Dicionário de Política (Volume 1)
de ideologias posições apodíticas de valor não…
de ideologias posições apodíticas de valor não com exatidão o que se entende por "política" suscetíveis de um discurso controlado e significante;
tomada a terceira na análise da linguagem e na função VII. FILOSOFIA POLÍTICA E CIÊNCIA POLÍTICA. — atribuída à Filosofia política, à qual caberia, como Vista nesta perspectiva, a Filosofia política aparece
metaciência, apurar em primeiro lugar o conceito de então (e pode ser provisoriamente definida na quarta
política e delimitar o campo em que se realiza ou se acepção mencionada) como uma operação crítica, que
poderia realizar a pesquisa empírica, não é difícil visa questionar qualquer discurso (indagação ou
descobrir nestas teses radicais a influência das raciocínio) que tenha por objeto a política. Como tal,
correntes neopositivistas, hoje prevalecentes na ela se distingue antes de tudo (e esta distinção é
filosofia do mundo ocidental, e da polêmica atualmente talvez a mais importante) da chamada
"antimetafísica" que a inspira e a caracteriza. ciência política, das diretrizes hoje prevalecentes no
estudo dos problemas políticos e sociais. E dela se
VI. FILOSOFIA POLÍTICA E ANÁLISE DA LINGUAGEM. distingue — é preciso acrescentar — colocando-se a
— Ao término desta rápida visão de conjunto, é mister respeito da ciência política nem sempre numa relação concluir que é preciso partir da última posição de integração recíproca (como se crê), mas às vezes
examinada, não para aceitar supinamente suas também numa relação de clara oposição; porque pode conclusões, mas para refazer o caminho andado e ver muito bem acontecer que a crítica filosófica não se
se é possível chegar a um juízo mais justo e positivo limite a esclarecer e aperfeiçoar os processos e os
sobre os modos tradicionais de conceber a Filosofia instrumentos da pesquisa científica, mas chegue a
política. Não é de fato possível prescindir hoje daquele contestar ou até demonstrar como inúteis seus
esclarecimento preliminar da linguagem, que é uma propósitos; isto é, pode acontecer (para usar uma
exigência fundamental do pensamento filosófico metáfora hoje muito em voga, entre os defensores da moderno, a característica fundamental daquela que, Filosofia política como "metaciência") que a "terapia",
com toda objetividade, foi considerada uma verdadeira ao invés de curar, mate o paciente. Não é aqui o lugar revolução no modo de filosofar. Poderia acontecer, de examinar detalhadamente a natureza e a temática de
todavia, que a análise da linguagem política levasse a uma ciência que nestes últimos decênios encontrou
resultados até mais radicais do que aparece nas amplo consenso e é objeto de estudo constante por
observações dos neopositivístas, isto é, levasse a parte de autores famosos. Nem se trata de instituir um
reconhecer que qualquer discurso político é (pelo processo contra ela, colocando as objeções que podem
menos no estado atual) condicionado pela linguagem ser levantadas (e que suscitariam acirradas discussões)
de que é obrigado a servir-se; trata-se de uma aos três assuntos fundamentais (a empiricidade, a não-
linguagem "impura", ou melhor, de uma linguagem prescritividade e a avaliatividade), com base nos quais "com várias dimensões", que no próprio ato em que é essa ciência procura legitimar-se e inserir-se na lista das
usada desempenha funções diferentes: designa, avalia, ciências mais desenvolvidas. A objeção básica fica descreve e, ao mesmo tempo e quase sendo aquela de que já se falou: a ambigüidade da inconscientemente, prescreve; e isto pela simples linguagem, que tem como referente o fenômeno
razão de que os vocábulos de que se serve têm, já de político, e a incapacidade até agora aparente da ciência
antemão, uma coloração emotiva, são palavras política em criar uma linguagem apropriada, livre "carregadas", que contêm uma conotação apreciativa (como a das ciências exatas) de qualquer ressonância
que não é possível eliminar (pelo menos até o presente de valor, "esterilizada" e puramente factual. Citei
momento). Os exemplos são numerosos: basta lembrar alguns exemplos de termos "pluridimensionais" que o uso que se faz correntemente, ao discorrer de política, ocorrem na linguagem política; é preciso acrescentar
de palavras tais como "liberdade" ou "igualdade", que que as tentativas até agora realizadas pelos cientistas designam, ao mesmo tempo, um fato e um valor ou a políticos, no sentido de reduzir tais termos a um
possibilidade de dar, ao mesmo fato político, um significado único, não me parece que tenham tido
significado diferente e às vezes oposto, chamando-o sucesso. É de ontem uma interessante polêmica
mais com um nome do que com outro ("pena"- ("Rivista di Filosofia", LV-LVI, 1964-1965) sobre a
"repressão", "força"-"violência"); basta refletir na possibilidade de dar uma definição "neutra", científica
incerteza que reina atualmente sobre o exato e objetivamente válida do conceito de liberdade significado de termos tais como "poder" e "autoridade" política. A conclusão a que chegou Oppenheim, um dos
e a sua delimitação recíproca; basta seus mais animados sustentadores, é por si só suficiente
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para nos deixar perplexos acerca das vantagens de Estado moderno, não o eram para o Estado
uma noção tão limitada; porque, de acordo com este confessional; as relações econômicas, consideradas
autor, seria absurdo discutir se há mais liberdade numa politicamente indiferentes por um liberal, não são
democracia ou numa ditadura. É somente uma questão certamente tais para um socialista. de distribuição: numa ditadura a liberdade é do Definir a política é, portanto, tomar posição acerca
ditador, numa democracia é dos cidadãos. Isto poderá dos fins de agir humano, é estabelecer uma hierarquia
também ser verdadeiro de um ponto de vista empírico, entre as diversas formas da vida associada, é, em
mas não impede que a palavra liberdade continue a suma, uma opção de valores, prenhe de conseqüências
sacudir e entusiasmar os corações; e não se práticas e indicativas de uma particular visão da vida e
compreende por que vale a pena discutir de política se do homem. Pergunta-se, então, se o próprio conceito
não se procura entender primeiro as razões pelas quais moderno da ciência política e o propósito de tratar
isso acontece. Citei outro caso, também muito "cientificamente" e de maneira distinta e imparcial
significativo, o do colorido emotivo diferente que é uma determinada esfera de relações humanas tidas
possível dar ao mesmo fato usando termos diferentes: como políticas não serão também o resultado de uma
o uso ou o mau uso que deste expediente fazem, hoje opção, o sinal de uma particular ideologia. Desta
em dia, os que "contestam" a ordem estabelecida é um maneira, acabar-se-ia por dar razão aos seus críticos
exemplo disso. Ao chamar de repressão a pena s de mais acirrados, a cujos olhos a ciência política
violência qualquer intervenção coativa dos órgãos ocidental, com o ideal de uma "política científica'' que
estatais, eles interpolam um juízo de valor (ou, mais a caracteriza e inspira, seria unicamente o produto de
exatamente, de desvalor) naquela que pretende ser um contexto histórico e social bem determinado.
simplesmente a descrição de um fato; na verdade, nem Demonstrada sem fundamento a sua pretensa
os cientistas políticos, desconfiados como são de toda "cientificidade", à ciência política não restaria senão
conotação normativa dos fenômenos sociais, mostram- esperar sobreviver como Filosofia política do mundo
se muito sensíveis à diferença qualitativa, e não contemporâneo. somente quantitativa, que existe entre o exercício
arbitrário da força e a força exercida em nome de uma VIII. FILOSOFIA POLÍTICA E IDEOLOGIA. — Se a lei. análise do discurso político conduz ou pode conduzir
Mas o exemplo mais claro e decisivo da a tão singulares conclusões, é claro que a reflexão
impossibilidade de um cientista político prescindir, na filosófica não pode parar aqui, porque reconhecer o
determinação da própria função, de uma tomada de caráter valorativo ou ideológico deste tipo de discurso
posição valorativa (ou, se se preferir, ideológica) pode levanta na mente um outro problema, o do porquê de
ser encontrado na atribuição, por ele feita de início, de tal caráter, isto é, da necessidade de entender as razões
um significado particular e específico à palavra pelas quais a qualificação política é uma qualificação
"política"; valorativa e não apenas descritiva, de encontrar uma atribuição não menos apolítica e
preconcebida do que a dos filósofos políticos do explicação das opções que os homens fazem ao atribuir
passado. Atribuir a determinados fenômenos o caráter a alguns fenômenos uma relevância política que
político é simplesmente dar-lhes uma relevância excluem de outros, e, especialmente, de estabelecer
particular em relação a outros fenômenos, relevância com exatidão o que significa essa atribuição, quais as
que é em si uma conotação de valor. Originada pela conseqüências que daí decorrem, o que, enfim, está
experiência característica do mundo grego, a palavra realmente posto em jogo. A essas perguntas
política foi diferentemente estendida ou restringida à respondiam sem dúvida, ou tentavam responder, as
designação de experiências assaz diversas (pense-se na Filosofias políticas tradicionais, mencionadas nas duas
tradução medieval de primeiras categorias anteriormente examinadas, que se polis por civitas vel regnum ) .
Considerada por muito tempo como arte suprema de apresentam claramente como ideologias. É preciso,
"bem viver" e como ciência coordenadora e portanto, enfrentar finalmente e com coragem o uso "arquitetônica" da convivência humana, a política foi ou o abuso tão corrente que hoje se faz dessa palavra e
reduzida por Maquiavel a mero instrumento de indagar com que base, por meio dela, se tentam
domínio; por Hobbes a pura "gramática da imponentes construções conceptuais, das quais obediência"; e por Locke a simples segurança sobre a outrora nos aproximávamos com maior respeito. vida e os bens. Varia sua competência de acordo com os Segundo uma definição hoje geralmente aceita, por
tempos e os lugares: aspectos da vida que antigamente asserção ideológica se entende "um juízo de valor
eram considerados políticos hoje não são mais; as transformado em ou confundido com uma asserção de
convicções religiosas dos cidadãos, irrelevantes para o fato". Ideologias, isto é, programas ético-políticos
camuflados de teorias
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científico-filosóficas, seriam, portanto, com base nessa fatos, porque eles não têm nada a ver com o
definição, todas ou quase todas as Filosofias políticas problema"; ou enfim, o mais significativo de todos,
do passado; a tarefa do estudioso moderno seria a de Kant, que, ao pôr o contrato social como critério de
"desmascará-las", pondo em claro, além do mais, os legitimidade do Estado, expressamente acrescentou
concretos e, às vezes, sórdidos interesses que atrás tratar-se, não de um acontecimento real, mas de um
dessas construções se escondiam e que elas visavam princípio normativo: "simples idéia". Mas não é
defender ou consagrar, pretendendo apresentar como somente porque os filósofos políticos do passado
verdades irrefutáveis (enquanto demonstráveis, atribuíram aos fatos um peso diferente daquilo que nós empírica ou dedutivamente) algumas premissas somos levados a atribuir-lhes que suas estruturas
necessárias ou úteis para convalidar um determinado conceptuais resistem ao "desmascaramento", que delas
sistema de relações políticas e sociais. É claro que, por quiseram fazer os modernos. Mas o que realmente
este caminho, é possível realizar uma verdadeira obra importa é que aquilo que nos parece ser (ou querer
de desmantelamento das mais famosas teorias ser) "provas", não eram na realidade provas, mas
políticas, um verdadeiro jeu de massacrei Tome-se, por "razões"; em outras palavras, aqueles filósofos não
exemplo, a doutrina aristotélica da desigualdade pretendiam descrever fatos, mas ditar opções, ou
"natural" entre os homens: quem poderia negar que propugnar por valores; e eles bem sabiam (talvez
essa doutrina serviu egregiamente para justificar o melhor do que nós) que os valores não se "provam"
instituto da escravatura? E quando Aristóteles mas se "propõem", se "argumentam", se "ensinam", se
acrescenta que a mesma natureza parece ter criado "testemunham", apelando não somente (como muito
mais robustos os corpos dos escravos, destinando-os facilmente somos hoje levados a crer) para os instintos,
aos trabalhos mais pesados, não é porventura claro que para as paixões e para o lado irracional do homem,
ele troca por um juízo de fato aquilo que na realidade mas também para a sua capacidade de entender e
era um triste preconceito dos antigos? Tome-se, raciocinar, de corrigir os instintos, de dominar as
também, o exemplo da teoria do contrato social: ao paixões, para efetuar as opções, para julgar a realidade
projetar no passado a origem do Estado e ao política, para aceitá-la e melhorá-la, e, se necessário,
identificar essa origem com um ato deliberado e para rejeitá-la e também transformá-la. Só um
consciente de cada um dos componentes deste, seus exemplo é suficiente para esclarecer este ponto: o
teóricos não partiam talvez de uma premissa de valor (a exemplo da chamada doutrina do direito natural, que
atribuição ao indivíduo de um direito originário à erroneamente tem sido amiúde interpretada pelos seus
liberdade e aos bens), procurando corroborá-la em críticos como uma afirmação do que é a natureza
relação a um fato que se verificou somente em humana, enquanto nos seus mais insígnes defensores
particulares circunstâncias históricas e ambientais? Em ela é, mais do que tudo, uma reivindicação daquilo que
casos como estes, e outros que poderíamos ainda citar, no homem deve ser considerado e respeitado. Dizer que
é perfeitamente exato dizer que os filósofos políticos do os homens são iguais por natureza, notava Lincoln
passado camuflavam de teorias científicas seus num de seus mais nobres discursos, não quer dizer que
programas ético-políticos e trocavam por uma eles sejam iguais de fato (o que seria loucura), mas
asserção de fato aquilo que na realidade era um juízo que devem ser tratados como iguais potencialmente e
de valor. que somente é legítimo aquele ordenamento político
em que as desigualdades de fato não constituem um
IX. FILOSOFIA POLÍTICA E TEORIA DOS VALORES. — fator de discriminação.
Observando as coisas mais de perto, a explicação Constituem um discurso sobre os valores e não um
proposta falseia um pouco os intentos S a própria obra discurso sobre os fatos as Filosofias políticas
daqueles que, outrora. filosofavam sobre a política. É tradicionais, quer se trate daquelas (menos freqüentes)
preciso observar, inicialmente, que nem todos que elaboravam modelos de Estado ideal, quer
atribuíram aos fatos "aquela função de prova decisiva daquelas (mais numerosas) que investigavam as razões
e definitiva", que lhes é imputada. Poderiam até ser e o porquê das relações políticas e aprofundavam
citados casos de filósofos políticos que, desde o início, critérios de legitimação das relações existentes, ou
descartaram os fatos porque irrelevantes para seus ameaçavam suas bases em nome de valores novos e
propósitos: Grócio por exemplo, que declara nos revolucionários. Reconhecer a validade deste modo de
Prolegomena ao De iure belli ac pacis querer tratar filosofar não significa, de modo algum, negar a
do direito "abstraindo o pensamento de qualquer possibilidade de qualquer outra abordagem, circunstância particular", ou Rousseau que, no início "científica" e "moderna", do problema político de que
do Discurso sobre a desigualdade, proclama: falamos. Significa simplesmente reconhecer que
"Começamos por deixar de lado todos os existem
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duas maneiras de abordar e olhar aquele problema, interpretação (apenas para mencioná-la) corresponde à
que (para usar uma fórmula desgastada a escolástica, tradicionalmente aceita pelos juristas para assinalar a
mas sempre oportuna) existem duas perguntas característica do dever jurídico: o elemento da sanção diferentes que podem ser formuladas sobre a realidade (ou da coercibilidade) é, de fato, um tópico na que nos circunda: uma sobre o "como" e outra sobre o distinção entre direito e moral. Mas não há quem não "porquê". O cientista político, desde que consciente considere o dever político, entendido no primeiro
das limitações de seu horizonte e das dificuldades sentido, como um termo para descrever uma condição
provenientes da imperfeição dos instrumentos de que de fato, uma situação real, em que o elemento
dispõe, tem pleno direito de propor como objeto de sua determinante é o domínio da força por parte de quem
pesquisa aquele conjunto de fenômenos que, manda e a sua capacidade de impor a obediência de selecionados na esfera mais ampla dos fenômenos um determinado comportamento aos seus súditos. Não sociais, são considerados, na época em que ele realiza faltaram na história do pensamento político autores
sua investigação, fenômenos políticos. Mas tem que, ao dever político, deram este significado. A eles também a obrigação de admitir que aqueles mesmos respondeu Rousseau, em nome de todos, num célebre
fenômenos podem ser objeto de uma pesquisa de tipo trecho: "A força é um poder físico" — lê-se num dos radicalmente diferente; que a própria existência capítulos introdutórios do Contrato social — "e eu não daquele "poder", que ele assume como dado último e sei ver que conseqüência moral ela possa ter. Ceder à
incontrovertível de tais fenômenos, "existe" somente força é um ato de necessidade, não de vontade; no
porque existem homens que o reconhecem, tornando-o máximo pode ser um ato de prudência. Em que tal. E para que os homens o tornem tal e como tal o sentido poderia constituir um dever? Portanto, temos
reconheçam, é preciso que existam razões (medo, que concordar em que a força não gera o direito e que covardia, indolência, dizem alguns; consciência, somos obrigados a obedecer somente aos poderes aceitação livre e racional, dizem outros) pelas quais legítimos". eles se submetam e obedeçam às suas ordens. Estas O segundo problema está estritamente relacionado
razões são necessariamente o objeto da Filosofia da com o primeiro. Rousseau, como vimos, fala de uma
política, que surge, assim, tal como a entendiam conseqüência "moral" da legitimidade do poder.
aqueles que por muitos séculos a praticaram, como Deveríamos, portanto, concluir que o dever político se
investigação crítica sobre a natureza do dever político, confunde, em última instância, com o dever moral?
indagação sobre um problema que, apesar do variar Esta é a posição mais comum assumida pelos teóricos
dos tempos e dos lugares e apesar da imensa variedade políticos tradicionais e especialmente pelos fautores da
das soluções propostas, ficou substancialmente doutrina do direito natural, os quais faziam
imutável; de fato, dela depende uma grande parte da exatamente depender a exigência de fidelidade
nossa existência, não somente de nossa inevitável imposta ao cidadão do valor moral encarnado na
condição de cidadãos, mas também de nossa ainda vontade do legislador. mais inevitável condição humana.
A lei "justa" obriga in foro conscientiae; as leis
X. NATUREZA DO DEVER POLÍTICO. — Sobre a iníquas magis sunt violentiae quam leges. Apesar
natureza disso, bastaria ler o Criton ou lembrar casos mais do dever político, parecem ser
recentes, para nos convencermos de que o dever
substancialmente três os problemas que se impõem à
político não implica absolutamente a atribuição de um
consideração filosófica. Vou mencioná-los brevemente
valor moral a todas as leis a que, num contexto
como conclusão.
político, se reconhece um caráter obrigatório. Sócrates
O primeiro problema se refere ao significado a ser neste ponto não deixa sombra de dúvida. Se, ao invés
atribuído à palavra "dever" na locução proposta; isto de procurar salvação na fuga, ele obedece à injusta
é, se é preciso entender por esta expressão condenação, é porque acha que este é o seu dever de
simplesmente a situação de quem, num contexto
cidadão ateniense. Nos nossos dias, o juiz que, em
político (entendido no sentido mais amplo como nome do princípio dura lex sed lex, aplica uma lei que relação de dependência de um poder constituído), é ele prefere ver reformada ou ab-rogada, obedece a um
induzido a um certo comportamento pela presença de dever diferente daquele que lhe imporia a sua
uma sanção, ou se é preciso entendê-la, pelo contrário,
consciência moral. De outro lado, o objetor de
como condição daquele para quem tal comportamento consciência, que se nega a empunhar as armas em
parece desejável, necessário ou "obrigatório", nome do princípio da não-violência, não contesta por independentemente da possibilidade da sua imposição isso a ordem coativa por parte do poder superior. A primeira 500 FISIOCRACIA
constituída, nem, na maioria dos casos, os demais FRIEDRICH, Introduzione alla teoria política (1970), deveres de bom cidadão. Istituto Librario Internazionale, Milano 1971; F. E.
Existe, portanto, uma diferença substancial entre o OPPENHEIM, Etica e filosofia política (1968), Il
dever político e os demais deveres que se impõem ao Mulino, Bologna 1971; A. PASSERIN D'ENTREVES, homem; e a tarefa da Filosofia política é de analisar Obbedienza e resistenza in una società democratica,
essa diferença, deixando claro aquilo que, em Ed. di Comunità, Milano 1970; Id., Il palchetto primeiro lugar, distingue este dever e que constitui assegnato agli statisti. F. Angeli Editore, Milano 1979; seu caráter inclusivo ou global: este, portanto, implica Political philosophy, ao cuidado de A. QUINTON, e convalida um conjunto de outros deveres, abstraindo Oxford University Press. Oxford 1967; L. STRAUSS, dos casos particulares e impondo comportamentos Che cos'è la filosofia política (1959), Argalia, Urbino que podem, às vezes, encontrar-se (como nos casos 1977; E. WEIL, Filosofia política (1956), Guida, mencionados de Sócrates, do juiz e do objetor de Napoli 1973; S. S. WOLIN, Politics and vision. consciência) em aberto e trágico conflito com o dever Continuity and innovation in western political thought,
moral. Little, Brown and Company, Boston 1960.
São poucos, porém, aqueles que refletem Em direta relação com este tema, recordamos as
seriamente sobre todas as conseqüências implícitas na seguintes coleções: "Annales de Philosophie existência do dever político; a maioria está disposta a Politique", ao cuidado do Institut International de
usufruir dos benefícios na pacífica existência diária, Philosophie Politique, 1956 e ss.; "Philosophy,
mas pronta a contestá-lo de maneira radical quando os Politics and Society", ao cuidado de P. LASLETT e, tempos se tornam difíceis e as exigências da posteriormente, de P. LASLETT e W. G. RUNCIMAN, convivência civil aparecem em contraste com a 1956 e ss.; "Nomos", ao cuidado da American Society aspiração por novos ideais. A uma mais madura e for Political and Legal Philosophy, 1958 e ss. consciente compreensão da natureza deste dever
conduz ou pode conduzir a Filosofia política: esta, de [ALLESSANDRO PASSERIN D'ENTREVES| fato, é a terceira função que a ela se pode e deve
atribuir. Com efeito, é exatamente aqui que se
demonstra oportuna e necessária aquela Fisiocracia. "argumentação" sobre os valores, de que se falou
anteriormente: a única que permite avaliar a I. DEFINIÇÃO. — Os que na história do pensamento consistência do dever político e eventualmente político são chamados fisiocratas eram conhecidos dos
transformar aquela que, na maioria dos casos, é uma contemporâneos apenas como économistes. O termo aceitação passiva ou um destino casual (a dependência physiocratie (do grego fusiz, natureza, e de um particular sistema político, o pertencer a um cratoz, domínio) aparece pela primeira vez em determinado Estado), numa aceitação deliberada e 1767, quase a dez anos de começo do movimento,
convicta, justificando a preferência por um numa antologia que, sob esse título, reunia os escritos determinado tipo de sistema mais do que por outro. mais importantes da escola. Para os adeptos, a
Por exemplo, a justificativa que poderia ser proposta Fisiocracia era "a ciência"; para os adversários, "uma
para o ordenamento democrático: através dessa seita". O neologismo refletia a aspiração a uma visão
justificativa, não se trata de "provar" que a democracia científica, universal, da história acontecida e por
é um sistema perfeito de Governo, mas simplesmente acontecer, a confiança num modelo natural que era
de "apresentar razões" para preferi-la como sistema preciso descobrir, um modelo a que fosse possível
que, assegurando a maior participação de todos nas adaptar-se: o melhor possível, por ser o único capaz de
decisões fundamentais, torna menos prováveis a propiciar a máxima e harmoniosa satisfação dos
divergência e o conflito entre os deveres que se interesses da autoridade soberana e das classes que
impõem ao homem como cidadão e aqueles que se lhe compõem o país. Mas foram justamente as pretensões
impõem como homem, ou pelo menos diminui sua universais, a convicção de poder dar uma resposta a
freqüência e atenua suas tensões, providenciando uma todos sobre todas as coisas, a forma catequética dos
forma pacífica para resolvê-las e superá-las. seus ensinamentos, a linguagem para iniciados e o
culto da personalidade de François Quesnay que
tornaram mais fácil a acusação de sectarismo contra os
B fisiocratas, que coarctava suas ambições de IBLIGRAFIA . - E. Barker , Principies of social and
political theory. objetividade científica. Clarendon Press. Oxford 1951; A. BRECHT, Political theory. The foundations of XXth century political thought, II. HISTÓRIA. — A data de nascimento da Princeton University Press.
Princeton 1959; C. J. Fisiocracia é dezembro de 1758, quando Luís XV se
divertiu a compor, na tipografia real, as poucas
páginas do Tableau économique, que se conver-
FISIOCRACIA 501
terá no texto fundamental da escola e será, para Karl também na Fisiocracia uma utopia social, com
Marx, o fruto de "uma idéia genialíssima". pressupostos pseudocientíficos e um projeto político
O autor, François Quesnay (1694-1774), médico da que, ideado já em 1758, será levado avante, até o
Pompadour, dedicará à economia apenas pouco mais ministério de Turgot (1774-1776), por um movimento
de dez anos da sua longa vida. Os seus escritos de organizado com o objetivo de influir na opinião
interesse econômico, político e social remontam todos pública com publicações periódicas (o "Journal
eles ao período compreendido entre 1756, ano em que d'Agriculture", primeiro, e, depois, "Ephémérides du
iniciou sua breve colaboração para a Citoyen") e com uma torrente de brochures, saídas da Encyclopédie
com o artigo pena de Abeille, Baudeau, Du Pont de Nemours, Le Fermiers, e 1768. Dedicou-se à
economia quando já alcançara a idade de sessenta Trosne, Mercier de La Rivière, Mirabeau, etc. anos, abandonando-a para se dedicar a estudos de O Tableau, como toda atividade de Quesnay geometria, precisamente quando o movimento referente ao decênio de 60, insere-se num projeto
físiocrático se difundia pela França e pela Europa, político orientado a evitar a catástrofe da monarquia,
preparando-se para coroar, com Turgot, as ambições mediante o incremento da receita do Estado e o
de Governo que, desde 1758, com a publicação do estabelecimento de um equilíbrio social duradouro.
Tableau économique, tinham constituído a origem das Quesnay tinha consciência da gravidade da crise e
iniciativas de Quesnay. confiava na possibilidade de que, mais cedo ou mais
tarde, se recorresse às curas aconselhadas pela sua
Uma segunda versão do Tableau foi publicada em
1760, na parte sexta (pp. 119-279) de "medicina". De fato, a Fisiocracia inspirou os últimos Ami des hommes
do marquês de Mirabeau (1715-1789), primeiro projetos sérios de reforma antes da Revolução, desde
discípulo do os editos respeitantes ao comércio dos cereais às doutor. Outras elaborações do mesmo
iniciativas de Turgot.
Tableau encontram-se em Philosophie rurale de 1763,
também em colaboração com Mirabeau, e num V. A CIÊNCIA POLÍTICA. — A inclusão dos
trabalho de 1766, Analyse de la formule arithmétique du tableau économique de la distribution des dépenses fisiocratas na história do pensamento político é
conquista recente. A sua fama de economistas ofuscou
annuelles d'une nation agricole, publicada em "Ephémérides du Citoyen", a revista que divulgava as sempre os contornos de um sistema que partia de uma
idéias da escola. A sistematização definitiva da certa concepção do mundo e da sociedade para
"ciência" ocorre na já citada antologia desenvolver uma teoria política e, em sua atuação, uma Physiocratie, ao
política econômica. Com o tempo, esta realidade
cuidado de Du Pont de Nemours (1739-1817), e em
Ordre naturel et essentiel des sociétés politiques histórica se transtornou e os pressupostos filosóficos e
(1767), de Le Mercier de La Rivière. políticos foram vistos como nobilitações ulteriores de
instâncias econômicas.
III. É verdade que, em ordem cronológica, a enunciação Os TABLEAU . — As representações gráficas do
sistema de produção e de consumo como processo das diretrizes de política econômica antecede a
circular constituem um instrumento analítico que é elaboração dos escritos de teoria política. Mas também
uma antecipação daquilo que a ciência econômica é verdade que os fundamentos da concepção do mundo
chama hoje "modelo". É por isso que, de Marx a e da sociedade já se encontram em Essai sur
Wassily Leontief, a "modernidade" de Quesnay tem l'économie animale (1747, redação definitiva) e nos
sido constantemente reafirmada. O artigos Evidence (1756) e Grains (1757), destinados à Tableau define o
papel fundamental do capital: explica como todo Encyclopédie. mecanismo econômico é movido pela iniciativa de Já se disse que o movimento físiocrático se
quem antecipa o capital e reparte os lucros. Mas desenvolve a partir de uma necessidade prática: suas
Quesnay foi naturalmente criticado por haver origens estão estreitamente ligadas à crise financeira
confundido o modo de produção de um determinado que alcançou sua fase aguda no auge da Guerra dos
período histórico com uma espécie de mecanismo Sete Anos, com a monarquia isolada no país e sem
universalmente válido, querido pela natureza para outra política senão a da vontade de prosseguir as
garantir a prosperidade aos homens de todos os hostilidades contra a Prússia e a Inglaterra a qualquer
tempos e de todos os lugares, mediante o custo. Quesnay, primeiro só, depois apoiado em sua
desenvolvimento ilimitado da poupança dos ação por discípulos entusiastas, viu claramente que a capitalistas privados. crise não podia ser superada com simples economias,
como proclamava o Parlamento de Paris, procurando
IV. AÇÃO POLÍTICA. — Além de uma teoria evitar que fossem atacados antigos
econômica (a análise da produção capitalista que tanto
impressionou Marx), podemos ver
502 FISIOCRACIA
privilégios. Mas a política econômica dos fisiocratas natureza do homem e das coisas. É neste sentido que
nasce de uma visão da sociedade que aspira a ser se interpreta a resposta que Le Mercier de La Rivière
considerada como ciência. Este sistema, tido como teria dado a Catarina II: "Dar ou fazer leis, Senhora, é
válido para todo tempo e lugar, está já totalmente in incumbência que Deus não deixou a ninguém". Daí a
nuce na obra de Quesnay, antes de tudo no Tableau teoria do "despotismo legal'', contraposta à do
économique e em seus apêndices, tal como foram sendo "despotismo iluminado": aquele, domínio de leis
explanados nas sucessivas redações desse documento imutáveis, descobertas de uma vez para sempre; este,
fundamental da Fisiocracia. Escreve, em 1768, Du Pont arbítrio pessoal, condicionado pelo acaso. de Nemours, primeiro historiador do movimento Mas, em que consiste esse modelo ideal? Quais são
fisiocrático: "Há um caminho necessário para as características do "Governo evidentemente mais
aproximar-se o mais possível do objetivo da perfeito", daquele governo que pode permitir a
associação entre os homens e da formação dos corpos máxima expansão do direito natural? Os princípios
políticos. Há, portanto, uma ordem natural, essencial e fundamentais estão fixados nas trinta Maximes geral, que encerra as leis constitutivas e fundamentais générales du gouvernement économique d'un royaume
de todas as sociedades; uma ordem da qual as agricole, antecipadas, dez anos antes, em apêndice ao sociedades não se poderão afastar sem se diminuírem artigo Grains e, depois, em Tableau économique. como sociedades, sem que o Estado político perca Nelas encontramos a indicação dos elementos
consistência, sem que os seus membros se achem mais fundamentais de toda organização social (propriedade,
ou menos desunidos numa situação de violência; uma liberdade, segurança) e a determinação das funções do
ordem que não se poderia abandonar totalmente sem Governo (despotismo legal) e das classes (critério de
cair na dissolução da sociedade e, bem depressa, na produtividade) na ordem social teorizada pela
total destruição da espécie humana. É isso o que Fisiocracia. Montesquieu não sabia". Quesnay, "encorajado com a Propriedade, liberdade, segurança: os três princípios
importância desta visão e com a perspectiva das
se resumem no primeiro, já que os dois últimos servem
notáveis conseqüências que daí havia de tirar, aplicou
para garantir o máximo de desfrute da propriedade
todo o poder da sua penetrante inteligência à pesquisa
pessoal. São postos, dissemos, como condições para a
das leis físicas relativas à sociedade, conseguindo, existência de qualquer sociedade. A teoria política,
enfim, certificar-se do fundamento indestrutível de tais
ligada intimamente aos princípios da economia
leis, abrangê-las em seu conjunto, entender a sua
política e às prescrições da política econômica, está já
concatenação, deduzir e demonstrar seus resultados".
expressa no artigo Hommes (1757) em luminosa
Quase cinqüenta anos depois, Du Pont de Nemours síntese, quando se sustenta que "os Estados são
escreveria a J.-B. Say uma carta amarguradíssima em vivificados pela liberdade e pelo interesse privado",
defesa dos princípios e dos ideais fisiocráticos, enquanto que o despotismo dos soberanos e dos seus
sustentando que a economia não deve ser apenas uma ministros, a insuficiência e a instabilidade das leis, os "ciência das riquezas", mas "a ciência do direito abusos do Governo, a incerteza da propriedade dos
natural aplicado às sociedades civilizadas... a ciência bens e as imposições desordenadas destroem a
das Constituições, que ensina e ensinará, não só o que sociedade. os Governos não devem fazer pelo próprio interesse e
Observe-se que, em Quesnay, a instituição da
pelo das suas nações, ou das suas riquezas, mas o que
propriedade é defendida transferindo o fundamento da
não devem fazer diante de Deus... A economia política discussão do terreno moral e jurídico para o social e
é a ciência da justiça iluminada em todas as relações
econômico. Leiamos, numa formulação mais completa
sociais e exteriores... Quesnay... fundou a nossa
e categórica, a quarta das Maximes générales: "Seja
ciência;... assentou os alicerces do templo;... construiu
garantida aos legítimos possuidores a propriedade dos
os seus grossos muros. Nós e vós colocamos nele bens imóveis e das riquezas mobiliárias, já que a cornijas, florões, astrágalos e algum capitei sobre
segurança da propriedade é o fundamento essencial
colunas já erguidas".
da ordem econômica da sociedade. Sem a certeza da
Tratando-se de uma adequação às leis naturais, o propriedade, o território ficaria inculto. Nem haveria
legislador, ao emitir leis positivas, não fará senão ter proprietários nem arrendatários para fazer os gastos
presente, declarar a validade de um modelo perfeito. A necessários à sua valorização e cultivo, se não fosse
teoria contratualista do Estado é superada por uma garantida a conservação dos terrenos e da sua
organização social que não é criação arbitrária, mas produção àqueles que antecipam tais despesas. É a
necessária derivação da segurança da posse permanente que estimula o
trabalho e o emprego das riquezas
FORÇA 503
no melhoramento e cultivo das terras e em physiocracie. Harvard University Press. Cambridge empreendimentos comerciais e industriais. Só o poder 1963; G. WEULERSSE, Le mouvement physiocratique en soberano assegura a propriedade aos súditos e o France (de 1756 à 17 7 0). Alcan, Paris 1910, 2 vols. direito primitivo à repartição dos produtos da terra,
única fonte de riqueza". [ALDO MAFFEY]
A mesma tolerância é reclamada em matéria de
religião, tendo em vista o interesse econômico: "A
liberdade da religião atrai os homens e as riquezas. A Força. intolerância excessivamente rigorosa os afasta" (artigo
Hommes). Não diremos com Tocqueville que os No campo das relações políticas e sociais, por
fisiocratas "adoravam a igualdade até a servidão", nem Força entende-se qualquer intervenção física tampouco com Louis Blanc que- eles "inauguram o voluntária de um homem ou grupo contra um outro
reino do individualismo". Quesnay defende os homem ou grupo, objetivando destruir, ofender ou princípios liberais, que vão além da liberdade coartar. Neste sentido puramente descritivo, Força é econômica (o laissez faire, laissez passer), mas o seu sinônimo de "violência". Para um exame do
fundamento assenta sempre numa avaliação significado e das funções políticas destas intervenções exclusivamente economicista. Ao contrário de um físicas, v. VIOLÊNCIA. Convém lembrar, aqui,
d'Argenson, por exemplo, cujo Pas trop gouverner se brevemente, as distinções que foram feitas entre Força opunha ao Laissez nous faire de Colbert. e violência, especialmente na filosofia política, na
Chega-se assim ao ponto mais embaraçoso do doutrina jurídica e em certas formulações ideológicas,
pensamento político de Quesnay e da Fisiocracia: e apontar as razões que desaconselharam sua aceitação como é que se concilia a teoria do "despotismo legal" na literatura politológica e sociológica. com a liberdade econômica e, prescindindo das demais Em filosofia política, a distinção mais difundida é a
liberdades invocadas, com as constantes advertências a que chama Força às intervenções físicas justas, que
não fazer pesar demasiado a autoridade do Estado? A preservam a ordem social ou perseguem o bem contradição é apenas aparente, se aceitarmos os comum, e chama violência às intervenções físicas pressupostos do sistema, se recordarmos, antes de injustas, que destroem a ordem social ou impedem o
tudo, que o legislador não deve fazer outra coisa senão bem comum. Na doutrina jurídica, tende-se a designar
declarar as leis positivas, adequando-as às leis com o termo Força as intervenções conforme a lei, e
naturais, o Governo controlar a sua aplicação e o portanto lícitas, e com o termo violência as
cidadão, gozando da sua liberdade moral, observá-las, intervenções que violam as normas jurídicas, e são, conscientes de estender o direito natural até o máximo portanto, ilícitas. Enfim, entre as concepções
possível. Despotismo, portanto, não de um homem ou ideológicas podemos mencionar a de Georges Sorel de uma aristocracia, não em conformidade com que, numa perspectiva de exaltação da violência, via qualquer ordenamento social que vise à defesa de na Força o instrumento do domínio autoritário de uma
interesses particulares, mas despotismo da "forma de minoria sobre a maioria e. na violência, o instrumento
Governo claramente mais perfeita", por responder aos de libertação da maioria da exploração de poucos. É de princípios da ordem social natural e à máxima evidência imediata que todas estas distinções estão satisfação possível dos interesses de todos. fortemente impregnadas de juízos de valor. Trata-se de
uma avaliação diferente (ética, jurídica ou ético-
política), que se formula sobre o fim, o efeito ou as
BIBLIOGRAFIA. - François Quesnay et la modalidades de dois eventos exteriormente análogos,
physiocratie, t. II: Textes annotés, Ined, Paris 1958; avaliação que permite chamar o primeiro, em sentido Ökonomische Schriften, ao cuidado de M. KUCZYNSKI, positivo, de Força, ou no sentido oposto, à maneira de
Akademie Verlag, Berlin 1971-1976, 2 vols. em 4 Sorel, violência, e o segundo, em sentido negativo, de tomos, Quesnay's Tableau économique. ao cuidado de violência, ou, no sentido oposto, de Força. Ora, estes M. KUCZYNSKI e R. L. MEEK, Macmillan, London-New juízos de valor, enquanto são formulados York 1972; E. FOX-GENOVESE, The origins of adequadamente pelo filósofo, pelo jurista ou pelo physiocratie. Cornell University Press. Ithaca and ideólogo, são legítimos num discurso abertamente London 1976; A. MAFFEY, li pensiero político della prescritivo; mas não o são num discurso científico e fisiocrazia, in Storia delle idee politiche, economiche e descritivo como o da ciência política e da sociologia. sociali, ao cuidado de L. FIRPO, UTET, Torino 1975, vol. IV, t. 2, pp. 491-530; R. L. MEEK, The economics of 504 FORÇAS ARMADAS
Naturalmente, também o politólogo e o sociólogo diferentes grupos sociais consideram legítimos ou
precisam distinguir entre as intervenções físicas que ilegítimos certos usos da Força ou violência.
em certo âmbito social são consideradas legítimas das
que não o são. Neste caso, o estudioso não pronuncia
propriamente um juízo de valor, mas descreve o [MARIO STOPPINO]
"sentido" (que compreende também avaliações) que
aqueles que pertencem a um determinado contexto Forças Armadas.
social atribuem a certas relações. Somente assim é
possível distinguir, numa dada sociedade, entre uma
morte que é considerada "assassínio" e uma morte que I. DEFINIÇÃO. — As Forças Armadas constituem o
é considerada "execução capital". Todavia, usar neste complexo das unidades e serviços militares do Estado:
sentido os dois termos Força e violência é seu núcleo tradicional e central é formado pelo
freqüentemente despropositado, porque o emprego de Exército, pela Marinha e pela Aeronáutica militares.
dois termos diferentes tende a objetivar a distinção, a O Exército é a força militar típica da terra,
torná-la muito rígida, a sugerir que haja um consenso preparada e equipada para desenvolver operações de
unânime ou quase unânime acerca das intervenções defesa no território nacional e de ofensiva no território
físicas que devem ser consideradas legítimas ou inimigo. A sua organização permite operar em todos os
ilegítimas. Entretanto, do ponto de vista científico, a terrenos, usando pequenas, médias e grandes unidades,
amplitude da difusão da crença na legitimidade de de acordo com as características do teatro das
determinadas intervenções físicas não pode ser dada operações e das necessidades da guerra. Neste século,
como certa pelo fato de se usar os mesmos termos, porém, o uso tático de grandes massas de soldados
mas deve ser averiguada, de cada vez, por meio de tem-se revelado cada vez menos adequado às
pesquisa empírica. Pode acontecer, por exemplo, que exigências da guerra moderna, e a utilização bélica do
amplas camadas da população de um Estado, embora Exército tem reconhecido a ação de pequenas e ágeis
não a contestem ativamente, não aceitem a crença na unidades, unidas sob comandos centralizados e
legitimidade de muitas das intervenções físicas estruturadas segundo diversas especialidades
determinadas pelo Governo. Podem também existir operacionais e técnicas.
grupos rebeldes ou revolucionários que proclamam a A Marinha militar atende à defesa das águas
legitimidade das próprias intervenções físicas e a territoriais, das infra-estruturas portuárias e receptivas
ilegitimidade das do Governo, e que chamam a estas e, em tempo de guerra, à proteção das comunicações
últimas de Força, à maneira de Sorel, ou de violência, marítimas e dos comboios comerciais. Em colaboração
usando a palavra no sentido depreciativo. com o Exército, assegura o transporte marítimo de
tropas de terra e, com a Aeronáutica militar, o emprego
Nesta situação, aquilo que os fautores do Governo
de porta-aviões. Cuida do ataque a unidades navais
julgam um assassínio, pelos fautores da revolução
adversárias e da destruição da infra-estrutura portuária
pode ser considerado como a execução de uma
do inimigo. Opera geralmente com comboios, que
sentença pronunciada em nome do povo ou da justiça;
compreendem unidades diversamente especializadas,
e aquilo que para os fautores do Governo é uma
com vistas à comum defesa e a um mais incisivo uso
execução capital mencionada pela lei legítima do
ofensivo dos meios.
Estado, para os fautores da revolução pode ser um
simples assassínio. Portanto, para evitar qualquer A Aeronáutica militar, a última historicamente
equívoco, parece mais oportuno, de acordo com o uso formada das três armas, não só provê ao apoio tático já muito comum nos estudos de ciência política e de das tropas de terra e dos comboios marítimos, como
sociologia, renunciar à mencionada distinção entre também realiza operações autônomas de destruição,
Força e violência, usando os dois termos como por meio de bombardeamento, de unidades ou infra-sinônimos ou empregando somente um deles para estruturas militares inimigas e, quando necessário, do significar as intervenções físicas, e distinguir, através próprio aparelho industrial e infra-estruturas civis
de uma fórmula que tem a vantagem da imediata (centros habitados, etc.) dos países adversários. A clareza, entre empregos da Força ou violência Aeronáutica opera com aeronaves individuais em "considerados legítimos" e empregos "considerados operações de reconhecimento e com aeronaves ilegítimos" em determinados grupos ou agregados organizadas em esquadrilhas para maior concentração sociais, como também distinguir entre os diversos do esforço ofensivo nos bombardeamentos. sistemas de valores, com base nos quais A tradicional distinção do lugar físico de uso
peculiar das três armas (terra, mar, ar) tende
FORÇAS ARMADAS 505
lentamente a desaparecer, e vai se consolidando cada Artilharia, de Engenharia, . . .); estes são estruturas vez mais o uso de um sistema defensivo-ofensivo complementares daquelas, caracterizadas pelo emprego
integrado, orientado e organizado por um único de técnicas particulares de apoio (Serviço Sanitário, comando central. Criaram-se especialidades de Veterinário, dos Transportes, das Transmissões, . . .). coligação entre as três armas: na Itália, por exemplo, Esta organização formal não corresponde hoje a
as unidades de "incursores" e de "lagunares" da razões militares e operativas, mas a necessidades de
Marinha, os grupos de helicópteros também da funcionamento e de continuidade burocrática e
Marinha, a aviação ligeira do Exército, etc. Todas as hierárquica, visando ao desenvolvimento da carreira
unidades formalmente organizadas das três armas do pessoal e a uma distribuição funcional dos meios e
dependem, na Itália, do Ministério da Defesa (v. das infra-estruturas militares. De fato, na guerra, as
DEFESA). unidades operacionais das Forças Armadas são
A estas três Forças Armadas se foram juntando geralmente estruturadas em exércitos e corpos,
pouco a pouco outros corpos armados, preparados organizados por um comando centralizado com a
para desenvolver principalmente tarefas de ordem contribuição das várias Armas e Serviços. interna, formalmente organizados dentro das Forças
É, por isso, difícil analisar as Forças Armadas de
Armadas, disciplinados por códigos militares comuns, um ponto de vista político, com base no sistema
mas sujeitos à observância de regulamentos diferentes. orgânico-burocrático das Armas e dos Serviços, uma
Estes corpos, na Itália, dependem do presidente da vez que ele possui escasso valor operativo e funcional,
República, como chefe das Forças Armadas, e de
sendo um resultado histórico e tradicional de antigas
diversos ministérios, de acordo com as tarefas que lhes unidades e corpos militares. são confiadas. São corpos armados o Corpo de Guardas de Finanças, Em lugar disso, é mais interessante a análise da dependentes do Ministério das
Finanças, o relação que existe entre as Forças Armadas e a classe Corpo de Agentes de Custódia,
dependentes do Ministério de Graça e Justiça, e b política em termos de resposta à solicitação de
Corpo de Guardas Florestais, serviços militares que esta lhes dirige, e entre as dependente do Ministério
da Forças Armadas e a sociedade civil, no que respeita às Agricultura e Florestas. Tem feito
ininterruptamente parte dos corpos armados o formas de participação dos cidadãos no Corpo
dos Vigilantes do Fogo, funcionamento das Forças Armadas e ao tipo de dependente do Ministério do
Interior. recrutamento adotado
Os corpos armados desempenham funções típicas da III. Os SERVIÇOS MILITARES. — Entre os vários
polícia (v. POLÍCIA) e têm pouco relevo do ponto de vista militar. Um corpo que exerce funções tanto serviços militares, é a "defesa da pátria" que constitui,
militares (de polícia militar) como civis (de polícia sem dúvida, o que mais comumente se pede às Forças
Armadas. Numa primeira acepção, "defesa da pátria"
civil) é a Arma dos Carabineiros; faz inteiramente
significa defesa de uma agressão externa ao
parte do Exército, dependendo, quanto aos problemas
hierárquicos e organizativos, do Ministério da Defesa território, ao espaço aéreo e às águas territoriais
e, quanto aos deveres de polícia, ao financiamento e nacionais. A preparação para tal defesa compreende o
adestramento do pessoal militar, o aprontamento de
operações, do Ministério do Interior. É, no entanto,
planos defensivos capazes de repelir a agressão, e a
considerada como parte integrante do Exército e
equipada como tal. correspondente atividade de espionagem e contra-
espionagem.
II. ORGANIZAÇÃO Uma segunda acepção de sentido moderno e . — Do ponto de vista técnico-militar,
as Forças Armadas são internamente organizadas com democrático do serviço de "defesa da pátria'' estende
vistas à sua preparação para as tarefas que os seus objetivos à defesa das instituições que institucionalmente lhes são confiadas. Busca-se a garantem o funcionamento e a vida democrática do
maximização do potencial ofensivo e defensivo, melhor Estado: o Parlamento, o Governo, as regiões, as
equação entre as despesas e a qualidade do administrações locais, etc. Segundo esta acepção, as
equipamento e um grau mais estreito e funcional de Forças Armadas estão igualmente chamadas a
integração entre os vários corpos. defender o Estado de agressões internas, que tenham
Para coordenação de esforços e consecução dos fins por objetivo a destruição e ruína dos sistemas político
e administrativo. Ambas as acepções vinculam
propostos, mas também por tradição histórica, as
Forças Armadas, especialmente o Exército, estão estritamente a resposta militar aos atos de agressão subdivididas em realmente efetuados, limitando, por isso, o serviço de Armas e Serviços: aquelas são
"defesa da pátria"
estruturas orgânicas autônomas que se distinguem
pelas especialidades técnico-operativas (Arma de Cavalaria, de Infantaria, de
506 FORÇAS ARMADAS
a uma posição defensiva e excluindo as ações Forças Armadas e os cidadãos dentro do sistema de
preventivas ou agressivas. recrutamento obrigatório. Os cidadãos que fugiram à
Historicamente, porém, por "defesa da pátria" obrigação da escola primária, quando existente, logo
também se entendeu a conquista de territórios que ingressados como recrutas nas Forças Armadas,
considerados parte integrante da "pátria" por razões são inscritos em cursos de alfabetização acelerada, ao
históricas, étnicas e culturais, mas sujeitas ao domínio mesmo tempo que fazem o usual adestramento militar.
e jurisdição de países estrangeiros, ou então a Historicamente, porém, a importância deste serviço
conquista de territórios considerados essenciais para não esteve tanto na real função da alfabetização de fato
a sobrevivência e desenvolvimento econômico do realizada, quanto no uso propagandístico que dela se
Estado, postas de parte as considerações de caráter fez para apresentar as Forças Armadas como uma
nacional e étnico (saída para o mar, etc). organização útil ao progresso civil do país. É daqui
Desta concepção, não já apenas defensiva mas que se originou a visão das Forças Armadas,
também agressiva, de "defesa da pátria" originou-se particularmente das organizadas com o recrutamento
depois a extensão do conceito à obrigatório, como escola da nação, ou então como defesa dos territórios
de algum modo controlados pela administração estatal organismo formativo a par do sistema escolar e, como
e à conquista dos territórios considerados necessários tal, funcional ao desenvolvimento das capacidades do
pela classe política para o desenvolvimento e país.
consideração internacional do país. Tornou-se assim Atualmente, o serviço de alfabetização dos recrutas possível confundir a "defesa da pátria" com a quase não existe nas Forças Armadas dos países conquista de territórios coloniais e dissimular a industrializados, possuidores além disso de um
função colonialista e imperialista sob a função eficiente serviço escolar, enquanto que, nos países em
"patriótica". Para os últimos países colonialistas vias de desenvolvimento, à alfabetização propriamente
(Portugal, por exemplo), esta dissimulação se revelou dita se veio juntar a obra de preparação de pessoal
tão precária que eles se viram obrigados a transformar técnico especializado. Faltando, na realidade, um
as colônias em províncias de pleno direito da mãe- sistema escolar especializado no campo técnico, os
pátria. As Forças Armadas foram assim oficialmente quadros militares, justamente por estarem em contato
usadas contra os movimentos militares locais de com sistemas de armamento tecnologicamente
libertação nacional, "em defesa da pátria ameaçada avançados, exercem a função de elemento formador de
numa das suas províncias ultramarinas". pessoal especializado. As dificuldades de realização
Outro serviço militar ligado em parte ao da "defesa deste serviço residem na diferença fundamental que
da pátria" é o que concerne à salvaguarda da ordem existe entre a tecnologia necessária para o
pública e da estabilidade interna. Este serviço é funcionamento dos sistemas de armamento das Forças
exigido, quer no caso de calamidades naturais, em que Armadas e aquela que pode ser usada no aparelho
as Forças Armadas são empregadas em tarefas de industrial civil. Num contexto produtivo pouco
socorro e proteção das zonas sinistradas, em desenvolvido, tais diferenças podem ser tidas como
colaboração com as forças de polícia, quer para um secundárias e a preparação de pessoal técnico pelas
verdadeiro e autêntico controle da vida política e das Forças Armadas poderá oferecer uma utilidade definida.
suas manifestações de rua. Neste último caso, a classe Porém, num país suficientemente industrializado, esse
política que está no poder faz coincidir o conceito de serviço será de escassa importância, embora continue
"defesa da pátria" e das suas instituições com o da sendo um chamariz para o alistamento voluntário de
defesa da ordem social e econômica vigente: as Forças jovens sem especialização.
Armadas assim utilizadas tornam-se instrumento de O serviço de formação e difusão de uma ideologia
regulação interna dos conflitos e das tensões nacional é próprio das Forças Armadas de países
econômicas e sociais do país, chegando a confederativos ou que alcançaram há pouco a unidade
desempenhar verdadeiras e autênticas atribuições nacional. Uma organização das Forças Armadas única
policiais (v. POLÍCIA). e centralizada e a possibilidade de contato e de
Outros serviços, não diretamente militares, que são colaboração que se cria entre cidadãos provenientes de
pedidos às Forças Armadas em situações histórico- diferentes situações étnicas e sociais permitem atuar
políticas particulares, são a alfabetização dos recrutas com vistas à formação de uma ideologia e de uma
e a formação de uma ideologia nacional. O primeiro mentalidade nacional unitárias, aliás dificilmente
resulta do encontro entre a estrutura organizacional conseguíveis. Todavia, tal como aconteceu com o
das Forças Armadas, articulada e distribuída por todo serviço de alfabetização, também este tem sido
o território nacional, e a conexão coativa existente instrumentalmente usado e propalado: na estrutura
entre as
FORÇAS ARMADAS 507
disciplinar das Forças Armadas, caracterizada por uma armas, para garantir os serviços militares essenciais
situação objetiva de coação moral e física dos em tempo de paz. cidadãos em armas, pelo isolamento do mundo do O dever do adestramento militar não abrange as
trabalho e das forças sociais economicamente ativas, a mulheres na maior parte dos países. É uma exclusão
formação da ideologia nacional tem coincidido muito historicamente relacionada com a exclusão da mulher
amiúde com a. transmissão forçada da ideologia das da vida política e do gozo dos principais direitos civis. classes que estão no poder, vindo a sobrepor-se aos Em Estados de nova formação (Cuba, Israel, por
interesses de toda a comunidade nacional a maneira de exemplo), as mulheres são chamadas a alistar-se do ver de uma parte da sociedade e do país. O próprio mesmo modo que os homens, enquanto que, nas
sistema hierárquico que distingue as Forças Armadas democracias ocidentais, o problema da extensão da
de qualquer outra organização de serviços é usado para conscrição obrigatória às mulheres — apresentado às
o condicionamento ideológico dos cidadãos em armas: vezes como uma réplica polêmica aos movimentos o parcelamento das tarefas e funções, o isolamento e a feministas — não surtiu até hoje algum efeito. E que
rejeição da concepção social e cooperativa do trabalho isso veio coincidir com a crise da credibilidade da
militar têm constituído elementos de profundo conscrição obrigatória. Esta é, na realidade, comumente condicionamento ideológico. A transmissão da considerada como o tipo de recrutamento que melhor ideologia continua ainda quando os jovens retornam às corresponde ao espírito democrático dos modernos suas ocupações civis: é tradição muito comum que os ordenamentos estatais: o dever de cumprir o serviço de ex-militares se inscrevam em Associações de Arma, de recruta e, portanto, de se preparar para a "defesa da acordo com a especialidade a que pertenceram pátria'' é tido como um direito historicamente (Alpinos, Infantes, Aviadores, Serviços Motorizados, adquirido, em oposição ao monopólio da defesa e do
Páraquedistas. Caçadores, etc). Estas associações poder militar mantido antes pela aristocracia e pelos organizam reuniões e desfiles por ocasião de militares de profissão. Contudo, a conscrição ocorrências militares, recriando e perpetuando obrigatória só conservou formalmente o caráter momentos de vida coletiva em que se robustece e democrático uma vez que esse monopólio veio
reaviva a ideologia transmitida quando do serviço normalmente a reproduzir-se com a profunda diferença
militar. qualitativa que existe entre a preparação militar dos
elementos de carreira das Forças Armadas e a dos
IV. O RECRUTAMENTO. — As Forças Armadas são elementos provisórios provenientes do alistamento. O
organizadas de modos diversos, em consonância com domínio e emprego das armas modernas e dos os serviços que lhes são pedidos. Elemento comum a sistemas de armamento apresentam, com efeito, uma todos os tipos de organização é a presença de um complexidade tal que só pessoal altamente conjunto de quadros voluntários permanentes, postos especializado deles pode dispor. É um problema que como garantia da continuidade da preparação das não pode ser resolvido com o emprego de pessoal unidades e como centro propulsor das Forças Armadas alistado, não só pelo pouco tempo em que é adestrado, em caso de conflito. As Forças Armadas caracterizam- mas também pelo desperdício de recursos que
se, portanto, pelo tipo de recrutamento adotado no representaria investir somas enormes na preparação de preenchimento dos quadros e do pessoal necessário a pessoal que só vai ser utilizado durante o breve assegurar os serviços requeridos. período do serviço militar.
O modelo de recrutamento que se foi impondo cada Na Aeronáutica e na Marinha principalmente, estas
vez mais a partir da Revolução Francesa é o da diferenças de grau de especialização têm ido reduzindo
conscrição masculina obrigatória: todos os cidadãos de pouco a pouco o peso do pessoal proveniente do
sexo masculino, nascidos ou residentes no território do recrutamento em relação ao pessoal de carreira. Este,
Estado, logo que atingirem um limite de idade fixado além disso, tem podido manter a vantagem sobre
por lei, são inscritos pela administração local em listas aquele por um melhor conhecimento do aparelho
de recrutamento apropriadas e, após o exame médico militar e do seu funcionamento, ao passo que o
de idoneidade, efetuado pela autoridade médica pessoal de recruta, chamado uma só vez em tempo de
militar, são encaminhados às diversas armas. paz para o adestramento nas armas, nunca mais pôde
O serviço militar assim prestado se configura como utilizar, para um controle democrático eficaz desse
um dever do cidadão e tem uma duração que é mesmo mecanismo, os conhecimentos adquiridos no
estabelecida por lei, tendo em vista o contingente que tempo em que serviu. se julga necessário manter em Cada vez vai perdendo mais valor a idéia de que a
conscrição obrigatória constitua um modelo
508 FORÇAS ARMADAS
de recrutamento "democrático": o pessoal proveniente à concepção defensiva da nação armada. Trata-se de
do alistamento se encontra, de fato, não só inserido um tipo particular de recrutamento, de uma conscrição
num mecanismo cujo funcionamento ignora, como masculina obrigatória em que, a um primeiro período
também posto numa situação de subordinação de adestramento de alguns meses, feito por cidadãos
marginal com respeito ao cumprimento das funções de vinte anos de idade, segue-se uma série de
confiadas às Forças Armadas. O caráter democrático convocações mais breves e espaçadas, até ser
da conscrição obrigatória deixou, por isso, de ter alcançado um limite compreendido entre os 40 e os 50
razão de ser, transformando-se em instrumento de anos. O cidadão é assim adestrado e mantido
propaganda nas mãos dos elementos de carreira das permanentemente atualizado, não só quanto às
Forças Armadas, em confronto com a classe política e inovações técnicas no campo militar, como quanto à
com a opinião pública. É como um cômodo biombo a doutrina defensiva elaborada pelo Estado maior. Este
resguardar de um controle eficaz a vida interna das tipo de recrutamento é adotado pela Confederação
Forças Armadas. Helvética, que dispõe assim de uma força militar
Esta diferenciação dentro das Forças Armadas eficiente, permanentemente adestrada e pronta para a
constitui também o fundamento de outro tipo de defesa do território; além disso, para eliminar o perigo recrutamento, que prevê obter, com a conscrição de um ataque imprevisto por parte de forças inimigas obrigatória, apenas uma parte da tropa necessária, e a e, conseqüentemente, as dificuldades ligadas à
outra, com o recrutamento voluntário de especialistas mobilização e armamento dos combatentes, todo por tempo mais longo. As Forças Armadas recrutadas cidadão-soldado guarda, durante todo o seu tempo de por este sistema são, pois, constituídas, não só de fato, serviço, ou até a última convocação, a sua própria arma
mas também oficialmente, em seus quadros de oficiais individual, por cuja manutenção e condições de e suboficiais e nos papéis especializados da tropa, por eficiência é chamado periodicamente a responder.
pessoal só de carreira e, na tropa em geral, por pessoal Além das reais vantagens em termos de eficiência
de recruta, sujeito ao tradicional período de defensivo-militar de um tal tipo de recrutamento, o
adestramento militar e, logo em seguida, reenviado sistema das convocações freqüentes faz com que os
para casa. cidadãos, já providos de conhecimentos suficientes
Este tipo de sobre o funcionamento da máquina militar, possam recrutamento misto da tropa, por
alistamento obrigatório e por alistamento voluntário, exercer um controle decisivo sobre o funcionamento
está atualmente em uso nos exércitos da maior parte das Forças Armadas e, por conseguinte, sobre os seus
dos Estados europeus: estes tiveram que enfrentar o elementos de carreira. duplo problema de não subtrair por longo tempo Outro sistema de recrutamento que representa mais
forças produtivas ao processo do trabalho, com uma modificação da conscrição obrigatória é o
prolongados períodos de serviço militar, bem como o organizado em tomo do conceito da guerra por grupos da necessidade de aprontar umas Forças Armadas (v. GUERRILHA), para a defesa descentralizada das eficientes sem renunciar aos mais modernos e cidades e das instalações industriais das várias zonas
complexos sistemas de armamento. A presença do país, a cargo dos próprios habitantes. A
institucionalizada de pessoal profissional na tropa constituição de grupos armados, com a contribuição
sempre se deu nos exércitos modernos. O fenômeno a dos jovens de ambos os sexos, é o sistema adotado,
que aludimos aqui não consiste na presença de por exemplo, na República Iugoslava. O grau de
militares de carreira entre a tropa, mas na absoluta autonomia destes grupos em relação ao comando
concentração em suas mãos do controle dos sistemas central, a limitação geográfica fundamental dos seus
defensivos e ofensivos mais eficazes. Foi assim objetivos à defesa do território, o perfeito possível, por exemplo, encarar a divisão das Forças conhecimento do terreno das operações e a estreita
Armadas em dois setores operativamente distintos: por ligação que se cria entre os militares e a realidade
um lado um setor de pronta utilização, caracterizado sócio-política levam a considerar este sistema de
por sistemas de armas não convencionais (nucleares), recrutamento como o mais adequado à defesa do
formado por profissionais (veja-se a force de frappe Estado dentro dos limites nacionais; existe ainda a
francesa), e, por outro, um setor formado por unidades garantia, de não somenos importância, de que tal
convencionais, predominantemente constituídas por sistema não poderá ser usado em ações bélicas
pessoal alistado e usadas como apoio logístico dos agressivas nos territórios de outros Estados. primeiros. A condição essencial para a realização deste tipo de
Um tipo de recrutamento que resolve parcialmente recrutamento e de organização militar
os problemas políticos postos pela conscrição
obrigatória até aqui descritos é o ligado
FORMAÇÃO SOCIAL 509
é o estreito vínculo que deve existir entre a classe
política e as instituições estatais, por um lado, e o BIBLIOGRAFIA.- AUT. VÁR. Le istituzioni militari e povo e os assuntos políticos, por outro: do contrário, o 1'ordinamento costituzionale. Editori Riuniti, Roma parcelamento da força militar e das suas instâncias 1974; Id., Cittadini in uniforme, Lerici, Cosenza 1976; decisórias, num sistema de participação política V. AGRESTI e M. PACELLI, Codice delle leggi sulle instável, seria contraproducente para a estabilidade Forze Armate, Giuffrè, Milano 1966 e 1971 (I ap.); A. das instituições e da ordem do Estado. BOLDRINI e A. D'ALESSIO, Esercito e política in Italia,
Mais clara parece, enfim, a escolha do Editori Riuniti, Roma 1974; S. BOVA e G. ROCHAT, Le voluntariado
como único tipo de recrutamento da tropa das Forças forze armate in Italia, in "Inchiesta", 2, 1971; G.
Armadas em tempo de paz: ela é formada apenas de FRANCESCONI, Servizio militare e democrazia, in "Il
pessoal voluntário, inscrito com base em contratos de Mulino", 229, 1973; A. GIOBBIO, L'esercito e i suoi
trabalho por tempo fixo bem definidos. Este sistema é criteri, in "Comunità", 166, 1972; R. RONZA, Il Pierino
adotado na Europa pela Grã-Bretanha; permite dispor va soldato. Esperienze e proposte sul servizio militare
de um eficiente mas limitado contingente de Forças in Italia, Jaca Book, Milano 1968; C. TRON, Il servizio
Armadas, sem desviar mão-de-obra do mercado de militare, Torre Pellice 1967. trabalho. Em caso de guerra, em torno desta pequena
estrutura [SERGIO BOVA] de Forças Armadas, organizam-se
contingentes obtidos com o chamamento obrigatório.
O recrutamento voluntário apresenta, aliás, a
Formação Social.
vantagem de equiparar, aos olhos da classe política e
da opinião pública, as Forças Armadas com as forças
da polícia, solicitando um mesmo tipo de controle para I. TRÊS ACEPÇÕES DO TERMO. — Pode ser designado a ação e possíveis desvios de ambas as organizações com este termo qualquer ordem claramente militares. discernível de entidades sociais.
Querendo, finalmente, relacionar o tipo de serviço Na linguagem comum o conceito de formação
militar exigido às Forças Armadas com a organização oscila entre uma acepção estática: a forma, a do recrutamento, poderemos notar que, se o serviço disposição de objetos no espaço, e uma acepção
militar requerido consiste na "defesa da pátria" de dinâmica: o processo de um sujeito dar ou assumir
agressores externos e existe um estreito ligame entre a forma. O atributo social aplica este conceito às população e as instituições do Estado, os sistemas de relações entre os homens. recrutamento de conscrição obrigatória do tipo da O conceito de Formação social assume valor
nação armada ou dos grupos armados são os mais científico na doutrina jurídica e nas ciências sociais,
seguros. Quando, pelo contrário, com a ampliação do em virtude de convenções terminológicas conceito de "pátria", criou-se o distanciamento entre estabelecidas ou de procedimentos inter-uma concepção do Estado e dos seus interesses, subjetivamente controláveis. Na literatura são três as peculiar à classe política de posse do poder, e a acepções principais: concepção que deles tem a maioria da população, é o a) um conceito descritivo: o termo Formação social sistema da conscrição obrigatória de longa ou mista é um expediente taxonômico para designar as mais duração que permite utilizar, numa função variadas configurações, autônomas e empiricamente subordinada, a capacidade militar da população, sem distinguíveis, de interações sociais estabilizadas;
estender a gestão dos objetivos estratégico-militares. O
b) um conceito teórico-marxista: por Formação
sistema do voluntariado total, enfim, põe as Forças
social se entende a totalidade histórico-social
Armadas em condições de responder a qualquer
constituída por um modo de produção e pela sua
solicitação de serviços militares, mas pode trazer
superestrutura política e ideológica;
consigo o agravamento da despesa, devido à
necessidade de assegurar ao pessoal voluntário c) um conceito teórico-sociológico: a Formação estipêndios competitivos com os das profissões civis, e social é definida como um conjunto de estruturas da
um perigo político não descurável, devido à presença personalidade, do sistema social, da cultura e dos seus
de um corpo organizado de militares acrescido aos das mecanismos de reprodução congruentes entre si. forças policiais e ao conseguinte aumento das As três acepções se distinguem: a descritiva
possibilidades de involução pretoriana das próprias designa a parte; as teóricas, o todo; a descritiva é
Forças Armadas. comum à doutrina jurídica e às ciências sociais,
enquanto as teóricas são usadas somente nas ciências
sociais; e, enfim, as teóricas são tais porque,
diferentemente da acepção descritiva, determinam a
definição dos componentes de Formação social e do
nexo que as liga mediante teorias 510 FORMAÇÃO SOCIAL
sociológicas e epistemológicas particulares: o progressistas aqui representadas, pode ser afirmado maierialismo histórico e a abstração determinada, a com o consenso de todos". Nessa intervenção P.
primeira; o estrutural-funcionalismo, o empirismo e o Togliatti identificou um "amplo campo de método dos tipos puros, a segunda. A acepção entendimento" possível. G. La Pira e L. Basso
dinâmica da linguagem comum, ausente no conceito elaboraram um texto que foi, em seguida, apresentado
descritivo, está, porém, presente nos conceitos pela subcomissão à assembléia plenária da Constituinte:
teóricos. as "comunidades naturais" que G. La Pira tinha
extraído do projeto de código Mounier, se diluíram em
II. CIÊNCIAS JURÍDICAS E FORMAÇÃO SOCIAL. — 1) "formas sociais" e, por fim, em Formações sociais. O
Os juristas entendem por Formações sociais aquelas texto definitivo, mais breve, foi apresentado e
associações, comunidades ou sociedades aprovado em duas emendas idênticas cujos primeiros intermediárias entre os indivíduos e o Estado, nas signatários foram, respectivamente, A. Fanfani e G.
quais o indivíduo se realiza como pessoa e mediante Amendola. O acordo relativo tinha sido atingido com
as quais interesses particulares se expressam e se base, sugerida por A. Moro, na "polêmica
agregam. A família, a Igreja, o partido político, a antifascista". empresa, o sindicato, a escola, as minorias étnicas são A sucessiva discussão doutrinai dos juristas
as Formações sociais mais importantes de uma encontra particularmente empenhados na defesa e
sociedade. divulgação deste conceito de Formação social C.
Os direitos e os valores que esta concepção Mortati e P. Rescigno e suscita interlocutores no
pretende tutelar são: a democracia pluralista, o âmbito do pensamento social católico e críticos entre
desenvolvimento da personalidade humana nas os estudiosos leigos do direito (N. Bobbio). Essa relações sociais, a liberdade de associação, a concepção revela nesta discussão sua dupla natureza: participação democrática. É polêmica sua atitude para ela é sem dúvida progressista quando reconhece a com a concepção liberal-estatal, contrária ou existência de ordenamentos marginais ao Estado, mas indiferente às sociedades intermediárias entre a ele homólogos — enquanto interessam a mais sujeitos indivíduo e Estado, e para com a concepção totalitária organizados segundo normas, fonte de salutares
que absorve dentro do Estado qualquer forma contrapoderes, indispensáveis à ordem econômica e associativa. Indiferença, hostilidade, repressão para política de uma sociedade pluralista, e que, portanto,
com as formas associativas surgidas fora do Estado devem ser garantidas constitucionalmente — e quando
foram historicamente praticadas na Itália pelos destaca com pesar que o único destes ordenamentos Governos e pela administração pública, quer no intermediários, verdadeiramente tutelado pelos códigos, período liberal quer no fascista. Não foi por acaso, é a empresa privada capitalista; mas é também
portanto, que essa concepção foi introduzida, após as inegavelmente conservadora, quando afirma o objetivo
lutas de resistência antifascista, na Constituição da conciliatório da participação democrática garantida
República italiana, que no art. 2.º afirma: "A dessa forma, não reconhecendo em nenhum caso, como República reconhece e garante os direitos invioláveis estruturais para o nosso tipo de sociedade, certos
do homem quer como indivíduo quer nas Formações conflitos de interesse, e quando convalida um modelo
sociais, onde se desenvolve a sua personalidade, e organicista de sociedade com a constatação de que
exige o cumprimento dos deveres inderrogáveis de estes grupos intermediários são portadores de interesses,
solidariedade política, econômica e social". embora não muito manifestos, mas gerais, e chega a
G. La Pira, em sessão da Assembléia Constituinte, considerá-los meios para um único e verdadeiro fim.
sustentou que "os direitos essenciais da pessoa Estas referências, de todo inadequadas para descrever a
humana não serão respeitados — e o Estado, portanto, evolução do pensamento católico atual, testemunhada
não realiza os fins para os quais foi constituído — se pela Encíclica de João XXIII Mater et Magistra, visam
não forem respeitados os direitos da comunidade indicar o contexto em que se situam as discussões
familiar, da comunidade religiosa, da comunidade de doutrinárias para estabelecer a compreensibilidade do
trabalho, da comunidade local e da comunidade conceito de formação social: a Constituição italiana
nacional: porque a pessoa é necessariamente membro tutela explicitamente as associações em geral (art. 18),
de cada uma destas comunidades, que lhe dão um as comunidades religiosas (art. 8.°, 19), a família (art.
status". 29), o sindicato (art. 19), o partido (art. 49), a empresa A discordância do correlator L. Basso foi
superada por uma intervenção de Dossetti: "Este (privada e cooperativa: arts. 41, 42, 43, 45) e
conceito fundamental da anterioridade da pessoa, da estabelece como limite da tutela a tentativa do crime e
sua visão integral e da integração que ela sofre em um o bando armado; alguns intérpretes acrescentam a esse
pluralismo social, que deveria ser recebido de bom elenco a
grado pelas correntes
FORMAÇÃO SOCIAL 511
universidade, a escola, as minorias étnicas, a greve. O Estado interessa não como instrumento cognitivo mas
instrumento terminológico de delimitação são os como idéia que a história dinamizou talvez demais em
vários sinônimos de Formação social no uso jurídico: direção a rumos quiçá incertos, tantas quantas são pelo
corpos intermediários, sociedades intermediárias, menos as concepções do PLURALISMO (v.) e as suas comunidades naturais, comunidades intermediárias, práticas, devido à indeterminação da noção e hipoteca
ordenamentos intermediários. Cada um pode ser integralista que pesa sobre ela. utilizado para indicar uma acepção juridicamente
Lembramos, enfim, que o termo Formação social é
relevante de formação social, enquanto o termo mais
usado para traduzir o alemão Soziale Gebilde; termo
genérico já entrou a fazer parte das instituições
empregado por Max Weber, Werner Sombart e
fundamentais do direito. Um autorizado manual
Leopold von Wiese quando se referem ao Estado, aos
afirma "que o termo 'Formação social' é usado no art.
grupos humanos, às sociedades, às instituições mais
2.° num sentido que compreende todas as entidades
diferentes, e aceito, em seguida, na linguagem corrente
superindividuais de base associativa voluntária ou
da sociologia alemã (por exemplo, Dahrendorf, Fuchs)
necessária (como as entidades públicas) ou as
juntamente com o sinônimo Formation. O termo
entidades com elementos comuns a umas e a outras
francês correspondente foi usado para análoga
(como a família), corporativas ou institucionais, com
finalidade classificatória por H. Jeanne.
ou sem personalidade jurídica" (Mortati).
2) Nas ciências sociais o conceito que mais III. MARXISMO E FORMAÇÃO SOCIAL. — 1) Formação
corresponde a este uso jurídico do termo Formação social é abreviação de formação econômico-social, social é, talvez, o de grupo secundário, no contexto termo preferível para indicar o conceito marxista de
de observações empíricas e teóricas sobre as relações Formação social que designa o conjunto das relações
entre indivíduo e Estado, elaboradas por E. Durkheim que com a evolução de um modo de produção se vão
em algumas lições ministradas na Sorbone, entre 1898 determinando historicamente entre este, a sua
e 1900, e publicadas postumamente sob o título superestrutura política e ideológica, aspectos de
Leçons de Sociologie •— Physique des moeurs et du outros modos de produção e de outras superestruturas.
droit (Paris, 1950). Uma Formação social é composta: a) de forças
produtivas, isto é, instrumentos, máquinas, edifícios
A tendência das solidariedades orgânicas que
para a produção, organizações de trabalho, meios de
prevalecem sobre as solidariedades particulares, isto é,
transporte, infra-estruturas, conhecimentos técnicos e
dos grupos secundários cuja formação — constata o
científicos, força-trabalho humana; b) de relações
autor — "é inevitável porque em cada sociedade de
sociais, não somente econômicas mas também,
grandes dimensões existem sempre interesses
segundo alguns autores, políticas e ideológicas, que
particulares, locais e profissionais, que tendem a reunir
dão lugar a uma estrutura de classe; c) do Estado,
as pessoas de acordo com esses interesses". De outro
como instituição e como conjunto de organizações; d)
lado, "a força coletiva do Estado, para se tornar
dos aspectos da consciência social (crenças, valores,
libertadora do indivíduo, precisa de contraforça, de ser
doutrinas) e das instituições (como a família, a Igreja, a
contida por outras forças coletivistas, isto é, por esses
escola, os partidos políticos, a indústria cultural no
grupos secundários". Esses grupos, portanto, não
caso das sociedades modernas) que veiculam essa
servem somente para regular e administrar os
consciência.
interesses de sua competência. Têm um papel mais
geral: são uma das condições indispensáveis para a
As forças produtivas e as relações de produção,
emancipação individual" (lição V).
inter-relacionadas num modo de produção, constituem
A análise sociológica corrente usa, todavia, no estudo a estrutura que qualifica a Formação social, a base real
destas formações sociais ou grupos secundários, para caracterizar os componentes da Formação social e
conceitos menos compreensivos e teoricamente mais suas relações, e a evolução da Formação social e suas
densos, como organização, grupo de interesse, grupo contradições. Do conjunto dos elementos que
de pressão. O texto citado pode, no entanto, ser compõem a Formação social depende a reprodução
considerado como antecipação do modelo das relações sociais dominantes em uma sociedade. "neocorporativo" de funcionamento do sistema Isto é, os componentes antes mencionados não são
político, consistente na negociação constante do elementos extrínsecos uns aos outros, colocados no
Governo entre representações de interesses não mesmo plano, tendentes ao equilíbrio estático; são,
sujeitos ao controle eleitoral. pelo contrário, interligados pelos sociais, subordina-
A concepção das Formações sociais como
intermediários posititivos entre o indivíduo e o 512 FORMAÇÃO SOCIAL
dos à configuração do modo de produção e movidos mente em Formação social, indica o lugar do
por tensões. condicionamento exercido pelas relações sociais e
O caráter das relações entre os componentes foi pelas forças produtivas sobre o sistema político e sobre
definido de diferentes maneiras pelos estudiosos a consciência social. marxistas como reflexo ou interdependência ou Este segundo conceito, Formação social, foi
articulação de domínio ou correspondência, de acordo assumido por Lenin. Definições explícitas aparecem com a teoria do conhecimento implícito no pensamento em passagens muito claras de Quem são os amigos do desses estudiosos. A determinação das modalidades povo e como lutam contra os social-democratas?
históricas dessas relações, e de sua própria existência, (1894), O conteúdo econômico do populismo e o livro
cabe às pesquisas histórico-sociais que adotam o do senhor Struve (1894-95), Karl Marx (1914). Esse
conceito de Formação social para fornecer explicações conceito está implícito numa das maiores obras de
estruturais (e não estruturalísticas) mais do que pesquisa de Lenin: O desenvolvimento do capitalismo
fatoriais do desenvolvimento das sociedades. O termo na Rússia (1898). Nestes escritos o significado de
Formação social não pode, portanto, ser usado como Formação social é sempre o mesmo: "a base da
um sinônimo, da mesma forma como se usa época ou sociedade — o sistema das relações de produção —
sociedade, sem pressupor como já admitida uma que se reveste de formas jurídico-políticas e de certas
totalidade que, pelo contrário, é um produto histórico. tendências do pensamento social". Do conceito de
Cabe à pesquisa reconhecê-lo como tal. Formação social Lenin sublinha com força polêmica o
Mediante o conceito de Formação social o clássico valor científico do instrumento conceptual para
problema das relações entre estrutura e superestrutura conhecer a sociedade da qual reconstrói uma ordem
pode ser recolocada em termos heuristicamente mais estruturada ("organismo" é, às vezes, a metáfora usada
válidos. O problema mais recente da coexistência de pelo autor) e explica o desenvolvimento segundo sua
modos de produção diferentes e dos seus efeitos base real.
sociais, até agora somente apresentado na área A introdução do "critério científico geral e objetivo
historiográfica, pode ser abordado por meio de uma da reiterabilidade" no estudo das sociedades, mediante
teoria. o conceito de Formação social, é o fundamento dessa
2) ciência social. Os clássicos: Marx e Lenin. — Na medida em
que o conceito de Formação social exprime o núcleo Na obra de Marx e Lenin a aplicação da teoria do
teórico do materialismo histórico, ele está presente materialismo histórico como método de pesquisa
implicitamente em toda a obra de Marx. A seguinte prevalece sobre o interesse por uma definição precisa e
definição explícita de Formação social aparece no explícita dos componentes da Formação social, do
Prefácio à obra Para a crítica da economia política caráter de suas relações, da proposição das categorias
(1859): "o modo de produção de vida material que subjacentes à formulação do conceito. Tais definições
condiciona, em geral, o processo social, político e foram deduzidas pelos estudiosos sucessivos que
espiritual da sociedade" é designado como uma tentaram várias interpretações das metáforas
"Formação social que não perece enquanto não se freqüentemente usadas pelos dois autores.
tenham desenvolvido todas as forças produtivas a que Em seguida, no marxismo o conceito e o termo de
pode dar origem". "Em grandes linhas, os modos de Formação social caíram em desuso. Nos dicionários do
produção asiático, antigo, feudal, burguês, moderno marxismo-leninismo o verbete "Formação social" é
podem ser designados como épocas que marcam o praticamente uma enésima repetição dos cânones do
progresso da formação econômica da sociedade" e a materialismo histórico soviético. Também aos maiores
sociedade do modo de produção capitalista-burguês é expoentes do marxismo ocidental é alheia a
"a Formação social com que se encerra a pré-história da possibilidade de uma teoria especial das Formações
sociedade humana". sociais.
No texto citado e em outras passagens que podem Termo e conceito reaparecem na década de 1960 na
ser encontradas nos Grundrisse (1857-58) e no obra de dois sociólogos, Z. Bauman e J. Hochefeld, e
Capital (1867), o mesmo termo alemão de um economista, O. Lange, estudiosos do marxismo-
Gesellschaftsformation (ou também Ökonomische leninismo e das ciências econômicas e sociais
Gesellschaftsformation) é usado para dois conceitos "burguesas". Estes autores concebem a Formação
semelhantes, mas distintos: o primeiro, traduzido para social como o conjunto do modo de produção e de sua
o português com a expressão formação econômica da superestrutura. Através da contribuição da sociologia
sociedade, designa o lugar teórico da continuidade ocidental tentam uma definição mais precisa dos
entre os modos de produção; o outro, traduzido para o componentes da Formação social, especialmente dos
português com a expressão formação econômico- componentes supra-estruturais. O caráter da
social, abreviada freqüente-
FORMAÇÃO SOCIAL 513
ligação é concebido em termos de causalidade, qual vê nesta ambigüidade estático-dinâmica a
interdependência, ou funcionalidade. A teoria social intenção de Marx de formular uma categoria
adotada é a das leis de desenvolvimento permanente compreensiva do processo e do seu resultado do duplo
das forças produtivas e de correspondência entre estas significado de formação de sociedade e de formação
e as relações de produção e entre o modo de produção social, expresso por A. Labriola com as palavras
e a superestrutura. A epistemologia implícita mistura "estádio morfológico no fluxo de um processo".
categorias positivista e mecanicista. A assimilação do Segundo V. Gerratana, Marx preferiu, ao invés, o uso
conceito de Formação social aos da época e sociedade da palavra estrangeira Formation ao da alemã Bildung é a conseqüência lógica da concepção homogênea — que indica um processo de construção —
unilinear do desenvolvimento histórico, tal como foi exatamente para que ao termo Formação social fosse
sustentada por J. Stalin com base numa interpretação atribuído o valor de resultado de conjunto estruturado.
literal e determinista de uma passagem de Marx O argumento filosófico de E. Sereni a substituição de
anteriormente citada, que estes autores subentendem. formation por form para acentuar o caráter processual O sucessivo debate sobre o "modo de produção do conceito de Formação social — parece errado a V.
asiático" desmistificou e falsificou esta hipótese Gerratana que coloca os conceitos expressos pelos dois
unilinear e impôs a exigência de uma nova conceituação termos numa relação de gênero (Gesellschaftsform) e da Formação social (Sofri, 1969). espécie (Gesellschaftsformation).
IV. O b) A junção do adjetivo Ökonomische significaria uma DEBATE CONTEMPORÂNEO . — 1) O interesse
por este tema, renovado no Ocidente por um ensaio de indicação exata do fundamento, do critério de G. Luporini, publicado em 1966, e por um livro de M. distinção das Formações sociais, constituído não pelas
relações de propriedade em sentido jurídico, mas pelas
Poulantzas de 1968, foi sentido especialmente por
estudiosos italianos e franceses próximos ao P.C.I. e relações de produção em sentido econômico-social,
ao P.C.F., como E. Sereni, G. Luporini, V. Gerratana, segundo E. Sereni. Não daria lugar a um novo G. La Grassa, G. Labica, J. Texier, M. Godelier, E. conceito, como pelo contrário sustenta C. Luporini —
concordando neste ponto com G. Labica e J. Texier —
Glucksmann, R. Gallissot, G. Dhouquois, os quais
deram vida, entre 1970 e 1972, a um amplo debate nas que baseia nessa junção a própria tese de que revistas "La pensée" e "Critica marxista", centrado Ökonomische Gesellschaftsformation indicaria um
mais na dimensão sintática do conceito de Formação conceito diverso, formação econômica da sociedade,
definido como "o lugar teórico da continuidade das
social do que, talvez, na semântica. A discussão,
suscitada por um ensaio de E. Sereni intitulado "De forças produtivas na descontinuidade das épocas
Marx a Lenin: la categoria de formazione economico- históricas", exclusivamente marxista. sociale" (in "Quaderni di critica marxista", 4, 1970), Com relação a isso o conceito leninista seria
foi particularmente animada sobre os problemas de original, porque em Marx Formação Social seria pouco
interpretação do texto marxista — no qual aparecem mais do que uma expressão funcional para indicar o
diversos termos: Gesellschaftsform, efeito do modo de produção na sociedade de uma Gesellschaftsformation, Form, com ou sem época. Godeher, ao contrário, admite a presença dos Ökonomische — e sobre os problemas da relação entre dois significados no texto de Marx. o conceito de Formação social e os de modo de
c) A questão da relação entre Formação social e
produção e de superestrutura.
superestrutura pode ser resumida nos dois conceitos de
Os principais problemas de interpretação são: a) o Formação social, marxista e leninista, diferenciados em
valor da expressão "Formation" e não "Form ou b): o destaque refere-se ao modo de produção para os
Bildung"; b) o valor do adjetivo Ökonomische, isto é, o pesquisadores interessados em encontrar uma significado, único e duplo, de õkonomisch continuidade entre mais épocas e sociedades nas Gesellschaftsformation é para entender formação forças produtivas, e à superestrutura para os
econômica da sociedade ou formação social? pesquisadores interessados em configurar como