Dicionário de Política (Volume 1)
social sciences). Os mitos mostram como uma…
social sciences). Os mitos mostram como uma questionamento global dos institutos culturais, é o situação se transformou numa outra: a perda da vestíbulo da formação da consciência social e da
imortalidade por parte dos homens, a diferenciação criação das estruturas do agir e do pensar. O mito,
dos sexos a partir de um ser andrógino original, a portanto, estabelece e delimita um conjunto de
criação do mundo e a invenção de uma determinada possibilidades — o campo do possível — que é um
técnica por parte dos deuses ou heróis civilizadores, dos sentidos da liminaridade; ao mesmo tempo, porém,
etc. Quando o mito, em momentos predeterminados, é demonstra-se ambíguo em seu conteúdo, porque a ritualmente atualizado, os participantes são levados, ordem que cria ou reconstrói está sempre aberta à
em conseqüência, a um estado liminar, que é um possibilidade de desordem, tanto que exige periódicas
estado além do tempo — o tempo originário —, em prestações rituais para se manter. Na fixação dos seus
que tudo é possível, porque se trata de uma situação limites, o mito, como mostra a psicologia do profundo
de pura potência. Durante o rito eles se encontram num freudiana, não é livre nem está ligado a um cálculo
limbo em que as estruturas culturais se anulam ou se prático mas é determinado pelo jogo impulsivo do
simplificam grandemente. Orgias, canibalismo, inconsciente. Sua natureza é, portanto, mais uma vez matança de animais totêmicos, troca de funções entre liminar — o lugar além do qual não se consegue ver os sexos, igualdade são as suas características, porque mais — e ambígua, enquanto a "censura" realiza ali as
os participantes se encontram num momento criativo e suas intervenções destinadas a mascarar a descarga de reestruturação, não num momento de caos ou dos impulsos que os momentos de crise, atenuando as destruição. A narração do mito neste período ritual é estruturas existentes, provocam, e a evitar instrução, gnose e verdadeira e autêntica criação, que conseqüências desintegradoras. Liminaridade e leva ao reaparecimento e à aceitação das estruturas ambigüidade apontam, portanto, o mito como o lugar
sociais ou dos papéis sociais mudados ou purificados. e a narração mítica como o produto da interação entre
O mito é, portanto, uma experiência de crise, que situações concretas de crise individual e social e
destrói as estruturas existentes e leva a um estado de processos psíquicos. As primeiras desencadeiam
absoluta liberdade, que é, ao mesmo tempo, o estado conflitos inconscientes, são vivenciadas e original, de onde tudo teve origem, e um estado de interpretadas a nível psíquico segundo a dinâmica do
morte, inconsciente sendo reapresentadas à
MITO POLÍTICO 761
consciência sob forma de narração mítica: prova do política. Sua natureza, porém, é ainda psicológica,
conflito e de seu mascaramento na solução sempre sendo o conteúdo político a via culturalmente aberta
precária que se lhe dá. para extravasar o conflito, tal como a religião o era
O mito, portanto, pelos seus conteúdos, não pode nas sociedades tradicionais: demonstram-no o
ser definido positiva mas só negativamente, se o conhecido retomo ao Mito político de arquétipos
delimitarmos do mundo externo através da análise da míticos e a elaboração, em novos contextos, de
narração e das situações que lhe deram origem. E um materiais antiqüíssimos, que sempre serviram para a
vazio inatingível pela consciência; a própria estrutura expressão dos processos inconscientes. da consciência é daí que nasce; podemos identificar o Isto abre o capítulo, ainda por escrever, das relações
mecanismo donde ela nasce, não a sua natureza. A e interação entre Mito político e política, sobre os quais
ambigüidade de narração mítica, ligada à repressão se tentará dar alguma indicação como prova. As
dos impulsos, revela esta situação, que a linguagem culturas modernas se fundamentam na tentativa que o
simbólica, dinâmica e aberta, expressa. O mito, pensamento e a ação racionais fazem para estruturar a
portanto, não é representação de momentos sociedade de acordo com as próprias finalidades, irracionais ou primitivos do homem, mas servindo-se de vários instrumentos de que a política é conseqüência de seu modo peculiar de ser e de um dos principais. O surgimento contemporâneo, na
enfrentar os problemas cada vez novos que nascem de Grécia clássica, da reflexão filosófica e da política é, a seus impulsos constitucionais e das relações entre este respeito, extremamente significativo. A ruptura
estes e o meio-ambiente. Por isto o mito é entre o consciente e o inconsciente, buscada com o inextinguível; a desintegração das sociedades objetivo de uma vida individual e social que se supõe tradicionais, se bem que tenha trazido consigo a possa tornar-se integralmente presente a si mesma,
destruição da mitologia como organização cultural mostra, porém, a própria limitação na permanência do
global, não destruiu os mitos; modificou apenas suas mito e na sua metamorfose em novas formas entre as
funções e formas. quais a do Mito político, A existência deste último
mostra como o pensamento lógico, na sua expressão
IV. UMA RECUPERAÇÃO DO MITO POLÍTICO política, volta automaticamente às suas matrizes
COMO INSTRUMENTO DE ANÁLISE POLÍTICA: inconscientes, com a criação de um produto que MITO POLÍTICO E POLÍTICA. — Os mitos clássicos reconstitui uma ponte entre o consciente e o e primitivos visavam especialmente manter a validade inconsciente. Isto é, porém, causa de um contínuo e
das respostas tipificadas e tradicionais às crises potencial conflito. Ao Mito político, de fato, não é
individuais e sociais, que eram assim, por sua vez, permitido, como era permitido ao mito das sociedades
tipificadas e privadas, em grande parte, de sua carga tradicionais, ser matriz de institucionalização, porque
destrutiva. O processo que levou as culturas clássicas essa função compete ao pensamento e à ação racionais,
e modernas a tornar mais flexíveis as finalidades e as especialmente no que diz respeito às estruturas do
relações entre as várias instituições sociais fez com que poder. Nas culturas modernas assistimos, portanto, a
tais culturas se tornassem mais sujeitas a crises nível de modelos, a uma contraposição entre política,
inesperadas em todos os níveis e, que pretende ser dirigida pelo princípio da realidade e contemporaneamente, que elas mesmas se tornassem à qual são reservadas as tarefas da elaboração promotoras de crises e de transformações estruturais. institucional, e o Mito político, dirigido pelo princípio
Nesta nova situação o mito, em suas várias do prazer ao qual tais tarefas são subtraídas. manifestações de que o Mito político é apenas uma,
Este conflito, intrínseco ao modelo das culturas
elabora as respostas inconscientes, não mais de toda a modernas, é aprofundado pela dinâmica cultural. A
comunidade, mas de segmentos dela, a uma dinâmica
política, no seu impulso racionalizador, esquecendo
cultural cada vez maior.
suas matrizes inconscientes, acaba se tornando
O surgimento do Mito político depende do freqüentemente elemento perturbador das estruturas
aparecimento da política como função central da psíquicas prevalecentes, desencadeando, dessa forma,
sociedade e instrumento de mudança social e da conflitos diante dos quais está totalmente desarmada.
conseqüente formação ao redor dela de fortes Não é, porém, somente o contraste entre processos
impulsos emotivos. As narrações míticas, produto de conscientes e inconscientes que provoca conflitos, mas
conflitos inconscientes ligados a situações de crise também a continuidade existente entre uns e outros. A
social — no duplo sentido de mudança reflexão e a ação política nascem, em muitas potencialmente favorável ou desfavorável ao grupo ocasiões, de agente — assumem, dessa forma, caráter político, isto
é, evoluem num contexto e usam uma linguagem
política, objetivando a ação
762 MOBILIDADE SOCIAL
mitos políticos, dos quais, inadvertidamente, são a princípio da realidade por parte da política depende,
racionalização; coisa em si não negativa, enquanto o de fato, antes de tudo, de que ela se reconheça
Mito político refletir adequadamente a situação histórica e estruturalmente parte da dialética concreta e depender de processos inconscientes não consciente-inconsciente, a nível de institucionalização
neuróticos, mas muito graves, no caso contrário, das relações de poder. Nesta base, o Mito político,
especialmente quando a adequação da política ao definido como produto do "revelar-se — anuviar-se"
princípio da realidade se torna só aparente. Dirigido de conflitos inconscientes dos grupos sociais, sob o
pelo princípio do prazer e, portanto, orientado para a impacto de momentos da crise, tem um valor analítico
satisfação completa da própria carga de libido ou para duradouro, já que permite chegar ao imaginário de
a defesa neurótica dos conflitos não solucionados dos tais grupos e mostrar como se vivem as situações de
quais nasce, o Mito político pode impelir o grupo para crise, que expectativas ou temores criam, que tipos de
posições destrutivas ou autodestrutivas e permitir que relação e de predisposição provocam para o agir
outros grupos, capazes de identificar e explorar os político. seus mecanismos psicológicos, o transformem em No que se refere à inserção do Mito político a par
instrumento próprio. da reflexão e da ação, como componente fundamental
A relação entre política e Mito político resulta, do conceito de "política", o aspecto que suscita as
portanto, mesmo à luz de uma análise muito maiores perplexidades é o de tornar necessária uma
superficial, extremamente viscosa, mas sumamente lógica do ambíguo e do contraditório oposta à lógica
pregne de conseqüências. Com base no que foi dito e cientificamente dominante. Trata-se, porém, de uma
a modo de hipótese, podemos defini-la a três níveis. conseqüência da qual é impossível escapar e de cuja
No modelo geral das culturas modernas, em que aceitação depende a possibilidade de aprofundar o
política e Mito político se contrapõem, como foi estudo do Mito político como fenômeno constitutivo e
mencionado, tanto que se torna problemático qualquer não anormal da realidade social. equilíbrio. Na realidade psíquica, em que ambos —
diretamente um e indiretamente a outra — nascem de
processos inconscientes e, em conseqüência, trocam BIBLIOGRAFIA.- R. BARTHES, Miti d'oggi (1957), de papel, se interpenetram, se mostram um o Lerici, Milano 1962; "Cahiers Internationaux de prosseguimento do outro numa série complicadíssima Sociologie", julho-dezembro 1962, número de disfarces sob o signo da ambigüidade. Na realidade inteiramente dedicado ao Mito político; E. CASSIRER, Il histórica, em que a crescente flexibilidade e mito dello Stato (1945). Longanesi. Milano 1950; N. complexibilidade da dinâmica social os impedem de COHN, I fanatici dell'Apocalisse (1970), Comunità, ter um significado unívoco: a política como o Mito Milano 1976; M. DOUGLAS, Saturai symbols. Penguin. político, cada vez mais incapazes de assumir Harmondsworth 1970; M. EDELMAN. The symbolic use conotações globais, válidas para toda a sociedade, of politics. Illinois U. P., Urbana 1967; C. J. FRIEDRICH embora ambos aspirem a isso. e Z. L BRZEZINSKI, Totalitarian dictatorship and
A política atua sobre o social em relação com o autocracy, Praeger, New York 1965; K. GALINSKI,
Mito político, não menos essencial pelo fato de a Aeneas, Sicily and Rome, Princeton U. P., Princeton política o querer negar ou tornar seu apêndice 1969; M. GAROA PELAYO, Miti e simboli politici instrumental. A continuidade e a natureza dessa (1964), Borla, Torino 1970; M. GODELIER, Rapporti di relação torna, em conseqüência, necessário assumir o produzione, miti, società (1975), Feltrinelli, Milano Mito político como conceito analítico independente, e 1976; CH. HILL, Puritanism and revolution. Secker-isto não sob o signo de um reducionismo psicológico, Warburg. London 1968; G. SOREL, Considerazioni sulla porque no nosso mesmo viver está implícita, como violenza (1905-1907), Laterza, Bari 1970; H. TUDOR, "ponto de vista", a imprescindibilidade da reflexão Political myth. Pall Mall, London 1972. racional consciente e da política, mas para obviar ao
reducionismo racionalista — verdadeira diminutio [TIZIANO BONAZZl]
para o homem —, que repudiou qualquer contato com
os produtos simbólicos e fantásticos, tachados de Mobilidade Social. "irracionais". O Mito político tem, portanto, valor
heurístico, restituindo o pensamento político a si I. DEFINIÇÃO DO CONCEITO. — Por Mobilidade se mesmo, fazendo-lhe compreender não a inutilidade de entende a mudança de indivíduos ou grupos de uma
seus esforços, mas a impossibilidade de desempenhar posição social para outra. Pode haver vários tipos de
sua função, se se isola numa esfera de autonomia Mobilidade, segundo os diversos atributos do espaço
inexistente. A conquista do social que é possível adotar para definir as posições
sociais e o tipo de movimento
MOBILIDADE SOCIAL 763
que se dá entre elas. Distingue-se, antes de tudo, a fases do seu ciclo de existência, no início da sua
mobilidade horizontal e a mobilidade vertical. Por atividade profissional e no momento da aposentadoria,
mobilidade horizontal se entende o deslocamento ou por exemplo, ter-se-á um caso de mobilidade
passagem de uma posição social para outra, entre as intrageracional. Se, em vez disso, se confronta a quais não é possível estabelecer diferença de níveis. profissão de um indivíduo com a profissão do pai na
Pertencem a este tipo, por exemplo, muitas das formas mesma fase do ciclo de vida, ter-se-á um caso de
de mobilidade territorial, conquanto muitas vezes a mobilidade intergeracional. No primeiro caso poder-mudança de residência possa envolver também um se-á também falar de carreira, sobretudo se as deslocamento na direção vertical. Quando um mudanças ocorrem dentro da mesma organização e se indivíduo muda de confissão religiosa, se inscreve nesta estão fixados as etapas e mecanismos para a
num partido político diferente daquele a que pertencia passagem de uma posição hierárquica a outra, como
antes, se divorcia para fundar um novo núcleo em geral acontece nas organizações complexas, sejam familiar, ou troca o posto de trabalho mantendo a elas empresas privadas ou burocracias públicas. mesma qualificação profissional, encontramo-nos Geralmente, porém, quando se diz que numa
diante de outros tantos casos de mobilidade horizontal. sociedade a mobilidade é maior que em outra, nos
A mobilidade vertical indica, ao invés, um referimos à mobilidade intergeracional, ou seja, ao
deslocamento entre posições sociais diversas, avaliáveis fato de que nela há um menor número de pessoas que
em termos de superioridade ou inferioridade. Falar-se- exercem a mesma profissão ou ofício que o pai. As
á então de mobilidade vertical ascendente ou condições para a verificação de um elevado índice de descendente, conforme a direção da mudança. mobilidade dão-se nas sociedades atingidas por um Conforme os atributos que se levam em consideração processo de mudança social, as mais das vezes ao definir as várias camadas sociais, poderemos ter resultante da industrialização. As correntes mais
uma mobilidade econômica, política ou profissional; notáveis de mobilização intergeracional são, com
quando as diversas camadas se compõem em função da efeito, devidas às transformações que, na curva de combinação destes atributos é que falamos de uma geração, ocorrem na estrutura das ocupações. As Mobilidade social propriamente dita. É importante transformações que levam ao crescimento da indústria
salientar que o conceito de mobilidade se refere apenas e do setor terciário e mudam a face do campo
a mudanças relativas; quando a remuneração de um alimentam as correntes migratórias entre o campo e a
indivíduo sobe por efeito de um geral aumento de cidade, que, por sua vez, provocam o aumento da
preços que atinge todas as posições, não se poderá mobilidade, isto é, a criação de novas ocupações falar de mobilidade. urbanas, a formação de novos postos de trabalho e, ao
Quando se considera a mobilidade vertical, é revés, a diminuição das antigas ocupações, quando
importante notar se quem muda são indivíduos ou não seu desaparecimento. Se do cálculo da
grupos. Um camponês que emigra para a cidade e é mobilidade se subtrai o efeito das transformações na
contratado como operário numa fábrica é um exemplo estrutura ocupacional, o resultado obtido constituirá o de mobilidade individual; uma categoria de índice puro da mobilidade. É claro que, se se elimina o funcionários estatais que obtém o tratamento jurídico e efeito das transformações que mudam a composição
econômico e a consideração social de uma categoria quantitativa das várias camadas sociais, a uma corrente
até então tida como mais elevada, nos oferece, pelo de mobilidade ascendente tem de corresponder uma
contrário, um exemplo de mobilidade de grupo. corrente análoga de mobilidade descendente. Esta
situação se verifica numa sociedade estática. Porém,
II. Os CANAIS DA MOBILIDADE. — A forma de nas sociedades modernas, a mobilidade ascendente
mobilidade mais freqüentemente estudada é a da supera, em geral, de modo notável, a mobilidade mobilidade profissional. Isto não depende apenas da descendente, devido exatamente ao aumento maior facilidade de encontrar dados sobre o assunto e quantitativo das posições no vértice e na faixa
do fato de haverem sido elaborados processos intermediária da escala social. metodológicos sofisticados para este tipo de estudos, Conhecer o índice de mobilidade, tanto global como
mas também de que a condição profissional constitui o puro, pode ser de utilidade nas análises comparativas,
melhor indicador em si da posição social de um quando, por exemplo, confrontamos sociedades de
indivíduo. Também aqui se distinguem duas formas, diferente grau de desenvolvimento econômico.
de acordo com o método de estudo empregado. Se se Quando, contudo, se quer conhecer os mecanismos e
confronta a profissão de um indivíduo em duas canais que sustentam estas correntes de mobilidade, é
diferentes necessário levar
764 MOBILIDADE SOCIAL
a análise a um nível mais profundo. O primeiro método de outras condições, prefere-se confiar cargos de
consiste no estudo da origem social dos indivíduos que responsabilidade e prestígio a indivíduos que dispõem
compõem um determinado grupo profissional e, de um título de estudos superiores. particularmente, os grupos de elite, por exemplo, A instrução, no entanto, só funciona como canal de
médicos, advogados, notários, juizes, deputados mobilidade ascendente quando o acesso aos vários parlamentares, bispos, membros do conselho de níveis escolares é de algum modo limitado e seletivo, administração de grandes sociedades acionárias e baseado em algum critério. Numa sociedade que
assim por diante. Poder-se-á então observar que até nas garantisse a todos os cidadãos a obtenção dos níveis
sociedades mais móveis existem grupos que são máximos de escolaridade, sem se modificar ao preferentemente recrutados das próprias fileiras; trata- mesmo tempo a estrutura das ocupações, a instrução
se, em geral, de grupos onde a hereditariedade não serviria mais de canal de mobilidade. O aumento
profissional anda vinculada à transmissão de um da escolaridade está, com efeito, ligado, nas
patrimônio, de um estudo profissional, ou então onde sociedades avançadas, à depreciação do valor social se consolidou a tradição de que os filhos seguissem a dos títulos de estudo e, portanto, à diminuição da
mesma carreira do pai. Podem então comparar-se importância da escola como canal de mobilidade. entre si os vários grupos profissionais e classificá-los
consoante as maiores ou menores possibilidades que III. CONSEQÜÊNCIAS DA MOBILIDADE SOBRE O oferecem ao acesso de indivíduos que, por nascimento, COMPORTAMENTO. — Os estudos realizados em vários provêm de grupos diferentes, particularmente de países levaram à conclusão de que a experiência da camadas sociais inferiores. Existem grupos, por mobilidade traz importantes conseqüências para o exemplo, o clero, que, por definição, excluem a comportamento dos indivíduos envolvidos, embora
transmissão hereditária e que, por conseguinte, têm estas conseqüências variem de país para país. Nos
constituído historicamente importantes canais de Estados Unidos, por exemplo, se evidenciou que as mobilidade. Uma das conseqüências sociais mais pessoas que passaram da classe operária para a classe importantes do celibato dos padres católicos tem sido média são politicamente mais conservadoras que as
a de deixar aberto o acesso às hierarquias superiores a que pertenciam à classe média desde a nascença. Isto
indivíduos provenientes das camadas sociais mais se explica pelo fato de que aqueles que passam a fazer
humildes. Em certos países, especialmente nos países parte de um grupo tendem a interpretar os seus valores
subdesenvolvidos do Terceiro Mundo, é análogo o e modos de comportamento de forma mais rigorosa
papel desempenhado pelos militares. Em outros países, que os que já lhe pertenciam. Nos países europeus,
pelo contrário, o uso das armas está rigorosamente pelo contrário, parece operar um mecanismo diverso:
reservado aos pertencentes a uma restrita casta os indivíduos móveis, especialmente quando de
militar. Com a transformação da estrutura da origem operária, tendem a levar consigo, pelo menos propriedade, provocada pelo advento das grandes em parte, os valores e atitudes da classe de onde sociedades por ações, os mais altos níveis da provêm. Mas parece um fato comum em todos os hierarquia empresarial se tornaram também acessíveis países que os indivíduos e grupos que sofreram um a indivíduos que não são proprietários. O declínio na sua posição social tendam, em geral, com fortalecimento dos partidos operários tem permitido maior probabilidade, para posições e ideologias
muitas vezes o exercício de funções de poder a extremistas muito freqüentemente de direita. Uma das
indivíduos oriundos das classes mais baixas. Existem, interpretações sociológicas mais difundidas do
além disso, certos grupos profissionais — é típico o fascismo mostra, por exemplo, como a base social dos
dos professores do ensino primário — que constituem movimentos eversivos de direita tende, o mais das freqüentemente um degrau de passagem numa escala vezes, a ser recrutada dos grupos sociais em declínio,
de mobilidade que abrange a curva de várias pertencentes à classe média, e, particularmente, dos gerações. Os professores primários são, com pequenos empresários, artesãos e agricultores
freqüência, filhos de membros da classe operária, de independentes que vêem ameaçada a sua posição com
camponeses ou de empregados, enquanto que os seus o aumento da importância política da classe operária e
filhos podem amiúde chegar às profissões de grau do grande capital. superior. Isto se deve ao fato de que, em geral, os A experiência da mobilidade traz também professores atribuem particular importância à importantes conseqüências para a personalidade dos instrução e, por isso, fazem tudo para que os filhos
indivíduos envolvidos. É fácil que as pessoas móveis e
possam estudar. Nas sociedades modernas, a instrução
suas famílias experimentem situações de acentuado
representa, na realidade, um dos canais mais isolamento social. Estarão propensas a descurar as importantes de mobilidade. Em igualdade relações sociais, tanto de natureza
MOBILIZAÇÃO 765
familiar como de natureza amigável, do ambiente de enfrentar uma guerra. Neste caso se fala de
origem e encontrarão dificuldade em estabelecer Mobilização geral, total ou de massa. A proclamação
novas relações com pessoas e famílias do estrato de do estado de Mobilização é normalmente usada como
que passaram a fazer parte. Isto se refletirá meio de pressão sobre países adversários a fim de
necessariamente num grande isolamento da família ostentar uma clara vontade de intervir com a força
nuclear, que terá de suportar o custo psicológico de para solucionar controvérsias pendentes. Mobilização tal isolamento. Isto explica por que, nestes casos, a política, em oposição a participação política, indica o instituição familiar fica mais exposta à desintegração; processo de ativação das massas por parte dos
na realidade, quanto mais os indivíduos dependerem governantes, ou dos inscritos por parte dos chefes de
emotivamente da família como fonte de gratificação uma organização política; isto é, indica uma atividade
nas relações interpessoais, tanto mais esta estará de incitamento à ação imposta do alto, em oposição às
exposta a tensões que lhe ameaçam a integridade. O atividades espontâneas provenientes da base e que
mesmo se diga quanto à maior incidência de doenças caracterizam a participação genuína (v. PARTICIPAÇÃO mentais, particularmente de neuroses, entre os POLÍTICA). Neste sentido, as organizações políticas indivíduos móveis do que entre os que não fizeram tal podem mobilizar seus inscritos a fim de aumentar sua
experiência. A mobilidade exige, de fato, dos força de pressão sobre o Governo e sobre as outras
indivíduos uma alta capacidade de adaptação a organizações, assim como os Estados se servem da
situações ainda não suficientemente estruturadas, Mobilização geral como instrumento de pressão nas
tanto do ponto de vista cognitivo como emotivo, e isto, relações internacionais. com o tempo, se torna para muitos excessivamente Recentemente o termo Mobilização foi empregado
desgastante. O indivíduo móvel se vê assaltado por para descrever um fenômeno social de grandes
duas necessidades com freqüência dificilmente conseqüências. Mobilização social significa então um
conciliáveis entre si: a necessidade de ser esquecido processo complexo que implica a passagem de um
pelo grupo de proveniência e a necessidade de ser tipo de comportamento para outro. Este processo é
aceito pelo grupo de destino, isto principalmente se mais bem conceituado, se concebido em três estádios:
entre ambos os grupos existe uma diferença social e ruptura dos velhos modelos de comportamento,
cultural notável. O fato de que a estrutura da isolamento e disponibilidade, indução de novos padrões
personalidade, qualquer que ela seja, apresente sempre de comportamento e sua aceitação e interiorização.
um certo grau de rigidez é talvez um dos fatores que Caso faltem na sociedade organizações e formas
contribuem em toda a sociedade para manter baixo o processuais capazes de atender às instâncias e
índice de mobilidade. exigências dos grupos mobilizados, verificam-se
períodos mais ou menos prolongados de comportamento apático e anônimo que pode, enfim,
BIBLIOGRAFIA.- R. BENDIX E.S. M. LIPSET,La mobilità sociale levar à alienação (v. ALIENAÇÃO).
nella società industriale (1959), Etas Kompass. Milano 1973; V. A Mobilização social envolve um conjunto de
CAPECCHI, La misura della mobilità sociale. in AUT. VÁR., processos nos vários setores do sistema social. Na
Questioni di Sociologia. La Scuola, Brescia 1966. vol. II; R. esfera social propriamente dita ela significa GIROD, Disuguaglianza-disuguaglianze. Un'analisi della Mobilidade social e urbanização; na esfera econômica mobilità sociale (1977), Il Mulino. Bologna 1979; J. significa ampliação da economia de mercado e
LOPREATO, La mobilità sociale in Italia, in "Rassegna Italiana industrialização; na esfera cultural significa instrução
di Sociologia'", XV, 1974, n.º 4; M. P ACI, Mobilità sociale e universal e sujeição aos meios de comunicação de
partecipazione política, in "Quaderni di Sociologia". XV. 1966 massa; na esfera religiosa significa abandono da
n.º 3-4; P. SOROKIN. La mobilità sociale (1927), Edizioni di superstição e secularização; na esfera política, enfim,
Comunità. Milano 1965. significa sufrágio universal, fim das discriminações
políticas e aumento da participação.
[ALESSANDRO CAVALLI]
Na sua formulação mais acreditada a Mobilização
social não é um processo unilinear, irreversível ou
sempre positivo. Os esforços da industrialização
Mobilização.
podem fracassar; às primeiras tentativas de participação política pode se seguir a apatia; a
Este termo foi usado pela primeira vez na linguagem ativação dos grupos lingüísticos, religiosos, étnicos e
militar e indica o processo pelo qual toda a população culturais pode provocar conflitos e dilacerações no
de um Estado se prepara para tecido social. A mudança do
766 MODERNISMO
âmbito de referência e identificação dos indivíduos do também, entre outras coisas, ao surgimento das
seu grupo primário para o Estado-nação pode se vanguardas artísticas e de novas descobertas
realizar de uma forma imperfeita e pode dar origem a científicas) as exigências da consciência religiosa
tendências centrífugas e a tentativas de secessão. moderna, perante as enormes mudanças políticas,
Todos estes processos e, em particular, os que antropológicas e sociológicas que ocorreram sob o
implicam tentativas de restrição da participação das impulso das grandes transformações estruturais e
classes inferiores, são definidos como desmobilização. técnicas operadas na Europa. Neles agia, no âmbito de
Apesar da realidade destes perigos, a direção geral do uma crise de valores que se mantinham ligados a uma
processo de mobilização social é ascendente, os economia agropastoril e de subsistência em declínio,
indicadores dos vários aspectos são correlatos e, em uma ânsia fundamentalmente apologética do certa medida, se reforçam reciprocamente. O ponto cristianismo, tendente a sintonizar as expressões
crucial do processo consiste no surgimento de novas teológicas e histórico-críticas da Igreja oficial com "o
instâncias políticas para satisfazer as exigências espírito do tempo", ou seja, com as instâncias e
produzidas pela mobilização social, que põem resultados do progresso científico e filosófico, em toda
duramente à prova a capacidade do sistema político. a parte ligado com os novos modos de produção
Novos e mais altos níveis de mobilização social podem industrial. ser atingidos só se o sistema político tiver a Seus escritos, pelo menos na maior parte dos casos,
capacidade de satisfazer as exigências que ela cria de não punham em discussão o núcleo germinal do
vez em quando. cristianismo, mas o revestimento ideológico e as
inevitáveis excrescências que os numerosos séculos
não lhe puderam poupar. Na prática, depois, a ação
[GIANFRANCO PASQUINO]
seletiva dos detritos da substância não conseguia
muitas vezes, por variados motivos, atingir seu intento
sem dificuldade e sem dor, o que provocou não
Modernismo. poucas crises pessoais.
A autoridade eclesiástica romana, partindo de
Este neologismo surge aqui e ali por meados do premissas bem diferentes, ligadas a uma concepção
século XIX, para indicar muito vagamente uma fixista e dogmatizante, não tardou em opor-se com
corrente de estilos e conteúdos poéticos novos. No extraordinária dureza ao movimento, mal este surgiu,
alvorecer do presente século, na Itália, ele passa, por reconhecendo nele "a síntese de todas as heresias".
analogia, do campo literário para o religioso. É usado Pio X, em agosto de 1907, com a encíclica Pascendi inicialmente com ironia pelos católicos tradicionalistas, dominici gregis, que tentava fazer do modernismo uma em luta polêmica contra os simpatizantes e promotores síntese unitária, mas um tanto deformada na opinião
do movimento cultural inovador que assentava não só dos interessados, condenou toda a manifestação
principalmente no evolucionismo em todos os setores e modernista. Seguia-se-lhe uma série de sanções e de
provocou o interesse crítico de todas as igrejas disposições disciplinares contra os inovadores,
históricas, a começar pela cristã e particularmente pela verdadeiros ou supostos, abrindo entre as cúrias
católica. Com este significado reformista-religioso, o diocesanas uma espécie de disputa nada nobre na
termo entrou no léxico usual europeu para aí ficar chamada caça às bruxas, uma disputa que havia de
definitivamente. Por isso, quem hoje diz Modernismo durar praticamente até ao pontificado de Bento XV.
reevoca um movimento, de idéias substancialmente Histórica e corretamente falando, o movimento
crítico-religiosas, muito complexo e variado em suas modernista não pode ser reduzido a um bloco
múltiplas expressões, que, no início do século XX, na doutrinai compacto e homogêneo, apresentando-se
área ocidental, tentou arrancar a formulação da fé antes como um estado de espírito marcado por
revelada de um quadro metafísico absolutizante, para aspirações comuns, mas de valências diversas, não só
inseri-la no processo real da história e da cultura, em nos diferentes contextos ambientais e sociais, como
constante mudança. O Modernismo representou, em também no âmbito da mesma confissão religiosa e até
termos mais simples, um esforço por harmonizar a fé da mesma região. Assim, com a abordagem das
com o progresso científico, esforço que se apresentaria sínteses gerais, nos Estados Unidos da América
de novo na transição de uma época a outra. (Hecker, Gibbons, Ireland, Keane, O'Connel,
Foi assim que seus propulsores julgaram interpretar Spalding, Perié), este movimento se colore de
(naquele dado período, que corresponde pragmatismo naturalista por um cristianismo de
concorrência; na Alemanha (Harnack, Schell, Kraus,
Ehrhard, Sickenberger, Muth,
MODERNISMO 767
Engert, Rudolphi), de crítica histórica e bíblica em faz dela a base de uma nova fundamentação da fé, não
sentido liberal; na França (Loisy, Houtin, Auguste necessariamente coincidente com as formulações da
Sabatier, Laberthonnière, Duchesne, Le Roy, teologia oficial. Em resumo, se os liberal-católicos se Bergson), de voluntarismo filosófico e psicológico- revelam mais preocupados pelas relações entre
religioso; na Inglaterra (Newman, Tyrrell, Petre, Von liberdade e autoridade, bem como pela salvaguarda
Hügel, Lilley, Bishop, Collins, Hummersley), de objetiva do fato cristão, por outro lado, não percebem
antiintelectualismo imanentista; na Itáli a (Buonaiuti, ou até rejeitam toda problemática que atente contra o
Minocchi, Murri, Fogazzaro, Graf, Fracassini, patrimônio doutrinai da Igreja institucional, Genocchi, Gambaro, Semeria, Vannutelli), de forte mostrando assim uma clara falta de ajustamento entre
ânsia pastoral-apologética, não isenta muitas vezes de o tipo de reformismo auspiciado e a análise histórica
apelos evangélicos. de onde o fazem nascer. Quando muito, poder-se-ia
Analogicamente, não convencem de todo as afirmar que o liberal-catolicismo possui um sentir que
categorias escolásticas, introduzidas pela encíclica o avizinha um pouco do Modernismo moderado, mas
papal e depois assumidas por certa ensaística, que não certamente do Modernismo radical, o verdadeiro
atribuem distinções específicas aos vários setores Modernismo. O exemplo mais palpável o oferece o
visados pela crítica (modernismo bíblico, filosófico, bispo Bonomelli. político, social, literário, etc). Em geral, a historiografia italiana, tanto a de
A distinção mais lógica, que se funda em algumas inspiração católica como a de inspiração laica, se bem
constantes e abrange as múltiplas expressões do que por razões diferentes, não tem mostrado, até há
modernismo nos diversos campos, é, antes de tudo, a bem pouco, muito interesse pela controvérsia
distinção entre modernismo moderado e modernismo modernista e por tudo aquilo que lhe é subjacente:
radical. O primeiro compreende a corrente reformista uma, por repugnância em indagar sobre uma fase sem
que salva a transcendência conforme a formulação do dúvida repressiva por parte da autoridade eclesiástica,
magistério eclesiástico, restringindo-se a um trabalho outra, por um preconceito idealista. Ambas, porém,
de correção e atualização técnico-científica para o tudo ponderado, tendem a considerar o movimento
"rejuvenescimento" formal do patrimônio doutrinai da como um fato intrínseco à instituição eclesiástica,
Igreja institucional; o segundo, pelo contrário, sem qualquer relação dialética com as transformações
desenvolve em profundidade as premissas ético- da sociedade civil, isto é, como um fato que extrapola
culturais do sentimento religioso, prescindindo das os contextos reais e políticos. O único que, em tempos
categorias transcendentalistas e reveladas, para uma nada suspeitos,* conseguiu ver nele um certo ligame
mediação antropológica não dualista que se resolva na foi Gramscí, que não deixou de assinalar na crise
experiência subjetiva e no sentimento de fé. modernista uma série de conexões interagentes entre a
Daí, sempre no plano da interpretação, deriva ainda sociedade civil e a sociedade religiosa.
outra distinção entre o movimento modernista em
geral e o liberal-catolicismo, demasiado
BIBLIOGRAFIA.-AUT. VÁR., Fonti e documenti.
freqüentemente confundidos, por causa de uma certa
Argalia. Urbino 1972-1981 (10 volumes até agora);
identidade verbal nas denúncias (clericalismo, poder
temporal) e de certa convergência nos juízos acerca da Id., Der Modernismus. Tübingen 1974; L. BEDESCHI.
Interpretazioni e sviluppo del modernismo cattolico,
política eclesiástica (Estado-Igreja, autonomia da
Bompiani. Milano 1975; Id.. La curia romana durante
ciência). Mas, por trás destas ambíguas e ligeiras
la crisi modernista. Guanda. Parma 1968; Id.,
consonâncias, existe, bem considerados todos os
aspectos, uma fundamental discordância. Ambos os Lineamenti dell'antimodernismo. Il caso Lanzoni.
Guanda. Parma 1970; E. BUONATUTI. Il pellegrino
movimentos partem, com efeito, de uma concepção
di Roma. Laterza, Bari 1956'; A. HOUTIN. Histoire du
eclesiológica diametralmente oposta, para não
falarmos de outras coisas. O liberal-catolicismo, que modernisme catholique. edição do autor. Paris 1913;
tem preocupações predominantemente políticas, A. LOISY, Mémoires pour servir à l'histoire religieuse
de notre temps. Nourry. Paris 1930-31, 3 vols; G.
concebe a Igreja como uma sociedade completa e
MARTINI. Cattolicesimo e modernismo. Momenti di una
juridicamente perfeita, em contraste com o modernismo que, ao invés, tendo preocupações pré ou crisi del pensiero religioso moderno. Edizioni
metapolíticas, a considera uma realidade espiritual, Scientifiche Italiane, Napoli 1951; E. POULAT,
Histoire, dogme et critique dans la crise moderniste.
progressivamente realizada no tempo. O primeiro 2
Castermann. Tournai-Paris 1980 ; M. RANCHETTI,
entende a questão crítico-exegética como uma
atualização técnica da "ortodoxia" tradicional, Cultura e riforma religiosa nella storia del modernismo.
enquanto o segundo Einaudi, Torino 1963; J. RIVIERE, Le modernisme dans
l'Église. Letouzey. Paris 1929; P. SABATIER, Les modernistes, Fischbacher, Paris 1909; P. SCOPPOLA, Crisi
768 MODERNIZAÇÃO
modernista e rinnovamento cattolico in Italia. Il controlar sua evolução, dirigindo-a para os fins
Mulino. Bologna I9793; A. VIDLER , A variety of desejados. catholic modernists. University Press. Cambridge 1970. II. MODERNIZAÇÃO POLÍTICA. — Toda a definição
de Modernização política há de ser tal que permita
[LORENZO BEDESCHI] captar o processo no seu desenvolvimento dinâmico,
sem assumir como modelo formas políticas existentes;
deve também permitir enuclear as características de
Modernização. modernidade, tanto as relativas aos cidadãos como as
relativas ao sistema político, e evitar a confusão entre
modernidade e democraticidade. A definição até hoje
I. DEFINIÇÃO. — Entende-se por Modernização mais satisfatória e que mais atende a estes requisitos
aquele conjunto de mudanças operadas nas esferas acentua três características principais: a igualdade, a
política, econômica e social que têm caracterizado os capacidade e a diferenciação. dois últimos séculos. Praticamente, a data do início do Existe, portanto, Modernização política quanto à
processo de Modernização poderia ser colocada na população de uma comunidade política em seu
Revolução Francesa de 1789 e na quase conjunto, quando se verifica a transição de uma contemporânea Revolução Industrial inglesa que condição generalizada de súditos para um número provocaram uma série de mudanças de grande crescente de cidadãos unidos entre si por vínculos de
alcance, nomeadamente na esfera política e econômica, colaboração, passagem que é acompanhada pela
mudanças que estão intimamente inter-relacionadas. expansão do direito de voto e da participação política,
Naturalmente, o fermento dessas duas grandes por uma maior sensibilidade e adesão aos princípios transformações há de ser buscado nas condições e nos de igualdade, e por uma mais ampla aceitação do valor processos que vinham se desenvolvendo havia das leis erga omnes. Existe Modernização política algumas décadas e que culminaram nas duas quanto ao desempenho do Governo e do sistema na revoluções. Estes processos de transformações sua globalidade, quando se verifica um aumento da profundas e freqüentemente rápidas tiveram capacidade das autoridades em dirigir os negócios repercussões imediatas no sistema internacional e públicos, em controlar as tensões sociais e em
foram exportadas pelos europeus para toda a parte, enfrentar as exigências dos membros do sistema.
mesmo que só vingassem lenta e parcialmente. É essa Quanto à organização da esfera política há
a razão por que o processo global foi designado com Modernização, quando se verifica uma maior o nome de europeização, ocidentalização ou, enfim, diferenciação estrutural, uma maior especificidade com o termo mais abrangente e menos etnocêntrico de funcional e uma maior integração de todas as Modernização. instituições e organizações que fazem parte da esfera
Além disso, com o passar do tempo, se tomou política (Pye e Verba, 1965, 13). Esta definição que
consciência de que a Modernização não é apenas o examina a Modernização política a três níveis — a
processo de difusão de instituições, valores e técnicas nível da população, à nível do sistema político e a nível
européias, mas é um processo aberto e contínuo de dos subsistemas, particularmente do subsistema
interação entre as várias instituições, culturas e governamental — é bastante eficaz, porque não exige
técnicas. Este processo envolve todas as esferas do somente um crescimento indefinido e inevitável no
sistema social de forma freqüentemente conjunta, se âmbito das três dimensões, mas permite detectar
desenvolve segundo modelos alternativos que analiticamente incrementos numa dimensão e declínio apresentam características semelhantes e peculiares, noutras, além da incompatibilidade entre tipos
modelos que permitem, porém, identificar, no diferentes de incrementos simultâneos. Trata-se, enfim, transcorrer da história, sistemas políticos, econômicos de uma definição estimuladora, porque aberta, não
e sociais mais ou menos modernos do que outros, com unilinear, multidimensional. base em categorias comparadas. O aspecto mais
interessante do processo de Modernização se relaciona III. ESTÁDIOS E CRISES DA MODERNIZAÇÃO. — No exatamente com o surgimento de formas políticas, estudo da Modernização recorreu-se a uma econômicas e sociais distintas e diferenciadas. O conceituação de uso bastante comum e consolidado
estudo da Modernização pretende fornecer uma nas ciências sociais, recentemente reapresentada com resposta aos questionamentos relacionados com os vigor em economia, que interpreta a evolução
fatores que dão origem à extraordinária variedade de histórica segundo uma seqüência, mais ou menos
formas políticas, sociais e econômicas e elaborar rígida, de estádios. Após uma cuidadosa instrumentos que permitam influir no desenrolar do
processo de Modernização e
MODERNIZAÇÃO 769
análise da história dos sistemas políticos ocidentais, atribuições na superação das rupturas entre o centro e alguns autores identificaram certos desafios a periferia, entre Estado e Igreja, entre cidade e fundamentais ou crises sistêmicas que, embora de campo, entre indústria e agricultura. Mas, acima modalidades e cursos diversos, todos os sistemas desses mecanismos, muitos autores frisam que aquilo tinham aparentemente que enfrentar. Estas crises, que mais conta nesta fase é o estilo e o ethos do sobre cujo número e sobre cujo melhor Governo. desenvolvimento não existe ainda um acordo completo, A crise de participação se verifica quando se
podem ser definidas e classificadas, segundo a amplia o âmbito dos indivíduos ou dos grupos que tendência mais comum entre os autores como: crises intentam participar das opções políticas. As exigências de penetração, crises de integração, crises de de participação acontecem normalmente junto com identidade, crises de legitimidade, crises de importantes mudanças nos setores econômico e social, participação e crises de distribuição. As crises de que geram novas necessidades. As respostas das penetração e de integração se referem ao processo pelo autoridades a estas exigências podem consistir na qual surge um Estado mais ou menos centralizador. Este concessão do direito de voto, de reunião, de Estado procura expandir e reforçar a sua autoridade, associação, de liberdade de imprensa, na abolição do penetrando nos vários setores da sociedade, exigindo e voto público e na instauração do princípio "um conseguindo para com o poder central a obediência homem-um voto", na extensão do sufrágio a toda a anteriormente devida aos centros do poder local. As comunidade, com exclusões baseadas somente no crises de penetração e de integração são dois desafios requisito da idade, e, enfim, na legitimação completa
que poderíamos considerar de caráter estrutural, para da oposição, incluindo até o seu acesso ao Governo. os quais as respostas das autoridades centrais tendem a No processo de solução da crise de participação ser essencialmente estruturais. As autoridades centrais aparecem as primeiras organizações políticas procurarão constituir uma burocracia estatal; recrutar permanentes como os partidos políticos e, em seguida, um exército de provada lealdade e, especialmente, um os grupos de interesse. A crise de distribuição, enfim, corpo de polícia; unificar mercados e moedas e diz respeito às modalidades de uso dos poderes construir infra-estruturas viárias que facilitem as governamentais para efetuar transferência de riqueza comunicações entre o centro e as periferias. As crises entre os cidadãos e para distribuir bens, serviços, de identidade e de legitimidade se referem ao processo valores e oportunidades. As soluções possíveis desta pelo qual os cidadãos chegam a obedecer às leis crise são todas as intervenções que visam tornar emanadas do Estado, a aceitá-las como justas e operante e efetivo o princípio da igualdade de obrigatórias e a sentir-se parte da comunidade política. oportunidades, e, portanto, de modo especial, a Estas duas crises dizem respeito, portanto, de um lado, instituição de um sistema escolar universal e gratuito, e numa dimensão vertical, às relações dos cidadãos a criação de um sistema assistencial de saúde e com as autoridades e, do outro lado, e numa dimensão aposentadoria generalizado, a instauração de um horizontal, às relações entre os vários grupos sociais, sistema de tributação progressiva e qualquer outra
econômicos, religiosos, étnicos e regionais. Foi através medida de eqüidistribuição da renda nacional. da solução destas duas crises que se chegou Estas crises representam os desafios; foi normalmente à formação do Estado-Nação. As crises
respondendo a eles que os sistemas políticos ocidentais
de identidade e de legitimidade são desafios de caráter se modernizaram; as respostas aqui delineadas
essencialmente cultural, para os quais as respostas das constituem apenas algumas das respostas possíveis.
autoridades funcionalmente positivas tendem a ser de De fato, de um lado, não se pode esquecer que as
caráter cultural. A solução das crises de identidade
respostas a cada uma das crises são condicionadas pela
será favorecida por uma política que vise à proteção ordem anterior do sistema, sendo a base de ulteriores
dos direitos das minorias, pela igualdade no condicionamentos para as respostas às crises
tratamento dos vários grupos (especialmente no que
vindouras. De outro lado, a capacidade inovadora do
diz respeito ao recrutamento político) e por uma
homo politicus é grande e, portanto, não se podem
contínua produção de símbolos de caráter nacional. A excluir a priori respostas originais por parte dos solução da crise de legitimidade comportará a criação sistemas que ainda não resolveram suas crises, nem
de mecanismos e dispositivos constitucionais
inovações surpreendentes nas respostas aos desafios,
adequados à representação dos vários grupos, mas
certamente exigidas numa época que terá de enfrentar
concernentes sobretudo à consecução de um acordo os problemas da possibilidade do suicídio atômico
fundamental sobre a natureza do Governo legítimo e coletivo, da corrida à conquista dos espaços, da
sobre suas responsabilidades e
superpopulação e do empobrecimento do Terceiro
Mundo.
770 MODERNIZAÇÃO
De modo particular, quatro fatores influenciam e industriais se deu sem abalos, se optou pelo caminho
têm historicamente influenciado o curso da da democracia burguesa; países, como a Alemanha, o Modernização política. Em primeiro lugar, o tipo de Japão e a Itália, em que a Modernização começou no
estruturas e de cultura política tradicionais; em fim do século XIX sob pressões externas e foi levada
segundo lugar, o momento histórico em que teve adiante por uma difícil aliança entre elites agrícolas,
início o processo de Modernização; em terceiro lugar, burocráticas e industriais, com a exclusão das massas
as características da liderança modernizadora; enfim, a da participação política, enveredaram pelas vias do
seqüência em que se apresentaram as várias crises. fascismo; países, enfim, como a União Soviética e a
Ainda não é possível apresentar generalizações China, em que a Modernização teve início somente no empíricas solidamente documentadas acerca dos tipos século XX e precisou da mobilização das massas de estruturas e de cultura política tradicionais que camponesas contra os proprietários fundiários e as
teriam melhores condições de assimilar e gerar classes parasitárias urbanas, abrínram o caminho das
mudanças políticas. Em geral, o que mais se acentua revoluções comunistas (Moore, 1969).
são as características da legitimidade, da autonomia e Este assunto leva inevitavelmente ao estudo das
da eficiência das instituições políticas, e a características das lideranças modernizadoras,
flexibilidade e capacidade imitativa da cultura características que constituem uma variável importante
tradicional. na explicação do processo de formação de certos tipos
A Modernização política é um processo que de Governo, não de todos. Tipicamente, nos primeiros
implica a transferência do poder de uns grupos para países a se modernizarem e, em geral, na Europa
outros e o uso do poder na introdução de inovações ocidental, o papel de guia foi desempenhado, embora
nos diversos setores da sociedade. Alguns autores têm de modos diferentes em cada país, pela burguesia, isto
frisado que existe uma certa tensão entre duas é, por uma nascente classe comercial e empresarial,
exigências opostas mas também necessárias da em luta, de um lado, contra a aristocracia latifundiária Modernização política. Essa tensão se verifica entre a e, de outro, contra os camponeses e o primeiro
centralização do poder nas autoridades centrais e a proletariado urbano e industrial. Os intelectuais, como
difusão das inovações na sociedade. Temos assim, de tais, não tiveram um lugar privilegiado neste processo,
um lado, sistemas políticos com uma forte autoridade cujo impulso vinha do setor industrial. Boa parte do
central, capazes de impor as mudanças necessárias, processo de Modernização política da Europa
conquanto também de as obstaculizar e de a elas se ocidental poderia até ser vista pela lente conceptual da
opor tenazmente, mas que não são aptos a encorajar a luta da burguesia contra outros grupos sociais com o
criação de inovações entre os membros do sistema; de fim de obter o predomínio econômico e o controle dos outro, sistemas políticos descentralizados, com meios do poder político. Não é, portanto, exagerado autoridades menos fortes, onde a capacidade, afirmar que houve uma fase deste processo em que o inovadora pode prosperar, mas onde a aceitação e Estado constituía apenas o comitê executivo dos
difusão das inovações pelos vários setores da interesses da burguesia. sociedade é difícil, desigual e lenta. É neste período e em decorrência da luta
O período em que a Modernização política desencadeada pela burguesia que se verificam ou se
começou é de relativa importância, especialmente agravam algumas rupturas no seio do sistema social.
porque deu grande vantagem aos seus iniciadores, Uma tese influente e amplamente documentada faz
permitindo-lhes definir e resolver os primeiros remontar às discordâncias entre grupos sociais
problemas, freqüentemente de crucial interesse, com o organizados a existência de quatro fissuras, ressaltando
mínimo de pressões externas e em conformidade com a incidência destas na institucionalização das
as suas tradições, sem necessidade de obedecer à estruturas políticas, no seu funcionamento, na
imposição forçada de modelos elaborados e expressão do conflito e na expressão do dissenso.
experimentados alhures e sem a ânsia da concorrência. Duas destas fissuras são conseqüência direta da
O período do início da Modernização política foi de revolução nacional e dizem respeito aos conflitos e às
notável importância não só para a estrutura da relações entre a cultura e as exigências do "centro" e
sociedade tradicional, como também para as diversas entre a cultura e as reações de "periferia" — seja qual
classes sociais e para a escolha de diversos tipos de for o sentido em que se defina "periferia", tendo por
organização política estadual. Eis o que se tem base tanto as características étnicas, econômicas,
observado; nos países que, como a Inglaterra, França religiosas e lingüísticas como geográficas — e ao
e Estados Unidos, se modernizaram prematuramente, conflito entre as tendências centralizadoras do
de qualquer modo por meados do século XIX, e em
que o processo de transferência do poder político dos
proprietários fundiários para os empresários
MODERNIZAÇÃO 771
Estado e a tentativa de preservação dos privilégios melhoramento substancial em suas condições de vida.
corporativistas por parte da Igreja. As outras duas são Esta tese, vigorosamente contestada por muitos no
produto da Revolução Industrial e se referem ao plano da cultura da nova classe média e com base
conflito entre os interesses dos grandes proprietários numa análise estrutural da sociedade em que ela atua,
fundiários e os interesses dos empresários, e ao é contrabalançada pela tese que considera as
conflito entre os proprietários e fornecedores de revoluções camponesas, levadas a efeito mediante
trabalho, de um lado, e os assalariados e oferecedores uma longa guerrilha, onde se temperam as energias e
de mão-de-obra, do outro. O modo como estes se formam os quadros dirigentes, a única via ainda
conflitos são mediados e solucionados ou as fraturas aberta para a Modernização política econômica e
sociais são recompostas, o modo como os conflitos se social dos países do Terceiro Mundo. Além disso, pelo
acumulam e sobrepõem ou as fraturas se agravam, se menos a julgar pela recente experiência da revolução
transformam em sistemas partidários que diferem cubana, parece que os intelectuais estão também
substancialmente quer quanto ao papel desempenhado destinados a assumir funções diretivas nas auspiciadas
pela maioria, quer quanto à atividade e à legitimação revoluções camponesas do fim do século XX. da oposição. Uma das vantagens dos primeiros países a se
Ainda através da lente conceptual da história da modernizarem foi a oportunidade que se lhes oferecia
burguesia, a Modernização de tipo fascista pode ser de poderem, em certo sentido, adiar as diversas crises
vista como o tipo de Modernização que se verifica e, especialmente, enfrentá-las numa seqüência não
nos países onde a classe burguesa não dispõe de força destrutiva. Convém frisar, a este respeito, a
suficiente para derrotar as elites agrárias tradicionais e importância da emigração como válvula de segurança
tem de aliar-se a elas, aos burocratas e aos militares, de alguns regimes, particularmente da Inglaterra, nos
para fazer prevalecer os próprios interesses. O séculos XVIII e XIX; com a emigração, não somente
elemento marcante deste tipo de Modernização é que se eliminava um certo surplus da população, mas se ou se realiza do alto por obra de indivíduos unidos afastavam os dissidentes políticos, tornando mais
por um forte senso de sua missão e imbuídos por homogênea a comunidade política e desativando
sentimentos de autoritarismo e de desprezo das massas, alguns conflitos sócio-políticos de grande vulto. Hoje,
ou acaba por provocar um longo período de estagnação ao invés, a emigração atua numa direção bem
política, porque o conflito entre elites agrárias e elites diferente e, sobretudo devido ao desnível de renda e
industriais se resolve num compromisso prejudicial à de oportunidades, se resolve numa drenagem dos
população, usada como massa de manobra por ambos recursos intelectuais dos países do Terceiro Mundo
os grupos, mas substancialmente excluída da para os países ocidentais. O chamado braindrain não participação dos benefícios, embora mínimos, só enriquece os países já mais avançados no setor da produzidos por este fraco ritmo de mobilização de pesquisa científica, criando um novo círculo vicioso
recursos do país. Neste sistema, ou os intelectuais se ao tornar ainda mais aliciantes as comunidades
conformam em desempenhar a tarefa de legitimar científicas dos países "maduros", essencialmente os
ideologicamente o regime, ou são simplesmente Estados Unidos, mas empobrece, além disso, os países
marginalizados. Com o sucesso das revoluções que mais precisariam de técnicos e de pesquisadores
comunistas do século XX — a russa realizada qualificados. Às vezes, porém, a fuga das camadas de
predominantemente por uma união de intelectuais e técnicos e profissionais pode ser influenciada pelas
operários da indústria, e a chinesa por intelectuais e próprias opções políticas dos líderes dos países do
camponeses — os intelectuais conquistam um papel Terceiro Mundo, mas o aliciamento destes dominante no processo de Modernização de seus profissionais é, sem dúvida, uma forma sutil de
países, embora com êxitos e fracassos, por entre manifestação do imperialismo. A conseqüência política
humilhações e perseguições periódicas. relevante desta drenagem das energias intelectuais é
Hoje o debate sobre a classe ou o grupo que deve que aos países do Terceiro Mundo vem a faltar aquela
desempenhar as funções de lideranças nos países do camada de indivíduos que, historicamente, têm sido os
Terceiro Mundo se concentra na possibilidade ou não mais interessados na instauração de formas de
de que ocorra o advento de uma classe média com organização política e econômica comumente
forte definidas como modernas. espírito empresarial e impregnada de nacionalismo e populismo, que proceda, de um lado, à No que diz respeito mais especificamente às crises,
emancipação do país da dependência do capitalismo o problema central está na sua acumulação, nos modos
internacional e, do outro, saiba apelar para as massas como se apresentam, são enfrentadas e solucionadas.
operárias e camponesas, prometendo-lhes e realizando Sobretudo a acumulação das crises um
772 MODERNIZAÇÃO
de identidade, legitimidade, participação e esfera política das esferas econômica e social. É a
distribuição, cria situações muito complicadas. Se, de clássica posição marxista, adaptada e reformulada em
fato, a ampliação da participação política, entendida formas variadas, que considera as mudanças na
essencialmente como sufrágio universal, é exigida e superestrutura política como determinadas ou
concedida em sistemas políticos em que ainda não foi condicionadas pelas mudanças nas relações sociais de definido quem faz parte da comunidade política e produção. Paradoxalmente, verifica-se uma quem está excluído, nem quais são os procedimentos convergência da tese marxista, na sua forma mais
aceitos para a solução das crises, as conseqüências extrema, com a posição fortemente conservadora e de
prováveis são, de um lado, tendências separatistas dos defesa do status quo daqueles que ressaltam as "leis
grupos que se consideram prejudicados, de outro, da economia" como algo que não pode nem deve ser
mudanças contínuas e bruscas nos dispositivos contaminado por intervenções de natureza política. constitucionais. Se, depois, a crise de distribuição se Esta é também a perspectiva de muitos estudiosos
apresenta antes que se tenha verificado um comportamentistas (v. COMPORTAMENTISMO) que desenvolvimento econômico bastante consistente, o examinam as instituições políticas através de lentes
atendimento prematuro às exigências de distribuição conceptuais provindas da economia, da psicologia e da
provocará graves desequilíbrios na formação dos sociologia. Útil em si, a abordagem neomarxista leva,
investimentos e, conseqüentemente, nas sucessivas porém, a acentuar e a privilegiar só um aspecto da
possibilidades de produzir desenvolvimento mutável realidade dos países em via de Modernização econômico e de distribuir os resultados. Entre as e, na prática, dificilmente consegue dar conta das
limitadas generalizações de uma certa validade, a que mudanças que acontecem em países tais como a
sustenta a necessidade de que a compressão dos China, onde é teorizada "a primazia da política". A
consumos e um alto índice de investimentos sejam terceira posição constitui a negação da perspectiva
mantidos até se atingir o desenvolvimento marxista e afirma, exatamente, o predomínio da esfera
autopropulsivo, e que, em conseqüência, subordina a política sobre as outras esferas. Curiosamente, os
solução da crise de distribuição à arrancada industrial, antecedentes históricos e lógicos desta corrente de
parece uma das mais fundadas. No que respeita, pelo pensamento se encontram em alguns elementos da contrário, à participação política, considerando que a teoria leninista da conquista e do exercício do poder
Modernização é um processo de constante adaptação e num país atrasado, segundo os quais para a de contínuas inovações, não é absolutamente ousado Modernização da Rússia e a instauração do socialismo
prever o aparecimento de novas formas de seriam suficientes "o poder dos sovietes mais a participação, especialmente em setores limitados e em eletrificação", e na constante acentuação do poder
matérias específicas pertinentes à distribuição do político como meio de criação de novas relações
poder, ao seu exercício e ao seu controle. sociais que constitui uma linha relevante do
A Modernização política não acontece e nem pode. pensamento de Mao Tsé-Tung. A posição aqui
acontecer in vacuo, isto é, sem entrar em contato com assumida é que se deve partir para uma abordagem
a Modernização dos outros setores e, em particular, mais fecunda e, em conclusão, mais compreensiva, da
com a Modernização econômica e social. Este aspecto autonomia da esfera política, e que é necessário
do problema foi claramente percebido por quase todos analisar a Modernização de um sistema globalmente
os estudiosos, entre os quais, porém, surgiram através das interações da esfera política com as
tendências diferentes a respeito do papel específico da esferas econômica e social.
esfera política no processo global de Modernização.
Existem a este propósito três posições. Há aqueles que IV. MODERNIZAÇÃO ECONÔMICA. — Define-se como defendem a autonomia da esfera política das esferas Modernização econômica o processo pelo qual a
econômicas e social e que, portanto, analisam as organização da esfera econômica de um determinado
mudanças no interior da esfera política, procurando sistema se torna mais racional e mais eficiente. A
descobrir os seus efeitos na Modernização sócio- racionalidade é medida com base na correspondência
econômica e os seus reflexos na estrutura e na cultura dos meios usados em relação aos fins que se
política das mudanças nas esferas econômica e social. pretendem atingir. A eficiência é medida com base em
Esta abordagem parece particularmente frutuosa, três índices: o produto nacional bruto, a renda per
embora sua aplicação exija notáveis esforços capita e o índice de crescimento de produção per analíticos para enuclear tão claramente quanto capita. Enquanto os primeiros dois índices retratam a possível as variáveis em exame e não tenha sido situação de uma economia num determinado tempo e,
muito usada até agora. Existem, em seguida, os que portanto, são estáticos, o terceiro índice
sustentam a dependência da
MODERNIZAÇÃO 773
filma a situação e permite colher o próprio processo dentes da intervenção do Estado na esfera econômica,
de desenvolvimento e do crescimento da economia, e compendiada na experiência inglesa. Esta primeira
comparar várias economias e prever suas fase caracteriza-se, além disso, pela ausência de possibilidades de desenvolvimento sucessivo. Para organizações formais de operários. Com modalidades obter a qualificação de moderna, uma economia tem ligeiramente diferentes, que dependem da grande
que passar por várias fases. Embora a teoria dos disponibilidade de terras e da imigração maciça — de
estádios do desenvolvimento econômico (Rostow, grande importância para o mercado de trabalho e para 1962) tenha sido freqüentemente e sob diversas formas as lutas operárias — se desenvolve a experiência justamente criticada, ela fornece uma fácil e estadunidense. Uma corrente revisionista de estimulante síntese do processo de Modernização historiadores da economia pôs em relevo que, econômica. Segundo Rostow este processo se especialmente no setor do crédito bancário e dos desenvolve a partir da sociedade tradicional com a investimentos, o Governo estadunidense desempenhou
economia de subsistência, através da criação dos um papel bem mais importante do que o imaginado
requisitos para a arrancada, dos quais o mais pela ideologia americana predominante, individualista importante é a acumulação primitiva; a arrancada e liberalista. Numa segunda fase, a Modernização
representa uma verdadeira viragem, um salto econômica é favorecida e, freqüentemente, estimulada qualitativo centrado na industrialização implantada. por intervenções conscientes do Estado, como na
Segue-se depois a passagem à maturidade, que é o Alemanha de Bismarck e no Japão de Meiji. A
estádio em que se consolidam as mudanças estruturais potência econômica é considerada como um dos decorrentes da industrialização e se prove à eliminação meios, o mais importante, do exercício da atividade
dos desequilíbrios setoriais. Vem, enfim, a idade do política, tanto que se assiste a uma substancial
consumo de massa em que o setor econômico, antes subordinação da esfera econômica à esfera política,
orientado somente para a expansão do setor produtivo, enquanto, nos casos inglês e estadunidense, se havia especialmente dos bens instrumentais, é ajustado à desenvolvido, entre poder político e poder econômico,
produção crescente de bens de consumo. Apesar de os uma longa série de interações de êxito variável, estádios acusarem modalidades e tempos diferentes embora freqüentemente favorável aos interesses
(seguindo, por exemplo, a lei do desenvolvimento econômicos. Na terceira fase, representada não
combinado formulada por Trotski, que sustenta para somente pelos regimes comunistas revolucionários,
os países subdesenvolvidos a necessidade e a como a União Soviética e a China, mas também pela possibilidade de superar alguns estádios, como, por maior parte dos países em via de desenvolvimento,
exemplo, o estádio capitalista, graças ao inclusive a Índia, o próprio poder político se torna aproveitamento dos conhecimentos já adquiridos em empresário, quer por causa da fraqueza, corrupção ou
outros países), sobretudo no que se refere à adoção e à inexistência de uma classe empresarial nacional, quer
aplicação das inovações tecnológicas, a idéia central de devido aos fins que ele se propõe, não somente de um
que é preciso passar necessariamente de um estádio de rápido ritmo de desenvolvimento, mas também de um forte compressão de consumos, de notáveis poupanças desenvolvimento programado segundo diretrizes de e de grandes investimentos, para uma fase de tipo socialista, em sentido lato. O Estado empresário, desenvolvimento econômico autopropulsivo e de tanto na sua fase mais branda do fim do século XIX, expansão de consumos, não parece ser posta em como na sua fase mais forte nos países modernizantes dúvida. do século XX, tende a controlar com dureza as
A Modernização econômica, pois, conduz à organizações dos trabalhadores, negando-lhes
sociedade altamente industrializada, mas o processo autonomia e possibilidades de negociação e que ela implica e as mudanças que instiga, são muito participação no processo decisório, acabando, assim,
mais por impregnar de autoritarismo o funcionamento da vastas do que as provocadas pela
industrialização. O tema, porém, que interessa de máquina estatal. modo especial os estudiosos da Modernização, se Nos Estados ex-coloniais, a dialética entre as
refere ao tipo de estruturas políticas que facilita este exigências da Modernização econômica — com a
processo, às contribuições que estas estruturas podem conseqüente compressão mais ou menos prolongada
trazer para a sua evolução rápida e equilibrada, e aos dos consumos à custa, principalmente, da classe
reflexos que a Modernização econômica tem na esfera operária e dos camponeses — e as exigências de
política. Historicamente se verificaram três fases. A participação política e de distribuição de bens e
primeira caracterizada pelo laissez faire e por uma serviços, se apresenta numa forma aguda e até agora
série de ajustamentos quase totalmente indepen- não encontrou uma solução
774 MODERNIZAÇÃO
adequada. Em geral, pois, o problema central da outro lado, ele foi ocasionado pela alfabetização
Modernização econômica se refere, para o politólogo, generalizada e por um relativo aumento do tempo
à contribuição que o poder político pode oferecer para livre. As exigências funcionais da sociedade, uma melhor organização da esfera econômica, especialmente no que diz respeito ao trabalho nas
especialmente em cada um dos estádios do fábricas e a uma melhor utilização dos recursos desenvolvimento, e à capacidade que as estruturas humanos e materiais, facilitam paulatinamente os
políticas têm de abrandar, mediar, ou resolver os deslocamentos não só entre o campo e a cidade, mas
contrastes entre as classes sociais, produzidos pela também entre os diversos setores de atividades,
própria Modernização econômica (Holt e Turner, estimulando consideravelmente a mobilidade 1966). geográfica. Um dos efeitos mais importantes desse
aumento de mobilidade geográfica e das exigências
V. MODERNIZAÇÃO SOCIAL. — A par das do trabalhe nas fábricas está na ruptura dos esquemas
transformações que se originam na esfera econômica, tradicionais de estratificação e na revelação, embora
influenciadas por elas e a elas ligadas, ocorrem com limitações por vezes impressionantes, de um
também profundas transformações na esfera social. A notável grau de mobilidade social que parece ser já Modernização econômica que visa a uma melhor característica comum das sociedades industriais organização das capacidades e das potencialidades avançadas. No que concerne à estratificação, a
produtivas de uma sociedade envolve, antes de tudo, Modernização sócio-econômica exige e provoca a
um êxodo mais ou menos maciço de mão-de-obra passagem de uma estratificação rígida, baseada em excedente dos campos, mão-de-obra expulsa em parte vínculos de casta, para modelos de estratificação
pela mecanização do setor agrícola, em parte atraída alicerçados inicialmente em ligames muito estreitos e
pelas nascentes industriais urbanas. Criam-se, assim, firmes, tais como os das classes de tipo marxista,
enormes conglomerados urbanos. A necessidade de depois para modelos de estratificação nos quais os saber manejar máquinas complexas e de prover a ligames entre as classes se tornam flexíveis e variados
administração de grandes empresas torna necessário o e, enfim, para uma estratificação que produz o aumento da alfabetização para que se torne possível agrupamento dos indivíduos segundo as funções que
uma mais rápida, mais segura e mais ampla aquisição eles desempenham na sociedade. Este último modelo
dos conhecimentos indispensáveis. Acrescente-se que de estratificação, que assenta nas qualidades pessoais
a alfabetização adquire também um significado e na contribuição efetiva para o funcionamento da político próprio. "A exigência de uma instrução sociedade e que tem como legitimação uma ideologia
elementar é comum a todas as posições políticas: é da adequação dos meios aos fins, definida
apoiada pelos conservadores, que temem a freqüentemente como ideologia da ciência, seria tão indisciplina inata do povo, indisciplina que é preciso rígido quanto o da estratificação baseada nas castas,
conter com a instrução sobre os fundamentos mas poderia ser mitigado, com a aplicação do religiosos, inculcando, dessa forma, a fidelidade ao rei princípio da igualdade de oportunidades da forma
e à pátria; os liberais sustentam que o Estado nacional mais compreensível, não só incluindo todos os
exige cidadãos educados pelos órgãos do Estado; os membros da sociedade, mas também concedendo uma
populistas afirmam que as massas populares que vantagem inicial aos mais desfavorecidos. contribuem para a criação da riqueza do país deveriam As transformações ocorridas nos modelos de
participar das vantagens da civilização" (Bendix, estratificação têm, naturalmente, uma alta incidência
1969, 114). nas transformações que ocorrem nos vários tipos de
O processo de alfabetização é acompanhado e representação política (Apter, 1968). Dessa forma,
favorecido pelo desenvolvimento dos meios de enquanto nos sistemas com estratificação de casta a
comunicação de massa, só que relativamente mais representação política é muito limitada e reflete
tardio nos países da Europa ocidental, pois que os somente os interesses dos grupos restritos que giram
primeiros exemplos de imprensa "popular" remontam, ao redor dos governantes, à medida que se vai
na Inglaterra, aos começos do século XIX. Em processando a erosão dos ligames rígidos das castas e
seguida, o uso dos meios de comunicação de massa das classes de tipo marxista, se chega a uma variada
constituiu uma resposta, por um lado, aos esforços dos representação, baseada inicialmente no predomínio
governantes em comunicar as decisões políticas aos dos interesses econômicos, em seguida no princípio
governados da maneira mais rápida e compreensível, e "um homem — um voto", depois, na era atual, numa
em conseguir captar os desiderata dos governados mistura da representação popular através da imprensa da oposição ou não; por
MODERNIZAÇÃO 775
com a representação funcional, fundada na primazia teoria da ação social efetuada por Talcott Parsons na
em certos setores, dos expertos da área (caso típico: os esteira da análise weberiana. A teoria parsoniana se
comitês para o planejamento econômico). apóia em cinco pares de variáveis estruturais
apresentadas de forma dicotômica: adscrição-
VI. VALORES E VARIÁVEIS ESTRUTURAIS. — Nenhuma realização, particularismo-universalisrao, difusão-
reflexão sobre a Modernização pode fugir de uma especificidade, afetividade-neutralidade afetiva, análise dos valores, das tendências, das atitudes e das tendência para o eu-orientação para a coletividade: as
motivações de cada indivíduo e dos grupos que podem primeiras indicam as características do comportamento influir positiva ou negativamente na aceitação e na nas sociedades tradicionais e as segundas, as
produção de novas formas de agir social. O ponto de características do comportamento nas sociedades partida obrigatório para tal reflexão é constituído pela modernas. Nas sociedades tradicionais, em particular,
análise que Weber fez da relação entre ética o status repousa em considerações adscritivas e protestante e espírito do capitalismo, interpretada não hereditárias, nas sociedades modernas assenta em
como uma relação de causa e efeito, mas como considerações de mérito; nas primeiras avalia-se pelo identificação da correlação e do condicionamento de que a pessoa é, nas segundas pelo que a pessoa faz;
certos valores — o ascetismo individual, a procura do nas primeiras, o sistema das relações de papel é
absoluto na atividade mundana, a ética do trabalho — funcionalmente difuso no sentido de que todos os no surgimento de um novo sistema social. De acordo aspectos do comportamento podem ser considerados com o espírito weberiano, a análise pode ser estendida relevantes para qualquer relação; nas segundas, estas
à individualização das capacidades inovadoras e relações são funcionalmente específicas, isto é, transformadoras que possuem algumas religiões e os limitadas às considerações essenciais para manter a
sistemas culturais tradicionais. Do estudo weberiano da eficiência do sistema. A base normativa das relações
constelação de valores próprios do protestantismo pré- sociais pode prever a consideração do objeto social
capitalista (e que outros encontraram, por exemplo, no sob um ponto de vista particular, nas primeiras, e com
xintoísmo japonês) se passou, em seguida, à procura base em critérios gerais ou universais nas segundas. O
de um único valor como mola de Modernização sujeito age com base em considerações de afetividade, sócio-econômico e política. As explicações quando procura a satisfação imediata das próprias monofatoriais da Modernização, que tiveram maior necessidades individuais; de neutralidade afetiva,
ressonância recentemente, puseram em relevo a quando exerce um autocontrole em vista de procura do sucesso, o achievement need (McClelland, considerações de longo alcance. O sujeito pode 1961) e a empatia (Lerner, 1958), isto é, a capacidade perseguir exclusivamente o próprio interesse ou visar
psíquica de identificar-se com uma outra pessoa, de interesses do grupo a que pertence. conseguir projetar-se nos papéis desempenhados por
Estas variáveis estruturais dicotômicas foram objeto
outros indivíduos. Afirma-se que a empatia é o
de várias críticas. De fato elas não devem ser
pressuposto de mobilidade, porque somente quem
consideradas como dicotomias mas como pólos de um
consegue imaginar o próprio comportamento em
continuum. É indispensável, além disso, acentuar o
papéis, circunstâncias e localidades diversas dos
fato de que nenhuma sociedade é completamente
habituais se empenhará em atingir a posição
moderna nem completamente tradicional e de que em
imaginada, fazendo progredir com seus esforços a
todas as sociedades se encontram indivíduos que agem
própria sociedade. Da descoberta da existência de
segundo considerações de tipo moderno e outros que
valores correlatos à Modernização ou em relação de
agem segundo considerações de tipo tradicional; além
causa e efeito com ela, se passou ao estudo dos modos
disso, o mesmo indivíduo, em suas múltiplas relações
como esses valores são criados, transmitidos e
sociais, pode comportar-se, de cada vez, baseando-se
modificados e, portanto, a uma investigação cada vez
em considerações de tipo diferente. Tudo o que foi dito
mais complexa e sofisticada dos processos de para a cultura política pode, portanto, ser estendido à
socialização primária que não excluem a priori o peso
análise da ação social: "todos os sistemas políticos são,
das estruturas políticas e sociais.
do ponto de vista da cultura política, sistemas 'mistos'.
A maior parte dos estudos dedicados aos fenômenos Não existem culturas e estruturas 'totalmente
de transição de sociedades tradicionais para modernas' no sentido da racionalidade, nem
sociedades modernas se serviu largamente da 'totalmente primitivas' no sentido da tradicional idade.
conhecida e difundida formulação de uma Elas diferem, quer pelo relativo predomínio de uma
sobre
776 MONARQUIA
a outra, quer pelo tipo de mistura dos dois
componentes" (Almond e Coleman, 1960, 11). Princeton University Press. Princeton 1975; W. W.
VII. CONCLUSÃO. — Concluindo, a Modernização ROSTOW, Gli stadi dello sviluppo economico (1960),
é um fenômeno complexo, de amplo fôlego e Einaudi, Torino 1962; The formation of national multidimensional, que acontece em períodos de States in Western Europe. ao cuidado de C. TILLY. tempo diferentes e em todos os setores do sistema Princeton University Press. Princeton 1975. social. Portanto, para que a sua compreensão seja
completa e exata, exige-se uma atenção constante às [GIANFRANCO PASQUINO] interações entre os vários setores e o uso de métodos
múltiplos e abordagens interdisciplinares. Os dois
temas que emergem no estudo da Modernização são: Monarquia. de um lado, a tentativa do homem em controlar a
natureza e sujeitá-la às suas necessidades, do outro, o I. INDICAÇÕES DE ESTRUTURAÇÃO GERAL. — esforço perene de ampliar o âmbito das opções sociais Entende-se comumente por Monarquia aquele sistema
e políticas para o maior número de pessoas. A de dirigir a res pubblica que se centraliza Modernização é a história destas tentativas e destes estavelmente numa só pessoa investida de poderes
esforços. especialíssimos, exatamente monárquicos, que a
colocam claramente acima de todo o conjunto dos
BIBLIOGRAFIA.- The politics of the developing areas, governados. Obviamente, não é suficiente o Governo
ao cuidado de G. A. ALMOND e J. S. COLEMAN. monocrático para se ter Monarquia, nem a posse da
Princeton University Press. Princeton 1960; Crisis, totalidade dos poderes do Estado: de fato, pode haver choice and change. Historical studies of political Governo monopessoal não monárquico (o chefe de development. ao cuidado de G. A. ALMOND, S. C. um Estado republicano de regime "presidencial") e FLANAGAN e R. J. MUNDT. Little. Brown. and Co.. regime monárquico desprovido da efetividade dos Boston 1973; D. E. APTER, Some conceptual poderes de Governo (a Monarquia "constitucional"). approaches to the study of modernization. Prentice Hall, Por Monarquia, portanto, se entende — na
Englewood Cliffs 1968; Id., The politics of complexa formação histórica deste instituto — um modernization. University of Chicago Press. Chicago regime substancial mas não exclusivamente 1965; R. BENDIX. Stato nazionale e integrazione di monopessoal, baseado no consenso, geralmente classe (1964). Laterza, Bari 1969; L. BINDER ET AL., fundado em bases hereditárias e dotado daquelas
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development. Van Nostrand, Princeton 1966; S. P.
instituto explicam o seu extraordinário sucesso no
HUNTINGTON. Ordinamento politico e mutamento tempo, tanto que as experiências estatais européias sociale (1968). Franco Angeli, Milano 1975; S. P. que se conhecem, todas, tiveram praticamente como HUNTINGTON e J. I. DOMINGUEZ, Political development, matriz e fundamento a Monarquia: de fato, onde o in Handbook of political science, ao cuidado de F. I.
Governo se identificou com uma Monarquia nacional,
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A definição das características essenciais da
Press. Cambridge 1974; D. LERNER, The passing of
Monarquia não é, portanto, única; para se ter um
iraditional society. Modernizing the Middle East. The
regime monárquico é necessário a existência de uma
Free Press. Glencoe 1958; D. MCCLELLAND, The
pessoa estável no vértice da organização estatal com
archieving society. Van Nostrand, Princeton 1961; B.
as características de perpetuidade e de
MOORE. Le origini sociali della dittatura e della
irrevocabilidade: o monarca é tal desde o momento de
democrazia (1966), Einaudi, Torino 1969; G.
sua elevação ao trono até sua morte, exceto o caso de
O'DONNELL. Modernización y autoritarismo. Paidós.
voluntária abdicação. Para expulsá-lo do poder é
Buenos Aires 1972; A. F. K. ORGANSKI, Le forme
preciso uma verdadeira revolução.
dello sviluppo político (1965). Laterza. Bari 1970; G. PASQUINO. Modernizzazione e sviluppo político, Il Mulino, Bologna 1970; Political culture and political development. ao cuidado de L. W. PYE e S. VERBA.
MONARQUIA 777
Embora existam muitíssimos exemplos históricos o único depositário daquela suprema maiestas de que,
neste sentido, sob o aspecto conceituai não é a partir do século XIX em diante, se tornará titular o
admissível uma redução não voluntária do poder de Estado contemporâneo. soberano, poder que é teoricamente uniforme e igual Os poderes majestáticos foram e são poderes de
desde o primeiro até o último dia do reinado. Na supremacia, de dignidade e de Governo: dessa forma
tradição mais prevalecente e amadurecida da o rei vivia numa esfera de altíssima dignidade e de
monarquia européia (e também não européia) o rei é direitos estritamente pessoais, governando investido de seu poder, originariamente, por direito do pessoalmente ou através de delegados toda a res
nascimento; a elevação ao trono se verifica por publica, com um poder apenas limitado pela lei sucessão e, portanto, decorre de um atributo divina e natural e pelos antigos costumes e direitos do
estritamente pessoal do sujeito ou, por alargamento reino que, muitas vezes, tinha jurado respeitar no
do círculo, de sua família. momento de sua assunção ao trono (parlamentos,
O rei é aquele que é gerado por um outro rei ou direitos nobiliários, autonomias locais, direitos da
designado por linha colateral da família que detém o Igreja, etc). A partir da baixa Idade Média feudal e
poder monárquico. É exatamente na fase embora com os limites referidos, o monarca deixou delicadíssima e crítica da sucessão ao trono que se de ser, de algum modo, um representante e um
descobre o caráter substancialmente familiar da delegado do seu povo: teoricamente, sendo o poder de
detenção do direito de reinar. O acesso à Monarquia origem divina, ele estava colocado numa esfera
por sucessão é a forma mais recente do instituto; na superior. É claro que não era (ou não era mais) órgão
idade romano-barbárica e feudal era sistemático do Estado, se de Estado pode-se falar em
recorrer ao método da eleição; eleição, todavia, que determinados períodos, quando ele mesmo pretendeu,
tendia a concentrar-se normalmente sobre membros como aconteceu com Luís XIV, ser pura e
de uma ou de poucas famílias. A irresistível tendência simplesmente todo o Estado. da Monarquia a se identificar com um determinado
núcleo familiar aparece, então, operante desde os