Dicionário de Política (Volume 1)
mundial formado por potências continentais (a norte-…
mundial formado por potências continentais (a norte- contestando que o direito internacional e equilíbrio
americana, a soviética e a chinesa), cuja ordem de entre as potências sejam instrumentos eficazes para
grandeza faz com que tenham um regime político mais garantir a paz, formula um juízo que a história de
complexo do que o dos Estados unitários e diferenças divisões e de guerras da Europa das nações teria
sociais mais ou menos marcantes de base territorial. confirmado. De outro lado, afirmando que somente o
Tudo isto são sinais que indicam que a fórmula do Federalismo permite estabelecer a paz, define este
Estado nacional está historicamente superada e que os valor em termos radicalmente novos, como expressão
Estados europeus só poderão recuperar sua da exigência de unificar os povos, que entraram na independência unificando-se. E é possível até prever cena da história com a Revolução Francesa, criando
que a união das nações históricas da Europa não um governo supranacional. poderá ser senão de tipo federal. De outro lado, quer a Sendo que a nível internacional, diversamente do
formação de movimentos federalistas organizados que acontece no interior dos Estados, a potência não é
durante a Resistência e o seu desenvolvimento também monopolizada por um centro de poder que ofereça a
depois da guerra, quer o grau avançado de unificação todos uma garantia legal, mas está difundida, cada
européia, parecem indicar que o Federalismo pode ter Estado terá que ficar permanentemente armado,
uma realização prática na Europa. pressupondo sempre ter de fazer justiça por sua conta.
Na realidade, com a eleição do Parlamento europeu Portanto, segundo Kant, as relações internacionais
por meio do sufrágio universal, a Comunidade pertencem ainda ao plano pré-jurídico do Estado de
Européia deu um primeiro passo para se transformar natureza. Nem o direito internacional, ao qual as
numa federação. Na verdade, historicamente, não se modernas organizações internacionais, como a S.D.N.
conhecem exemplos de confederações com assembléia e a ONU, não sendo dotadas de poder próprio, se
eleita por sufrágio universal: todas as uniões de devem adequar, é um instrumento eficaz para eliminar
Estados que se fundam no voto são federações. a guerra, na medida em que não limita a soberania
Certamente, a Comunidade após a eleição é uma absoluta dos Estados e não atinge o princípio da
federação em estado embrionário, mas ainda sem autotutela de seus direitos. Portanto, a guerra "mesmo
alguns poderes (moeda, exército, etc). Mas a partir da que com êxito e vitoriosa", escreve Kant, "não decide
eleição européia, o processo de unificação se move a questão de direito". hoje em terreno constitucional, na medida em que o Coerentemente com estas premissas, Kant define a
voto constitui o principal direito constitucional. paz como "o fim de toda hostilidade" e não
Contudo, nesta última fase da crise do Estado simplesmente como a supressão das hostilidades, que
nacional, a da integração européia, o Federalismo se estabelece no intervalo entre duas guerras. A paz
conseguiu chegar às portas de uma visão global da não é uma situação que existe no Estado de natureza,
sociedade, capaz de dominar teórica e mas deve ser construída e garantida por um
ordenamento jurídico
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sustentado por um aparelho coercitivo acima dos meios e fins afirmada pela religião cristã e pelo
Estados. Definindo a paz como situação em que a pensamento político liberal, democrático e socialista.
guerra é impossível, Kant identificou rigorosamente a De fato, cada Estado fundamenta sua autonomia no
discriminante que separa a paz da guerra e colocou a exército e no poder de obrigar os cidadãos a matar e
trégua (isto é, a situação na qual, embora não existam morrer pela pátria. E tal poder pode ser legitimado
hostilidades declaradas, permanece a ameaça de que somente com a condição de que o Estado mistifique na
elas se possam produzir) no lado da guerra. consciência dos indivíduos as características universais
Para Kant a condição fundamental da paz é então o dos valores cristãos, liberais, democráticos e
direito, ou melhor, a extensão do direito a todas as socialistas e exija dos cidadãos uma fidelidade
relações sociais, de modo particular ao campo das exclusiva, com a conseqüência de sacrificar e
relações entre os Estados. Somente no âmbito de uma subordinar a lealdade para com a humanidade à
federação universal de povos livres o direito lealdade para com a pátria. Por este motivo Kant
internacional se tornará uma realidade jurídica qualifica a guerra como "o maior obstáculo contra a
completa, isto é, fundada no poder capaz de regular as moralidade, a eterna inimiga do progresso". De fato, a
relações entre os Estados e de impedir os homens, necessidade objetiva para todos os indivíduos de
isolados ou em grupo, de recorrer à violência para adaptar a sua conduta a uma estrutura social moldada
resolver seus conflitos. Dessa forma, a idéia de uma nas necessidades autoritárias e belicosas do Estado e a
federação mundial, capaz de remover a guerra e sua consciência à ética da luta que essa estrutura
garantir a paz perpétua, representa o coroamento da produz determina um desenvolvimento limitado e
doutrina kantiana do direito e da política. unilateral de suas capacidades criativas e obstaculiza
Mas, segundo Kant, para atingir o objetivo da paz seu progresso moral.
perpétua, os Estados que participarem da federação Tudo isto não é algo de inevitável, pelo contrário,
mundial deverão ser dirigidos por uma constituição trata-se da direta conseqüência do modo irracional em
republicana, a única forma de Governo que garante a que está organizado o gênero humano, de sua divisão
liberdade e a igualdade dos cidadãos. Ela, de fato, de política, do estado de anarquia no qual está afundado.
um lado, limitando a liberdade de cada um, torna Realizada em toda a parte a liberdade e a igualdade
possível a coexistência pacífica dos indivíduos entre os Estados republicanos e a paz através da
segundo uma lei universalmente válida, e, de outro federação mundial, tanto a forma das relações sociais,
lado, permite aos homens obedecerem somente às leis quanto as motivações da vida individual sofrerão
que ajudaram a elaborar. Nestas condições é possível segundo Kant, uma mudança radical. Adquirido o
instaurar relações efetivamente pacíficas entre os poder de canalizar, dentro dos limites do direito, todos
indivíduos, a que hoje chamamos paz social. os comportamentos sociais, se quebraria o ciclo da
Porém esse regime político não poderá atingir sua razão de Estado, das relações da força na política
perfeição, enquanto não se crie "uma relação externa internacional, da guerra e acabaria a legitimação da
entre os Estados regulada por leis". A situação na qual violência do homem sobre o homem decorrente da
a guerra é sempre possível marca profundamente tanto guerra e da ameaça permanente da guerra. Somente a estrutura social quanto a própria condição humana. neste estádio da sua história a sociedade adquiriria o
Hamilton ilustrou os efeitos que os conflitos poder de estabelecer um controle racional sobre a internacionais determinam na estrutura dos Estados e própria atividade e sobre as próprias mudanças, os
Kant as conseqüências de tais conflitos sobre a homens poderiam realizar plenamente sua natureza
condição humana. Sob a pressão da anarquia racional e sua conduta poderia conformar-se internacional os recursos materiais e ideais da inteiramente ao princípio da autonomia do querer. sociedade são orientados em grande parte para os Trata-se de uma radical transformação das relações
preparativos militares e os indivíduos são inseridos em entre o indivíduo e a sociedade, que marca o
estruturas políticas autoritárias, as mais eficazes para atingimento da condição indispensável para a extinção
garantir a independência do Estado na arena política do Estado, para a tendencial dissolução do poder na
internacional. Segue-se que as exigências de segurança sociedade e para realizar o kantiano "reino dos fins",
e de potência do Estado tendem fatalmente a no qual será possível tratar os homens como fins em prevalecer sobre as exigências de liberdade dos todas as relações sociais. indivíduos e de autonomia das comunidades em que Kant é, então, o primeiro grande pensador
eles vivem, transformando os próprios homens em federalista e a sua contribuição teórica consiste em ter
instrumentos de política do Estado, derrubando dessa fundado o Federalismo numa visão autônoma dos
forma a relação entre valores e do curso histórico. Todavia, não tendo
refletido sobre a natureza da inovação
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constitucional que permitira a fundação dos Estados o ciclo do imperialismo, do subdesenvolvimento e da
Unidos da América, não conhecia o funcionamento do desigual distribuição da riqueza no mundo. Estado federal e, portanto, não possuía os As energias humanas assim libertadas poderão ser
instrumentos conceptuais para conceber, de uma orientadas para o livre governo das "comunidades'' nas
forma real, a possibilidade de um Governo democrático quais se desenvolverá a vida humana, se tornarão
mundial capaz de limitar a soberania absoluta dos pensáveis relações humanas em que o "livre
Estados, mas que também por eles fosse limitado. desenvolvimento de cada um seja a condição do livre
Prisioneiro da teoria unitária do Estado, temia que a desenvolvimento de todos'" e também a propriedade
federação mundial pudesse degenerar em tirania. Por privada poderá ser abolida. Porém, este processo, que
isso, todas as vezes que abordou o problema do poder Marx e Proudhon pressentiram em termos abstratos,
político mundial foi induzido a optar pelo seu não poderá produzir seus efeitos se não for
"sucedâneo" negativo, isto é, uma confederação de acompanhado pela unificação política do gênero
Estados, que, mantendo a soberania absoluta de seus humano, cujas condições histórico-sociais, Kant não
membros, perpetuaria a anarquia internacional, que o tinha tomado em consideração ao término do processo
Governo mundial teria que eliminar. Apesar desta de integração social que vai ampliando a
contradição, ele concebeu corretamente a ordem interdependência material dos homens além das
pacífica mundial como um poder político e um fronteiras dos Estados e vai formando indivíduos que
ordenamento jurídico acima dos Estados, concepção desenvolvem suas relações num plano universal,
que lhe permitiu dar uma definição rigorosa da paz e criando, dessa forma, as bases sociais do
fazer uma crítica do direito internacional cosmopolitismo.
permanentemente válida. Deste modo o conceito de comunidade, que foi
Mas é preciso mencionar um outro limite da teoria sempre um componente fundamental dos objetivos
política e da concepção filosófico-histórica de Kant revolucionários e de emancipação da história da
embora aqui não seja possível tratá-lo humanidade, pode ser formulado de uma forma mais
convenientemente. O ter definido a paz como a clara na teoria do Federalismo, que lhe determina um
condição essencial da emancipação humana, o ter critério indispensável de cogitabilidade e uma
reconhecido o fundamento da paz no direito e o ter condição necessária de realização: a federação
atribuído ao direito, na sua forma perfeitamente justa, mundial se resume assim num Governo cosmopolita
a tarefa de instituir um regime republicano, isto é, de livres comunidades desarmadas. A imagem da
capaz de garantir a liberdade e a igualdade política, humanidade integralmente desenvolvida na forma de
não é suficiente para esgotar o complexo dos fatores associação federalista se configura, então, como
que tornam possível a libertação do homem do repartida numa pluralidade de livres comunidades e
domínio e da opressão. De fato, o domínio do homem unida num todo cosmopolita, fórmula que oferece os
sobre o homem não depende somente das estruturas critérios essenciais para imaginar a riqueza e a
do Estado, pelo fato de que se foram modelando sob a complexidade das relações sociais num mundo
pressão das exigências defensivas e ofensivas, mas, libertado da divisão em classes e nações.
como foi esclarecido pelo materialismo histórico,
também das estruturas de produção, as quais IV. O ASPECTO DE ESTRUTURA. — Analisando a determinam, em última instância, as estruturas Constituição dos Estados Unidos da América — o
políticas, ainda que estas últimas mantenham uma primeiro exemplo de pacto federal entre Estados
relativa autonomia. soberanos e, ao mesmo tempo, a experiência
Segue-se daí que, por um lado, existe uma ulterior constitucional mais importante, embora parcialmente
condição, posta em claro por Marx e Proudhon, sem a desenvolvida, na história das instituições federais — é
qual a paz não pode ter um fundamento estável: a forçoso concluir que ela introduz um novo
superação da exploração de classe. Portanto, a instrumento político, cuja finalidade universal é a paz
realização da liberdade e da igualdade no plano perpétua. Os ensaios do Federalist, que Hamilton político é uma premissa necessária, mas não publicou entre 1787 e 1788, em colaboração com Jay e
suficiente, da emancipação humana, porque esses Madison, para sustentar a ratificação da Constituição
valores, para serem realizados plenamente, exigem um federal americana, nos oferecem a primeira e uma das
fundamento econômico-social, que somente a justiça mais completas formulações da teoria do Estado
social, através do controle democrático da produção, federal. Mas não existe nesta obra, nem nas outras
pode garantir. Além disso, a atuação completa da contemporâneas de assuntos análogos, de acordo com
justiça social não é concebível sem uma planificação o caráter pragmático da cultura anglo-saxônica,
democrática mundial, único instrumento capaz de nenhuma consideração sobre o sentido global deste
quebrar instrumento institucional. Ele foi
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apresentado mais como um meio para resolver os nacional, que emprega seu poder para fazer de seus
problemas políticos dos americanos do que como cidadãos bons soldados. modelo de Governo para a sociedade das nações. Sendo que o modelo federal exerce uma verdadeira
O princípio constitucional no qual se baseia o divisão de poder soberano de base territorial, o
Estado federal é a pluralidade de centros de poder equilíbrio constitucional não pode se manter sem a
soberanos coordenados entre eles, de modo tal que ao primazia da Constituição em todos os poderes. Com
Governo federal, que tem competência sobre o inteiro efeito, a autonomia desse modelo se traduz no fato de
território da federação, seja conferida uma quantidade que o poder de decidir concretamente, em caso de
mínima de poderes, indispensável para garantir a conflito, quais sejam os limites que as duas ordens de
unidade política e econômica, e aos Estados federais, poderes soberanos não podem ultrapassar, não pertence
que têm competência cada um sobre o próprio nem ao poder central (como acontece no Estado
território, sejam assinalados os demais poderes. A unitário, onde as coletividades territoriais menores
atribuição ao Governo federal do monopólio das usufruem de uma autonomia delegada) nem aos
competências relativas à política externa e militar Estados federados (como acontece no sistema
permite eliminar fronteiras militares entre os Estados, confederativo, que não limita a soberania absoluta dos
de modo que as relações entre os Estados perdem o Estados). Esse poder pertence a uma autoridade
caráter violento e adquirem um caráter jurídico e neutral, os tribunais, aos quais é conferido o poder de
todos os conflitos podem ser resolvidos perante um revisão constitucional das leis. Eles baseiam sua
tribunal. A transferência para os órgãos federais de autonomia no equilíbrio entre o poder central e os
algumas competências no campo econômico tem por poderes periféricos e podem desempenhar eficazmente
objetivo eliminar os obstáculos de natureza suas funções com a condição de que nenhuma das duas alfandegária e monetária, que impedem a unificação ordens de poderes conflitantes prevaleça de modo
do mercado, e atribuir ao Governo federal uma decisivo. Para dar força às decisões judiciárias
capacidade autônoma de decisão no setor da política provêem ora os Estados federados, ora o Governo
econômica. A conseqüência desta distribuição de central, que as sustentam todas as vezes que
competências entre uma pluralidade de centros de convergem com os respectivos interesses. Portanto,
poder independentes e coordenados (esta fórmula é de somente em virtude das próprias decisões o poder
Wheare) é que cada parte do território e cada judiciário é capaz de restabelecer o equilíbrio entre os
indivíduo estão submetidos a dois centros de poder: poderes, definido pela Constituição. ao Governo federal e ao de um Estado federado, sem Por outra parte, a eleição direta do presidente da
que por isso seja prejudicado o princípio da unicidade federação, que reúne os poderes de chefe do Estado e
de decisão sobre cada problema. chefe do Governo, confere ao executivo os requisitos
Portanto o Governo federal, diferentemente do de força e de estabilidade, necessários para
Estado nacional, que visa tornar homogêneas todas as desempenhar eficazmente a função equilibradora da
comunidades naturais que existem no seu território, vida social e atuar, de forma orgânica e coerente, no
procurando impor a todos os cidadãos a mesma língua programa do Governo (hoje o planejamento),
e os mesmos costumes, é fortemente limitado, porque enquanto a atribuição de poderes soberanos aos
os Estados federados dispõem de poderes suficientes Estados-membros constitui o freio mais eficaz contra
para se governar autonomamente. Dessa forma, as o abuso de poderes por parte do Governo central e a
instituições típicas de centralização estatal (os mais sólida garantia contra os perigos da ditadura. E
exércitos permanentes fundados na conscrição este equilíbrio constitucional, que permite conciliar o
obrigatória, a escola de Estado, os grandes ritos princípio da unidade da comunidade política com o da
públicos, a imposição a todas as coletividades autonomia das suas partes, se reflete na composição
territoriais menores do mesmo sistema administrativo do poder legislativo, uma parte do qual representa o
e da tutela prefeitoral) são desconhecidas e, de povo da federação em medida proporcional ao número
qualquer forma, nunca se enraizaram profundamente dos eleitores, enquanto a outra parte é eleita pelos
nos Estados de regime federal ou fortemente povos de cada um dos Estados-membros com um
descentralizados. número igual de representantes, independentemente
As estruturas federais, não comportando a das diferenças de população.
atribuição da competência escolar ao Governo central, A distribuição do poder de base territorial é, na
que ao mesmo tempo controla o exército, fogem da realidade, bem mais eficaz do que a de base funcional
lógica tendencialmente totalitária do Estado para garantir o controle dividido do poder, a principal
garantia da liberdade política,
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na medida em que, quer o Governo federal quer os o planejamento, se é decidido no centro sem uma
Estados-membros, podem fundamentar a própria relação efetiva com o ambiente humano no qual estão independência numa distinta base social. Hamilton, de enraizadas as instituições locais e regionais e com as fato, afirmou que o regime federal permite "ampliar a exigências reais que elas exprimem, não somente é área do Governo popular". Com efeito, enquanto a autoritário, mas também é ineficaz, porque não se
democracia direta permite realizar a liberdade política baseia nas preocupações concretas dos homens. na cidade-Estado, e a democracia representativa e a A federação constitui, portanto, a realização mais
divisão formal do poder entre legislativo, executivo e alta dos princípios do constitucionalismo. Com efeito,
judiciário permitem realizar a liberdade política no a idéia do Estado de direito, o Estado que submete
Estado nacional, o Governo democrático todos os poderes à lei constitucional, parece que pode supranacional, e- a divisão substancial do poder entre encontrar sua plena realização somente quando, na
Governo federal e Estados federados (também eles de base de uma distribuição substancial das competências,
base democrática) permitem unificar diversas o executivo e o judiciário assumem as características e comunidades nacionais e realizar a participação as funções que têm no Estado federal. política numa ilimitada extensão territorial até
abranger o mundo inteiro e todo o gênero humano. Em V. O ASPECTO HISTÓRICO-SOCIAL. — A teoria particular, a superação do princípio da indivisibilidade do Estado federal, assim como resulta dos ensaios de
da soberania, com a possibilidade de fazer coexistir na Hamilton, não contém uma análise das condições
mesma área constitucional duas ordens de poderes histórico-sociais que permitem às instituições federais
soberanos, permite conciliar as vantagens da pequena funcionar e se manter. Já que nenhuma instituição
dimensão, na qual os indivíduos têm maior política pode manter-se sem uma base social possibilidade de participar diretamente e com correspondente e nenhum equilíbrio constitucional
continuidade do processo de formação das decisões pode durar sem o suporte de um equilíbrio social
políticas e onde o poder pode ser submetido a um correspondente (as instituições estabilizam certas
controle mais direto por parte do povo, de modo que realidades sociais preexistentes, mas não podem criá-
possa ser deixado um amplo espaço para o las ex novo), é preciso levar a análise até a estrutura da autogoverno das comunidades locais, com as vantagens sociedade e procurar identificar as características
da grande dimensão, exigida pelas condições modernas específicas da sociedade federal. da produção industrial e da técnica militar e necessária Numa federação a sociedade civil tem características
para manter o desenvolvimento econômico e a unitárias sob certos aspectos e pluralistas sob outros
independência política. aspectos. A população está unida numa sociedade das
No Estado centralizado não existe, pelo contrário, mesmas dimensões da federação e está dividida numa
nenhum centro autônomo de poder fora do Governo pluralidade de sociedades menores, com confins
central. A luta política se desenvolve num só quadro territoriais bem definidos no âmbito da sociedade mais
institucional pela conquista de um só poder, que vasta. Daí se segue que o comportamento social típico
controla através dos prefeitos todas as entidades locais dessa população tem um caráter bipolar; de um lado
e que, de fato, é árbitro da Constituição. Proudhon foi há a lealdade para com a sociedade global comum a
o primeiro a denunciar que a divisão dos poderes e o toda população da federação, de outro lado, a lealdade
sufrágio popular, que deveriam garantir para com cada uma das comunidades menores, respectivamente a liberdade e a igualdade política, diferenciada pela distribuição territorial da população.
numa estrutura estatal tão rígida se reduziriam a E o que é singular é o fato de que o sentimento de
fórmulas jurídicas vazias. Com efeito, nos Estados apego à união coexiste com o de apego a cada uma de
unitários, onde a divisão dos poderes tem uma base suas partes e nenhum deles prevalece sobre o outro,
exclusivamente funcional, o legislativo e o executivo como acontece num sentido no Estado nacional e no
tendem inevitavelmente a ser controlados pelas sentido oposto numa confederação de Estados. mesmas forças políticas, com a conseqüência de que o Com efeito, uma sociedade na qual a necessidade
poder judiciário, o mais fraco dos três poderes, fica de unidade, decorrente da necessidade de resolver de
reduzido de fato a um ramo da administração pública. forma unitária os problemas relativos à defesa e ao Dessa forma uma democracia que se manifesta desenvolvimento econômico, é tão forte que dá origem somente a nível nacional sem a base do autogoverno a instituições políticas independentes mas limitadas, e a
local é uma democracia nominal, porque controla do necessidade de autonomia das comunidades alto, sufocando-as, as comunidades, isto é, a vida territoriais, diferenciadas concreta dos homens. E se pode acrescentar que
também
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do ponto de vista das tradições, dos costumes, das entre as potências se faz sentir em formas somente
instituições políticas e às vezes também da língua, é atenuadas, a lealdade para com o Governo central,
tão forte que lhes permite sustentar Governos responsável pelas relações internacionais, tende a
independentes, pode funcionar somente com prevalecer sobre a lealdade para com as comunidades instituições federais, instituições que permitem uma territoriais menores. Além disso, a crescente divisão substancial do poder entre o povo federal e interdependência de todos os Estados do mundo
cada um dos povos dos Estados federados. eliminou já o privilégio das ilhas políticas, que
Destas considerações resulta já claramente que o favoreceu o desenvolvimento do Federalismo à
comportamento social típico da sociedade federal é margem do cenário principal da história. Nesta fase
compatível somente com uma situação na qual a luta histórica é hoje concebível uma só ilha, a formada por
de classes e os conflitos de poder não permitem todos os Estados do mundo unidos e desarmados numa
perceber toda a sua influência sobre a sociedade. De federação, que generalizaria, aperfeiçoando-a, a
fato, de um lado, a luta de classes dividindo a situação insular. Pode-se, portanto, concluir que o
sociedade inteira no antagonismo entre burgueses e regime federal está destinado a degenerar, se ficar
proletários tende a fazer prevalecer o sentido de confinado num só Estado (como demonstra a crescente
pertença a uma das duas partes sociais em conflito centralização do poder nos Estados Unidos após a
sobre qualquer outra solidariedade de grupo e impede Primeira Guerra Mundial e, sobretudo, após a
a instauração de fortes laços de solidariedade a nível de Segunda) e que se pode realizar de modo perfeito
coletividades locais, indispensáveis ao aparecimento e somente se assumir dimensões mundiais. à persistência da bipolaridade social típica da sociedade Esta lei de desenvolvimento das instituições
federal. De outro lado, a pressão dos conflitos de federais se manifestou, embora parcialmente, numa
poder determina o fortalecimento do poder central às atitude particular da sociedade federal para com as
custas dos poderes locais, necessário para uma rápida sociedades vizinhas. Enquanto a organização fechada,
mobilização da sociedade em caso de guerra. rígida e monolítica do Estado nacional se traduz numa
Rompendo o equilíbrio político interno entre o centro política hostil e belicosa para com os Estados
e a periferia, essa pressão favorece a afirmação do confinantes, a estrutura aberta, flexível e pluralista das
nacionalismo e do monismo social às custas da federações permite associar os vizinhos ao primeiro
lealdade para com as coletividades locais e do núcleo federal, embora continuando estes últimos a
pluralismo social. manter uma larga autonomia. A abertura da sociedade
Portanto, as experiências federalistas se têm federal ao mundo, atuante enquanto a pressão das
desenvolvido naqueles Estados aos quais o sistema relações de potência não impõe o fechamento e a
mundial das potências atribui um papel neutral (Suíça) centralização, representa, pois, uma autêntica ou isolacionista (Estados Unidos), que os mantinha alternativa à soberania absoluta dos Estados e à
resguardados dos efeitos centralizadores dos conflitos violência nas relações internacionais. Em substância,
internacionais. De outra parte se manifestaram em pode-se afirmar que a dialética da unidade na
regiões onde a ameaça de fortes tensões sociais tem pluralidade, que anima a sociedade federal, só atinge
sido contida pela possibilidade oferecida aos oprimidos sua forma final quando seus pólos são a sociedade
e aos insatisfeitos de colonizar imensos espaços livres federal mundial e as comunidades. (e de fato o Federalismo nos Estados Unidos, no A análise do aspecto histórico-social e do
Canadá e na Austrália tem muitos aspectos em comum institucional permite, portanto, identificar com o colonialismo) ou no pequeno Estado, como a respectivamente as condições históricas e os
Suíça, onde os problemas de Governos têm mais instrumentos práticos que tornam possível realizar os
caráter administrativo do que político, isto é, em fins pacíficos, cosmopolitas e comunitários que Kant
situações nas quais a luta de classe não assumiu atribui ao Federalismo. formas tão radicais que impeçam a formação de uma
certa solidariedade no interior das comunidades de VI. O PACIFISMO: DA UTOPIA À CIÊNCIA. — base. Identificados os aspectos que definem o Federalismo,
Apesar que se apresenta como uma doutrina social de caráter destas circunstâncias favoráveis, o
Federalismo até agora se apresentou, em toda a parte, global, é mister colocá-lo em relação com as outras
de modo imperfeito e instável. De fato, onde a luta de ideologias. O Federalismo é a teoria política que, pela
classe se apresenta em formas somente atenuadas, as primeira vez na história, põe o valor da paz como
relações sociais comunitárias não objetivo específico de luta. E se distingue de todas as se podem
desenvolver plenamente e, de outro lado, nas expressões modernas de pensamento político e social,
sociedades onde o choque que consideram a paz como uma conseqüência
automática e
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necessária da transformação das estruturas internas dos outro lado, mostra como as relações entre os Estados
Estados era sentido liberal, democrático e socialista e estão dominadas pela lei da força, enquanto um poder
lhe atribuem uma posição subordinada. comum não vem regulá-las, e como a luta entre os
A divergência fundamental se refere, então, à Estados influencia a sua estrutura interna em sentido
avaliação dos fenômenos da política internacional, da autoritário. paz e da guerra, Na teoria do Federalismo a política Portanto, os valores democráticos, liberais e
de poder e as tendências belicosas que se formam nas socialistas estão inevitavelmente subordinados às
relações internacionais são imputadas necessidades belicosas e autoritárias que a substancialmente à anarquia internacional, isto é, à sobrevivência do Estado na arena política internacional
pura e simples divisão do gênero humano em Estados alimenta. Daí segue-se que a subordinação da política
soberanos, em conseqüência da qual cada Estado, internacional a esses valores não depende tanto da
independentemente do regime político e do sistema transformação da ordem interna dos Estados, quanto
produtivo, deve obedecer à lei da força para tutelar especialmente da superação da anarquia internacional
sua autonomia. Isto não significa que seja negada uma através da criação de um Governo democrático
influência subordinada às estruturas internas. Tanto é mundial. É, em definitiva, a ausência de uma teoria
assim que Kant afirmou que a paz exige premissas de adequada, capaz de conhecer e dominar a política
valor liberais e democráticas, isto é, em substância, a internacional, que explica a impotência das ideologias
paz social, que, entretanto, como vimos, não poderá tradicionais perante as guerras mundiais e a falência
realizar-se senão de um modo parcial e precário dos princípios da colaboração pacífica entre os
dentro de cada Estado, se não for garantida por uma Estados, da irmanação entre os povos e da
ordem pacífica universal, fundada sobre um poder solidariedade internacional do proletariado, afirmados
superior aos Estados. em teoria, mas constantemente sacrificados, na prática,
No horizonte teórico das outras ideologias a política aos egoísmos nacionais. Pode-se, então, concluir que o
internacional é explicada através das mesmas pacifismo, quando, graças à teoria federalista, supera categorias da política interna e as tensões os limites do internacionalismo, torna possível a internacionais assim como as guerras são imputadas passagem da utopia à ciência. exclusivamente à natureza das estruturas internas dos
Estados. Os liberais, os democratas e os socialistas, VII. A UNIDADE EUROPEU. — A exigência da paz se tendo-se l i m i t a d o a transformar as estruturas fez sentir, na forma mais aguda, na Europa, onde o internas do Estado, não somente não souberam problema da coexistência entre os Estados assumiu
subordinar a política internacional, que ficou a área características bem diferentes das que se apresentaram
das relações de força, às exigências que impuseram na nos vastos espaços desabitados da ilha política norte-
política interna, mas se submeteram a compromissos americana, que a história tinha resguardado das
com o imperialismo, a violência e os privilégios trágicas conseqüências dos conflitos entre os Estados e
sociais. entre as classes. lá que nenhum dos membros daquela
Como teoria do Governo supranacional, capaz de federação tivera uma longa história como Estado
controlar as relações entre os Estados, o Federalismo é independente e soberano, a experiência federalista não
a teoria que permite conhecer de forma científica as representou a superação de nações historicamente
relações internacionais. Ele explica o processo consolidadas. Por outra parte o caráter atenuado que
histórico no curso do qual se formou uma pluralidade assumiu a luta de classe não deve ser atribuído ao
de Estados, identifica as forças reais que determinam sucesso do movimento socialista, que nunca foi capaz
o antagonismo entre os Estados e as conseqüências de marcar o desenvolvimento histórico dos Estados
que se vêm a criar no interior deles, identificando Unidos, mas é o resultado de circunstâncias históricas
também os instrumentos necessários para a superação favoráveis. Embora Hamilton se servisse do exemplo
da anarquia internacional. De um lado, esclarece como do sistema europeu dos Estados, com a anarquia
o mesmo fator histórico-social, que representou a base internacional e o autoritarismo das suas instituições de
de formação dos Estados nacionais (a evolução do Governo, como termo de referência para ilustrar o que
modo de produção, que através da Revolução se teria evitado escolhendo a federação em vez da
Industrial unificou os comportamentos humanos nos confederação, isto é, a unidade em vez da divisão, ele
espaços de dimensões nacionais), os está destruindo, concebeu a fundação dos Estados Unidos como um
porque estende a integração social além das barreiras meio para concretizar o isolacionismo e não tomou
nacionais, destruindo as próprias bases de sua consciência do fato de que as instituições federais
autonomia e criando as dos Estados continentais e, em forneciam os instrumentos práticos para realizar a paz
perspectiva, as da unificação do gênero humano. De universal.
FEDERALISMO 485
Por conseqüência o Federalismo americano não foi destruição física da humanidade; de outro lado, a
uma experiência política autônoma, mas se apresentou produção industrial ameaça destruir o meio ambiente
como um elemento subordinado ao liberalismo e à urbano e natural, que representa o habitat de toda a
democracia, como um instrumento institucional que, atividade humana. Estas contradições dependem da
tornando os Estados Unidos uma ilha política, teria importância das instituições políticas herdadas do
protegido as instituições democrático-liberais da passado para controlar as forças suscitadas pelo
degeneração que infalivelmente sofrem por causa da progresso técnico. O problema tem natureza política e
anarquia internacional. o Federalismo parece fornecer o instrumento
Mas a Europa, onde o nacionalismo pôs em perigo institucional para realizar, de um lado, a paz e, de
as próprias bases da convivência civil, foi o campo em outro lado, o controle das comunidades sobre o
que a experiência federalista, embora condenada a não desenvolvimento econômico e sobre a vida social.
ter por muito tempo resultados concretos, se Somente a superação das nações européias, a
desenvolveu no sentido de uma visão global da expressão da mais profunda divisão política do gênero
sociedade, que foi definida, como vimos, como humano e da mais forte centralização do poder que a
consciência teórico-prática do curso supranacional da história moderna já conheceu, permitirá ao Federalismo
história. Examinamos as características essenciais conseguir uma primeira realização significativa no
desta visão do curso da história. plano da história universal. Afirmando a ilegitimidade
Na primeira fase da Revolução Industrial o do Estado nacional, que ainda hoje é considerado a
desenvolvimento das forças produtivas desencadeou a forma mais alta de organização da sociedade (como luta de classe, que em seguida se atenuou devido ao demonstra a experiência dos países que saíram reconhecimento dos principais direitos das classes recentemente da dominação colonial), a federação subalternas e sua integração na vida política dos européia se apresentará como uma formação política Estados nacionais. E na medida em que foram sendo pluralista e aberta a todo o gênero humano. A tensão removidos os obstáculos mais graves que se opunham à que a impulsionará fará surgir os valores que emancipação do proletariado como classe (direito de qualificam o Federalismo: o cosmopolitismo, que voto, de associação, de greve, de salários superiores ao permitirá aos homens tomarem consciência de pertencer nível de subsistência, redução do horário do trabalho, à humanidade e não apenas às nações, e o controle parcial da programação, etc), embora a comunitarismo, isto é, a aspiração dos homens a exploração não tenha sido eliminada, a história põe na fixarem-se em comunidades, a participarem ativamente pauta do dia a luta pela libertação do indivíduo através do Governo local e a afirmarem sua autonomia. da criação de relações sociais comunitárias, impossível Mas a federação européia será um Estado entre os
enquanto a sociedade inteira continuar dividida pelo Estados. Terá que defender a própria independência
ódio de classe. Numa fase sucessiva, que se abriu na com as armas, e a lógica de poder das relações
Europa após a Segunda Guerra Mundial, os Estados internacionais a obrigará a fechar-se em si mesma. Por
nacionalistas, destruídos como centros independentes outra parte o desenvolvimento insuficiente das forças
de poder e reduzidos à condição de satélites das duas produtivas e a pressão centralizadora das relações de
superpotências, não freando mais a evolução das forças poder impedirão superar a divisão social do trabalho e,
produtivas, deram início à integração européia, portanto, o domínio e a exploração. Mesmo que a processo em cujo curso a sociedade civil, junto com o federação européia contribua para a realização de um caráter exclusivamente nacional, adquire o europeu e equilíbrio internacional mais pacífico e uma ordem
tende a se tornar uma sociedade federal. Trata-se da social mais livre na medida em que concorrer para
manifestação mais avançada de uma nova fase formar um equilíbrio mundial mais flexível, de tipo histórica de integração da atividade humana para além policêntrico, e destruir o Estado nacional com seu
das barreiras dos Estados, que tem dimensões autoritarismo e sua impotência perante os problemas mundiais e que criará as condições sociais da fundamentais de política externa e econômica (que já federação mundial. têm dimensões européias), a negação do Estado
O desenvolvimento técnico-produtivo, que nacional que realizará será completamente inadequada
determina estes efeitos, transformando as condições em relação aos valores sobre os quais terá que basear
de vida de todo o gênero humano, apresenta também sua legitimidade. Apesar destas limitações, a federação
fortes aspectos negativos. De um lado, as armas européia, superando pela primeira vez nações
nucleares abrem a possibilidade da historicamente consolidadas, assumirá o significado da
486 FELICIDADE PÚBLICA
negação da divisão política do gênero humano e abrirá O termo libertação é entendido como contraposto
o caminho para a luta pela realização plena dessa ao conceito de emancipação dos movimentos do
negação através da federação mundial. século XIX, de que o Feminismo contemporâneo
constitui a fase extrema e, ao mesmo tempo, a
superação. A luta pela emancipação consistia na
BIBLIOGRAFIA.- M. A LBERTINI, LO Stato nazionale. Giuffrè, exigência da igualdade (jurídica, política e econômica)
Milano 1960; Id.. Il Federalismo. Antologia e definizione. Il com o homem, mas mantinha-se na esfera dos valores
Mulino. Bologna 1979: Studi su federalismo, ao cuidado de R. R. masculinos, implicitamente reconhecidos e aceitos.
BOWIE e C. J. FRIEDRICH (1954). Comunità. Milano 1959: L. Com o conceito de libertação, prescinde-se da
EINAUDI. La guerra e l'unità europea. Comunità. Milano 1948; "igualdade" para afirmar a "diferença" da mulher, C. FRANTZ, Der Föderalismus als das leitende Prinzip für die entendida não como desigualdade ou soziale staatliche und internationale Organisation. Scientia Verlag complementaridade, mas como assunção histórica da
Aalen. Mainz 1879; A. HAMILTON, J. JAY, J. MADISON, Il própria alteridade e busca de valores novos para uma federalista (1788). Il Mulino. Bologna 1980; I. KANT. Idea di completa transformação da sociedade. una storia universale dal puniu di vista cosmopolitico (1784) e Per O ponto fundamental da doutrina feminista, muito
la Face perpetua (1795), in Scritti politici e di Filosofia della storia variada e articulada sobre cada um dos problemas e
e del diritto, UTET. Torino 1956; LORD LOTHIAN, Paciftsm is not soluções propostos, é de que existe uma peculiar
enough. nor Patriotism either, Oxford University Press. London opressão de todas as mulheres. Esta opressão, que se
1935; P.-J. PROUDHON, Del principio federativo (1863). Mondo manifesta tanto a nível das estruturas como a nível das
Operaio-Edizioni Avanti!, Roma 1979; L. ROBBINS, L'economia superestruturas, assume formas diversas nas várias planificata e l'ordine internazionale (1937). Rizzoli, Milano classes. Além disso, não se pode resolver, nem com
1948; Id., Le cause economiche della guerra (1939), Einaudi, melhorias jurídicas na sociedade liberal, nem com uma
Torino 1944; A. SPINELLI e E. Rossi. Problemi della Federazione revolução econômica, a despeito das previsões
europea. Edizioni del Movimento italiano per la Federazione formuladas pelos socialistas, de Marx e Engels a Bebei e
europea. Roma 1944: K. C. WHEARE. Del governo federale Clara Zetkin. O exemplo da URSS, onde, após algumas (1945). Comunità, Milano 1949. B. WOOTTON, Socialismo e medidas revolucionárias, voltou-se gradativamente a
federazione (1940). in AUT. VÁR.. Federazione europea. La uma concepção pequeno-burguesa da família, Nuova Italia. Firenze 1948. demonstra, com efeito, que não basta abolir a
propriedade privada e introduzir a mulher no mundo
[LUCIO LEVI] da produção, mas que é preciso, além disso, mudar o
próprio modo de produzir, toda a superestrutura
psicológica e cultural, e que é às mulheres que cabe
Federalismo Europeu. — v. Federalismo: Unificação gerir diretamente o seu poder. Européia. Em seu significado mais amplo, o Feminismo, como
denúncia da opressão da mulher, como recusa do
Felicidade Pública. conceito de desigualdade natural e, portanto, de
inferioridade, como visão conflituosa da relação entre
os sexos e como reivindicação de igualdade, revelou-
É o valor mais invocado pela ética utilitarista, se, no decorrer dos tempos, de formas variadas, todas
definido classicamente por J. Bentham como "a maior elas estreitamente dependentes da sociedade onde
felicidade para a maioria" (v. UTILITARISMO). tiveram origem e da condição histórica das mulheres.
II. O FEMINISMO NA CONTRA-REFORMA. —
Feminismo. Conquanto o debate sobre o problema feminino ocorra
sempre a diversos níveis, uma vez que a mulher se
I. DEFINIÇÃO. — Com este termo, indica-se um acha integrada nas estruturas fundamentais da
movimento e um conjunto de teorias que têm em vista sociedade, é possível, contudo, individualizar alguns
dos temas mais importantes. No clima misógino da
a libertação da mulher. Esse movimento nasceu nos
Contra-Reforma, as reivindicações feministas deveram
Estados Unidos, na segunda metade da década de 60,
partir do princípio da inferioridade da mulher, a que se
e se desenvolveu rapidamente por todos os países
industrialmente avançados, entre os anos 1968 e 1977. contrapunha com freqüência, segundo o esquema da
obra do humanista Cornélio Agrippa (De nobilitate et
FEMINISMO 487
praecellentia foeminei sexus, 1529), o princípio da sua certos formalismos religiosos, chegando mesmo a
superioridade. conceber uma espécie de religião punitiva para os
Na primeira metade do século XVII, na Itália, três homens, condenados a expiar no além, num imenso
estudiosas venezianas apresentam, com extraordinário círculo dantesco, todos os erros e enganos cometidos
vigor e eficácia, o problema da condição feminina no contra o sexo feminino. seu tempo. Lucrécia Marinelli, em La nobilità e Em suas obras, A. Tarabotti antecipa alguns
1'eccelenza delle dorme (Ciotti, Venezia, 1601), motivos racionalistas que encontrarão expressão mais
defende a igualdade fundamental dos dois sexos e cabal no racionalismo cartesiano e na obra de Poullain
descobre nas teorias aristotélicas, segundo as quais o de la Barre, De 1'égalité des sexes (1673), onde se papel social é determinado por diferenças qualitativas desenvolve o tema cartesiano da luta contra o
naturais, a origem de um certo antifeminismo cultural. preconceito, incluído o mais velho dos preconceitos, o
Questionando a historiografia masculina, que não da superioridade do sexo masculino. levava em conta as "belas obras e egrégias ações das
mulheres" (p. 34), L. Marinelli quer dar novo e maior III. DO LIBERTINISMO AO ILUMINISMO. — A
valor às chamadas "mulheres ilustres" e, por difusão do iluminismo e, portanto, da confiança na
conseguinte, à contribuição que tantas mulheres de capacidade de melhorar o homem e os efeitos positivos
ciência, filósofas e guerreiras, malgrado as proibições da cultura veio favorecer, no século XVIII, a discussão
formais e as dificuldades materiais, deram à história da sobre a instrução da mulher. civilização, que não pode ser senão uma história Pelo que respeita ao iluminismo francês, seus
comum. Merito delle donne (Imberti, Venezia, 1600), principais intérpretes, de Montesquieu a Diderot,
de Moderata Fonte, reflete, ao invés, a situação da mantiveram, em geral, quanto ao problema da mulher,
dona de casa do seu tempo. Longe da presença atitudes ambíguas e incertas; em todo caso, sustentam
masculina, num diálogo amiúde cheio de poesia, um Albistour e Armogathe, não é no artigo "Femme" que
grupo de mulheres medita sobre a sua vida e sobre o se há de buscar o caráter revolucionário da
próprio destino. Estas amigas criticam uma condição Encyclopédie. No Émile, Rousseau traçou o retrato de de vida insuportável ("como animais encurralados Sophie, cuja educação tinha como fim agradar ao
entre paredes"), expressando a desilusão homem, mesmo que, quem defende um Rousseau mais experimentada no matrimônio, com que, em vez da aberto, aluda à Julie da Nouvelle Heloise. Contudo, em suspirada liberdade, haviam conseguido "um odioso geral, o pensamento iluminista acerca da mulher está
guardião" (p. 27). Sem instrução, sem meios ligado ao estudo da sua "natureza" e fechado, por
econômicos, a mulher se sentia em poder do homem, conseguinte, a toda possibilidade de conhecimento
pai, marido ou irmão, senhores da sua vida, únicos histórico. árbitros capazes de decidir se havia de ser entregue em Na Itália, o problema posto em 1723 pela
casamento ou findar sua vida "servindo aos sobrinhos" Accademia de' Ricovrati di Padova — "Se as mulheres
(p. 23). deveriam ser admitidas ao estudo das ciências e das
Um caso verdadeiramente particular e único é o da artes nobres" — gerou uma longa polêmica sobre a
figura e escritos de Arcângela Tarabotti. Obrigada pelo "utilidade" da instrução feminina, onde intervieram
pai, aos dezesseis anos, a entrar, em 1620, no convento Aretafila Savini de' Rossi e Diamante Medaglia Faini,
das beneditinas de Santa Ana, A. Tarabotti ali passou a que se declararam claramente favoráveis. A par desta
existência, com grandes sofrimentos, vindo a morrer tendência, se bem que com numerosas limitações, de
em 1652. Nesses trinta e dois anos, em suas obras e abrir às mulheres o acesso ao saber, existe a tentativa
nas cartas escritas do "cárcere feminino", como correspondente de pôr as ciências ao seu alcance. Com
chamava o convento, Tarabotti, privada como estava a obra de F. Algarotti, Il newtonianismo per le dame de esquemas culturais e de referências eruditas, teima (Napoli, s.e., 1737), inicia-se uma série de obras de
numa original denúncia da condição de inferioridade da divulgação, referentes a matemática, botânica, física e
mulher. Nas suas obras, Antisatira, Difesa delle donne economia doméstica. Há também nesta literatura, não
contro Horatio Plata, até a mais importante, Semplicità isenta de um certo narcisismo, um desejo de comunicar
ingannata ou La tirannia paterna (Sambix, Leida, nada desconhecido, que é visto como um aspecto de
1654), A. Tarabotti denuncia os falsos moralismos uma inclinação mais geral pelo primitivo, pelo
masculinos, a falta de liberdade feminina, a violência incontaminado. Na Europa, nos salões aristocráticos, a
sofrida quando, ainda muito jovem, colhida com a mulher representa um pouco o "bom selvagem". pena na mão, foi obrigada a voltar à "agulha e à roca". A Revolução Francesa assinala, para muitos
Ligada aos ambientes libertinos, faz crítica a estudiosos, o início do Feminismo moderno. Em 488 FEMINISMO
1791, Olímpia de Gouges compôs a Déclaration des iluminística, consciente do debate europeu sobre a
droits de la femme et de la citoyenne (s.e., s.d.), onde questão, as teses de Mozzoni adquirem destaque no
proclamava que a mulher possui, tanto corno o homem, panorama de uma Itália cultural e economicamente
direitos naturais e que deve participar na formação das atrasada. A originalidade da sua posição se põe em
leis, direta ou indiretamente pela eleição de evidência já numa obra de 1864, La donna e i suoi representantes. Esta obra incluía um projeto de rapporti sociali, onde, unindo-se a César Beccaria, Contrato social entre os sexos e constitui a expressão criticava a concepção patriarcal, segundo a qual a
mais orgânica do Feminismo racionalista e democrático. sociedade é antes formada pelos chefes de família do
De Gouges foi guilhotinada em 1793 e, nesse mesmo que por um conjunto de indivíduos. A mulher devia
ano, a Convenção rejeitou a proposta da igualdade ser considerada em sua relação com a sociedade e não
política dos dois sexos, ignorando as corajosas teses apenas na família. Era necessário, portanto, dar à
de Condorcet, que tinha defendido o direito das mulher o direito ao voto, reformar o sistema educativo
mulheres au droit de cité. e as relações no seio familiar, bem como oferecer-lhe
Os limites desta revolução foram previstos por Mary a possibilidade de trabalho e de acesso a todas as
Wollstonecraft (Vindication of the rights of women, profissões e empregos. Particularmente sensível aos
1792), que auspiciava uma revolução no problemas da mulher trabalhadora, foi A. Kuliscioff comportamento das mulheres e a abolição de todas as quem, com sua ação e seus escritos, manteve viva a
tiranias e de todos os privilégios, inclusive os do sexo. questão feminina no partido socialista italiano. A
Na Itália, a idéia dos "direitos" da mulher foi elaboração socialista desta questão havia sido
defendida por Rosa Califronia com Breve difesa del formulada por Bebei em Il socialismo e la donna diritti della donna (1794). (1889). Este autor aceitava o esquema de Engels da
transição da sociedade de uma fase matriarcal mítica e
IV. O FEMINISMO EMANCIPACIONISTA. — Na feliz a uma fase patriarcal baseada na propriedade
segunda metade do século XIX, o Feminismo se privada. Assim, a emancipação da mulher estava
desenvolve como movimento de emancipação, tendente ligada, e de algum modo subordinada, à supressão da
a obter a igualdade jurídica (voto, instrução, profissões propriedade privada. liberais), estendendo-se da Inglaterra a todos os outros Mozzoni opinava, em vez disso, que a opressão
países europeus. feminina não era de natureza exclusivamente
Efetivamente, a situação da mulher contrastava com econômica, temendo que, após qualquer revolução
os princípios de uma sociedade que se proclamava social, a mulher viesse a se encontrar de novo
liberal; por outro lado, o desenvolvimento industrial, igualmente "pupila, interdita, excluída, subordinada,
que reclamava a participação das mulheres e, com acessória, tal como hoje" (A. M. Mozzoni, I socialisti freqüência, das crianças, veio mostrar a elasticidade de e l'emancipazione della donna, in La liberazione della conceitos e fórmulas como os da missão doméstica da donna, ao cuidado de F. Pieroni Bortolotti, 1975). A mulher. Conforme pôs de relevo J. Stuart Mill (On the discrepância quanto ao modo diverso de entender as
subjection of women, 1869), "a incapacidade das exigências e as formas específicas da luta feminina, o
mulheres era o único exemplo em que as leis marcam radical e o socialista, surgiu improvisadamente em
um indivíduo desde o nascimento e decretam que ele torno às leis de tutela, votadas em 1902. Defendidas
não será nunca, por toda a sua vida, autorizado a por Kuliscioff, foram, ao invés, criticadas por
concorrer a determinadas posições" (p. 40). As Mozzoni, que receava que, em virtude de ser
interdições legais por via do sexo contrastavam com "tutelado", o trabalho feminino fosse reduzido e
os princípios da liberdade e da livre concorrência. Mill limitado ao trabalho doméstico. retomava o princípio de Fourier, segundo o qual o A campanha de emancipação, da qual participaram
grau de elevação ou rebaixamento da mulher constitui numerosos intelectuais, não teve os resultados
o critério mais seguro para avaliarmos a civilização de esperados. As "sufragistas", escarnecidas pela um povo; propunha o fim da desigualdade dos direitos burguesia conservadora, tidas por burguesas pelo
na família, a admissão das mulheres a todas as partido socialista e por perigosas pelos católicos (que
funções e ocupações, a participação nas eleições e uma se mantiveram fiéis a Gioberti e Rosmini), ficaram
melhor instrução. politicamente isoladas. A reforma eleitoral de Giolitti
Na Itália, A. M. Mozzoni comandou, de 1864 a estendeu, em 1912, o chamado sufrágio "universal" aos
1920, uma longa peleja pela inserção da questão próprios analfabetos, mas excluiu as mulheres, os
feminina em todos os problemas que a Itália pós- menores, os condenados e os dementes. Vencido
unitária devia enfrentar (reforma do Código Civil, politicamente, o movimento também o foi no plano
reforma da lei eleitoral). De formação histórico e cultural.
FEMINISMO 489
Quando, em 1945, após duas guerras e o fascismo, as aprofundam-se os problemas específicos da condição
mulheres italianas conseguiram o voto, todo o feminina, desde a sexualidade à família e ao trabalho.
precioso material de reflexão e propostas acumulado O movimento se consolida, empenhando-se em torno
em tantos anos de luta tinha sido esquecido. Para o de certos objetivos, como o divórcio e o aborto (Lei
Feminismo o mito de Sísifo era mais atual do que 194, de 1978). nunca: mais uma vez era preciso começar tudo de Com o surgimento da crise econômica e do debate
novo. acerca da violência e do terrorismo, o Feminismo, um
V. O FEMINISMO CONTEMPORÂNEO. — No momento movimento pacifista, parece atravessar, desde 1977,
um momento de crise, sendo difícil prever sua futura
em que, na Europa, as mulheres conquistavam o
evolução. Os elementos que haviam determinado o
direito ao voto e pareciam cair as proibições legais
seu desenvolvimento, a falta de organização, a
mais notáveis, numa obra que não alcançou no carência de líderes e a pluralidade de posições, se momento grande ressonância, Le deuxième sexe
revelaram incapazes de lhe assegurar a permanência
(1949), Simone de Beauvoir mostrava que a opressão
num período de graves crises.
feminina tinha raízes muito profundas. Na história, na
Contudo, é preciso observar que as idéias
visão do mundo, o homem estabelece uma relação
feministas penetraram, embora de forma reduzida, em
direta com a natureza e a cultura, situando-se como
alguns partidos, nos sindicatos, nos mass media e, em
sujeito, enquanto que a mulher se posiciona com
geral, na mulher politizada e inserida nas instituições.
relação ao homem, sendo considerada como o "outro".
Nos Estados Unidos e nas principais universidades
Entretanto, verificava-se um fenômeno inteiramente
européias (exceto na Itália), afirma-se o valor
novo na história: entre 1950 e 1960, um número
científico de novos setores de pesquisa conhecidos
sempre crescente de mulheres tinha acesso à instrução
como Women's Studies e, recentemente, fevereiro de
superior e introduzia-se no mundo da produção e do
1981, o próprio Parlamento europeu votou uma
trabalho, se bem que em trabalhos inerentes ao
resolução sobre a situação da mulher nos diversos
desempenho feminino e sub-remunerados. Mas as
países da Comunidade, resolução que, embora fruto de
características da opressão da mulher haviam apenas
um compromisso entre os partidos, demonstra o
mudado. As obras das teóricas americanas da década
caminho andado pelas idéias feministas, mas, ao
de 60 encontraram uma imediata resposta entre o vasto
mesmo tempo, o muito que ainda resta por fazer.
público feminino que, mediante a sua análise, chegou a
compreender as razões do próprio mal-estar e
insatisfação Em A mística da feminilidade (1963), BIBLIOGRAFIA. - L. ABENSOUR, Histoire générale Betty Friedan explicou as novas características da du féminisme (1921), Slatkine Repriots, Genève 1979; opressão da mulher na sociedade industrial, o contraste G. ARRIGHI, La storia del femminismo, Razzolini, que existe entre a sua capacidade e os cargos Firenze 1911; M. ALBISTOUR e D. ARMOGATHE, exercidos, entre os valores masculinos predominantes Histoire du féminisme fronçais, Ed. des femmes. Paris e uma mística persistente da feminilidade, que nega a 1977; M. BEARD. Women as force in history (1946), necessidade fundamental do desenvolvimento da Colher Macmillan, New York-London 1973; S. DE personalidade, necessidade que não se exaure no papel BEAUVOIR, Il secando sesso (1949), Il Saggiatore, biológico. Em casa, a mulher realiza um trabalho não Milano 1961; A. BEBEL, Il socialismo e la donna retribuído, alienante em sua repetitoriedade, e (1889), Kantorowicz, Milano 1892; R. CALIFRONIA, desempenha, como compradora, uma importante Breve difesa del diritti della donna, s. e., Assisi, s. d. função na sociedade capitalista. Foi assim que (1974); G. CAPPABIANCA e L. CAPEZZUOLI, Storia começou um movimento que cresce, numa ação de dell'emancipazione femminile, Editori Riuniti, Roma agregações e separações, e que alimenta, sendo em 1964; G. CONTI ODORISIO, Donna e società nel retorno por ela alimentada, uma produção teórica seicento, Bulzoni, Roma 1979 e Storia dell'idea original, cuja amplitude de temas tratados é deveras femminista in Italia, ERI, Torino 1980; E. GARIN, La surpreendente. Kate Millet descobre no patriarcado a questione femminile nelle varie correnti ideologiche, em
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sesso (1970), Mondadori, Milano 1971; J. MITCHELL, La condizione della donna (1966), Einaudi, Torino 1972; J. STUART MILL, La servitù delle donne (1869), Partisan, Roma 1971; La liberazione 490 FEUDALISMO
delia donna. ao cuidado de F. PIERONI BORTOLOTTI, mostraram seu sentido muito particular somente à luz
Mazzotta, Milano 1975; M. WOLLSTONECRAFT, I diritti da experiência germânica e assumiram, dessa forma,
delle donne. (1792), Editori Riuniti, Roma 1977. um valor original, de acordo com a experiência
particular e substancialmente novíssima do
[GINEVRA CONTI ODORISIO] Feudalismo franco-carolíngio.
II. A PRÁXIS DA FIDELITAS GERMÂNICA. — O
Feudalismo. fenômeno do Feudalismo parece nascer daquela antiga
práxis dos povos germânicos — povos por muito
tempo nômades e, portanto, guerreiros — de fazer
I. QUESTÕES GERAIS. — O sistema feudal na sua entrar no séquito (trustis) do rei adolescentes muito
maturidade, outra coisa não é senão o produto da jovens, para que se aperfeiçoassem no uso das armas e
tentativa régia, parcialmente conseguida, de substituir ganhassem dessa forma honras e riquezas. De fato, o
uma nova classe dirigente de origem monárquica pelas rei germânico não era, na origem, senão um chefe
velhas castas dirigentes, formadas tradicionalmente, político ocasional; na realidade, era apenas o chefe
pelos diversos grupos étnicos populares germânicos. militar da natio germânica, eleito a cada vez pelo Só que a capacidade insuspeita desta nova classe se povo para guiá-lo nas diversas expedições. Assim, o
auto-reproduzir fez com que os monarcas perdessem rei era um pouco (e somente) o símbolo e o modelo
quase completamente o controle do sistema: portanto, das virtudes militares de seu povo. Um mestre, quase
concebido como realidade substancialmente diríamos, de escola de armas, junto de quem os jovens centralizada, o ordenamento feudal assumiu, em das famílias mais nobres iam aprender. breve, as características do mais acentuado
Embora um tanto convencional, esse esquema
fracionismo. E a história do Ocidente ficou
interpretativo — baseado em algumas famosas
irremediavelmente marcada.
passagens de Tácito — permite facilmente reconstruir
Estas observações permitem imediatamente duas as origens daquela "comitiva" régia que vemos agir
constatações de métodos: a primeira é que, por em idade histórica, na época das migrações dos povos
feudalismo, nos referimos aqui exclusivamente àquele nos territórios do Império Romano, quando o instituto
fenômeno tipicamente europeu-ocidental, que viu sua monárquico se estabilizara como forma continuativa de
aurora concreta na época carolíngia (séculos VIII-IX) e guia político-militar das nationes germânicas. As conheceu seu definitivo ocaso — como sistema de figuras do vassus franco e do gasindio longobardo Governo local — na época da Revolução Francesa: estão bem documentadas pelas mais antigas fontes
isto é, àquele fenômeno que, nascido entre os francos, literárias e jurídicas existentes. na própria França viu consagrada sua condenação. As Mais tais fideles, ligados ao rei pelo vínculo de uma outras formas ou sistemas feudais que, em diferentes consaguinitas quase sagrada, porque decorrente do civilizações e em épocas diversas, se manifestaram (o
comum risco e solidariedade em batalha, perante a
chamado Feudalismo "chinês", "indiano", "otomano",
morte, originariamente não eram titulares de nenhum
etc.) não são, a nosso ver, senão sociologicamente — de poder particular ou função específica, embora sua
acordo com a tentativa de Max Weber — ligação com o chefe do povo lhes assegurasse uma aproximáveis ao Feudalismo ocidental; mas,
posição honorífica notavelmente influente. Além disso,
historicamente, os antecedentes e a evolução não
o povo continuava a ser governado segundo o
podem ser comparados. tradicional esquema familiar-gentilício, segundo o
A segunda constatação de método é que um tipo de qual os chefes de cada grupo (Fara, Sippe, etc.) eram
avaliação como o indicado aqui faz derivar o sistema definidos, não com base na sua relação com o rei, mas
feudal substancialmente da realidade social e política, somente em decorrência de seus laços de influência,
dos níveis culturais e das crises do mundo germânico prestígio ou predomínio perante o próprio povo. De
da Alta Idade Média. Fossem quais fossem, em época modo que, quando esse povo se fixava em sedes
antiga ou tardo-antiga, os fatores determinados ou as estáveis, em conseqüência das conquistas no Oeste ou
técnicas de Governo que podem ser considerados no Sul da Europa, o mesmo mecanismo definia a
como precedentes do Feudalismo (a immunitas, por hierarquia provincial e territorial. O chefe do grupo,
exemplo), parece-nos dever concluir que aqueles eleito pelo grupo, se tornava automaticamente chefe
fenômenos tardo-romanos não podem ser vistos, no do distrito. máximo, senão como uma indicação de tendência. Mas, Por outra parte, porém, a evolução do instituto
na realidade — sem fazer arqueologia jurídica —, tais monárquico, comportando uma acentuação de institutos, práxis ou indicações
FEUDALISMO 491
funções, fez com que, para os nascentes ofícios do originariamente dos bens do fisco ou das Igrejas,
palatium régio, fossem natural e predominantemente território concedido, não como propriedade, mas
chamados os fideles da "comitiva" régia, que como precarium (isto é, ad nutum regis, através de começaram assim a desempenhar um poder político um instrumento patrimonial unilateral e concessão
concreto, não porém como vassi, mas somente como graciosa revogável a qualquer momento), de cuja
funcionários, embaixadores e ministros do rei. Na exploração agrícola o vassus tinha que tirar os meios ausência de qualquer autêntico conceito de Estado, para se manter, armar-se e zelar pelos interesses do
pareceu natural aos novos reis germânicos do Ocidente soberano na região circunstante. apoiarem-se preferentemente em pessoas que tinham A relação vassálica se completou, então, através do
ligado os próprios destinos à sua pessoa, física e benefício, com um conteúdo concreto (embora ainda
individual. Os fideles do rei foram, portanto, chamados com valor obrigatório e não real), constituído, em
a desempenhar funções centrais e também provinciais, geral, por aquele bem que, numa economia
em concorrência, porém, e em condições de fraqueza predominantemente natural como a da época
em relação às estruturas e às formas substancialmente carolíngia, não podia senão apoiar-se na terra: a
autárquicas do poder político territorial. concepção do beneficium-feudum se tornou o fator
Nesta permanente diarquia e conflito de poderes característico do Feudalismo franco, primeiro, e
entre o rei, no centro, e os diversos grupos familiares ocidental, depois, tanto que aquilo que era o simples
e tribais, nas províncias, residia — como é sabido — objeto do negócio dará significativamente seu nome a
a causa principal de todas as fraquezas das toda relação (relação feudal). A necessidade de criar
fragilíssimas construções políticas criadas pelos com o vassus enfeudado um válido contrapeso à germânicos no Ocidente (agravadas por outras tensões: tradicional organização territorial trouxe, como
as havidas com os grupos românicos mais numerosos, conseqüência, que o mesmo vassus fosse isento das o conflito religioso entre arianismo e catolicismo, prestações públicas que eram geridas nas províncias
etc). Por conseqüência, estas estruturas, ou se pelos poderes tradicionais: desta forma, o vassus não arruinaram uma após outra devido aos ataques pagará ao comes nenhum imposto, não se enquadrará externos (visigodos, longobardos, borgonheses, na repartição militar do território local, não estará vândalos, etc), ou ficaram largamente paralisadas (o sujeito à jurisdição do magistrado local: em
exemplo maior dessa paralisia é o conhecidíssimo dos conseqüência de todos estes privilégios, o vassus reis francc-merovíngios: os chamados rois fainéants). estará subordinado direta e somente ao rei.
Uma ampla ramificação feudal deste tipo permitiu
III. O ENFEUDAMENTO DOS VASSI RÉGIOS ao rei um controle muito maior sobre a realidade tribal
COMO INSTRUMENTOS DE GOVERNO. — Foi da província tradicional, assegurando-lhe uma fidelitas exatamente a necessidade de reforçar o poder régio geral bem maior. entre os francos que levou à utilização sistemática da A função militar do vassus é certamente primária, estrutura vassálica tradicional na área política; a mas não é exclusiva. Isto permite rejeitar a famosa
mudança da dinastia, isto é, a substituição dos tese de Brunner sobre a difusão do feudo franco como
merovíngios pelos carolíngios, induziu estes últimos — relacionada com as necessidades militares em que se
desde o tempo de Pepino o Velho e de Carlos Martelo encontrou Carlos Martelo, na época da ameaça árabe
(portanto, antes ainda da ascensão ao trono dos contra a França centro-meridional; na realidade o
grandes mordomos do reino) — a procurarem novos processo de transformação do vassus em feudatário laços diretos com o mundo popular, ligado aos começou muito- tempo antes, por motivos políticos
esquemas tradicionais (e à própria dinastia bem precisos, embora as necessidades militares tradicional). Não podendo ampliar, por motivos criadas pela invasão árabe certamente favorecessem a
objetivos, para além de um certo limite, o poder sistemática difusão do instituto. baseado na relação de sangue e de família — a única Com base em todas as fontes conhecidas, o
relação sólida e verdadeira no mundo germânico —, instituto feudal, como negócio jurídico, pode ser
foi preciso recorrer à utilização daquela relação definido como uma espécie de contrato-desigual,
particular de affectio, de familiaritas, criada pelo privado, mas com crescente relevância pública. O
vínculo vassálico. vassus jura fidelitas ao seu dominus, que lhe promete,
Dessa forma, essa relação se enriqueceu e se por sua vez, a própria tuitio (defesa); a cerimônia é
transformou: para ter fideles nas diversas regiões, para freqüentemente acompanhada de palavras sagradas,
enraizá-los na terra, o rei concedia em beneficium ao do abraço e do beijo. Logo após, o dominus transmite seu vassalo uma porção de terra tirada ao seu novo homo a
492 FEUDALISMO
titularidade — cujo conteúdo foi se transformando em O Estado feudal permanecia intacto, mas, de fato, o
possessio e em plenum dominium sobre os territórios soberano tinha-se afastado progressivamente dos
doados com as respectivas imunidades. Nesta relação, habitantes do Estado (não se pode obviamente falar
a importância beneficiária cresceu cada vez mais em de súditos). Isto parece claro, quando um soberano
relação à importância sacramentai, de tal maneira que, como Carlos o Calvo teve de aderir ao capitular de
na Itália, ainda em época muito remota, a concessão Kiersy (Capitulare Carisiacum), no ano de 877, no do feudum precedia, ao invés de seguir, o qual, para além das distinções e limitações formais, a
sacramentum fidelitatis; isto é, a fidelitas (relação praxe consuetudinária feudal baseou a sucessão
ético-espiritual) estava também externamente hereditária quanto aos grandes benefícios. A fidelitas subordinada à concessão do feudo (relação do herdeiro do feudatário defunto — herdeiro patrimonial). identificado segundo as estritas regras do direito de
família — era imposta ao soberano como válida para
IV. AS REAÇÕES PARTICULARES: A FRAGMENTAÇÃO a sucessão no vínculo feudal e no gozo da função
DA SOCIEDADE. — Nestas bases, o complexo e híbrido pública; a relação fiduciária bilateral, em suma, era
instituto feudal se difundiu por toda a Europa do destruída pela necessidade dos feudatários em
século IX, levado pela conquista franca, e assumiu assegurar aos próprios descendentes a sucessão no
tanto maior importância quanto maiores eram as cargo público. O beneficium e o seu usufruto eram já exigências do novo imperador franco-germânico em mais importantes do que a fidelitas, causa originária e controlar realidades estrangeiras e populações fundamental do negócio. ciumentas da própria autonomia. Mas as limitações da É notório como este processo se desenvolveu e
aplicação de esquemas privados para governar chegou à Itália — sede de uma experiência feudal
realidades públicas, mesmo no "Estado de associação muito mais particular — para assegurar a sucessão
individual", que foi a máxima experiência política hereditária nos próprios benefícios menores (Edictum germânica, segundo Mitteis, apareceram logo que a de beneficiis, de Conrado II, 1037), uma decisão pela própria difusão do sistema . feudal induziu ou obrigou qual a monarquia conseguiu, de alguma forma,
o rei a conferir, a título feudal, os grandes cargos revidar, à grande aristocracia feudal, o golpe sofrido
centrais ou o Governo das repartições provinciais, isto um século e meio antes, mesmo que esse ato,
é, transformando o officium em beneficium. Desse aprofundando a desagregação do sistema feudal
momento em diante, que teoricamente foi o de italiano, selasse sua fragmentação que devia perdurar
máximo esplendor do Feudalismo monárquico, por séculos, identificando-se com a atomística
porque permitia a substituição integral de todos os experiência comunal. É muito fácil, de fato,
velhos grupos dirigentes locais e provinciais por vassi identificar no Edito de Milão de 1037 o antecedente
de origem régia, o sistema feudal começou a da sucessiva experiência das comunas urbanas, como
funcionar contra a centralização monárquica: de nova forma de organização da pequena e média
instrumento nas mãos do rei, o Feudalismo se feudalidade italiana. transformou em instrumento fundamental nas mãos
Nos lugares onde as terras, que não conheceram
das novas aristocracias locais.
essa fragmentação estabilizada e definitiva,
De fato, à parte de que, muito freqüentemente, o conseguiram, em presença de outros elementos,
vassalo régio investido dos máximos poderes feudais recuperar mais rapidamente seu tecido nacional
(condado, marquesado, missado, etc.) não era outra unitário através do reaparecimento do instituto
coisa senão o novo expoente dos velhos poderes
monárquico, a experiência histórica italiana era
locais de estirpe ou de família, o próprio dado do condenada, pela pulverização do sistema feudal como
sucesso do instituto induziu a grande feudalidade a instrumento de Governo local, a uma larga e secular
utilizá-lo em seu favor, construindo com os mesmos pulverização política. meios à sua disposição uma hierarquia feudal
substancialmente idêntica àquela que o soberano tinha
difundido em todo o Estado. Em decorrência disso,
devido à fraqueza crescente e natural da relação BIBLIOGRAFIA.- M. BLOCH, La società feudale hierárquica dominus-vassus, criara-se uma parede (1939-1949), Einaudi, Torino 1962; R. BOLTROUCHE, impenetrável ao poder soberano nas províncias que Signoria e feudalesismo - Ordinamento curtense e iniciavam aquela progressiva autocefalização e clientele vassalatiche (1968), Il Mulino, Bologna 1971; fragmentação, que constituem o dado mais R. BRANCOLI BUSDRAGHI, La formazione storica del característico da sociedade feudal no seu apogeu feudo lombardo come diritto reale. Quaderni di "Studi (séculos X X I I ) . Senesi", II. Giuffrè. Milano 1965; K. LEHMANN. Das
langobardische Lehenrecht.
FILOSOFIA DA POLÍTICA 493
Dietrich, Göttingen 1896; H. MITTEIS, Le strutture com quais fins? Era para recomendar ou propugnar
giuridiche e politiche dell'età feudale (1933), Morcelliana, um tipo ideal e perfeito de relações políticas e
Brescia 1962. estatais, ou simplesmente para indicar remédios,
correções, ajustamentos à realidade política existente?
[PAOLO COLLIVA] Chegamos, assim, à última questão: estes valores e
estes ideais, que inspiraram os pensadores políticos
do passado e que através da sua obra se demonstraram
Filosofia da Política. prenhes de conseqüências, a ponto de provocar às
vezes revoluções ou mudanças radicais nos
I. C acontecimentos humanos, que significado assumem ONCEITO DE FILOSOFIA DA POLÍTICA . — Estabelecer
hoje para nós, como podemos ou devemos julgá-los?
com clareza e precisão o que se entende ou o que se
deva entender por Filosofia da política (ou Filosofia É claro que esta breve lista não circunscreve e não
política, como prefere o uso comum) não é tarefa esgota todos os questionamentos e as perplexidades
fácil. É tão grande a variedade de opiniões a respeito, que a leitura dos "políticos clássicos" suscita na nossa
que o melhor caminho a seguir parece ser o de propor, mente moderna. Ela fornece, porém, uma abordagem
como ponto de partida, não uma definição a priori ou que constitui um primeiro passo para entender e
estipulativa, mas uma definição do tipo que hoje se definir a natureza ou, se se prefere, as características
chamaria ostensiva, isto é, deduzida do trabalho marcantes da disciplina que se denomina Filosofia
realizado pelos historiadores do pensamento político, política. Determinar a essência própria do fenômeno
através do material coletado por eles, partindo dos político e os elementos que o distinguem no campo
casos particulares para chegar ao problema geral, o mais vasto e complexo dos fenômenos sociais; avaliar
problema da existência e da própria possibilidade de criticamente o método seguido cada vez pelos
uma reflexão filosófica sobre o fenômeno político. estudiosos que se ocuparam desses fenômenos; avaliar
as razões por eles propostas para explicar essas
Entre as muitas perguntas que se apresentam à
nossa mente quando nos colocamos nesta perspectiva, relações; examinar, enfim (nem que seja só por
interesse histórico), os vários modelos ideais de uma
algumas são de caráter eminentemente crítico,
sociedade perfeita que, de tempo em tempo,
atingindo e colocando em questionamento os próprios
inspiraram e, às vezes, obsecaram as mentes de
cânones da historiografia, os critérios que os
grandes pensadores (ou como tais considerados pelo
historiadores das doutrinas políticas seguiram para
consenso comum): estas quatro tarefas correspondem,
delimitar o campo de sua pesquisa e para expor e
de fato (embora em progressão inversa), à
discutir as idéias e os autores que eles cada vez
analisaram. Uma pergunta preliminar poderia ser esta: classificação que Norberto Bobbio propôs
recentemente sobre os vários modos em que a
com base em que premissas, explícitas ou implícitas,
Filosofia política foi e pode ser entendida — como
são selecionadas estas idéias e tornadas objeto de
descrição do Estado perfeito, como procura do seu
reconstrução e de história? Por que — em termos mais
simples — alguns escritores são considerados fundamento, como identificação da "categoria do
político" e. enfim, como metodologia das ciências
"políticos" e julgados merecedores de ser inseridos nesta
políticas em geral. A cada uma destas formas de
"história", e outros excluídos ou catalogados sob
entendê-la corresponderia um significado diferente da
outros rótulos, como autores de teorias econômicas ou
mais genericamente sociais? E, entre estas três grandes expressão Filosofia política. Não uma mas muitas
seriam, portanto, as definições que se poderiam dar
categorias propostas, que relações exatamente
desta disciplina, excetuado o caso em que, para
intercorrem, em que medida as idéias políticas se
declarar legítima uma delas, se declarem ou
diferenciam propriamente das outras duas? Quem são,
em substância, os escritores "políticos", quais as razões demonstrem ilegítimas as demais. e as características que nos autorizam a chamá-los
II. FILOSOFIA POLÍTICA COMO DETERMINAÇÃO DO
como tais? A esta primeira pergunta é quase natural ESTADO PERFEITO . — Apesar da conclusão um pouco
fazer seguir uma outra: desde o momento em que
saibamos quem são, que faziam ou que pretendiam desanimadora a que leva, a classificação aqui
sumariamente esboçada pode-se mostrar muito útil
fazer estes escritores políticos? Propunham-se somente
também para os nossos fins e parece certamente
a estudar, a analisar e a descrever o fenômeno, ou
confirmada pela investigação histórica. De fato, não é
também a avaliá-lo? E se o avaliavam, com base em
que escala de valores o faziam e difícil exemplificar historicamente, isto é, associar a
nomes precisos as quatro formas de filosofar sobre a
política que
494 FILOSOFIA DA POLÍTICA
especificamos. Começando pela primeira forma — a agrupados os escritores políticos que, ao invés de
Filosofia política considerada como procura de optimo teorizarem um modelo de Estado ideal, se propuseram
statu reipublicae —, o exemplo mais antigo, mais a analisar o fundamento das relações políticas, as
notório e clamoroso é e continua sendo a República razões do vínculo de dependência que elas
platônica, modelo ideal de Estado, construído comportam, em suma, a determinar o porquê do
mediante um procedimento lógico-abstrato e dedutivo, Estado, os motivos que explicam a obediência que os
com tranqüila indiferença perante a possibilidade de homens prestam ou negam ao poder. O objeto da
sua realização efetiva. Na categoria de filósofos investigação não é mais o Estado perfeito, mas aquilo
políticos de tipo platônico, podem ser agrupados que — com um termo caído em desuso mas
todos os utopistas, descritores e teóricos de modelos recentemente restaurado — é chamado sua
de sociedade perfeita: modelos em que o historiador "legitimação": problema que junta pensadores antigos
moderno reconhece, com sua visão crítica, reflexos, às e modernos, apesar da grande variedade de soluções
vezes dolorosos, de experiências concretas, mas que que dele por vezes foram apresentadas e que Max
expressam todos igualmente a certeza de encontrar Weber procurou classificar com sua merecidamente
uma solução definitiva do problema político, solução famosa tipologia das três legitimidades: a tradicional, a
baseada num valor supremo e absoluto de justiça. Por carismática e a racional. Que a legitimação do poder
esta razão, podem também ser incluídos nesta seja procurada na sua origem divina ou numa
categoria escritores menos radicais do que Platão e do determinação humana consciente, no culto do passado
que os utopistas, dispostos (como Cícero ou Tomás de ou num cálculo utilitário, no direito do sangue ou no
Aquino) a reconhecer a distância entre teoria e consenso popular, não tem, a este respeito, particular
prática, mas não a renunciar a indicar o ordo iustitiae importância: o que conta é o recurso a um determinado
como a condição indispensável para realizar um princípio (ou a um conjunto de princípios) — a uma
ordenamento social e político perfeito. Poderiam, particular "ideologia", como hoje se diz — para
enfim, ser incluídos nesta categoria autores que, justificar, exigir ou contestar o respeito devido ao
embora rejeitando desdenhosamente a pecha de detentor ou aos detentores do poder. Neste sentido,
utopismo, julgam todavia possível apontar a meta final podem ser designadas como ideologias, quer a teoria
da longa luta da humanidade como libertação das patriarcal de Filmer, quer a do contrato social de
cadeias da exploração e da opressão: pense-se na Hobbes, Locke e Rousseau, ao último dos quais se
"passagem do reino da necessidade para o da deve até o de ter sido o primeiro a distinguir
liberdade" preconizada pelos marxistas, ou nas muitas claramente, no início da sua obra principal, entre a
formas de "contestação" que presenciamos em nossos existência do poder e a legitimação. Mas — pergunta-
dias. Se a característica comum dos teóricos do se — pelo fato dessas teorias se fundamentarem numa
Estado perfeito era a de crerem possuir um critério de premissa de valor, não são elas uma simples
valor absoluto, a característica comum dos subespécie das relativas ao Estado perfeito, ao Estado
contestadores modernos é a convicção de possuírem ideal que, afinal, também são ideologias, só que mais
um critério de desvalor seguro, que lhes permita a ampla e perfeitamente desenvolvidas? A diferença é
condenação inapelável da ordem existente, deixando sutil, mas é importante, porque as teorias da
indeterminada a criação de uma nova ordem, imune legitimação permitem uma latitude muito maior de
dos defeitos passados. É supérfluo acrescentar que interpretação e de aplicação do que as do Estado
esta última observação é apenas um paradoxo (como é perfeito; limitam-se de costume a indicar a que
paradoxal o termo "utopias às avessas", com que condições o poder deve. se submeter para ser (ou
Bobbio designa esta atitude de pensamento), e que, merecer ser) aceito como válido, deixando
com exceção de algum fiel retardatário da "grande indeterminados os modos pelos quais essas condições
tradição", como Hayek ou Strauss, ou de algum profeta podem ser de fato realizadas: pense-se na variedade e
messiânico de uma nova condição humana, poucos na multiplicidade dos sistemas políticos hoje
hoje ousariam atribuir à Filosofia política a tarefa de justificados em nome do "princípio democrático". Nem
elaborar uma teoria do Estado perfeito. são raros os casos em que princípios de legitimidade
muito diferentes convivem lado a lado, sobrepondo-se
III. FILOSOFIA POLÍTICA COMO PROCURA DO CRITÉRIO DE uns aos outros, sem que os homens percebam
LEGITIMIDADE DO PODER. — Muito menos ambiciosa e plenamente sua diversa proveniência e sua possível
mais rica e complexa é a segunda categoria na qual, incompatibilidade: pense-se na fórmula "por graça de
como disse, podem ser Deus e vontade da Nação'', até ontem ainda aceita na
Itália como princípio de legitimação da monarquia
FILOSOFIA DA POLÍTICA 495
constitucional. Ideologia, ou melhor, teoria da políticos mais recentes, como Mosca e Pareto, para os
ideologia, sob este ponto de vista é a Filosofia política: quais a essência do fenômeno político consiste na
no mesmo nome já está contida a sua definição, mas imposição do poder por parte de uma minoria sobre a
também para muitos a sua condenação. maioria; nem se pode deixar de mencionar, neste
contexto, uma outra teoria ainda mais recente, que
IV. FILOSOFIA POLÍTICA COMO IDENTIFICAÇÃO DA afirma identificar a categoria do político na relação
CATEGORIA DO POLÍTICO. — A terceira possível acepção amigo-inimigo, na solidariedade do grupo perante o da Filosofia política é a determinação do conceito geral desafio ou a ameaça de um adversário: teoria
de política, daquilo que caracteriza o fenômeno formulada uns trinta anos atrás por um escritor nazista político e o torna tal, distinguindo-o e diferenciando-o (Carl Schmitt) e retomada recentemente por dois dos outros fenômenos sociais. Isto nos lembra logo filósofos políticos, o francês Julien Freund e o italiano
Croce que, num famoso ensaio, punha o início da Sergio Cotta. Também neste caso, à Filosofia política é
Filosofia política em sentido próprio na descoberta da atribuída a função de determinar as características
"autonomia da política", autonomia que significa diferenciais do fenômeno político, e este é reduzido, identificação das características próprias da atividade em última instância, a uma relação de forças. política e das leis que a governam, leis que são
diferentes (e, às vezes, opostas) das próprias de outras V. FILOSOFIA POLÍTICA COMO METODOLOGIA DAS atividades humanas, e especialmente das da moral. CIÊNCIAS POLÍTICAS. — De acordo com as tendências Segundo Croce, o autor desta descoberta teria sido dos filósofos mais modernos e experimentados, esta
Nicolau Maquiavel, e, devido à grande influência do quarta acepção é a forma mais correta de entender a
ensino crociano, esta é certamente a acepção Filosofia política: isto é, de entendê-la como simples predominante desta disciplina na Itália. metodologia, como reflexão crítica sobre o discurso
Mas é também necessário destacar os limites e político, quer dos modernos cientistas, quer dos
(chamando as coisas pelo seu nome) a parcialidade da teóricos políticos do passado. tese crociana, que conduz, antes de tudo (conforme as A Filosofia política aparece aqui como uma
próprias palavras de Croce), a uma paradoxal pesquisa de segundo grau, que visa analisar,
deformação histórica. Quem ousaria hoje, seguindo esclarecer e classificar a linguagem, os argumentos e
Croce, pôr a origem da história da Filosofia política em as finalidades de todos aqueles que fizeram ou fazem
Maquiavel, procurá-la nos enfadonhos escritos dos da política o objeto de discussão e de estudo. Neste
teóricos da Razão de Estado, continuá-la em Vico e sentido, pode-se falar de Filosofia política como de
Galiani, excluindo Rousseau e concedendo somente uma "metaciência", isto é, de uma verificação
um modesto lugar a Hegel e Marx? Para fazer justiça rigorosa dos procedimentos com os quais é conduzida
e reconhecer como filósofos políticos Aristóteles ou a pesquisa da ciência política empírica; em termos
Marsílio de Pádua, Jean Bodin ou John Stuart Mill, é gerais, pode-se atribuir à Filosofia política a tarefa de
também necessário admitir que filosofaram sobre a identificar os componentes do pensamento político
política outros autores de tipo não maquiavélico, tradicional, pensamento que se revela à análise como
autores que admitiam ou explicitamente afirmavam as metodologicamente "impuro", resultando na maioria
estritas relações de interdependência que ligam a dos casos da confluência de três propósitos muito
política aos múltiplos aspectos da experiência prática; diferentes: a) a assunção de conceitos nem sempre
também eles tinham, sem dúvida, uma noção, embora criticamente acertados; b) uma descrição considerada
confusa, do que seja política, já que não hesitaram em objetiva e "avaliativa" de situações fatuais e das leis
descrever suas características, nem em definir seus que regulam seu curso, e c) uma indicação dos fins
confins. É preciso também considerar a necessidade de para os quais tende ou deveria tender a atividade
esclarecer desde o início, ao tratar de qualquer política, fins que por sua vez são usados como medida
pensador político, o conceito que esse autor tem de para avaliar e julgar a realidade política existente.
política, tarefa que é própria do estudioso; e é preciso Entendida somente nesta forma, é possível que a
também ter em vista que o particular conceito que Filosofia política venha a ser justificada e aceita por
Maquiavel dela formava constitui, sem dúvida, uma alguns filósofos modernos, mas talvez com a
ideologia (uma ideologia, aliás, muito antiga): a condição de que sejam eliminadas, como ilegítimas
ideologia da força como elemento constitutivo e ou privadas de significado, as três formas anteriores,
legitimador do Estado. Não é, portanto, sem motivo mais ou menos tradicionais, em que esta, como vimos,
que precisamente como adeptos de uma tal ideologia pôde ser concebida. Eliminadas as primeiras duas
tenham sido denominados "maquiavelistas" alguns
teóricos
496 FILOSOFIA DA POLÍTICA
acepções, ou, mais exatamente, reunidas sob o nome lembrar o que dissemos sobre a dificuldade de definir