Dicionário de Política (Volume 1)
momento e uma determinação específica do documentação…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
CIÊNCIA POLÍTICA 165
momento e uma determinação específica do documentação histórica, da qual se valeram estudiosos desenvolvimento das ciências sociais, que caracterizou políticos do passado, desde Aristóteles até Ma-
justamente o progresso científico do século XIX e teve quiavel, de Montesquieu até Mosca, do emprego
suas expressões mais relevantes e influentes no sempre mais freqüente da observação direta ou da
positivismo de Saint-Simon e Comte, no marxismo e pesquisa de campo, através de técnicas tiradas da
no darwinismo social. Enquanto momento e sociologia, da investigação por sondagem ou por determinação específica do desenvolvimento das entrevista. Isto foi possível em conseqüência da
ciências sociais, o nascimento da Ciência política aproximação comportamental. Esta transformação
moderna se processa através do distanciamento dos teve como resultado um enorme aumento de dados à
estudos políticos da matriz tradicional do direito disposição do pesquisador, que exigiu por sua vez,
(particularmente do direito público). Não devemos para a sua padronização, e, portanto, para uma
esquecer que a filosofia política moderna, a partir de utilização mais profícua, o uso sempre crescente de
Hobbes até Kant, apresenta-se como parte, não mais métodos quantitativos. A aplicação cada vez mais
do que uma parte, do desenvolvimento do direito extensiva dos métodos quantitativos nas ciências
natural, no qual o Estado aparece como uma entidade sociais, repercutindo-se na Ciência política, embora
jurídica, criada através de um ato jurídico (como o por vezes depreciada e na prática nem sempre
contrato ou os contratos, que constituem o fundamento proveitosa, aparece inevitavelmente pela de sua legitimidade), e criador ele mesmo, uma vez transformação acontecida no objeto da pesquisa; isto,
instituído de direito (o direito positivo). Este porém, não significa que seja, ou que chegue a ser
distanciamento da matriz jurídica é evidente e exclusiva e exaustiva. declarado nos dois autores, que mais do que quaisquer
outros, podem ser considerados, a meu ver, como III. SUAS CONDIÇÕES DE DESENVOLVIMENTO. — Em iniciadores da Ciência política moderna: Ludwig comparação aos estudos políticos do passado, o estado
Gumplowicz, cuja obra Die soziologische Staatsidee é presente da Ciência política caracteriza-se pela
de 1892 e Gaetano Mosca, que publicou a primeira disponibilidade de um número de dados edição dos Elementi di scienza política, em 1896. incomparavelmente maior do que aquele de que
No nosso século, o desenvolvimento da Ciência poderiam dispor os estudiosos do passado. Além da
política acompanha de perto a sorte das ciências mudança da aproximação e da introdução de novas
sociais e sofre influência, seja no que se refere ao técnicas de invenção, o crescente número de dados
modo de aproximar-se da análise do fenômeno político depende também da gradual extensão dos interesses
políticos fora da área das nações européias ou de
(approach), seja no que se refere ao uso de certas técnicas de pesquisa. O país no qual a Ciência política influência européia, seja no tempo (civilização
como ciência empírica foi mais cultivada, os Estados primitiva, mundo oriental, civilizações pré-
Unidos, foi justamente aquele no qual as ciências colombianas), seja no espaço (referentes às chamadas
sociais tiveram, nos últimos cinqüenta anos, o maior nações do Terceiro Mundo). lá Mosca, analisando as
desenvolvimento. Com referência ao instituições do México, da índia e da China, destacou approach, 'que
surgiu com particular intensidade nos últimos vinte a pouca credibilidade da análise de Maquiavel, que
anos (embora o seu início remonte ao artigo de tirou seus dados unicamente da história romana e de
Charles E. Merriam, algumas nações de seu tempo. A ampliação dos The present state of the study of
horizontes culturais dos cientistas políticos de hoje,
politics, de 1921), a passagem do ponto de vista institucional, dominado ainda pela matriz jurídica além dos tradicionais limites da ciência européia atual,
tradicional dos estudos políticos, para o ponto de vista poderia permitir dirigir a Mosca a mesma crítica que
"comportamental", segundo o qual o elemento ele fez a Maquiavel. Karl Deutsch enumera nove
simples, que deve iniciar o estudo político com espécies de dados desenvolvidos nos últimos anos
pelos cientistas políticos, ou postos à sua disposição:
pretensões ao uso, legítimo e fecundo, da metodologia
das ciências empíricas, é o comportamento do elites, opiniões de massa, comportamento de voto dos
indivíduo e dos grupos que têm ação política. Para eleitores e dos membros do Parlamento, os chamados
exemplificá-lo, bastará lembrar o voto, a participação dados agregados colhidos nas estatísticas e relevantes
na vida de um partido, a busca de uma clientela para o estudo dos fenômenos políticos, dados
eleitoral, a formação do processo de decisão nos mais históricos, dados fornecidos por outras ciências sociais
diversos níveis. Com referência às técnicas de sobre as condições e os efeitos da comunicação, dados
pesquisa, aconteceu uma mudança igualmente decisiva secundários, derivados de novos processos analíticos,
a partir do uso exclusivo baseado na coleta de dados matemáticos e estatísticos e de programa de
computers. Para ter-se idéia da real importância dos
da
novos dados dos quais pode dispor hoje o cien
166 CIÊNCIA POLÍTICA
tista político, ocorre acrescentar que cada uma das da comparação (no sentido que os politólogos
nove espécies de dados torna-se, pouco a pouco, comparatistas façam somente comparação). acessível a um número cada vez maior de países. Em
outras palavras, a expansão intensiva dos dados IV. AS PRINCIPAIS OPERAÇÕES DA CIÊNCIA
caminha tanto quanto a expansão extensiva dos POLÍTICA. — A crescente acumulação de dados
mesmos. permite à Ciência política contemporânea proceder
com maior rigor na execução das operações e na
O rápido aumento extensivo de dados tornou
obtenção dos resultados que são próprios da ciência
possível uma ampliação cada vez maior da
comparação entre os regimes dos diversos países, empírica: classificação, formulação de generalizações
estimulando os estudos de política comparada, a ponto e conseqüente formação de conceitos gerais,
determinação de leis, pelo menos de leis estatísticas e
de induzir alguns a identificar sic et simpliciter a
prováveis, de leis de tendência, de regularidade ou
Ciência política contemporânea na especificação, ou
uniformidade, elaboração (ou proposta) de teorias.
seja, na diferença que a distingue das disciplinas afins
e dos estudos políticos do passado com a política Como exemplo de classificação, podemos citar as
comparada. Na realidade, a política comparada não é várias tentativas recentes de aperfeiçoar a tipologia
uma novidade: o estudo dos fatos do fenômeno dos regimes políticos que por séculos ficou presa k
político, que tem origem em Aristóteles, teve início classificação aristotélica das três formas puras e das
com a comparação entre diversas constituições gregas. três correspondentes formas impuras de Governo. Um
Uesprit des lois, de Montesquieu, nasceu de uma exemplo já aceito de classificação é a tripartição
grandiosa tentativa de "comparar" entre si o maior weberiana das formas de poder legítimo (tradicional,
número possível de regimes de todas as partes do legal e carismático), que ainda hoje é usada, mesmo se
mundo. Como dizíamos, aquilo que é novo é a suscetível de ser muito mais articulada. Procedimento
quantidade de dados à disposição, mas trata-se de uma típico de generalização é aquele que conduziu a
diferença quantitativa e não qualitativa. É provável formulação do conceito de poder, freqüentemente
que o particular relevo dado à política comparada por considerado, como o conceito unificador de todos os
alguns dos mais prestigiados cientistas políticos dos fenômenos que caem no âmbito da política (no sentido
últimos anos dependa também de terem erroneamente de considerar-se como fenômeno político aquele no
isolado, entre outros, métodos dos quais se serviria a qual se encontra um elemento recon-duzível ao
Ciência política, tais como o método experimental, o conceito de poder). Pode-se considerar um exemplo
método histórico e o método estatístico, um bastante fecundo de hipóteses, mesmo que bem longe
pressuposto "método comparativo", do qual teria o de ser verificado, aquele que presidiu à recente
monopólio exatamente a política comparada. De fato, proliferação dos estudos sobre "desenvolvimento
um método comparativo não existe: a comparação é político": a hipótese é que a uma dada fase de
um dos procedimentos elementares e necessários a desenvolvimento econômico-social corresponde toda a pesquisa que pretenda tornar-se científica. sempre uma determinada fase do desenvolvimento
Mesmo quem estuda o sistema político italiano serve- político, de onde deriva a conseqüência (prescritiva)
se habitualmente da comparação para analisar as sobre a impossibilidade ou a inoportunidade de
diferenças, digamos, entre o Parlamento de hoje e acelerar o desenvolvimento político, se este não vem
aquele de ontem. O uso lingüístico de denominar acompanhado de uma correspondente aceleração do
política comparada o estudo que compara instituições desenvolvimento econômico. Uma das regularidades
de diversos países não invalida o fato do ou uni-formidades às quais a Ciência política, até hoje,
procedimento usado ser idêntico àquele que vem parece disposta a dar maior crédito é aquela que deu
sendo empregado por quem se propõe a notar as origem à teoria da classe política ou das elites,
semelhanças e as diferenças entre duas instituições do segundo a qual em cada regime, seja qual for sua
mesmo país numa dimensão histórica. Este faz "fórmula política", é sempre uma minoria organizada
comparação, mesmo quando aquilo que faz não se ou um número muito restrito de minorias, em luta
pode chamar (por causa de um certo uso lingüístico entre elas, que governam o país. Esta regularidade foi
consolidado) exatamente política comparada. Por considerada por Roberto Michels, no seü estudo a
outro lado, o estudioso de política comparada não se respeito dos partidos, como verdadeira lei (chamada
limita somente a utilizar o processo de comparação "lei férrea da oligarquia"). Formularam-se leis de
com a finalidade de comparar regimes dos diferentes tendência por Marx e Engels, retomadas depois por
países, mas faz largo uso também dos métodos Lenin, focalizando a gradual extinção do Estado no
histórico e estatístico. Em outras palavras, a política assim chamado "Estedo de transição", partindo da
comparada não tem apenas a exclusividade
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hipótese que o aparelho estatal seja necessário até que multiplicidade dos fatores que agem entre si, mas
dure a divisão da sociedade em classes antagônicas. Se exatamente em conseqüência desta constatada
por "teoria" se entende, num dos seus muitos multiplicidade, o processo de explicação torna-se
significados, um conjunto de proposições com relação sempre mais complexo e seus resultados aparecem,
entre si (mas não tendo necessariamente o status de pelo menos até agora, cada vez mais incertos. Sempre
proposições empíricas), de modo a formar uma rede que aumenta o número de correlações, a sua
coerente de conceitos que sirvam de orientação para a interpretação, da qual depende a validade de uma
explicação (e a previsão) num campo bastante vasto, explicação, fica cada vez mais complexa. hoje uma das teorias mais aceitas, ou pelo menos Ao processo de explicação está estritamente conexo
bastante discutidas entre os cientistas políticos, é a o de previsão, mesmo quando seja possível uma
"sistêmica" {general sysiem theory), proposta por explicação, que não permita uma previsão, e uma
David Easton, segundo a qual a vida política no seu previsão não baseada numa explicação, porque
conjunto é considerada como um processo de inputs geralmente explica-se para prever. A previsão é a
(perguntas) que nos chegam do ambiente externo principal finalidade prática da ciência assim como a
(econômico, religioso, natural, etc.) e que se explicação é a principal finalidade teórica). transformam em outpuls (respostas), que seriam as Infelizmente, quando o processo de explicação se
decisões políticas em todos os níveis, que, por sua vez, apresenta incompleto, não se pode falar de previsão
retroagem sobre o ambiente circunstante provocando, científica, mas, no máximo, de conjetura ou, na pior
assim, sempre novas perguntas. das hipóteses, de profecia. Além disso, nas ciências
V. EXPLICAÇÃO E PREVISÃO. — Através desta série humanos, ou seja, de um ser que é capaz de reações sociais que têm como objetivo comportamentos
de operações, que vai da classificação à formulação de emotivas e de escolhas racionais, verifica-se o
generalizações, de uniformidade, de leis de tendência conhecido duplo fenômeno da previsão, que, por sua
e de teorias — operações estas que o acúmulo vez, se auto-destrói (profecia verdadeira que não se crescente de dados torna sempre mais fecundas, mas, realiza), ou então que se auto-realiza (profecia falsa,
ao mesmo tempo, sempre mais difíceis —, a Ciência mas que de fato se realiza). A Ciência política, na
política persegue a finalidade, que é própria de cada atual fase de seu desenvolvimento, está bem longe de
pesquisa que ambicione ao reconhecimento do status poder formular previsões científicas. Isto, porém, não
de ciência (empírica), de explicar os fenômenos objeto impede que não haja estudiosos de coisas políticas que
de seu interesse, e não apenas limitar-se a sua não procurem emitir alguma previsão, mesmo de
descrição. O enorme número de dados dos quais o modesto alcance, baseados nas conclusões' estudioso de fatos políticos pode dispor, juntamente conseguidas por etapas. A tendência de fazer
com o uso de métodos quantitativos que permitem, previsões é tão irresistível que um grupo de estudiosos
não apenas sua padronização, mas também a sua cada de política, sob a direção de Bertrand de Jouvenel, está vez mais rápida utilização, pôs eu crise o tipo de elaborando, há alguns anos, um programa de pesquisas
explicação que, até aqui, prevaleceu nas ciências sobre os chamados "futuríveis". A diferença entre a
sociais tradicionais e arte-sanais, explicação esta utopia de ontem o "futurível" de hoje é que o projeto
fundada na pesquisa apenas de um ou de poucos utópico é construído de maneira totalmente "fatores", e, ao mesmo tempo, incentivou os independente das linhas de tendência do pesquisadores a considerarem uma notável pluralidade desenvolvimento social e, portanto, da sua maior ou de variáveis significativas, cuja análise de suas inter- menor possibilidade de realização, enquanto o
relações é sempre confiada ao cálculo estatístico. chamado "futurível" representa o conjunto daquilo que
O estágio presente da Ciência política, pode acontecer sempre que se realizem determinadas
caracterizado pela difusão da técnica da análise de condições; não é o futuro impossível (e tampouco o
muitas variáveis {multivariate analysis), representa, futuro necessário), mas é o futuro possível. O
em relação ao objetivo principal de cada pesquisa que "futurível" é o produto típico da atitude científica em
se queira apresentar como ciência, ou seja, com relação ao mundo, especialmente ao mundo histórico,
referência à explicação, de preferência um momento enquanto a utopia é o produto típico dá imaginação
crítico ou, no máximo, re-construtivo, mas não filosófica. representa ainda o tão esperado momento construtivo
e inovador. Têm sido recusadas as explicações VI. DIFICULDADES PRÓPRIAS DA CIÊNCIA POLÍTICA. tradicionais consideradas simplistas, enquanto não — Tudo quanto já se disse até agora a respeito das
reconhecem a tentativas que se vêm desenvolvendo para aproximar
os estudos políticos do modelo das ciências empíricas
não deve esconder
168 CIÊNCIA POLÍTICA
as enormes dificuldades, muito peculiares, que se
interpõem ao alcance do objetivo desejado. Agora, em b) O homem é um animal simbólico, que se comunica relação à classificação tradicional das ciências, com com seus semelhantes através de símbolos (dos quais
base na sua crescente complexidade, a Ciência política o mais importante c a linguagem): o conhecimento da
ocupa um dos últimos lugares; enquanto o sistema ação humana exige a deci-fração e a interpretação
político é um subsistema em relação ao sistema social destes símbolos, cuja significação é quase sempre
geral, a Ciência política pressupõe a ciência geral da incerta, às vezes desconhecida, e apenas passível de
sociedade (um partido político antes de ser uma ser reconstruída por conjeturas (línguas mortas ou
associação política é uma associação); enquanto o primitivas).
subsistema político tem a função primordial de
c) O homem é um animal ideológico, que utiliza
permitir a estabilização e o desenvolvimento de um
valores vigentes no sistema cultural no qual está
determinado subsistema econômico e a coexistência
inserido, a fim de racionalizar seu comportamento,
ou a integração do subsistema econômico com
determinados subsistemas culturais (dos quais o alegando motivações diferentes das reais, com o fim
principal é a Igreja ou as Igrejas). A Ciência política de justificar-se ou de obter o consenso dos demais; por
isso, a importância que assume na pesquisa social e
não pode prescindir da ciência econômica, enquanto a
política a revelação daquilo que está escondido, assim
ciência econômica pode dispensar a Ciência política
como a análise e a crítica das ideologias.
(seria a mesma relação que ocorre entre a física e a
biologia); a Ciência política não pode prescindir VII. O PROBLEMA DA AVALIAÇÃO. — Uma forma de
também do estudo dos subsistemas culturais
saber se aproxima do ideal limite do científico, quanto
(considerando a importância, por exemplo, do
mais consegue eliminar a intrusão de juízos de valores,
problema dos "intelectuais" e das ideologias para o
ou seja, a chamada avaliação. A Ciência política é
estudo da política).
certamente, entre as outras ciências, aquela na qual a
A Ciência política, além disso, é uma disciplina
avaliação é mais dificilmente alcançável. Quando se
histórica, ou seja, uma forma de saber cujo objeto se
fala de avaliação não nos referimos, nem às avaliações
desenvolve no tempo, sofrendo contínua
que presidem a escolha do assunto em estudo (escolha
transformação, o que torna impossível, de fato, um
esta que pode depender também de uma preferência
dos procedimentos fundamentais que permite aos
política), nem às avaliações às quais o pesquisador
físicos e aos biólogos a verificação ou a falsificação
pode chegar, conforme os resultados da pesquisa, com
das próprias hipóteses, isto é, a experimentação. Não
o fim de reforçar ou enfraquecer um determinado
se pode reproduzir uma revolta de camponeses em
programa político (e nisto consiste a função crítica e
laboratório por óbvias razões, entre outras, aquela que
prescritiva à qual a Ciência política não pode
uma revolta reproduzida não seria mais uma revolta
renunciar). Aqui nos referimos à suspensão dos
(note-se a relação entre uma ação cênica, que -se pode
próprios juízos de valor durante a pesquisa, que
repetir indefinidamente e a realidade representada
poderia ser influenciada, perdendo, assim, sua
pelos acontecimentos: o Hamlet, de Shakespeare, não
objetividade. Ocorre atentar para a distinção entre a
é o príncipe da Dinamarca que realmente viveu).
ciência como operação humana e social, que como tal
Finalmente, a Ciência política, enquanto ciência do é assumida e utilizada para finalidades sociais, e os
homem e do comportamento humano, tem em procedimentos prescritos para o melhor remate dessa
comum, com todas as outras ciências huma-nísticas operação, entre as quais ocupa um lugar importante a
dificuldades específicas que derivam de algumas abstenção dos juízos de valor. A avaliação, que é
características da maneira de agir do homem. Destas, garantia de objetividade (somente o caráter da
três são particularmente relevantes: objetividade assegura à ciência a sua característica
a) O homem é um animal teleológico, que cumpre função social), é perfeitamente compatível com o
ações e se serve de coisas úteis para obter seus compromisso ético e político em relação ao argumento
objetivos, nem sempre declarados e, muitas vezes, escolhido ou aos resultados da pesquisa, que garante a
inconscientes. Podemos designar um significado à relevância do empreendimento científico. O perigo de
ação humana somente quando se consegue conhecer que numa pesquisa falte objetividade, porque o
os fins desta ação; por isso, a importância que tem no pesquisador esteja nela demasiadamente envolvido,
estudo da ação humana o conhecimento das não é menos grave do perigo inverso, ou seja, que a
motivações, porque cada ciência social, e, portanto, uma pesquisa perfeitamente objetiva falte porém
também a Ciência política, não pode prescindir da relevância (como poderia ser, por exemplo, uma
presença da psicologia. pesquisa sobre a cor das meias dos deputados italianos
da terceira legislatura). É deplorável a confusão,
muitas vezes
CLASSE 169
verificada, entre objetividade e indiferença: a Dorsey Press, Homewood, III. 1965; A designjor objetividade é um requisito essencial da ciência, political science: scope, objectives, and methods. Am.
enquanto a indiferença é uma atitude não benéfica à Academy of Pol. and Soe. Sciences, Filadélfia 1966
boa pesquisa científica — do pesquisador. A (com relatos e intervenções de V. VAN DYKE, H. J. avaliação, como cânone (um dos cânones) da pesquisa MORGENTHAU, K. U. DEUTSCH, etc); J. C.
que pretenda ser objetiva, não exclui, como dissemos, CHARKESWORTH, Teorie e melodi in scienze política a função prática (ou prescritiva) da própria pesquisa, (1967), Il Mulino, Bologna 1971; G. SAR-TORI, Alia através da utilização dos resultados conseguidos. Pelo rieerca della sociologia política, in "Rassegna italiana contrário, a Ciência política, tanto mais cumpre sua di sociologia", IX, 1968 e La scienze política, in Storia função prática, quanto mais ela é objetiva: o delle idee politiche economiche e sociali, dirigida por desenvolvimento das ciências sociais em geral (a L. FIRPO, UTET, vol. VI, Torino 1972; H. V. começar pela economia e terminando na Ciência WISIMAN, Politics. The master science, routledge and política) é estritamente conexo com a certeza de que o Kegan Paul, London 1969; AUT. V*R., Antologia di conhecimento científico do sistema social geral e dos sociologia política. editada por G. SARTORI, Il Mulino,
subsistemas que o compõem, assim como das suas Bologna 1970, e em particular Metodi aproeci e relações, exatamente porque objetiva, presta um teorie. com introdução de G. URBANI; N. MATTEUCI, serviço utilíssimo à ação política e contribui para a La scienze política, in Le Scienze umane in Itália. Il realização de uma sociedade "mais justa". Citamos Mulino, Bologna 1971; G. SARTORI, La política — aqui a função prática que foi paulatinamente Lógica e método in scienze sociali, Sugares, Milano
assumindo, há mais de um século, o socialismo 1979. científico e a conexão entre a sua função prática e o Sobre a situação da Ciência política nos principais
seu proclamado caráter científico. O desenvolvimento países; Politische Forschung, ao cuidado de O. real da Ciência política é guiado, mais ou menos STAMMER. Westdeutscher, Koln e Opladen 1960. Para conscientemente, pelo ideal de uma política científica, os Estados Unidos: A. SOMIT e J. TANENHAUS, The ou seja, de uma ação política fundada no development of political science, Allyn and Bacon, conhecimento, tanto quanto possível rigoroso, das leis Boston 1967. Em sentido crítico: B. CRICK, The objetivas do desenvolvimento da sociedade, e que não american science of politics. lis origins and
fica portanto abandonada ao acaso ou à intuição dos conditions. University of Califórnia Press. Berkeley e
operadores políticos. Na luta contra qualquer contra- Los Angeles 1959. Para a França: La science facção ideológica das reais motivações da ação politique. in "Revue de l'enseignement supéneur", humana, na sua geral concepção "realística" da ação 1965, n.° 4, com artigos de J. J. CHEVALIER, M. humana, a Ciência política nasce, ela mesma, num DUVERGER, G. BURDEAU, F. GOGUEL, G. VEDEL, G. contexto social e ideológico bem individualizado, LAVAU, etc. Para a Itália: N. BOBBIO, Saggi sulla
onde vai abrindo caminho o ideal da política como scienze política in Itália. Laterza, Bari 1969 e Teoria e ciência, ou seja, uma política sem interferência de rieerca política in Itália, in "II político", XXV, 1961, ideologias. Por conseqüência, a tarefa mais urgente e, recensão integrada por A. SPREAFICO, Studi politici e ao mesmo tempo, mais incisiva que cabe nesta fase da scienze política in Itália, in Annuario político italiano, Ciência política é a de submeter às análises e, Milano 1974. eventualmente, de colocar em questão a mesma
ideologia da política científica, examinando seus [NORBFRTO BOBBIO]
significados histórico e atual, salientando seus limites
e suas condições de atualidade, assim como indicando Classe. suas eventuais linhas de desenvolvimento.
I. CONSIDERAÇÕES INTRODUTIVAS E DEFINIÇÃO DO
CONCEITO. — Embora seja difícil, se não impossível,
BIBLIOGRAFIA.- Sobre o objeto, sobre o método encontrar uma definição de Classe social que conte
e sobre os objetivos da Ciência política durante os com o consenso dos estudiosos ligados a diversas
últimos quinze anos: M. DUVERGER, Mélhodes de la tradições políticas e intelectuais, todos estão de acordo
science politique. Presses Universitaires de France, em pensar que as classes sociais são uma
Paris 1959; J. MEYNAUD, Introduction à la science conseqüência das desigualdades existentes na politique. Colin, Paris 1959; V. VAN DYKE, Polilical sociedade. Isto já permite uma rigorosa delimitação
science: A philosophical analysis, Stanford University dos fenômenos que entram nos limites da aplicação do
Press 1960; H. D. LASSWELL, The future of political conceito de Classe, uma vez que: 1) torna possível
science. Tavistock, London 1964; E. J. MEEHAN, The excluir tudo o que entra na categoria das
theory and method of political analysis. The desigualdades naturais; 2) faz referência apenas às
desigualdades que não são casuais e se revelam de
modo sistemático e estruturado. Isso não impede,
porém, que haja desigualdades naturais que adquirem
relevância
170 CLASSE
na sociedade e se convertem, por isso, em freqüentemente se chama igualdade de pontos de
desigualdades sociais. As diferenças entre sexos, entre partida. Quando falamos de sociedade meritocrática,
jovens e velhos, entre indivíduos de raças diversas refe-rimo-nos, em geral, a uma sociedade que se
tornam-se diferenças sociais, quando uma sociedade aproxima muito do modelo da mobilidade perfeita.
escolhe tais diferenças como critérios para a atribuição Todavia, dado que uma sociedade deste tipo não se
dos vários papéis sociais; tornam-se desigualdades haja nunca realizado historicamente, teremos de dizer
sociais, quando os papéis são distribuídos por diversos que todas as sociedades históricas que conhecemos
níveis da escala social. Há aqui desigualdade social no foram sociedades de Classe, ou sociedades classistas?
pleno significado do termo, porquanto se podem É certamente possível; na própria literatura
conceber, e até freqüentemente encontrar, na história, sociológica encontra-se amplamente difundido o uso
tipos de sociedade para os quais as diferenças de sexo, do conceito de Classe neste sentido. Muitos autores,
de raça e de geração não são, ou não são do mesmo porém, são concordes em limitar a aplicação do
modo, critérios de destinação dos indivíduos aos conceito apenas às sociedades em que as
papéis sociais. O uso do adjetivo "natural" se desigualdades sociais não são sancionadas pela lei.
apresenta em tais casos como pura função ideológica, Quando se diz que todos os cidadãos são iguais em
pois visa a considerar como "naturais", e, portanto, face da lei, ou que certos direitos são concedidos a
inevitáveis e imodificáveis, características que todos independentemente do sexo, da religião, da raça
dependem, ao contrário, da estrutura da sociedade. e das condições econômicas ou sociais, não se quer
Tornado claro, contudo, que a aplicação do conceito certamente afirmar que, com isso, desapareceram
de Classe se circunscreve ao âmbito restrito das realmente as desigualdades sociais, mas apenas que
desigualdades sociais, só se atingiu com isso uma elas não gozam de qualquer reconhecimento formal no
primeira delimitação do conceito, pois nem todas as sistema de normas de uma determinada sociedade.
desigualdades sociais dão lugar à formação de Classes. Isso significa que não se pode pertencer a uma
Uma ulterior especificação do conceito mostrará que Classe por direito, mas somente de fato, e que o
só originam a formação de Classes aquelas nascimento não é critério suficiente para fazer parte
desigualdades sociais que se reproduzem ao passar de de uma Classe social. É neste sentido que o conceito
uma geração a outra. Podemos, de fato, imaginar uma de Classe se diferencia, quer do conceito de casta, sociedade acentuadamente não igualitária e não quer do conceito de ordem ou estado. O pertencer a classista, isto é, uma sociedade em que cada indivíduo uma casta depende exclusivamente do nascimento e,
tenha as mesmas possibilidades que os outros "têm de por princípio, é excluída a passagem de uma casta a
ocupar qualquer posição social, independentemente da outra; quando ocorre, ela representa uma violação da
condição social da família de origem. Imaginemos, por lei tradicional. A uma ordem ou estado, tais como, por
exemplo, uma sociedade em que 30% da população exemplo, os da época feudal, também se pertence
sejam camponeses, 40% operários, 20% empregados e sobretudo pelo nascimento, embora a passagem de
10% proprietários e dirigentes, e suponhamos que tal uma ordem a outra não esteja excluída e seja até, por
distribuição não se modifique substancialmente ao vezes, freqüente. Neste caso, porém, a passagem está
longo da curva de uma geração. Numa sociedade vinculada ao cumprimento de um requisito formal,
assim, não existirão Classes, se todo filho de operário, por exemplo, a investidura por parte do monarca ou a
camponês, empregado ou dirigente tiver 10 aquisição de um título ou concessão de nobreza. probabilidades entre 100 de se tornar dirigente ou Também as Classes, como vimos, se perpetuam de
proprietário e, ao invés, se todo filho de proprietário geração em geração, constituindo o nascimento o
ou dirigente tiver 70 probabilidades entre 100 de vir a critério principal de integração e o mecanismo
ser operário ou camponês; em outras palavras, se, de fundamental de recrutamento; mas não existe
100 filhos de proprietários e dirigentes, só 10 tiverem nenhuma norma formal que sancione tal critério ou
possibilidades de vir a ocupar uma posição social estabeleça os requisitos necessários para a passagem
equivalente à do pai. É claro que uma sociedade deste de uma Classe a outra. Numa sociedade de Classes,
tipo, isto é, onde houvesse uma mobilidade perfeita, nada obsta formalmente a que se efetue essa
não seria, de per si, uma sociedade igualitária, passagem, justamente porque as Classes são
porquanto, aos diversos papéis, poderiam teoricamente agrupamentos de fato, cuja existência não só não é
ser associadas recompensas diferenciais até muito reconhecida, como é, em certo sentido, explicitamente
elevadas; contudo, o acesso aos vários papéis seria negada pelo ordenamento jurídico da sociedade.
igual para todos e esta sociedade teria alcançado o que Podemos, por isso, afirmar que as Classes são
agrupamentos que emergem da estrutura de desigualdades sociais, numa
CLASSE 171
sociedade que reconhece que todos os homens, ou e tais relações dependem da relação das Classes com
melhor, todos os cidadãos, são formalmente iguais os instrumentos de produção. Numa sociedade em que
perante a lei. o modo de produção capitalista domine, sem
Portanto, em sentido estrito, só se pode falar de contrastes, em estado puro, as Classes se reduzirão
Classes sociais depois das revoluções demo-crático- fundamentalmente a duas: a burguesia, composta
burguesas do século XIX e do advento da sociedade pelos proprietários dos meios de produção, e o
capitalista. Ainda que em muitos países a revolução proletariado, composto por aqueles que, não dispondo
democrático-burguesa não coincida com o advento do dos meios de produção, têm de vender ao mercado sua
capitalismo, é evidente, contudo, que se trata de dois força de trabalho. Nenhuma sociedade histórica
aspectos do mesmo processo de mudança social que apresentará, em momento algum, o domínio
atingiu, se bem que com grande variabilidade de incontestado de um modo de produção em sua forma
formas e de tempo, grande parte do gênero humano; pura; apresentará, sim, uma combinação de elementos
trata-se fundamentalmente do processo pelo qual a remanescentes dos modos de produção anteriores, de
relação do homem com a terra, entendida como elementos do modo de produção historicamente
instrumento de produção, deixou de ser o critério preponderante, ou de elementos que antecipam as
essencial da atribuição dos papéis sociais. Podemos, transformações dos modos de produzir ainda não
por isso, dizer que o aparecimento da sociedade de operadas. A presença contemporânea de vários modos
Classes coincide com o declínio das sociedades de produção numa mesma sociedade, em determinado
fundadas na agricultura. Daqui se conclui que, momento histórico, é chamada por Marx de formação
rigorosamente falando, a primeira Classe que surgiu social. Enquanto o conceito do modo de produção se
no horizonte da história foi a Classe burguesa. situa ao nível da análise teórica das grandes
Afirmando os valores igualitários e reivindicando os transformações sociais, o conceito de formação social
direitos de cidadania, baseada na natureza uni- se coloca ao nível da análise histórica. No primeiro
versalista, abstrata e fungível do dinheiro, infringiu a caso, a análise das Classes na sociedade capitalista
ordem fundada nos "Estados", transformou a terra em tenderá para um modelo dicotômico que considera a
capital e, conseqüentemente, a aristocracia fundiária existência de duas Classes antagônicas, a burguesia e
na Classe dos proprietários rurais, os servos da gleba o proletariado; no segundo caso, teremos pluralidade
na Classe dos camponeses, dando, finalmente, origem de Classes ou de agrupamentos no seio das Classes
à Classe operária como conseqüência direta da (por exemplo, uma burguesia financeira, comercial,
consolidação da Revolução Industrial. Na realidade, o industrial, um proletariado e um subproletariado,
conceito de Classe foi introduzido, como instrumento camponeses independentes e braceiros agrícolas, etc.)
analítico, pelos estudiosos que analisavam tal e o antagonismo dominante se articulará em vários
fenômeno antagonismos particulares, abrindo campo à formação com o fim de interpretarem as
transformações sociais que levaram à formação do de alianças entre Classes diversas e entre uma Classe c
proletariado industrial. O conceito de Classe envolve frações dissidentes da Classe antagonista. dois aspectos compatíveis entre si, mas O fato de que Marx fale às vezes de duas Classes freqüentemente acentuados de modo muito diverso antagonistas e, outras, de pluralidade de Classes se
pelos vários autores: de um ponto de vista teórico, explica, levados em conta os diversos níveis em que a
como já observamos, o conceito de Classe serve para análise das Classes pode ser colocada; em qualquer
identificar os agrupamentos que emergem da estrutura caso, no entanto, toda Classe será definida pelas
das desigualdades sociais; de um ponto de vista relações que a ligam às outras Classes, dependendo
histórico, serve para identificar os que se constituem tais relações das diversas posições que as Classes
em sujeitos do curso da história, ou seja, as ocupam no processo produtivo. As Classes constituem
coletividades que se apresentam como artífices do por isso um sistema de relações em que cada Classe
devir da sociedade no tempo. pressupõe a existência de outra, ou de outras; não
pode haver burguesia sem proletariado, e vice-versa.
II. A TEORIA DAS CLASSES EM MARX. — Portanto, para Marx, enquanto a existência das
Esse último aspecto aparece de modo particularmente Classes se baseia nas posições diversas que os
claro na teoria das Classes de Marx, a quem devemos homens ocupam no processo produtivo, o o primeiro tratado explícito sobre o fenômeno e a antagonismo que existe entre elas se situa ao nível
primeira elaboração teórica do conceito. Para Marx, as político; estes dois níveis estão estreitamente ligados
Classes são expressão do modo de produzir da entre si, mas não coincidem. A diferente posição em
sociedade no sentido de que o próprio modo de relação aos instrumentos produtivos faz produção se define pelas relações que intermedeiam
entre as Classes sociais.
172 CLASSE
com que os interesses de uma Classe sejam diversos e põem em contato direto, diário e familiar, com o
contrapostos aos interesses da outra; no caso genuíno patrão. Pelo contrário, a grande fábrica capitalista,
do modo de produção capitalista, isso significa que, o produto do irreprimível processo de concentração do
que redunda em vantagem da burguesia, redunda em capital, é que oferece as condições mais favoráveis ao
desvantagem do proletariado, isto é, que o lucro não é nascimento de uma consciência de Classe.
senão uma parte de produto subtraída aos produtores
Em geral, se pode afirmar que a consciência de
diretos, algo que falta no envelope de pagamento dos
Classe tende a desenvolver-se mais facilmente onde
operários. É esta a base econômica do antagonismo
forem maiores os obstáculos à penetração das idéias
dos interesses de Classe. Este antagonismo, porém,
da Classe dominante na Classe subordinada. Para
não assume um significado político, senão quando o
Marx, a Classe dominadora do mundo da produção é
conflito ultrapassa a simples oposição entre o operário
também a que domina no plano político e a que
e o capitalista, ou entre os operários de uma fábrica e
produz as idéias culturalmente dominantes. Estas
o patrão, e se converte num conflito generalizado, que
idéias, contudo, tendem a apresentar um quadro
tende a contrapor todos os capitalistas, a burguesia, a
harmônico, não contraditório, da realidade social.
todos os trabalhadores, o proletariado. O momento de
Sempre que as Classes subalternas as apropriam, elas
agregação, mediante a organização política dos
produzem uma "falsa consciência" da situação de
interesses de todos aqueles que foram colocados pelo
Classe e sua função não é mais a de fazer progredir o
processo produtivo na mesma posição de domínio ou
curso da história humana, mas a de o sustar; trata-se,
de subordinação, é o momento verdadeiramente
no fundo, de um problema de ideologias. A burguesia
constitutivo da Classe. "Os indivíduos — escrevem
Marx e Engels em Deutsche Ideologie — formam uma exerceu sua função de Classe revolucionária, lutando
contra a ordem feudal e a Classe então dominante,
Classe só quando estão comprometidos na luta comum
mas, uma vez consolidado seu poder e desenvolvidas
contra uma outra Classe". Mas a luta entre duas
as potencialidades do modo capitalista de produção,
Classes — diz ainda Marx — é uma luta política,
findou seu papel revolucionário e ela tornou-se, pelo
sendo as Classes algo que se situa no nível político da
contrário, um obstáculo real no caminho do progresso.
vida social; é só a este nível que os indivíduos que
Mas ela não pode deixar de originar a Classe que está
compõem uma Classe reconhecem, de fato, a
destinada a abater seu domínio e a criar as bases de
comunidade dos seus inte-reses e do seu destino, e se
uma sociedade sem Classes, isto é, uma sociedade
tornam conscientes da diversidade fundamental e do
onde as relações sociais deixarão de ser relações de
antagonismo irredutível desses interesses, em
exploração e de dominação. Para Marx, portanto, as
confronto com os da Classe oposta. A identidade de
Classes são o sujeito do devir da história, que não é
interesses não é o bastante para fundamentar a
mais a história de uma sociedade atomisticamente
existência de uma Classe, a não ser que, com base
concebida como resultado de uma infinidade de ações
nesta identidade, nasça uma comunidade, uma
individuais, mas uma história onde os atores são
associação ou uma organização política; a não ser que
precisamente as Classes, ou seja, entidades coletivas.
se forme, digamos, uma consciência de Classe. Uma
Diremos, concluindo, que, para Marx, o conceito de
Classe dotada dessa consciência é uma Classe para si
Classe constitui um instrumento de análise que lhe
(für sich); onde, ao contrário, tal consciência não
permite entender as relações entre os fenômenos
existir e se afirmar, a Classe continuará sendo uma
econômicos, políticos e culturais, no quadro de um
mera Classe em si (an sich), incapaz de expressar
modelo dialético das transformações da sociedade e de
reivindicações políticas coletivas.
uma teoria do curso da história.
A mudança da Classe em si para Classe para si não
é nem automática nem necessária. A identidade de III. CLASSES E CATEGORIAS NA ANÁLISE DE MAX
interesses, isto é, a identidade de colocação no WEBER — A teoria de Marx é, sem dúvida um ponto
processo produtivo, não garante a formação da de referência necessário na determinação do uso que
consciência de Classe; o momento subjetivo não é o vem sendo feito, há mais de um século, do conceito de
simples reflexo da situação objetiva da Classe. Os Classe, quer nas ciências sociais, quer na linguagem
camponeses franceses, cuja situação de Classe é política corrente. Isto não só porque os estudiosos que
analisada por Marx em Der Bürgerkrieg in Frankreich seguem Marx foram mais longe na elaboração do
e Der 18 Brumaire des Louis Bonaparte, não conceito e da teoria social que nele se baseia (basta
conseguirão nunca adquirir consciência da identidade pensar nas obras de Bucharin e Lukács, só para citar
dos seus interesses e agir, em conseqüência, como dois exemplos), mas também porque os que
Classe, dado que as condições de produção os isolam
uns dos outros e os
CLASSE 173
se afastam do uso marxista do conceito de Classe, a credores (única forma de mercado do mundo antigo),
ele se referem, não obstante, para melhor ilustrar as na Idade Média, os produtores de alimentos da área