — instituições, considerando-as como diferentes tendencialmente centralizadoras ou descentralizadoras manifestações de um fenômeno qualitativamente único
— cujas possibilidades de concretização e de atuação em sua essência. Desta forma é possível, não somente
são suscetíveis de desenvolver-se em formas bastante incluir o Estado federal e a confederação entre Estados
variadas, tornando um tanto difícil chegar a definições no âmbito dos Estados descentralizados, mas também
mais precisas. dar como exemplo de um ordenamento caracterizado
por uma Descentralização muito pronunciada, o
É importante afirmar que centralização e
ordenamento internacional, no qual alguns percebem
Descentralização assumem, em relação à realidade
os sintomas de uma tendência ao processo de
social, um caráter essencialmente dinâmico. Daí resulta
centralização. Com efeito, sob este aspecto, não existe
que toda a evolução da organização política ou
mais do que uma diferença no grau de diferenciação
administrativa de situações de paralisação ou de
dos vários sistemas aqui considerados, tratando-se, em
equilíbrio para outras fórmulas de organização,
resumo, de diferentes categorias lógico-teóricas com
caracteriza-se, principalmente, por um ou por outro
as quais são designadas as diversas modalidades do
destes dois princípios opostos. Assim sendo, teremos
equilíbrio que se realiza entre a centralização e a
como resultado o desprestígio daquilo que no sistema
Descentralização.
administrativo considerado assumia, sob o aspecto de
organização, o papel de princípio fundamental. Neste sentido, uma ligação entre Estado federal e
Estado unitário descentralizado pode ser efetuada
No caso do ordenamento político-administrativo
sempre que se considere o fato de que entre ambos
italiano, no qual se traduz a concepção de um Estado
intercorra uma diferença que não é somente
fortemente centralizado, cada procedimento que visa à
"quantitativa". Deste modo podemos falar de formas
reorganização dos poderes públicos está ligado à
intermédias entre Estado federal e Estado mais ou
solução dos problemas de Descentralização,
menos descentralizado — ou seja, de Descentralização
especialmente da organização administrativa. Com
regional e de Descentralização em entidades locais, de
efeito, independentemente do problema da conexão
Descentralização administrativa no sentido mais estrito
existente entre a forma política de um Estado e seu — mas é claro que existe uma profunda diferença
grau de centralização, qualquer Estado que atinja um
entre a Descentralização administrativa e a federal.
certo nível de desenvolvimento não apresenta apenas
Esta diferença baseia-se, principalmente, no conceito
uma administração, mas uma pluralidade de
de autonomia política e de Descentralização política.
administrações ou de estruturas administrativas
distintas, que não podem ser reduzidas a uma unidade, A Descentralização política distingue-se da
especialmente no plano administrativo. administrativa, não apenas pelo tipo diferente de
Finalmente, com referência ao ordenamento italiano funções exercidas, mas também pelo "título" que
caracteriza o seu fundamento. A Descentralização
e independentemente da fórmula de organização que o
política expressa uma idéia de direito autônomo,
caracteriza concretamente, devemos enfatizar a
enquanto na Descentralização administrativa específica
importância do art. 5.° da Constituição, que enuncia
claramente temos um fenômeno de derivação dos poderes o princípio da Descentralização
administrativos que, por sua vez, derivam do aparelho
administrativa. Trata-se, realmente, de uma afirmação
político-administrativo do Estado, isto é, do Estado-
não casual, mas que representa uma diretiva de
pessoa. A Descentralização política, porém, não
organização, que é a expressão de uma escolha precisa
e constitui um dos princípios fundamentais do coincide com o federalismo. Um Estado federal é,
certamente, politicamente descentralizado, mas temos
ordenamento, que vai muito além das limitadas e mais
Estados politicamente descentralizados que não são
modestas exigências de ordem técnica e que incide
federais. Somente quando a Descentralização assume
profundamente sobre toda a estrutura do Estado,
modificando-a e contribuindo, sempre que provoque os caracteres da Descentralização política podemos
começar a falar de federalismo ou, a nível menor, de
uma divisão da soberania em sentido horizontal, para
uma real autonomia política das entidades territoriais.
garantir
A fim de que seja possível falar de uma
332 DESCENTRALIZAÇÃO E CENTRALIZAÇÃO
centralização política, o que assume um relevo pelo princípio da centralização. A Descentralização especial é saber que um único centro tem a seria o meio para poder chegar, através de uma possibilidade de fazer prevalecer, em linha geral, tanto distribuição da soberania, a uma real liberdade
sob o aspecto territorial, quanto sob o das matérias que política. o compõem, a própria concepção do bem público, "A centralização é autoritária e governativa, a
usufruindo para este fim do monopólio da criação do Descentralização é uma força liberal e constitucional":
direito positivo. esta afirmação resume as posições da doutrina
As dificuldades de distinguir entre Estado unitário, predominante, pela qual as mesmas palavras
administrativamente descentralizado e Estado "centralização e Descentralização" provocam politicamente descentralizado, podem ser solucionadas imediatamente polêmicas entre os escritores através da possibilidade do exercício de uma efetiva progressistas contra o absolutismo e o liberalismo do
orientação política por parte do Estado-membro e não século passado. Desde aquele tempo, esta afirmação da orientação político-administrativa, bem mais teve sucesso, apesar de arbitrária e fundamentada na limitada, que caracteriza o ordenamento italiano, por observação de uma realidade circunscrita e exemplo, a autonomia dos municípios e das contingente. Apesar disso, ela foi mantida sem crítica províncias. Considera-se quebrada a unidade da lei na no curso dos anos até a época atual. Deste modo,
qual se assenta a Descentralização administrativa, continua-se a sustentar uma estreita conexão da
quando a autonomia de que goza o ente politicamente Descentralização com a liberdade e com a democracia.
descentralizado pode opor-se ao legislador estatal. Esta Deve-se isso, substancialmente, a uma interpretação
situação, porém, caracteriza, seja o Estado federal, seja "romântica" e a uma tendência idealizadora do
o Estado unitário regional. Também a competência conceito de Descentralização. O erro consiste no fato
legislativa das regiões é idônea para concretizar aquela de ter partido de um postulado de uma distinção
idéia de "direito autônomo", considerada essencial pára dicotômica, que foi depois rigidamente mantida, entre
a noção de Descentralização política. O que realmente centralização e Descentralização, os dois termos distingue estas duas formas de Estado encontra-se na entendidos como posições bem definidas e diferente garantia constitucional: quando temos uma contrapostas. Isto levou a uma polarização de valores
Descentralização federal, impõe-se ao Estado federal a no sentido de considerar a Descentralização como o
obrigação de respeito em relação aos Estados pólo positivo, no qual se situam valores como a federados, obrigação esta que não vigora no que diz liberdade individual e o autogoverno democrático,
respeito às regiões, devido à possibilidade, da parte do enquanto a centralização é o pólo negativo, autocrático
Estado, de mudar, mediante o próprio órgão e totalitário. legislativo, com uma lei ordinária ou constitucional, o Não devemos estranhar esta posição, se for verdade
ordenamento precedente. que o poder torna-se efetivo somente quando
Em resumo, o nível de autonomia constitucional das legitimado, ou seja, somente quando se movimenta no
regiões é objeto de competência legislativa estatal (ou âmbito da ideologia que o justifica em nome da qual
seja, somente do Parlamento do Estado) e não existe este pode ser imposto do alto e pode ser aceito pelas
um poder judiciário constitucional que, com referência camadas baixas. A equivalência entre o bem e a
às regiões, esteja em posição de real independência Descentralização — enquanto garantia de liberdade —
com relação ao Estado. e o mal e a centralização — enquanto sinônimo de
Estado autocrático — situa-se perfeitamente numa
época na qual uma série de valores genericamente
IV. DESCENTRALIZAÇÃO, DEMOCRATISMO E
PLURALISMO. — É afirmação constante e generalizada sintetizáveis no conceito de democratismo,
constituíram a base de muitas transformações
que existe uma estreita conexão entre os conceitos de institucionais. Em última análise, situa-se outro tanto
Descentralização e de democracia, também em relação corretamente, na mesma ordem de idéias, a
ao fato de que a luta pela Descentralização consistiu, possibilidade de rechaçar a Descentralização como uma
principalmente, na luta pelas autonomias locais a fim instituição antidemocrática. Sem dúvida, se ocorre ter
de perseguir, além da Descentralização, objetivos de idéias claras sobre a noção de democratismo, é também
democratização. Alguns viram também na verdade que, na opinião de muitos, as exigências de Descentralização o instrumento através do qual podem igualdade, que são também exigências do manifestar-se inteiramente as forças da Nação (do democratismo, sejam bastante favorecidas pela
Estado-comunidade, conforme a terminologia mais centralização. recente) em contraposição às forças do Estado (do
Um raciocínio análogo pode ser efetuado em
Estado-pessoa) que é institucionalmente dominado
relação à noção de pluralismo. A garantia relativa às
formações sociais, nas quais se desenvolve a
DESCENTRALIZAÇÃO E CENTRALIZAÇÃO 333
personalidade do homem como cidadão, contida no art. muitos dos equívocos surgidos em relação às noções 2° da Constituição italiana, pode ligar-se à de centralização e Descentralização, acabam fundindo-Descentralização das funções públicas junto à se com aquela polarização de valores em virtude da entidades autônomas locais ou de outra natureza, qual cada um buscou encontrar na descentralização,
visando melhor assegurar o exercício de suas funções, aprioristicamente definida como um bem, o confiando-as àqueles que parecem mais diretamente desenvolvimento e a defesa dos valores da própria
interessados e, portanto, que podem ser considerados ideologia. O tema específico da Descentralização da
mais idôneos para conferir ao todo o máximo de administração pública, que no início do século era
funcionalidade. Somente desta forma pode ser superada limitado aos programas dos partidos progressistas, é a concepção de que o Estado é a entidade na qual a hoje objeto mais ou menos constante de controvérsias
sociedade inteira, em todos os- seus aspectos e nas ideológicas (mas somente para os métodos de sua
suas articulações naturais, se unifica e se personifica, atuação ou relativamente ao lugar que deve ocupar no
apesar de quanto de pan-estatal nela exista, a partir da conjunto do ordenamento geral). A Descentralização,
tendência para considerar equivalentes os termos por isso, se insere como meta a ser perseguida nos "público" e "estatal" e pela influência que até hoje programas políticos de todos os partidos. Deve-se isto
exerce na interpretação do novo ordenamento ao fato de que cada um encontra na Descentralização constitucional. aquilo que considera mais oportuno e conveniente
Na avaliação da essência do Estado moderno encontrar, conforme se verifica com freqüência
adquire, evidentemente, valor a necessidade de também nos nossos dias. considerar, além do aspecto jurídico-formal, também o Como a Descentralização pode identificar-se com
substancial ou sociológico da distribuição do poder no várias ideologias, é importante verificar quais são estas
âmbito da comunidade, adotando uma concepção num determinado momento histórico, numa sociedade
orgânica do Estado, que valorize as organizações com um determinado desenvolvimento social, visto que
comunitárias destinadas a ampliar os interesses somente deste modo será possível estabelecer se a
individuais. Aos ordenamentos do passado, baseados Descentralização se efetua ou se em seu lugar atua uma
na falsa certeza que o povo permanece unido em torno Descentralização fictícia e aparente, cujas motivações
de interesses apenas gerais e indiferenciados e, por profundas devem ser pesquisadas. isso, centralizados e apoiados no aparelho do Estado, Contemporaneamente será possível apurar se a
substituem-se ordenamentos nos quais, com os persistência da idéia de Descentralização traduz a
interesses nacionais, se alinha uma série de interesses permanência de valores e de ideologias do precedente
próprios das comunidades menores, para cuja obtenção período ainda válidos na realidade atual ou se estamos
predispõem-se estruturas autônomas e nos defrontando com algo novo que poderá trazer descentralizadas. Assim sendo, a Descentralização possibilidades de um conflito de valores. Torna-se
parece constituir o meio jurídico mais apropriado para assim quase inevitável a indagação se a noção de
a afirmação do pluralismo dos centros de poder. Descentralização não constitui, freqüentemente, uma
A Descentralização, todavia, pode ser somente um espécie de cobertura para debates que focalizam
instrumento que visa dar consistência efetiva ao substancialmente, além de outros, valores bem mais pluralismo, mas depende da efetividade do pluralismo profundos que dizem respeito à vida social. a imissão nas estruturas políticas e administrativas do
conceito "de parte" e de órgão ou entidades que podem VI. A DESCENTRALIZAÇÃO DO ORDENAMENTO
definir-se "exponenciais" de determinadas forças que ADMINISTRATIVO ITALIANO. — Com referência ao se movimentam no âmbito do ordenamento. Neste ordenamento republicano italiano após a centralização sentido, a afirmação de que a falta de reconhecimento herdada das monarquias absolutas, cuja manutenção foi das comunidades intermédias é, necessariamente, a favorecida, primeiro, pela necessidade da unificação centralização ou que o 'reconhecimento destas nacional e, depois, pelo regime fascista, o tipo de comunidades comporta, de qualquer maneira, a estrutura política e o regime constitucional tendem a Descentralização, deve ser submetida a uma revisão favorecer as condições para um desenvolvimento da muito atenta. Ficamos assim num plano diferente em Descentralização, tanto política como administrativa. A conseqüência do reconhecimento de uma instância de Descentralização política realiza-se mediante a liberdade, de liberdade do Estado, paralela à afirmação introdução do ordenamento regional, enquanto a dos direitos individuais de liberdade. administrativa apóia-se na valorização das entidades
locais já existentes, mediante uma efetiva obra de
V. A DESCENTRALIZAÇÃO COMO VALOR. — Descentralização interna do aparelho burocrático do
As observações desenvolvidas até hoje mostram como Estado.
334 DESCENTRALIZAÇÃO E CENTRALIZAÇÃO
Este último tipo de Descentralização dentro da pluralidade de níveis de decisão exercidos de forma
organização administrativa do Estado merece uma autônoma pelos órgãos independentes do centro; isso consideração mais aprofundada. Para bem resultaria em vão, quando existisse a possibilidade compreender a noção de Descentralização jurídica, por parte de outro órgão superior, de administrativa, ocorre remontar à adoção do esquema substituir o órgão periférico em virtude de seus
das prefeituras e à legislação administrativa adotada no poderes hierárquicos. Nesta base estrutura-se não
momento da unificação, que ainda hoje perduram nas somente a independência do órgão periférico, mas
suas linhas essenciais. É neste momento da política também sua especialização e sua responsabilidade,
administrativa italiana que a resposta à escolha entre enquanto a unidade da ação administrativa pode ser
centralização e Descentralização manifesta-se, adequadamente mantida, mediante as diretivas definitivamente, não somente na recusa a adotar uma emanadas dos órgãos centrais e a efetuação, por parte
Descentralização autárquica, mas também na dos mesmos, de um controle orientado a verificar a valorização de uma centralização bem mais adesão à lei dos órgãos periféricos. pronunciada no interior da organização unitária do As tentativas dirigidas simplesmente ao Estado. descongestionamento da administração pública central,
Não somente as liberdades locais cessaram de multiplicando no interior da administração do Estado
existir no momento em que nasceram, mas a mesma os órgãos periféricos, sem incidir de maneira
estrutura organizativa do Estado que, desde então, substancial sobre o poder de decisão e sem se
obrigava ao desenvolvimento de uma série respeitável sobrepujar à ordem hierárquica, dão finalmente lugar a
de órgãos periféricos, acabaram dominadas pelo medidas de desconcentração ou, se preferirmos, de
princípio de hierarquia. Descentralização hierárquica.
O Estado terminava assim de constituir um aparelho No ordenamento italiano até hoje, as repetidas
periférico próprio destinado a cuidar de seus interesses tentativas de descentralizar a organização
a nível local, mas suscetível de entrar em conflito com administrativa do Estado conduziram unicamente a
os órgãos das entidades locais e de sobrepor-se a eles. limitar as medidas de desconcentração. Mesmo assim, o Estado estruturava seus órgãos
hierarquicamente, evidenciando como seu elemento VII. CLASSIFICAÇÕES E TIPOLOGIA DA
característico, a identidade de competências com os DESCENTRALIZAÇÃO. — No âmbito da noção de
órgãos centrais de cúpula. Desta forma foi possível Descentralização é comum fazer-se uma série de
satisfazer distinções, algumas apenas próprias da ciência jurídica, a exigência de que os ministros
concentrassem não o máximo, mas a totalidade dos outras de uso mais comum. Além de diferenciar a
poderes de decisão a fim de terem condições de Descentralização da desconcentração, como
responder pelo andamento da coisa pública perante o lembramos acima e além da distinção entre
Parlamento. Ao mesmo tempo, porém, obstruía-se, Descentralização política e Descentralização definitivamente, administrativa, consideram-se habitualmente, de toda a possibilidade de um
harmonioso maneira diferente a atribuição de funções para desenvolvimento do aparelho
administrativo no sentido de Descentralização. entidades separadas do Estado, definida como
Descentralização autárquica ou também institucional e
Hoje a situação mudou profundamente porque na
república italiana, como conseqüência de um claro o ordenamento descentralizado do poder no âmbito de
uma única organização definido como Descentralização
processo histórico, de acordo com as normas e a ordem
burocrática, conforme uma terminologia bastante
constitucional vigentes, e como aplicação de possíveis
comum. As duas hipóteses correspondem, afinal, à
diretivas de reforma conexas com atuais exigências
políticas, a solução do problema da Descentralização existência, já lembrada, de entidades autônomas locais
e de órgãos descentralizados no interior das estruturas
administrativa não pode ser confiada apenas a uma
administrativas do aparelho estatal.
atuação melhor das autonomias locais.
A descentralização interna corre também na A estas duas hipóteses temos que acrescentar o
organização administrativa do Estado, que se apóia no importante setor da "Descentralização dos serviços".
art. 5.º da Constituição que podemos definir Com isto temos a constituição de entidades divididas
burocrático. Isto implica a transferência de uma em setores homogêneos de atividades em vez da
atividade decisória para os órgãos administrativos criação de organismos descentralizados. Como
periféricos, não meramente executiva ou preparatória, conseqüência temos um desenvolvimento maior da
e a ruptura completa do módulo hierárquico como autonomia técnica e financeira, juntamente com a
módulo essencial do relacionamento entre si dos organização de atividades de caráter específico. órgãos administrativos. Ao tipo tradicional de organização
A Descentralização implica a existência de uma
DESOBEDIÊNCIA CIVIL 335
adminisirativa de órgãos estruturados verticalmente, A Desobediência civil é uma forma particular de
substitui-se uma divisão horizontal das funções, desobediência, na medida em que é executada com o distribuídas entre unidades organizativas fim imediato de mostrar publicamente a injustiça da especializadas, quase sempre dotadas de uma lei e com o fim mediato de induzir o legislador a
personalidade jurídica autônoma. É nesta última mudá-la. Como tal é acompanhada por parte de quem
direção que se manifestam, principalmente, as a cumpre de justificativas com a pretensão de que seja
tendências da moderna organização administrativa, considerada não apenas como lícita mas como
que compreendem também os chamados órgãos obrigatória e seja tolerada pelas autoridades públicas públicos instrumentais. Estes, por sua vez, aparecem diferentemente de quaisquer outras transgressões.
como a conseqüência do desenvolvimento da Enquanto a desobediência comum é um ato que irrefreável tendência para a Descentralização, inspirada desintegra o ordenamento e deve ser impedida ou
em razões técnicas e que visa, em alguns países como eliminada a fim de que o ordenamento seja reintegrado
a França, a substituir as exigências da em seu estado original, a Desobediência civil é um ato Descentralização política, passando estas para segundo que tem em mira, em última instância, mudar o
plano. Finalmente, vale lembrar que a noção de ordenamento, sendo, no final das contas, mais um ato
Descentralização administrativa não coincide com a de inovador do que destruidor. Chama-se "civil"
autonomia local (especialmente províncias e precisamente porque quem a pratica acha que não municípios), mesmo quando uma entidade autônoma comete um ato de transgressão do próprio dever de
local propende a apresentar uma típica expressão de cidadão, julgando, bem ao contrário, que está se
Descentralização administrativa. Se a autonomia local comportando como bom cidadão naquela circunstância
é, de fato, também Descentralização administrativa, o particular que pende mais para a desobediência do que
que a caracteriza e a coloca num plano diferente é o para a obediência. Exatamente pelo seu caráter
fato de que a autonomia local, mesmo quando não se demonstrativo e por seu fim inovador, o ato de
manifesta como autonomia política, não aparece como Desobediência civil tende a ganhar o máximo de
uma derivação da organização administrativa do publicidade. Este caráter publicitário serve para
Estado. Ela transcende o quadro conceptual de mera distingui-la nitidamente da desobediência comum:
Descentralização administrativa e se liga, como já foi enquanto o desobediente civil se expõe ao público e só
sublinhado, à temática da liberdade, e, portanto, expondo-se ao público pode esperar alcançar seus
diretamente aos diversos conceitos de democratização objetivos, o transgressor comum deve realizar sua
e pluralismo. ação no máximo segredo, se desejar alcançar suas
metas.
[F ÁBIO ROVERSI-MONACO] As circunstâncias defendidas pelos fautores da
Desobediência civil e que favorecem mais a obrigação
da desobediência do que a da obediência são
substancialmente três: o caso da lei injusta, o caso da
Desobediência Civil.
lei ilegítima (isto é, emanada de quem não tem o
I. OBEDIÊNCIA E RESISTÊNCIA. — Para compreender o inconstitucional). direito de legislar) e o caso da lei inválida (ou Segundo os fautores da
que se entende por "Desobediência civil" é necessário Desobediência civil, em todos estes casos não existe partir da consideração de que o dever fundamental de lei em seu sentido pleno: no primeiro caso não o é cada pessoa obrigada a um ordenamento jurídico é o substancialmente; no segundo e no terceiro não o é
dever de obedecer às leis. Este dever é chamado de formalmente. O principal argumento deles é o de que
obrigação política. A observância da obrigação política o dever (moral) de obedecer às leis existe na medida
por parte da grande maioria dos indivíduos, ou seja a em que é respeitado pelo legislador o dever de produzir
obediência geral e constante às leis é, ao mesmo leis justas (conformes aos princípios de direito natural
tempo, a condição e a prova da legitimidade do ou racional, aos princípios gerais do direito ou como
ordenamento, se weberianamente entendermos por se lhes queira chamar) e constitucionais (ou seja, "poder legítimo" aquele poder cujas ordens são conformes aos princípios básicos e às regras formais obedecidas enquanto tais, independentemente de seu previstas pela Constituição). Entre cidadão e legislador
conteúdo. Pela mesma razão pela qual um poder que haveria uma relação de reciprocidade: se é verdade que
pretende ser legítimo encoraja a obediência e o legislador tem direito à obediência, também é desencoraja a desobediência, enquanto que a verdade que o cidadão tem o direito de ser governado obediência às leis é uma obrigação e a desobediência com sabedoria e com leis estabelecidas. uma coisa ilícita, punida de várias maneiras, como tal.
336 DESOBEDIÊNCIA CIVIL
II. VÁRIAS FORMAS DE RESISTÊNCIA. — Se é c) clandestina ou pública, ou seja preparada e realizada
lícito desobedecer às leis, em que casos, dentro de que em segredo, como acontece e não pode deixar de
limites e por parte de quem, tornou-se já um problema acontecer no atentado anárquico baseado na surpresa,
tradicional que foi objeto de infinitas reflexões e ou, então, anunciada antes da execução, como acontece
discussões entre filósofos, moralistas, juristas, teólogos, habitualmente com a ocupação das fábricas, de casas,
etc. A expressão "Desobediência civil", a que nos de escolas, feita com a finalidade de obter a revogação
referimos, bem ao contrário, é moderna e entrou no uso de normas repressivas ou impeditivas consideradas
corrente através dos escritores políticos anglo-saxões, a discriminatórias; d) pacífica ou violenta, isto é,
começar pelo ensaio clássico Civil disobedience (1849) realizada através de meios não violentos, como o sit-in
de Henry David Thoreau, no qual o escritor americano e toda a forma de greve, de uma maneira geral
declara recusar o pagamento das taxas ao Governo que (falamos tanto da greve ilegal quanto da greve lícita,
as emprega para fazer uma guerra injusta (a guerra havendo sempre formas de greve consideradas ilícitas),
contra o México), afirmando: "a única obrigação que ou com armas próprias ou impróprias, como acontece
eu tenho o direito de assumir é a de eu fazer em cada geralmente numa situação revolucionária (note-se que
circunstância o que eu acho justo". Depois, perante a a passagem da ação não violenta para a ação violenta
conseqüência do próprio ato que poderia levá-lo à coincide muitas vezes com a passagem da ação
prisão, responde: "Num governo que prende omissiva para a ação comissiva); e) voltada para a injustamente qualquer pessoa, o verdadeiro lugar para mudança de uma norma ou de um grupo de normas ou
um homem justo é a prisão". até do ordenamento inteiro. Sua natureza não é de
Em sentido próprio, a Desobediência civil é apenas molde a questionar todo o ordenamento, como
uma das situações em que a violação da lei é acontece com a objeção de consciência em relação à
considerada como eticamente justificada por quem a obrigação de prestar o serviço militar, muitas vezes em
cumpre ou dela faz propaganda. Trata-se de situações circunstâncias excepcionais, como é o caso de uma
que habitualmente são compreendidas pela tradição guerra considerada particularmente injusta (para
dominante da filosofia política sob a categoria do darmos um exemplo recente que colocou em discussão
direito à resistência. Alexandre Passerin d'Entrèves com particular intensidade o problema da distinguiu oito modos diferentes de o cidadão se Desobediência civil, lembramos a guerra do Vietnam)
comportar diante da lei: 1.º obediência de nem tende tampouco a derrubar um sistema por inteiro consentimento; 2.º obséquio formal; 3.° evasão oculta; como acontece com a ação revolucionária. Além disso,
4.º obediência passiva; 5.° objeção de consciência; 6.° a desobediência pode ser, segundo uma distinção que
desobediência civil; 7.º resistência passiva; 8.° remonta às teorias políticas da idade da Reforma,
resistência ativa. As formas tradicionais de resistência passiva ou ativa. É passiva aquela que visa à parte
começam na resistência passiva e terminam na preceptiva da lei e não à parte punitiva; por outras
resistência ativa. A Desobediência civil, em seu palavras, é aquela que é realizada com a vontade
significado restrito, é uma forma intermédia. Na esteira precisa de aceitar a pena que daí resultar e, enquanto
de Rawls, d'Entrèves define-a como uma ação ilegal, tal, na medida em que não reconhece ao Estado o
coletiva, pública e não violenta, que se atém a direito de impor obrigações contra a consciência,
princípios éticos superiores para obter uma mudança reconhece-lhe o direito de punir toda a violação das
nas leis. Podemos distinguir as situações que entram na próprias leis. Ativa é a que se dirige ao mesmo tempo
categoria geral do direito de resistência, baseados em para a parte preceptiva e para a parte punitiva da lei, de
diversos critérios calcados no tipo de desobediência tal modo que o que a realiza não se limita a violar a
em ato: a) omissiva ou comissiva que consiste em não norma mas tenta subtrair-se à pena de todas as
fazer o que é mandado (o serviço militar, por exemplo) maneiras. ou em fazer aquilo que é proibido (é o caso do negro Combinando os diversos aspectos de cada critério
que se senta num lugar público interditado a pessoas com todos os outros se obtém um número notável de
de cor); b) individual ou coletiva, segundo é realizada situações que não é o caso enumerar aqui. Apenas para
por um indivíduo isolado (é típico o caso do objetor de dar um exemplo, a objeção de consciência ao serviço
consciência, que geralmente age só e em decorrência militar (nos países onde a lei não a reconhece) é
de um ditame da própria consciência individual) ou por omissiva, individual, pública, pacífica, parcial e realiza
um grupo cujos membros condividem os mesmos uma forma de desobediência passiva. Outro exemplo
ideais (são exemplo típico disso as campanhas de clássico é o do tiranicídio, que é comissivo, geralmente
Gandhi pela libertação da Índia do domínio britânico); individual e clandestino (não declarado por
antecipação), violento e total (tende, como o dos
DESOBEDIÊNCIA CIVIL 337
monarcômacos das guerras religiosas dos séculos XVI e bem delimitado entre os dois tipos extremos,
e XVII ou o dos anarquistas das lutas sociais do século historicamente mais freqüentes e também mais
XIX, para uma mudança radical do Estado em estudados, da resistência individual não violenta e da
exercício) e realiza, também, uma forma de resistência violenta de grupo. A Desobediência civil
desobediência ativa. Voltando à Desobediência civil, tem o caráter de fenômeno de grupo próprio da
tal como é concebida habitualmente na filosofia política resistência coletiva, pelo menos em certos casos de
contemporânea — que leva em consideração as massa e, ao mesmo tempo, tem o caráter predominante
grandes campanhas não violentas de Gandhi ou as da não-violência próprio da resistência individual. Por
campanhas para a abolição da discriminação racial nos outras palavras, é uma tentativa de repelir do grupo
Estados Unidos — ela é omissiva, coletiva, pública, "sedicioso" as técnicas de luta que lhe são familiares
pacífica, não necessariamente parcial (a ação de (o recurso às armas, próprias ou impróprias) e levá-lo
Gandhi foi certamente uma ação revolucionária) e não a adotar comportamentos que são característicos do
necessariamente passiva (as grandes campanhas contra objetor individual (a recusa de porte de armas, o não-
a discriminação racial tendem a não reconhecer ao pagamento de taxas, a abstenção da realização de um
Estado o direito de punir os pretensos crimes de lesa ato que repugna à própria consciência, como a
discriminação). adoração de deuses falsos e mentirosos, etc).
A Desobediência civil, enquanto é uma das várias
III. OS CARACTERES ESPECÍFICOS DA formas que pode assumir a resistência à lei, é também
DESOBEDIÊNCIA CIVIL. — Com a finalidade de e sempre caracterizada por um comportamento que põe
distinguir a Desobediência civil de todas as outras intencionalmente em ação uma conduta contrária a uma
situações que entram historicamente na vasta categoria ou mais leis. Deve portanto distinguir-se de
do direito de resistência, as duas características mais comportamentos que muitas vezes a acompanham e
relevantes entre as que acima foram citadas são a ação que, embora tenham o mesmo fim de contestar a
de grupo e a não violência. A primeira característica autoridade fora dos canais normais da oposição legal e
serve para distinguir a Desobediência civil dos do protesto público, não consistem numa violação
comportamentos de resistência individual sobre os intencional da lei. A primeira distinção a fazer é entre
quais se apoiaram geralmente as doutrinas da Desobediência civil e o fenômeno recente e clamoroso
resistência na história das lutas contra as várias formas da contestação, ainda que muitas vezes a contestação
de abuso de poder. Típico ato de resistência individual termine em episódios de Desobediência civil. O melhor
é a objeção de consciência (pelo menos na maior parte modo de distinguir a Desobediência civil da contestação
dos casos em que a recusa de servir às Forças é o recurso aos dois respectivos contrários: o contrário
Armadas não é feita em nome da militância em uma de desobediência é a obediência e o contrário de
seita religiosa, como a dos Mórmons ou dos contestação é a aceitação. Quem aceita um sistema está
Testemunhas de Jeová) ou o caso hipotético aventado obedecendo a ele; mas pode-se obedecer sem o aceitar
por Hobbes daquele que se rebela contra o soberano (na verdade a maior parte dos cidadãos obedece por
que o condena à morte e lhe impõe que se mate. A força de inércia, por hábito ou por imitação ou ainda
desobediência é individual mesmo quando apela para a por um vago medo das conseqüências de uma eventual
consciência de outros cidadãos, como é o caso de infração, sem entretanto ficar convencida de que o
Thoreau em não pagar as taxas. Individual também o sistema a que obedece seja o melhor dos sistemas
caso extremo de resistência à opressão, o tiranicídio. A possíveis). Por conseqüência, a desobediência na
segunda característica — a da não violência — serve medida em que exclui a obediência constitui um ato de
para distinguir a Desobediência civil da maior parte ruptura que põe em questão o ordenamento constituído
das formas de resistência de grupo, que diferentemente ou uma parte dele, mas não o coloca efetivamente em
das individuais (geralmente não violentas) deram lugar crise. Enquanto a Desobediência civil corresponde
a manifestações de violência onde quer que foram sempre a uma ação ainda que meramente realizadas (desde o motim à rebelião, e desde a demonstrativa (rasgar, por exemplo, o certificado de
revolução à guerrilha). convocação para o serviço militar), a contestação é
Se portanto tomarmos em consideração os dois feita através de um discurso crítico, através de um
critérios mais característicos dos vários fenômenos de protesto verbal ou da enunciação de um slogan (não é resistência, o que distingue resistência individual de por acaso que o lugar onde se desenvolve mais
resistência coletiva e resistência violenta de resistência freqüentemente um comportamento de contestação é a
não violenta, a Desobediência civil, enquanto assembléia, que é um fenômeno de resistência de grupo e não violento, ao
mesmo tempo, ocupa um lugar preciso
338 DESPOJOS, SISTEMA DOS
lugar onde não se age mas se fala. O outro convivência. O grande teórico do direito de resistência,
comportamento que convém distinguir da John Locke, é jusnaturalista, individualista e
Desobediência civil é o do protesto sob a forma não de contratualista e considera o Estado como uma
discurso mas de ação exemplar, como jejum associação surgida do consenso comum dos cidadãos
prolongado ou o suicídio público mediante formas para a proteção de seus direitos naturais. Ele exprime
clamorosas de autodestruição (como o pegar o fogo no seu pensamento deste modo: "O fim do Governo é o
próprio corpo depois de derramar nele matérias bem dos homens; e que coisa é melhor para a
inflamáveis). Antes de tudo, estas formas de protesto humanidade: que o povo se ache sempre exposto à
não são, como a desobediência, ilegais (se se pode ilimitada vontade da tirania ou que os governantes se
discutir a liceidade do suicídio, não é certamente achem por vezes expostos à oposição, quando se
discutível a liceidade de jejuar na medida em que não tornam excessivos no uso de seu poder e o usam na
existe a obrigação jurídica de comer); em segundo destruição e não na conservação das prerrogativas do
lugar, elas pretendem atingir como meta modificar povo?" (Segundo tratado sobre o Governo, § 229).
uma ação da autoridade pública considerada injusta, Uma terceira fonte de justificação é, finalmente, a
não de uma forma direta, isto é, fazendo o contrário idéia libertária da perversidade essencial de toda a
daquilo que deveria ser feito, mas indiretamente, forma de poder sobre o homem, especialmente do
buscando despertar um sentimento de reprovação ou máximo poder que é o Estado com o corolário de que
de execração contra a ação que se quer combater. todo o movimento que tende a impedir a prevaricação
do Estado é uma premissa necessária para instaurar o
IV. A DESOBEDIÊNCIA CIVIL E AS SUAS reino da justiça, da liberdade e da paz. O ensaio de
JUSTIFICATIVAS. — A Desobediência civil é, como Thoreau começa com estas palavras: "Eu aceito de
se disse no início, um ato de transgressão da lei que bom grado o mote: O melhor Governo é o que governa
pretende ser justificado e que acha nesta justificação, menos — ... Levado às extremas conseqüências
portanto, a razão da própria diferenciação de todas as conduz a esta outra afirmação em que também creio:
outras formas de transgressão. A fonte principal de — O melhor Governo é o que de fato não governa".
justificação é a idéia originariamente religiosa e, Manifesta é a inspiração libertária em alguns grupos
posteriormente laicizada na doutrina do direito natural, de protesto e de mobilização de campanhas contra a
de uma idéia moral, que obriga todo o homem guerra do Vietnam nos Estados Unidos dos anos 60,
enquanto homem e que como tal obriga que teve no livro de Noam Chomsky, Os novos
independentemente de toda a coação, e por mandarins, 1968, uma das expressões culturais mais
conseguinte em consciência, distinta da lei sábias.
promulgada pela autoridade política, que obriga
apenas exteriormente e se alguma vez obriga em
consciência é apenas na medida em que é conforme à BIBLIOGRAFIA.- AUT. VÁR., Civil di sobedience.
lei moral. Ainda hoje, os grandes movimentos de Theory and practice. New York 1969; S. GENDIN,
Desobediência civil, desde Gandhi até Luther King, Governamental toleration of civil disobedience. in
registraram uma forte conotação religiosa. Gandhi Philosophy and political action. Oxford University
disse certa vez a um tribunal que devia julgá-lo por um Press. London 1972 (e bibliografia citada); A.
ato de Desobediência civil: "Ouso fazer esta PASSERIN D'ENTRÈVES, Obbedienza e resistenza in una
declaração não certamente para subtrair-me à pena que società democratica, Edizioni di Comunità, Milano
deveria ser-me aplicada, mas para mostrar que eu 1970; Id., Obbligo politico e libertà di coscienza. in
desobedeci à ordem que me havia sido dada não por "Riv. int. fil. dir", 1973; R. POLIN, L'obligation
falta de respeito à autoridade legítima, mas para politique, P. U. F., Paris 1971; M. WALZER,
obedecer à lei mais alta do nosso ser — a voz da Obligation: Essays on disobedience, war and
consciência" (Autobiography, V Parte, cap. XV). citizenship, Harvard University Press. Cambridge Mass.
A outra fonte histórica de justificação é a doutrina 1970.
de origem jusnaturalista, transmitida depois à filosofia
utilitarista do século XIX, que afirma a supremacia do [NORBERTO BOBBIO]
indivíduo sobre o Estado e de que deriva a dupla
afirmação de que o indivíduo tem alguns direitos
originários e inalienáveis e que o Estado é uma Despojos, Sistema dos.
associação criada pelos próprios indivíduos através do
consenso comum (contrato social) para proteger seus Spoils system é uma expressão que entrou na gíria
direitos fundamentais e assegurar a sua livre e pacífica política dos Estados Unidos nos meados do século
XIX e que foi depois canonizada pelo uso até se tornar
um termo técnico, para indicar uma das características
do emprego público
DESPOTISMO 339
americano; precisamente a de que muitas funções em sobretudo a nível federal e se desenvolveu pari passu
todos os níveis, seja no âmbito da administração com a ampliação dos poderes do Presidente e com a
central, seja no da administração local, não são dadas sua desvinculação de muitos dos controles do
a pessoas de carreira, mas distribuídas, como se legislativo —, aversão que se reflete no grande
fossem verdadeiros despojos de guerra, a membros do número de cargos administrativos eletivos, partido vitorioso nas eleições. semelhantes por sua vez aos Despojos, e na grande
As origens do sistema dos Despojos remontam aos confiança dada aos partidos, tidos como mediadores da
primeiros tempos da República, embora fosse com a vontade popular. Este último fato, que torna os
chegada de Andrew Jackson à presidência, em 1828, próprios partidos organismos descentralizados e
que ele teve início, segundo a tradição. O seu complexos, destinados a refletir e a proteger idéias e
momento de maior esplendor, embora infausto, foi nos interesses imediatos dos seus eleitores, pode fazer
decênios após a Guerra Civil, altura em que a parecer justificada a mudança de muitos empregados
administração pública, inteiramente controlada . pelos públicos em cada mudança eleitoral. Se a escassa
partidos, conheceu um período de profunda corrupção. diferenciação entre os partidos, sobretudo a nível
O Pendleton Act de 1883 tentou pôr fim nisso, local, faz com que as mudanças devidas aos Despojos
estabelecendo a obrigatoriedade do concurso público não provoquem disfunções administrativas, fica porém
para uma série de empregos federais. Mas os seus a verdade de que através do spoils system os partidos efeitos não foram imediatos, e mesmo levou a uma são indiretamente financiados pela comunidade, se
inversão de tendências que se tornou particularmente tornam instrumentos de poder a nível público nas
forte entre as duas guerras mundiais. O Hatch Act de mãos de boss locais que controlam os Despojos e 1939 proibiu, depois, toda forma de atividade política ficam ligados a uma ética privada na gestão da coisa
aos empregados públicos contratados por concurso. pública, que destoa sempre mais da complexidade
Depois de 1945, não obstante o retrocesso assinalado organizativa da sociedade americana contemporânea.
pela presidência de Eisenhower, durante a qual mais de
100 mil lugares sujeitos a concurso se tornaram
Despojos do partido republicano, a profissionalização [TIZIANO BONAZZI] da administração federal quase se completou,
particularmente nos postos intermediários, permanecendo à disposição dos partidos — além de Despotismo. uma parte dos empregos nos Correios, reserva
tradicional dos Despojos —, sobretudo uma série de I. CONSIDERAÇÕES GERAIS. — 'Despotismo' significa, postos de níveis mais altos da administração federal e em sentido específico, a forma de Governo em que
agências coligadas, onde as funções de policy making quem detém o poder mantém, em relação aos seus são relevantes, como numerosos outros de níveis mais súditos, o mesmo tipo de relação que o senhor (em
baixos e não qualificados. O spoils system não é grego"despotes") tem para com os escravos que lhe
portanto hoje uma característica importante da pertencem. Como se sabe, Aristóteles distingue, desde
burocracia americana, embora esta não tenha ainda as primeiras páginas de Política, três tipos de relação alcançado a rigidez da administração central de muitas de domínio: o conjugai, ou do marido sobre a mulher;
nações européias. O sistema entretanto está bastante o paterno, ou do pai sobre os filhos; e o patronal ou
difundido a nível estadual e local, onde em muitos despósitos, que é o do senhor sobre os escravos. Com
casos faltam leis correspondentes ao Pendleton Act e base nesta distinção, desde a Antigüidade se vem
onde, de qualquer forma, abundam empregos de todo chamando despótica a forma de Governo em que a
tipo, por vezes simples sinecuras, à disposição das relação entre governantes e governados pode ser
máquinas dos partidos que deles se servem para comparada à existente entre senhor e escravos Em
manter os próprios ativistas e funcionários. sentido genérico, mormente na linguagem política
moderna que esqueceu o siginficado etimológico da
O spoils system é portanto essencial para manter
palavra. Despotismo é polemicamente usado para
em funcionamento a máquina dos partidos, função
indicar qualquer forma de Governo absoluto, sendo
que é tida por muitos como irrefutável, uma vez que é
muitas vezes sinônimo de tirania, ditadura, autocracia,
tirada dele a parte vital da administração federal. Um
absolutismo e outras formas semelhantes. Só quando
juízo de conjunto sobre o sistema dos Despojos é
se tem em conta o significado originário da palavra e o
talvez impossível. De qualquer maneira, é necessário
uso técnico que dela se fez na tradição da filosofia
ter presente a aversão inveterada do povo pelo
política, é que o termo
executivo — não foi em vão que a profissionalização
da burocracia se deu
540 DESPOTISMO
Despotismo indica uma forma de Governo diferente é uma forma de Governo de breve duração (a ditadura, das outras com que no discurso polemicamente por princípio, desde que o ditador romano era genérico se confunde. Despotismo, ditadura, nomeado por um período de seis meses, e a tirania, de autocracia têm de comum serem formas de Governo fato, uma vez que o tirano está geralmente destinado a em que o detentor do poder o exerce sem limites de sucumbir em conseqüência dos próprios excessos), o leis naturais, consuetudinárias, impostas por órgãos ad Despotismo é uma forma de Governo durável, até hoc, etc, isto é, detém um poder absoluto, ou legibus talvez a forma de Governo que tem tido mais longa solutus, e arbitrário, ou exclusivamente dependente da duração, como há bem pouco sustentou quem, como própria vontade. Mas as diferenças não são menos Wittfogel, analisou as condições, as formas e os modos relevantes: enquanto o caráter absoluto do poder do chamado "despotismo oriental". despótico está estreitamente ligado ao caráter dos
súditos, naturalmente dispostos à obediência e II. O DESPOTISMO EM ARISTÓTELES. — Em
incapazes de se governar por si próprios (segundo a seu significado técnico e, portanto, restrito e específico, tradição aristotélica, assim como há indivíduos que são o conceito de Despotismo nasce, como de resto grande escravos por natureza, também há povos naturalmente parte dos conceitos de teoria política do Ocidente, da escravos), o absolutismo do poder tirânico depende da Política de Aristóteles. No livro terceiro, ele distingue natureza do governante, que despreza as leis várias formas de monarquia. Uma delas é a "que é estabelecidas e governa segundo o seu capricho; própria de muitos povos bárbaros". Logo a seguir enquanto o absolutismo do déspota depende mais de especifica que estes povos bárbaros são os povos circunstâncias locais (povos dispostos por tendência à asiáticos. A razão por que tais monarquias são escravidão, consoante a tradição que se prolongou até diferentes das que têm dominado desde os tempos às famosas observações de Montesquieu sobre o heróicos e ainda dominam na Grécia (na Esparta, por Despotismo e até mais longe ainda, são os povos que exemplo), é que, "sendo esses povos bárbaros mais habitam as grandes regiões da Ásia, os "bárbaros" para servis dos que os gregos.... suportam sem dificuldade o os gregos), o absolutismo do ditador depende, antes de poder despótico exercido sobre eles" (1285 a). O que tudo, de circunstâncias temporais, ou seja, da caracteriza, portanto, esta forma de Governo é que, pela ocorrência de circunstâncias excepcionais, como, por própria índole dos povos sobre os quais se estende e, exemplo, uma guerra, que impõem, embora conseqüentemente, por uma razão objetiva, a relação temporariamente, a suspensão das garantias entre governante e governados é da mesma natureza constitucionais e a instituição de um poder que possa que a existente entre senhor e escravo. O próprio agir à margem das leis estabelecidas ou com leis Aristóteles tem o cuidado de advertir dentro do mesmo excepcionais. Só o termo "autocrata", no significado contexto que, embora suscetível de se confundir com a daquele que governa por si mesmo, é um termo tirania pelo modo como é exercido o poder (com efeito, genérico, conquanto historicamente usado para é perfeitamente correto dizer que o tirano governa de designar principalmente o Governo do czar da Rússia, modo despótico), a monarquia despótica é uma forma uso hoje obsoleto, possuidor às vezes de um de Governo diferente. A diferença verdadeiramente significado meramente polêmico que pode substituir, essencial está no fato de que a tirania constitui uma segundo os diversos contextos, tanto déspota como forma ilegal ou ilegítima, tanto pelo título como pelo tirano e ditador (mas no sentido moderno, também exercício do poder. Tanto é assim que é descrita genérico, e não no sentido antigo e específico da noutras passagens da obra (1279 b) como uma das palavra). Mais: enquanto a tirania é uma forma formas degeneradas ou corrompidas, ao passo que a degenerada de Governo, tanto na sua forma ilegal de monarquia despótica, como monarquia, pertence às governar (tirania quanto ao modo de exercício do formas não deturpadas. Eis palavras de Aristóteles: poder), quanto na sua forma ilegítima (tirania no "Esta [a monarquia despótica] possui um poder muito respeitante ao título de aquisição do poder, ou semelhante ao das tiranias, se bem que seja legítima e usurpação), o Despotismo, como aliás a ditadura, foi transmitida por direito hereditário". E pouco mais à sempre considerado como uma forma de Governo frente: "... estes reinos são tirânicos, embora seguros, perfeitamente legítima, enquanto apropriada a pois estão baseados na lei e na transmissão determinadas circunstâncias de lugar e à natureza de hereditária". Mais adiante, ao resumir a tipologia das certos povos particulares que se pretendia ou presumia monarquias, volta a definir a monarquia "bárbara" com ser incapazes de viver coletivamente, se não fosse em estes três atributos: "legal, despótica e hereditária" estado de absoluta sujeição e de obediência (1285 b). Enquanto legal, ela se distingue da incondicionada, semelhante à escravidão. Finalmente,
enquanto a ditadura, aliás como a tirania,
DESPOTISMO 341
tirania; enquanto despótica, das monarquias antigas e significativas variações. Veja-se o comentário de S.
modernas da Grécia; enquanto hereditária, tanto da Tomás a essa obra: depois de haver exposto o
tirania — especialmente da tirania por falta de título, conceito aristotélico segundo o qual "os bárbaros
ou por usurpação — quanto do governo dos eximnetai, suportam a monarquia despótica (principatus que é um Governo despótico, mas eletivo. Finalmente, dominativus) sem se lamentar por isso, por serem na passagem dedicada à descrição das várias formas de inclinados a suportá-la", especifica: "O que é segundo
tirania, volta ao tema das monarquias que são tirânicas a inclinação é natural e voluntário" (In libros pelo modo como é exercido o poder (as monarquias politicorum Aristotelis expositio, ed. Marietti, n.° 478, bárbaras ou orientais e o reino dos eximnetai), p. 170), recalcando assim o caráter de naturalidade e,
distinguindo-as da verdadeira e autêntica tirania, que é por conseguinte, de legitimidade da monarquia
a forma de Governo em que quem detém o poder o despótica em determinadas circunstâncias de tempo e
exerce não só despoticamente, mas também sem a ele de lugar. Ptolomeu de Lucca, no De regimine ter direito, ou porque é um usurpador (e pode-o ser nas principum, distingue o principatus politicus do monarquias hereditárias, não sendo o herdeiro segundo principatus dispoticus e explica que o segundo "é a lei que regula a sucessão no trono, e nas monarquias próprio do senhor em relação ao servo" (Livro II, c.
eletivas, não tendo sido eleito segundo as normas que VIII). No Defensor pacis, Marsílio de Pádua escreve, regulam o processo da eleição), ou porque governa parafraseando Aristóteles: "Outro modo é o de como
sobre povos livres como se fossem escravos. A forma reinam certos monarcas asiáticos, que recebem o
mais característica de tirania é, pois, aquela em que o domínio por sucessão hereditária, de acordo com a lei;
senhor domina "sobre melhores e iguais" e se exerce, mas esta lei é quase como a dos déspotas, porque está
portanto, "contra a vontade dos súditos, já que mais voltada para o proveito do monarca do que para
nenhum homem livre suportaria um domínio assim" o completo interesse da comunidade. Os habitantes
(1295 a). A monarquia despótica, pelo contrário, dessa região suportam tal Governo sem tristeza, devido
reinando sobre povos naturalmente escravos, exerce o à sua natureza bárbara e servil e à força do costume.
poder sobre sujeitos que se submetem voluntariamente Mas, no entanto, este Governo á régio, porque é
a esse poder absoluto e arbitrário. originário do país e se exerce sobre súditos
O que é ainda importante observar nesta tipologia voluntários, quiçá em virtude de que os antepassados
aristotélica é isto: como degeneração de uma do monarca foram os primeiros habitantes da região.
monarquia legítima e legal, a tirania não possui um Mas, num certo sentido, é também tirânico, na medida
lugar histórico e geográfico próprio, mas toda a em que as suas leis não estão absolutamente voltadas
monarquia se pode corromper e degenerar, dando para o benefício comum, mas antes para o do
lugar a uma forma deturpada de Governo. Podem dar- monarca" (I, 9, 4). se tiranias em todo o tempo e lugar. O Despotismo, ao
invés, é uma forma de Governo histórica e III. DE MAQUIAVEL A HOBBES. — A teoria das geograficamente bem determinada, que corresponde a formas de Governo teve, depois de Aristóteles, como
certas condições de tempo e de lugar e, como tal, todos sabem, seu maior autor em Maquiavel. Para
conquanto os não bárbaros a possam julgar Maquiavel são duas as principais formas de Governo:
desfavoravelmente, pertence ao número das formas o principado ou monarquia e a república. Duas são
puras e não adulteradas de Governo. Em conclusão, o também as espécies de principado: o de um príncipe
Despotismo é a forma de Governo (mais precisamente onde todos os demais são servos que, por soa graça e
de monarquia) que possui as seguintes características: concessão, ajudam, como ministros, a governar o
a) a relação entre governantes e governados é reino; e o de um príncipe e barões que, "não por graça
semelhante à relação entre senhor e escravos, b) dá-se do senhor, mas pela antigüidade do sangue, possuem
onde existem povos naturalmente escravos; c) estes esse grau". Entre as formas de Governo monárquico,
povos são os povos bárbaros, especificamente os da Aristóteles distinguira cinco; todos os aristotélicos o
Ásia. seguiram. Maquiavel é um inovador, não só no que
Com esta descrição das monarquias asiáticas, respeita à distinção fundamental, pois reúne a
Aristóteles introduziu na teoria política uma categoria aristocracia e a democracia dos antigos na república,
destinada a gozar de grande sucesso no decorrer dos como também no concernente à subdistinção das
séculos (chegou até aos nossos dias), a do Despotismo formas monárquicas, que reduz a duas. Destas, a
oriental. Na tradição aristotélica dos grandes primeira, ou seja, aquela em que um só é príncipe e
escritores medievais, após a redescoberta da todos os demais são servos, é, sem dúvida, a Política,
o tema é retomado sem monarquia despótica dos antigos. É interessante notar
que Maquiavel atualiza a
342 DESPOTISMO
exemplificação: exemplo típico do reino despótico já De resto, não obstante a diferente motivação do
não são mais os antigos impérios asiáticos, mas o reino Despotismo, mantém-se ainda assaz viva em Bodin, e
turco que lhe é contemporâneo (trata-se sempre, não manter-se-á pelos próximos séculos, a contraposição
obstante, de um Estado extra-europeu): "Os exemplos entre os países extra-europeus, habitualmente sujeitos a
destas duas diversidades de Governo são, no nosso regimes despóticos, e os países europeus, que deles
tempo, o Turco e o rei da França. Toda a monarquia ficaram geralmente imunes. A respeito do reino
do Turco é governada por um senhor, os outros são despótico da Etiópia comenta: "Ao invés, os povos
seus servos: dividindo o seu reino em Sanjacos, para lá europeus, mais altivos e guerreiros que os africanos,
manda diversos administradores, mudando-os e jamais puderam tolerar monarquias despóticas" (p.
revezando-os como lhe parece" (Il príncipe, c. IV). 575). Outro traço característico e qualificativo do
Depois de Aristóteles, o tratado mais amplo e despotismo oriental em que Bodin insiste é o da
articulado das formas de Governo é o que se encontra duração: "As monarquias despóticas foram grandes e
no segundo dos seis livros da República de Jean sumamente duradouras: foi assim com as antigas
Bodin. Pondo de parte as formas arcaicas de monarquias dos assírios, dos medas, dos persas, dos
monarquia lembradas por Aristóteles e rejeitando a egípcios, e o é hoje com a dos etíopes, a mais antiga
distinção tradicional entre formas boas e formas más monarquia de toda a Ásia e África, que mantém
de Governo, Bodin distingue três tipos de monarquia submissos como escravos cinqüenta reis, se dermos
que designa respectivamente como "despótica", "régia" crédito a Paulo Giovio" (p. 579). A razão desta
e "tirânica", levando precisamente em conta não três duração está, segundo Bodin, na plenitude e totalidade
diversos tipos de regime, mas três diversos modos de do poder (antecipando uma categoria política
exercer o mesmo tipo de poder, que é o poder régio, contemporânea, estaríamos tentados a traduzir a
ou seja, o supremo poder concentrado numa só caracterização bodiniana do pleno poder com o
pessoa. É assim que define a monarquia despótica: "... atributo "totalitário"), que torna vis e servis os súditos:
aquela em que o príncipe se tornou senhor dos bens e em contraste com a tradição aristotélica, o caráter servil
das pessoas dos súditos pelo direito das armas e da desses povos não é a causa do Despotismo, mas a
guerra justa, e governa os súditos como um chefe de conseqüência.
família governa os seus escravos" (Livro II, c. 2, ed. Bodin capta bem a diferença entre Despotismo e
UTET, p. 570). Nesta definição há a notar duas coisas: tirania. Conquanto rejeite a distinção entre formas
primeiro, a costumada assimilação da relação de poder boas e formas más de Governo e considere tanto o
despótico à relação entre senhor e escravos, Despotismo quanto a tirania como duas espécies de
segundo,uma motivação neste tipo de relação monarquia, reconhece que existe uma diferença
totalmente diversa da tradicional, que se fundava na fundamental entre tratar como escravos os que deveras
natureza servil de certos povos. Para Bodin, o o são (sejam eles escravos por natureza ou por
fundamento do poder despótico é unicamente a expiação de uma culpa), e tratar como escravos
conquista e, além disso, a conquista numa guerra homens e povos livres. O déspota reina como senhor
justa. Isto quer dizer que, para Bodin, como aliás para sobre escravos, o tirano reina como senhor sobre pessoas
todos os escritores políticos cristãos, a escravidão só livres Isto poderiam até explicar por que é que os reinos
pode ter uma causa, o cativeiro de guerra, entenda-se despóticos duram e as tiranias se mantêm, em geral,
de uma guerra justa, porque só em tal caso o vencedor por breve tempo. "Os homens livres e senhores dos
mantém aquele que conquistou por direito e não seus bens, quando tentam escravizá-los ou usurpar o
apenas pela força. Considerada a guerra justa como que lhes pertence, depressa se rebelam, porque
uma sanção, a escravidão é o castigo conseqüente e, possuem um espírito nobre, nutrido de liberdade e não
como tal, isto é, como conseqüência de um delito, é abastardado pela servidão" (p. 579). Tanto a
lícita. Comum com a tradição é em Bodin a monarquia despótica como a tirânica se distinguem
especificação das monarquias despóticas dos grandes ainda da régia que. diversamente da primeira, não
impérios exóticos. "Existem ainda algumas — diz ele reina sobre escravos e, em contraste com a segunda,
— na Ásia, na Etiópia e mesmo na Europa, como, por não trata os livres como escravos.
exemplo, a senhoria dos Tártaros e a Moscóvia" (p. Também Hobbes e Locke baseiam o reino despótico
573). Mas a casuística apresenta-se enriquecida com na conquista. Escreve Hobbes no Leviatã: "O domínio
uma referência aos primeiros grandes impérios adquirido com a conquista ou com a vitória bélica é o
coloniais. A propósito de Carlos V, Bodin observa que alguns escritores chamam despótico, de despótes,
que, "subjugado o reino do Peru, ele se tornou seu que significa senhor ou patrão, e é o domínio do patrão
monarca despótico" (p. 577). sobre o servo" (c. XX). É de notar, em relação à análoga
fundamentação de Bodin. que falta aqui sequer a
DESPOTISMO 343
referência à guerra justa. É que, para Hobbes, não há por isso, subdistinguira a monarquia em duas
justiça antes de um pacto ou de uma lei oriunda de um subespécies, das quais uma era a monarquia despótica.
pacto: e o pacto entre vencedor e vencido surge Em Esprit des lois, Montesquieu distingue três formas somente depois da vitória; mais, é esse mesmo ato que de Governo, a monarquia, a república e o Despotismo.
legitima o poder do primeiro sobre o segundo. Deste modo, o Despotismo torna-se uma forma
No capítulo XV do autônoma, deixando de ser apenas, como tinha sido Segundo tratado sobre o
governo, até então, uma espécie do gênero monarquia. Locke distingue as três formas tradicionais
de domínio do homem sobre o homem, o paterno, o Distingue-as segundo a sua natureza e segundo o seu civil e o despótico, apoiando-se na sua diversa base de princípio. Segundo a natureza, o Governo despótico é legitimação: o domínio paterno funda-se na geração, o Governo em que "um só, sem leis nem freios, tendo, por isso, um fundamento natural; o civil assenta arrasta tudo e todos atrás dos seus desejos e no consenso, tendo, conseqüentemente, um caprichos" (Livro II, c. I). Segundo o princípio, o fundamento contratual ou convencional; o despótico Governo despótico se rege pelo medo, enquanto que o estriba no direito que o vencedor de uma guerra justa monárquico se guia pela honra e o republicano pela
tem de punir os vencidos, tratando-os como escravos. virtude. Ninguém antes de Montesquieu tinha tratado Esta tripartição interessa a Locke não só para fins do Despotismo com tanta amplitude e com uma descritivos, mas também para sustentar que, em geral, preocupação tão grande até pelos mínimos detalhes. O afora casos excepcionais, só é Governo legítimo aquele Governo despótico é ali analisado em suas que se funda no consenso, e para condenar tanto as instituições, nas suas relações com a educação, com a doutrinas paternalistas do poder político, quanto as administração da justiça, com a exação dos tributos, despóticas. Na caracterização do Governo despótico, com o comércio, com a religião e por aí afora. Locke segue, por um lado, a tradição que vê nesta Dos temas tradicionais o tratado de Montesquieu
forma de Governo a transposição da relação existente mantém inalterado o da relação servil entre
entre senhor e escravo para o âmbito da relação governantes e governados. A propósito da educação
governante-governado, e, por outro, reafirma a escreve que, nos Governos despóticos, "a educação doutrina já surgida com Bodin, segundo a qual o único tem de ser servil" (Livro IV, c. III). E da condição das fundamento de legitimidade do Governo despótico é a mulheres: "Nos estados despóticos, as mulheres não vitória numa guerra justa. Particularmente interessado introduzem o luxo, são elas mesmas objeto de luxo.
pelo problema da relação entre poder político e São obrigadas a viver numa condição de extrema
propriedade, Locke explica também as diferenças entre escravidão" (Livro VII, c. IX). Os povos que estão as diversas formas de domínio pelo diverso modo de sujeitos a um regime despótico se encontram num
ordenar a propriedade: poder político é aquele em que estado de escravidão política, quando não num estado
os cidadãos podem dispor livremente das suas de completa escravidão civil. Outra idéia em que propriedades; paterno, quando os destinatários do Montesquieu segue a doutrina tradicional do poder não podem temporariamente gozar da Despotismo é a que faz dos grandes impérios antigos e propriedade, isto é, enquanto não atingirem a modernos do Oriente o teatro deste abominável maioridade; despótico, quando os súditos não possuem regime, tão contrário à natureza dos povos europeus. O propriedade alguma. Entre as notas características do protótipo dos regimes despóticos é, para Montesquieu,
Despotismo oriental, existe sempre também esta: o o império chinês. Enquanto a monarquia e a república
déspota é senhor efetivo (e não apenas de modo são as formas de Governo que fomentaram o
eminente) das terras sobre que governa; nelas não desenvolvimento civil e intelectual europeu, o
existe, portanto, propriedade privada no sentido estrito Despotismo é a forma de Governo que manteve o
da palavra, ou seja, a propriedade como direito de continente asiático num estado de constante atraso e
gozar e dispor da coisa como aprouver. fez dos grandes impérios que lá se sucederam,
sociedades sem história. No artigo Despotisme da
IV. O DESPOTISMO SEGUNDO Encyclopédie, tirado de Esprit des lois, os reinos
MONTESQUIEU. — A consagração da categoria do despóticos, definidos como Governos "tirânicos, despotismo oriental dá-se na obra de Montesquieu, arbitrários, absolutos de um só homem", são situados
onde o Despotismo se ergue pela primeira vez à na Turquia, no Mogol, no Japão, na Pérsia, ou seja, em
dignidade de tipo primário de forma de Governo ao "quase toda a Ásia". lado da monarquia e da república. Como já se disse, Depois de Montesquieu, a contraposição da
Maquiavel havia reduzido a duas, monarquia e monarquia ou da república, únicos governos
república, as formas fundamentais de Governo e, consentâneos com os povos civilizados, ao
Despotismo em que jazem os povos orientais, torna-se
um
$44 DESPOTISMO
dos tópicos da cultura iluminística, um dos traços da teocracia — escreve ele — eis o mais grave e o
constantes da polêmica dos "philosophes" contra os mais fatal, o que preparou o caminho para o
séculos e os povos obscuros. Em sua obra principal, despotismo oriental" (séc. XI). Ou ainda: "Todo o
De 1'esprit (1758), Helvétius se detém longamente no Oriente se acha ainda nesta situação: ninguém ali pode confronto entre Governos "livres" e "despóticos" compreender o que são as nossas repúblicas da
(principalmente nos capítulos XVI-XXI do terceiro Europa, tidas como sociedades monstruosas. E um
Discurso), mas, no momento em que enfrenta o preconceito que não tem como origem senão as antigas
problema do seu contraste, logo adverte que, ao falar idéias teocráticas, jamais totalmente apagadas nesta
de Despotismo, se refere àquele "desejo desenfreado parte do mundo" (séc. XII). Daí se segue que a luta por
de poder arbitrário como o que se exerce no Oriente". uma "Europe raisonnable" deva ser, ao mesmo tempo,
Se há mil razões para execrar o Despotismo, o autor uma luta contra o Despotismo e a religião sua aliada.
de De 1'esprit não deixa escapar nenhuma. Distingue duas espécies de Despotismo, o que se abate de V. O DESPOTISMO COMO CATEGORIA
improviso com sua força sobre uma nação virtuosa POLÊMICA. — A par do significado específico de
como a Grécia, e o que se instaura, com o andar do Despotismo exposto até aqui, ocorre também na
tempo, no luxo e na moleza. Deste, que predomina literatura do século XVIII um significado genérico, o
nos grandes impérios orientais, ele julga ocupar-se de Governo arbitrário, que, como tal, não é próprio
mostrando seus tristes efeitos sobre a natureza das apenas dos povos orientais mas também de outros
instituições e sobre o caráter dos súditos, povos, dos europeus por exemplo, em determinados particularmente no que respeita ao aviltamento da momentos da sua história. Assim entendido, o
virtude, que era, para Montesquieu, o princípio Despotismo transforma-se num conceito polêmico de
inspirador das repúblicas. que alguns escritores políticos se servem até para
No Esprit des lois, o tema das razões do Despotismo criticar e combater seu próprio Governo. Em Essai sur
se tinha, no entanto, ampliado: entre elas não se le despotisme, publicação anônima de 1776, Gabriel-
contava já apenas a natureza dos povos servis, Honoré Mirabeau considera a propensão para o
segundo a tradição que remontava aos gregos, mas Despotismo, ou mando arbitrário, como um dado
igualmente o clima, a natureza do território, o caráter constante da natureza de cada indivíduo e de cada
das instituições, das quais a mais importante era o povo. Não há povo que, em sua história, não tenha
vizirado, e a religião, particularmente a religião conhecido períodos em que o Governo se transformou
maometana, que, na expressão de Montesquieu, de livre em despótico. Só a Suíça é exceção. Embora
"falando só a linguagem da espada, age ainda hoje reconheça que é a Ásia que continua vítima do "flagelo
sobre os homens com o mesmo espírito destruidor que destruidor" do Despotismo, de que foi berço, Mirabeau
lhe deu vida" (Livro XXIV, c. IV). A relação de não hesita em levantar-se como acusador do Governo
dependência do Despotismo da religião é o tema despótico de Luís XIV. A caracterização que ele faz do
fundamental de Recherches sur 1'origine du Governo despótico é genérica. Considera-o como
despotisme oriental de Nicolas-Antoine Boulanger, corrupção do bom Governo, como algo mais parecido
obra póstuma aparecida em 1762, cerca de quinze anos com a tirania do que com o Despotismo, no sentido
depois de Esprit des lois. Segundo Boulanger, a próprio da palavra: "Pretendo demonstrar — escreve
origem de todos os males da humanidade está no poder ele — que o despotismo é, no soberano, amor ao
da religião, ou, para melhor dizer, dos sacerdotes, isto desfrute e, em conseqüência, que a sujeição ao
é, na teocracia, que, tornando o homem idólatra, o despotismo é, nos povos, ignorância ou esquecimento
torna também escravo, bárbaro e selvagem: dos próprios direitos. Instrua-se o rei e os súditos e o
"Conquanto se afigure sublime um Governo que só tem Despotismo será cortado de raiz" (ed. original, pp. 47-
o céu como perspectiva e que pretende fazer dele seu 48).
modelo, não poderá ter na terra, contudo, senão um Como categoria essencialmente polêmica, o
sucesso funesto. O edifício político construído aqui Despotismo reaparece no célebre pamphlet
embaixo sobre tal especulação, há de necessariamente antinapoleônico de Benjamin Constant, De 1'esprit de
ruir e provocar os maiores males" (séc. XI). Enquanto conquête et de l'usurpation dans leurs rapports avec
no Ocidente a teocracia tem dado origem ao la civilisation européenne (1813): "Eu entendo por
banditismo e à liberdade desenfreada do selvagem, no Despotismo — escreve Constant — um Governo onde
Oriente, pelo contrário, deu lugar a regimes despóticos, a vontade do senhor é a única lei; onde as
cujas vítimas têm sido e continuam a ser os respectivos corporações, quando existentes, não são senão seus
países: "Entre todos os vícios políticos órgãos; onde o senhor se considera o único
proprietário do seu império e não vê nos
DESPOTISMO 345
seus súditos senão usufrutuários; onde a liberdade avaliação claramente pejorativo. Mas é preciso fazer
pode ser tirada aos cidadãos, sem que a autoridade se pelo menos uma exceção, quando ele é usado na
digne explicar os motivos e sem que se possa ter a expressão também setecentista de "Despotismo
pretensão de os conhecer; onde os tribunais estão iluminado". A idéia do Despotismo de bom sentido é
subordinados aos caprichos do poder; onde as suas um elemento importante da teoria e da ideologia
sentenças podem ser anuladas; onde os absolvidos são política da fisiocracia. Começando pelo fundador, conduzidos perante novos juizes, instruídos pelo François Quesnay, os fisiocratas sustentaram que, exemplo dos seus predecessores de que não existem existindo uma ordem natural, governada por leis
senão para condenar" (Parte I, c. IX). Na realidade, a férreas e objetivas, tanto físicas como morais, incumbe
crítica de Constant é uma crítica direta à usurpação e ao bom legislador não já criar leis positivas a seu
só uma crítica indireta ao Despotismo, já que este, talante, mas reconhecer as leis naturais e, como Governo arbitrário, é um modo de exercer o conseqüentemente, promulgar leis positivas que se
poder que permite ao usurpador conservá-lo. Em suas conformem o mais possível com a natureza. Para o páginas, a diferença entre Despotismo e usurpação cumprimento desta tarefa, que não é constitutiva mas
corresponde à distinção clássica entre o tirano de apenas declarativa, é indispensável um soberano único
exercício e o tirano de título. Mais uma vez, o conceito que, quando instruído por sábios conselheiros sobre a
genérico de Despotismo se sobrepõe ao de tirania. existência das verdadeiras leis, há de gozar da
Enquanto na teoria clássica do Despotismo oriental, a plenitude dos seus poderes para urgir sua aplicação e
forma de Governo despótico é a de maior estabilidade para promover, agindo assim, o bem-estar e a e, por isso, de mais longa duração, para Constam os felicidade dos próprios súditos. Em sua obra L'ordre Governos despóticos não estão fadados a durar e naturel et essentiel des sociétés politiques (1767), o sofrem constantes e repentinas mudanças. Isso é sinal fisiocrata Le Mercier de la Rivière distingue duas
evidente de que ele pensa mais no fenômeno da tirania formas de Despotismo, um que ele chama "legal" e o do que no do Despotismo próprio dos grandes outro "arbitrário". Enquanto que o segundo, inspirado impérios, descritos por Montesquieu. na simples "opinião", é mau, o primeiro, guiado pela
Constant faz referência a outro problema importante "evidência", é o único modo de bom Governo. Com
da doutrina do Despotismo: à relação entre o efeito, uma vez averiguado que a ordem natural é Despotismo e a guerra. Já no pensamento iluminístico, evidente, ou seja, que pode ser compreendida em sua a execração da guerra anda junta com a condenação do totalidade pela mente humana iluminada pela razão, Despotismo. Ao criticar o plano de paz perpétua do ela torna-se pelo mesmo fato coagente e, por
abade de Saint-Pierre, Rousseau observa que não se conseguinte, não pode ser imposta senão pode esperar uma política de paz de Governos despoticamente. Existe porventura alguém que se despóticos, porquanto "é sabido que, de um povo de lamente de ser obrigado a aceitar sem discussão os
escravos, se tomam dinheiro e homens à vontade para teoremas da geometria euclidiana? Euclides não é subjugar outros" (Juízo sobre o plano de paz menos déspota que o monarca iluminado que governa perpétua). Assim, quando Kant pensa que a primeira obedecendo à evidência das leis naturais. Mas trata-se,
condição de um tratado entre Estados para o sem dúvida, de um Despotismo natural e necessário, estabelecimento da paz perpétua é que eles tenham conforme com a razão. Le Mercier de la Rivière
uma forma de Governo republicana, entende por encontrou eco em Pierre-Samuel Dupont de Nemours Governo republicano um Governo não despótico. quem, depois de haver condenado como formas de Constant contrapõe o espírito de conquista, tornado mau Governo a democracia, a aristocracia e a
anacrônico, ao espírito de comércio: assim como o monarquia eletiva, exalta a monarquia hereditária, por
espírito de comércio exige e promove a paz, assim o ser só nesta forma de Governo "simples e natural" que
espírito de conquista, intimamente ligado ao regime os soberanos são verdadeiramente "déspotas" (De
despótico, é fomentador de guerras. l'origine et des progrès d'une science nouvelle, 1768).
Contra esta tese Mably escreveu um ensaio,
VI. O DESPOTISMO ILUMINADO. — Levada em conta Dúvidas apresentadas aos filósofos-economistas sobre
a distinção entre bom e mau Governo, o Despotismo a ordem natural e essencial das sociedades políticas
sempre foi tido como exemplo de Governo nocivo. Na (1768), que constitui momento importante na disputa
linguagem política, independentemente da sua setecentista acerca do Despotismo. Para Mably, o significação descritiva que, como vimos, muda de um próprio conceito de Despotismo legal já encerra uma
autor para outro, o termo Despotismo possui contradição nos termos. Se um Governo é usualmente um significado de verdadeiramente despótico, ou tal que quem detém o
supremo poder não está
346 DESPOTISMO
sujeito a qualquer controle, não poderá deixar de ser é definido como "Despotismo da aristocracia
arbitrário: na realidade não existe outra forma de teocrática". Embora seja do Oriente que nasce a época
Despotismo senão a do Despotismo arbitrário; pelo histórica, esses Estados, a China e a Índia, devido à sua
menos o Despotismo se converte sempre num Governo situação estacionaria, acham-se ainda à margem da
de arbítrio e, portanto, em despotismo arbitrário. À história do mundo. Havendo alcançado um certo grau
controvérsia entre Mably e os fisiocratas não é de desenvolvimento, o primeiro grau da evolução do
estranho o problema do Despotismo oriental: enquanto espírito objetivo, aí se detiveram, ficando alheios ao
Quesnay e Le Mercier de la Rivière haviam exaltado o movimento histórico. O tema também repetido da
Governo da China como um exemplo imitável de relação entre Despotismo e imobilismo tem sua
despotismo legal, Mably os critica, sustentando que o confirmação nestas frases de Hegel: "O universal, que
Governo chinês é também, como não podia deixar de aqui surge como substanciai, moral, é, por tal
ser, um Governo despótico, uma forma de Governo absolutismo, tão despótico, que jamais houve lugar
arbitrário; defende encarniçadamente o Governo misto para a liberdade subjetiva e, conseqüentemente, para a
baseado na separação dos poderes, que tinha tido mudança. Desde que o mundo é mundo, estes
como seu maior teórico precisamente um crítico impérios não se puderam desenvolver senão em si
severo do Despotismo oriental, o autor de Esprit des mesmos. Na idéia eles são os primeiros e, ao mesmo
lois. tempo, são os imóveis" (Filosofia della storia, ed. La
Nuova Italia, II, p. 14).
VII. DE HEGEL A WITTFOGEL. — A idéia ou mito do A Filosofia da história de Hegel contribuiu para
Despotismo oriental atravessa todo o século XIX e fixar, de modo quase que definitivo, a categoria do
chega, como já dissemos, até aos nossos dias, isto é, Despotismo oriental, havendo-lhe assim encerrado, se
até à crise ou declínio da concepção eurocêntrica da não esgotado, a série histórica. Em virtude da análise
história, da concepção que contrapunha a Europa marxista, que deslocou o centro de gravidade da
progressiva ao Oriente imóvel, fazendo depender o pesquisa histórica das instituições políticas para a
desenvolvimento das sociedades mais atrasadas do globalidade das formas e das relações de produção, o
encontro, que poderia também ser um choque problema tradicional do Despotismo oriental cedeu
doloroso, com as nações européias mais avançadas. lugar ao problema, em torno do qual se acendeu um
Bastará lembrar aqui o lugar que ocupa a categoria do secular debate ainda hoje atualíssimo, do modo de
Despotismo na filosofia da história de Hegel, que é produção asiático que, enquanto diverso dos modos de
uma sublimação do eurocentrismo. Fiel à sua visão produção que teriam caracterizado a história do
histórica da realidade, Hegel toma as célebres Ocidente (escravista, feudal, burguês), conserva da
categorias de Montesquieu e considera-as como categoria do Despotismo oriental a conotação de
momentos sucessivos do desenvolvimento histórico. estaticidade e contribuiu para a permanência da idéia
"O Oriente sabia e sabe que apenas um é livre; o eurocêntrica de um Oriente inerte e imóvel. Só nestes
mundo grego e romano, que só alguns são livres; o últimos anos é que o tema do Despotismo oriental foi
mundo germânico, que todos são livres. Por isso, a ressuscitado pelo livro de Karl A. Wittfogel, Oriental
primeira forma que nós vemos na história do mundo, é Despotism (1957), uma obra de análise teórica e, ao
o Despotismo, a segunda, a democracia e a aristocracia, mesmo tempo, de debate político. O contraste entre
e a terceira, a monarquia". São despóticos os Estados sociedades policêntricas, como as que se radicaram na
primitivos e bárbaros da África, anteriores à Europa, caracterizadas por uma forte tensão entre
colonização, onde a escravidão (característica, como sociedade civil e aparelho estatal, e sociedades
vimos, peculiar das sociedades governadas de forma monocêntricas, caracterizadas pelo predomínio do
despótica) "constitui a relação fundamental do Estado sobre a sociedade, como as formadas e
direito"; por isso, ali "governa um senhor, visto que a estabelecidas nos grandes impérios orientais e, de
rudeza sensível só pode ser domada por uma força qualquer modo, em sociedades extra-européias (como
despótica" (trata-se do tema assaz repetido da relação algumas das grandes civilizações americanas pré-
entre Despotismo e sociedade servil). Mas os grandes colombianas), não seria só um conceito polêmico e
Estados despóticos surgiram e se perpetuaram na Ásia, muito menos um mito. É, segundo Wittfogel, uma
a começar pelo império chinês, definido como realidade histórica que, embora identificada há séculos,
"Despotismo teocrático" (o nexo entre Despotismo jamais mereceu dos historiadores a devida atenção.
político e teocracia é também tipicamente Wittfogel retoma e desenvolve alguns temas
iluminístico); é de onde nasce a época histórica (a tradicionais: o caráter total, não controlado, e, por isso,
África é ainda um continente sem história). Seguiu-se absoluto do poder despótico; o terror como
depois a Índia, cujo Governo instrumento de
DESVIACIONISMO 347
domínio e, correlativamente, a sujeição total do súdito Historicamente, é no X Congresso do Partido
ao soberano; a longa duração temporária; e, Bolchevique (março de 1921) que podemos situar o
finalmente, a conexão entre Despotismo e teocracia. A momento em que o termo desvio assume um
inovação de Wittfogel em relação à tradição está na significado "oficial": foi com efeito então aprovada
explicação do fenômeno: o potentíssimo aparelho uma Resolução final que condenava o "desvio anarco-
burocrático que constitui o nervo do Despotismo sindicalista", como foram definidas as posições
surge da necessidade que existe nos territórios das encabeçadas pelo grupo da Oposição Operária. Esta
grandes planícies asiáticas de uma regulamentação da expressão faz referência a uma orientação de tipo
irrigação, ou seja, de uma regular e regulamentada ideológico, mas as críticas formuladas por Lenin no
distribuição e canalização da água dos rios, ordenadas Relatório ao Congresso e a Resolução final
do alto. Não se trata mais, como acontecia nos mantiveram-se rigorosamente no plano teórico-
escritores clássicos, da natureza dos povos, nem, como político, isto é, sem buscar implicações ideológicas nas
nos modernos, da natureza do clima ou da religião: o posições definidas como desviacionistas. Segundo a
Estado burocrático e despótico das sociedades que citada definição de Togliatti, trata-se indubitavelmente
Wittfogel chama "hidráulicas", tem a sua origem em de posições (minoritárias) incompatíveis com a linha
razões técnicas, ligadas, por sua vez, à natureza do política oficial. solo e à forma de produção. Como forma de Governo, No período posterior, o uso do termo tornou-se mais
o Despotismo caracteriza-se pelo monopólio da amplo, estendendo-se do plano político ao ideológico. organização burocrática que, criado por razões No biênio 1925-1926, com a chefia de Stalin, o partido objetivas nas sociedades agrárias e aplicado ainda na viu-se comprometido na luta contra o "desvio de época contemporânea às sociedades industriais, direita" e de "esquerda", a propósito da questão rural e constitui a mais terrível ameaça para a liberdade do da "NEP nas aldeias", um conflito inteiramente homem. político, enquanto era imputado ao grupo de Trotzky
um "desvio pequeno-burguês", portanto essencialmente
ideológico. Parece então consolidado um uso mais
genérico do termo, referido a posições tanto teórico-
BIBLIOGRAFIA. - R. KOEBNER, Despot and políticas como ideológicas. Neste sentido, é
despotism. Vicissitudes of a political term. "Journal of aparentemente lógico falar de "desvios de todo gênero", the Warburg and Courtauld Institute", 1951; A. como fez Kruschev no Relatório ao XX Congresso do MAFFEY, Un plagio di F. Quesnay: il Despotisme de la P.C.U.S., a propósito das conseqüências do culto da Chine. "Il pensiero politico", 1973; G. SOFRI, Il modo personalidade durante a chefia de Stalin. É possível, di produzione asiatico, Einaudi, Torino 1969; S. contudo, observar um uso do conceito de desvio STELLING-MICHAUD, Le mythe du despotisme oriental, bastante diferente do da história precedente: se antes o "Schweizer Beitrage zur allgemeine Geschichte", desvio era definido como uma posição errônea por ser 1960-61; F. VENTURI, Despotismo orientale. "Rivista assim julgada pela maioria do partido, agora a crítica storica italiana", 1960; K. A. WITTFOGEL, de Desviacionismo se aplica à própria maioria. A
Dispotismo orientale (1957), trad. ital., Sugar, Milano identificação dos desvios não está mais vinculada à luta 2 1980 política entre tendências, mas, a posteriori, à mudança
nas orientações gerais e à correção de rumos. Mais
[NORBERTO BOBBIO] ainda: o desvio acaba por ser entendido como um
afastamento de idéias condutoras gerais, válidas em si
Desviacionismo. mesmas.
A experiência dos comunistas chineses avança
Na tradição dos partidos comunistas da Terceira precisamente na linha desta concepção mais ampla.
Internacional, Desviacionismo é o comportamento Como posição errônea, o desvio não é necessariamente
subjetivo de quem incorreu em desvio. Observando referível a indivíduos ou grupos bem identificados do
que este é o termo usado vulgarmente, sendo o de partido; pode ser uma tendência difusa, mesmo
Desviacionismo menos freqüente, podemos considerá- majoritária, pode atribuir-se a todo o partido (vejam-
los, no entanto, sinônimos. se as experiências históricas do Movimento Cheng
Segundo a definição de Togliatti, trata-se de Feng e alguns aspectos da Revolução Cultural). Os
"posições inconciliáveis com a linha política seguida" desvios são um risco constante e inevitável; portanto,
( sua prevenção, identificação e correção hão de ser Depois do XX Congresso do P.C.U.S., 1956). Esta
definição, conquanto eficaz, não leva de fato em conta confiadas a um compromisso incessante de discussão,
uma certa evolução do conceito nos períodos leninista crítica e staliniano, nem o uso peculiar que dele fizeram os
comunistas chineses.
348 DIPLOMACIA
e persuasão, tanto no plano ideológico como político. Burke, em 1796. Deriva de diploma, que era a folha
O específico da experiência chinesa em matéria de enrolada usada antigamente para as leis e para os
desvio está, porém, nisto: embora seja necessário editais públicos, e que passou a ser, depois, sinônimo
identificar em cada caso os componentes políticos e de licença e privilégio concedidos às pessoas. O uso de
ideológicos do desvio, eles andam, não obstante, mensageiros para dirimir as controvérsias é muito
sempre indissoluvelmente ligados, já que, por trás de antigo. Se deixarmos de lado as primeiras
um desvio político, há sempre um desvio ideológico experiências feitas pelo homem à propósito, de que
e, vice-versa, um desvio político produz não temos testemunho preciso, pertenceu aos gregos,
necessariamente desvios ideológicos. no século V a.C, o estabelecimento de um sistema de
Como se vê, o uso histórico do conceito de desvio relações diplomáticas, codificando o princípio da
não é unívoco. Tanto assim que se torna problemático inviolabilidade dos mensageiros, de quem se exigia
defini-lo abstratamente de um modo satisfatório. apenas uma grande habilidade oratória, como se lê em
Particularmente, se nos referirmos ao uso mais restrito Tucídedes, na Guerra do Peloponeso.
do termo (posição incompatível com a linha política Tendo caído em desuso entre os romanos, que
do partido), será difícil distinguir o desvio do foram, por seu lado, os inventores do uso de
fracionismo. arquivamento dos tratados, a arte da Diplomacia