Dicionário de Política (Volume 1)
Camadas, sociedade por. — V. Sociedade por…
Camadas, sociedade por. — V. Sociedade por porém unilaterais e, por isso, incapazes de oferecer Categorias. uma explicação cabal do fenômeno que estudamos.
Trata-se, em primeiro lugar, da tentativa de encontrar
os fundadores do moderno pensamento econômico
entre os autores políticos que, por primeira vez,
Cameralismo.
encararam os problemas do Estado em termos
financeiros e, conseqüentemente, político-
I. SIGNIFICADO POLÍTICO-CONSTITUCIONAL DO econômicos, quer se ocupassem da imposição de
TERMO . — Falar de Cameralismo é enfrentar tributos, quer revelassem, ao contrário, a tese do diretamente um aspecto importante da realidade desenvolvimento das relações comerciais. Trata-se,
política germânica do século XVIII. Com esse termo em segundo lugar, da tendência de descobrir as
nos referimos aqui geralmente a um intrincado origens da ciência da administração nas primeiras
conjunto de interações entre determinados recomendações referentes aos dispositivos comportamentos político-institucionais, relativos ao burocráticos, feitas aos príncipes territoriais da
período central da formação do moderno Estado Alemanha por expertos na arte de governar, mais
alemão (v. ESTADO DE POLÍCIA), e, de igual modo, a práticos do que teóricos, já em fins do século XVI e,
certas formas de especulação política, elaboradas depois, no decorrer dos séculos XVII e XVIII. assaz freqüentemente com propósitos imediatamente Üteis no âmbito, quer da história do pensamento
efetivos e sempre em resposta aos problemas reais que econômico, quer na do pensamento administrativo,
a nova ordem constitucional e social estava gerando. tais perspectivas são, no entanto, desen-caminhadoras
Dessa premissa deriva uma conseqüência imediata, para quem queira considerar o Cameralismo como
que convém precisar mediante correta definição do fenômeno histórico completo. Para isso é debate historiográfico que até o presente se tem indispensável que ele ache a justificação em si mesmo
desenrolado. A relação do pensamento cameralista e não na mera referência à história sucessiva de outras
com premissas e condições constitucionais bem disciplinas. definidas obriga, de fato, a restringir a investigação a As características típicas do Cameralismo podem
uma curva cronológica delimitada e a contornos substancialmente resumir-se numa só, da qual
territoriais igualmente determinados (aqueles dependem todas as outras; globalidade na abordagem exatamente em que tais condições ocorreram de fato). dos diversos temas da experiência política, dos quaís
Isto permite atribuir ao Cameralismo um significado se tenta uma reconstrução teórica unitária, em
técnico, válido e definitivo, sem diluí-lo numa consonância não casual com a coerência e unidade da
acepção, que, por ser demasiado compreensiva, forma de Estado que se impôs em alguns territórios da
acabasse por privá-lo das suas verdadeiras Alemanha: o Estado de polícia. Elementos da ciência peculiaridades e do seu valor como instrumento de da administração, bem como da economia, da ciência
compreensão histórica. das finanças, da técnica agrária ou manufatureíra
Essa acepção mais ampla em que o Cameralismo concorrem juntamente, em sua unidade, para
tem sido amiúde tomada se poideria definir constituir o núcleo do pensamento cameralista, no
sinteticamente como "concepção administrativa" do qual não são simples soma ou achega, mas fusão
Estado, desenvolvida na Alemanha (de modo articulada que lhe apoia a pretensão a transformar-se
correspondente, mas autônomo, em relação aos em nova ciência do Estado. demais países da Europa), entre os fins do século XVI
e os do século XVIII. Esta, por sua vez, tem sido II. CONSEQÜENTE DELIMITAÇÃO, DE DATAS E DE
alternativamente estudada sob dois pontos de vista CONTEÚDO, DO CAMERALISMO. — À exigência desta
diversos, ambos justificados em si. compreensão teórica global — que não
138 CAMERALISMO
corresponde fortuitamente, é bom repeti-lo, à época a Prússia se organiza como Gesamtstaat, sob a
globalidade da experiência constitucional do Estado guia do Grande Eleitor e de Frederico Guilherme; é a
de polícia — não respondem decerto as obras de todos Prússia precisamente que constitui amiúde o alvo de
os autores que, do fim do século XVI até o fim do algumas das suas críticas mais agudas. Nem mesmo
século XVIII, acompanharam a ação do príncipe em falta neles uma clara distinção dos interesses
sua tentativa de tornar-se o fulcro da nova ordem modernos, se bem que centralizados
política do Estado territorial unitário e centralizado. predominantemente em temas econômicos, nem a
Melchior von Osse, Reinking, Conring e o próprio sabedoria e capacidade de os tratar unitária e
Seckendorff revelam-se como lúcidos precursores de sistematicamente. Carecem, no entanto, de ligação
uma realidade em movimento, mas a sua posição é com a praxe constitucional do Estado centralizado e
bastante ambígua: não é casualmente que eles falam global. Seu ponto de referência é a Áustria, então num
em geral ao príncipe, de quem são ou aspiram a ser dos momentos de maior debilitamento da sua história
eminentes conselheiros; a eles se dirigem para o moderna, já totalmente despida de toda a competência
persuadir, mas num contexto que evoca, ainda, mais a ou mesmo pretensão imperial, mas ainda não ajustada
"arte do Governo" que a "ciência do Estado". As obras internamente como Estado territorial e, por isso,
do primeiro e do último desses autores, como dos incapaz de oferecer o indispensável apoio a uma
restantes (o Politisches Testament de Melchior von política econômica de qualquer tipo e muito menos a
Osse e o Fürsten-Staat de Veit Ludwig von uma do tipo mercantilista (de intervenção constante,
Seckendorff), refletem, no conteúdo como no título, o interna e externamente), como a defendida por esses
velho propósito dos "espelhos dos príncipes" da tardia autores. Eles teorizaram de forma admirável,
Idade Média e do começo da Idade Moderna, raramente igualada pela produção mercantilista de
revelando a fase de formação do Estado territorial. outros países, salvo talvez a Itália, os princípios da
Eles concentram a sua atenção na figura do príncipe, doutrina econômica vulgarizados naquele tempo, mas
apresen-tando-lhe propostas inovadoras no campo não puderam ou souberam transformar as suas teorias
financeiro e administrativo, não como resultado de um em especulação "política", incapazes como foram de
estudo e de uma reconstrução sistemática da realidade as aplicar a uma realidade política adequada.
política, mas como avisos. Foram, por isso, mais mercantilistas do que
Embora, portanto, estes autores estivessem cameralistas, isto é, deixaram-se prender mais pelo
freqüentemente a serviço de príncipes seriamente aspecto econômico-financeiro do fenômeno político
empenhados na construção do Estado moderno, e seus do que pela sua globalidade; mas, acima de tudo,
interesses e intervenções tendessem a estimular e a foram mercantilistas "imperiais", numa época em que
apoiar a centralização estatal, não diversa da que será o Império já não existia ou, no mínimo, não estava em
peculiar ao pensamento came-ralista, eles não podem, condições de desenvolver as convenientes tarefas de
contudo, ser considerados propriamente como_ propulsão e controle da política econômica da Áustria,
cameralistas. A realidade política que vivem e por sua vez ainda não inteiramente ajustada como
consideram é ainda a realidade fragmentária do Estado Estado territorial.
de castas ou patrimonial, e não a realidade integrada,
compacta, do Estado total (Gesamtstaat), absolutista, III. O CAMERALISMO E O GESAMTSTAAT
moderno; a reconstrução que fazem dessa realidade é PRUSSIANO DA PRIMEIRA METADE DO
ainda ocasional, esmiuçada, não sistemática e, SÉCULO XVIII. — Entretanto, na Prússia, estava em
sobretudo, não cientemente concorde com um critério andamento um rápido processo de racionalização do
de explicação unitária dos fatos concernentes ao Estado. Após a luta vitoriosa do Grande Eleitor contra
Estado e à política. Segundo o rápido esquema acima as castas territoriais, e graças à criação de um exército
esboçado, eles se situam à margem do Cameralismo, estável, à gestão direta de uma parte considerável dos
porque antecedem o espaço cronológico em que este tributos, principalmente indiretos, e à incipiente
pôde subsistir, como reflexo da fase político- organização de uma burocracia profissional e
constitucional do Estado de polícia alemão. centralizada (oriunda precisamente de dois setores
Há outros autores ligados à origem do Cameralismo diretamente dependentes do príncipe, o exército e os
que, ao invés, ficaram na memória como seus impostos indiretos), o segundo grande Hohenzollem, o máximos expoentes: os grandes economistas rei Frederico Guilherme I, estava prestes a dar outro austríacos, no auge entre os séculos XVII e XVIII, passo, o da fusão das diversas atividades do Estado
Becher, Hõrnigk e Schróder. Para estes não existe o numa estrutura unitária encabeçada por um órgão
problema do espaço cronológico; nessa central (o General-Direktorium, instituído em 1723),
e, em
CAMERALISMO 139
última instância, pelo próprio príncipe que guiava e patrimonial e do período de luta do príncipe centra as
orientava externamente as decisões do Direktorium forças intermediárias e locais na fase principal do
(sistema de Governo denominado Regierung aus dem Estado de castas: a "Câmara", órgão privado do
Kabinett). A situação constitucional permitia pois que, Governo, pelo qual o príncipe, coadjuvado por homens
à volta da figura do príncipe, se fosse cristalizando experientes que lhe eram subordinados e fiéis,
uma estrutura institucional unitária e centralizada, dele administrava os próprios negócios. Mais diretamente,
dependente, mas potencialmente dotada de dinamismo porém, o Cameralismo reflete um momento e justificação próprios. Desta maneira, ao interesse subseqüente, aquele em que a expansão das atribuições
privado do príncipe (também entendido em seu e dos poderes do príncipe, pouco a pouco vencedor da
aspecto público, político-religioso, de monarca, resistência das castas, conduz à oposição, dentro da
daquele que governa) se vinha contrapondo e atividade do Estado, entre os negócios "camarários" e
substituindo um interesse mais amplo, mas também os "tributários". Estes indicavam a preeminência —
mais genérico, mais indiscriminado, mas também mormente no campo financeiro, mas também no
mais necessitado de justificação objetiva e administrativo — da posição do príncipe em ordem à sistemática: o do aparelho institucional do Estado. construção do Gesamtstaat; aqueles acentuavam a Além disso, as diversas atividades do Governo, que persistência de uma estrutura descentralizada e
apoiavam tradicionalmente sua unidade na pessoa do articulada do poder, baseada na participação das castas
príncipe autocrático, tendiam agora a uma coerência territoriais nos principais negócios do Governo, e a
mais explícita e direta, mais representativa da prevalência da antiga sociedade de castas sobre o
participação comum, mais articulada e unitária, a um Estado centralizado e institucional moderno. Em
plano sistemático e previsível da vida do Estado. realidade, estes não são senão os termos basilares do
A esta transformação da realidade política e social conflito constitucional ocorrido nos principais Estados
corresponde, a nível do pensamento, mas também, em territoriais alemães entre os séculos XVII e XVIII. O parte, da prática, a experiência came-ralista que, da fato de que na Prússia tal conflito se tenha resolvido a
própria ambigüidade das situações em que se origina, favor da solução cameralista nos moldes acima tira as inevitáveis incertezas e contradições (entre sucintamente descritos constitui a explicação mais
velho e novo) que a caracterizam. Deste modo, já não simples de que o Cameralismo tenha tido, ali, bastava o estudo setorial do problema financeiro que, propriamente sua origem, mesmo no meio da ação
ligado centralizadora e racionalizante da máquina do Estado à pessoa do príncipe, se reduzia
inevitavelmente a mero fiscalismo (da prussiano, levada a cabo por Frederico Guilherme I. juristische
Steuerliteratur Há de resto uma data que deve ser considerada e da Akzisenstreit do século XVII); já
não bastava o interesse relevante pela administração e como a data do nascimento do Cameralismo
a genérica procura de bons funcionários e de boas propriamente dito: 1727, ano em que o rei da Prússia
práticas burocráticas (como em Seckendorff); já não instituiu, nas duas universidades de Halle e Frankfurt
bastava a simples aceitação das teorias mercanti-listas, junto ao Oder, as primeiras cátedras de "ciências
desvinculadas de uma clara opção no campo político cameralísticas". (como nos mercantilistas austrc-impe-riais). Tudo isso Isto permite descobrir uma das características
continuava a ser importante, mais ainda, adquiria cada peculiares do fenômeno que estudamos, a sua
vez maior valor, mas numa visão unitária em que se oficialidade, que se revela na relação de dependência
buscava ligar entre si as diversas peças do mosaico, institucional (através do ensino universitário tornando-as reciprocamente funcionais dentro do específico), em face do Estado, de que era expressão
plano unitário da vida do Estado em que se inspirava a histórica. É assim que, após a definição exata de
prática constitucional do momento. Cameralismo e sua distinção dos movimentos que o
O Cameralismo foi a resposta: uma resposta que se precederam (preparação) ou o seguiram (dissolução),
deu dentro de certos limites cronológicos e com as ele há de ser chamado com propriedade "Cameralismo
necessárias aplicações práticas. Uma resposta decerto acadêmico". insuficiente sob muitos aspectos, contraditória, mas Os próprios motivos da iniciativa do rei da Prússia
autêntica e, sobretudo, funcional. Uma resposta que revelam mais uma vez a real importância facilitou, na Alemanha, a transição da arte de governar "institucional" do Cameralismo desde a sua origem. O
às modernas ciências do Estado. ensino específico das ciências "cameralísticas,
O termo Cameralismo está ligado evidentemente a econômicas e de polícia" era, com efeito, visto como
uma instituição característica do Estado instrumento indispensável à formação de funcionários
competentes, modernos e preparados, "echten Kameralisten", que correspondes- 14Ü CAMERALISMO
sem dignamente às exigências do novo Estado, de cameralística das universidades alemãs substituindo os já superados juristas. Como se vê, a (aumentaram até em número e perduraram até meados ligação estabelecida desde o início entre o do século XIX), mas porque esmoreceu o significado Cameralismo e a forma histórica do Estado de polícia peculiar da cameralística como ciência global do da Prússia não carece de razões, nem no plano das Estado. Ela não pôde resistir ao esforço de justificações teóricas e da história do pensamento, especialização a que foram sujeitas igualmente e em nem no das aplicações práticas e da história primeiro lugar as diversas ramificações técnicas que constitucional. abrangia em seu âmbito; cada uma delas se foi
Mas em que é que se concretizou de fato a desenvolvendo de forma autônoma até se transformar
experiência cameralista? Substancialmente na em ciência. À tentativa exaltada e ingênua de aprontar resposta teórica, de fundo político, às instâncias uma ciência unitária do Estado, capaz de abarcar e concretas que a mesma experiência havia formulado. explicar todas as suas variadíssimas atividades, Da obra dos primeiros professores de Halle e seguiu-se a proliferação de numerosas e diferentes Frankfurt, Gasser e Dithmar, à do último expoente do ciências do Estado, cada uma das quais se limitou a "Cameralismo acadêmico", Zincke, apenas trinta anos aprofundar um dos aspectos da antiga disciplina mais tarde, se assiste, de fato, a um rapidíssimo unitária. processo de sistematização e organização conceituai Por outro lado, isto corresponde, como não podia
da complexa e retalhada matéria cameralista. O deixar de ser, a uma certa mudança na ordem motivo condutor de tal processo não foi tanto a constitucional, verificada na Prússia durante a segunda introdução de novas temáticas, a proposta de soluções metade do século XVIII, com o advento de Frederico, originais, a abertura de novos campos de pesquisa, o Grande, e, na Áustria, na mesma época, após as quanto a adoção de uma perspectiva até então ainda reformas de Maria Teresa, que se aproveitaram da não explorada: a que visava à unificação das diversas experiência até então adquirida pelo Estado prussiano. ramificações "técnicas" do pensamento político Esta mudança consistiu no ulterior fortalecimento do moderno (economia, ciência da administração, ciência aparelho estatal, não no sentido de uma centralização financeira, tecnologia produtiva, etc.) num corpo das funções e atividades por via da necessidade integrado e dotado de uma significação própria. Com política de reprimir as resistências locais, mas no isso se pretendia dar uma explicação "mecânica", a sentido de uma descentralização dos órgãos, que são partir de dentro, do funcionamento da coisa pública, sempre unitários, mas diversificados, e das atividades, tomada esta na sua dimensão histórica, concreta, de sempre movidas do vértice, mas conduzidas por canais Estado de polícia, centralizado e unitário, cada vez diferentes, em virtude da necessidade de tornar cada mais institucionalizado e superior à figura do vez mais eficiente a administração de um Estado cuja soberano, tal qual se efetivou na Prússia, na primeira estrutura e dimensão unitária fundamental já não eram
metade do século XVIII. questionadas, nem precisavam por isso ser defendidas.
Não foi por acaso que, dos diversos ramos que Assim, depois de separada a justiça da administração,
constituíam as ciências cameralistas, foi o da ciência bem depressa se subdividiu o Ceneral-direktorium em de polícia (Polizeiwissenschajt) que assumiu o papel- vários departamentos, cada um deles competente num
chave como fulcro de todo o sistema, como síntese da tipo de assunto respeitante às diversas atividades do complexa transformação que o nascimento do Estado Estado. A necessidade de dar uma explicação unitária moderno havia provocado. Apoiada nesta ciência e e integrada do Estado global, baseada na atividade de mantendo um delicado equilíbrio entre a ciência das polícia, o verdadeiro suporte de toda a estrutura do finanças e a da economia (em sua dimensão tanto Estado alemão em determinada fase da sua história, privada como pública), a cameralística tornou-se, em sucede a necessidade de tornar cada vez mais conjunto, na obra de Zincke, a verdadeira, a própria exeqüíveis e funcionais as diversas atividades de um doutrina do Estado de polícia prussiano daquela Estado que encontrou agora noutro lugar a sua época. Deste Estado ele nos deixou, já não a legitimação. Ao Estado de polícia sucede o Estado de teorização abstrata e metafísica (quer esta se direito. A grande codificação "iluminada", que, após a desenvolvesse em termos teocrático-escolásticos, quer sua morte, coroará a obra de Frederico, o Grande, é nos termos mais recentes do direito natural uma confirmação disso. racionalista), mas uma explicação das forças concretas Em seus limites, a história do Cameralismo é um
empiricamente observáveis e teoricamente reflexo desta grande transformação. Adequan-do-se mensuráveis: uma explicação "científica", portanto. ao novo curso das coisas e às novas exigências, vai
A história do "Cameralismo acadêmico" é assaz decaindo, conquanto perdure sua etiqueta nos livros e
breve, não porque fossem eliminadas as cátedras nas cátedras universitárias. Justi,
CAPITALISMO 14!
considerado o mais eminente cameralista alemão, do processo histórico da industrialização e da.
Sonnenfels, e iodos aqueles que lhes sucederam, já modernização político-social. Fala-se, exatamente, de
não são cameralistas em sentido estrito: neles assumiu sociedade industrial, liberal-democrática, ou de
relevo determinante o interesse monodis-ciplinar. sociedade complexa, da qual o Capitalismo é só um
Concentram-se ainda de preferência na ciência de elemento, enquanto designa o subsistema econômico.
polícia que já não é vista, no entanto, como síntese de Uma segunda acepção de Capitalismo, ao invés,
toda a experiência cameralista (juntamente com a atinge a sociedade no seu todo como formação social,
economia e còm a ciência financeira), mas como historicamente qualificada, de forma determinante,
momento privilegiado, autônomo, da complexa vida pelo seu modo de produção. Capitalismo, nesta
do Estado, como momento digno de estudo, mesmo acepção, designa portanto, uma "relação social" geral.
prescindindo dos seus demais aspectos; quer ela seja A própria história do conceito de Capitalismo
estudada como "política econômica", quer como oscila entre estas duas acepções. Não se trata de uma
"ciência da administração", quer como verdadeiro e controvérsia nominalista, solúvel através de um
específico "direito policial" em sentido moderno, a via acordo entre os estudiosos, mas de uma questão de
onde se entrou é agora totalmente outra. O "Camera- identificação do mundo moderno e contemporâneo,
lismo acadêmico" como pretensão exaustiva de que envolveu e envolve a identidade e a ideologia de
engenharia social acabou: podia (poderia) existir vastos grupos sociais. apenas como referência a uma forma de organização A distinção entre acepção restrita e extensa de
da vida pública mecânica, integrada, compacta, como Capitalismo é aqui introduzida somente como ponto
o Estado de polícia. de partida, destinado a relativizar-se no decorrer das
argumentações, que serão guiadas por uma ótica
sociológica e politológica, embora sem perder de vista
BIBLIOGRAFIA. J. BRÜCKNER. a economia.
Staatwissenschaften. Kameralismus und Naturrecht. Para começar, precisamos determinar melhor a
Ein Beitrag zur Geschichte der politischen peculiaridade do Capitalismo como conjunto de Wissenschaft in Deutschland des späten 17. und comportamentos individuais e coletivos, atinentes à
frühen 18. Jahrhundens. Beck. München 1977; G. F. MIGLIO. Le origini della scienza dell’amministrazione. produção, distribuição e consumo dos bens. Embora
esta peculiaridade tenha sido e continue sendo cbjeto
dell’amministrazione". Giuffrè, Milano 1956; P podemos elencar algumas características que Dall’ane di governo alle scienze dello Stato. in "Alti del I Convegno di siudi di scienza de controvérsia histórica, cultural e sociológica,
SÍHIERA.
distinguem o Capitalismo dos outros modos históricos
Il eameralismo e iassolu-lismo tedeseo. ibid 1968: A.
de produção. Eles são: a) propriedade privada dos
W. SMALL, The cameralisrs The dioneers of german
meios de produção, para cuja ativação é necessária a
social poliiy. Franklin, Chicago 1909, reed. 1968; K. presença do trabalho assalariado formalmente livre; b)
ZIELENZIGER, Die alten deutschen Kameralisien. Ein sistema de mercado, baseado na iniciativa e na
Beilrag zur Geschichie der Nationalökonomie und
empresa privada, não necessariamente pessoal; c)
zum Problem des Merkantilismus, Fischer, Jena 1913.
processos de racionalização dos meios e métodos
diretos e indiretos para a valorização do capital e a
[PIERANGELO SCHIERA]
exploração das oportunidades de mercado para efeito
de lucro.
Ao lado da racionalização técnico-produtiva,
Capitalismo. administrativa e científica promovida diretamenie pelo
capital, está em ação uma racionalização na inteira
I. O PROBLEMA DA DEFINIÇÃO. — Na cultura "conduta de vida" individual e coletiva. Esta
corrente, ao termo Capitalismo se atribuem conotações racionalização ou modernização política culmina na
e conteúdos freqüentemente muito diferentes, formação do sistema político liberal, que reconduzíveis todavia a duas grandes acepções. Uma historicamente coexiste com o Capitalismo. primeira acepção restrita de Capitalismo designa uma Não é possível estabelecer uma ordem de
forma particular, historicamente específica, de agir prioridade entre estes elementos que caracterizam o
econômico, ou um modo de produção em sentido Capitalismo. Estes constituem uma constelação de
estrito, ou subsistema econômico. Esse subsistema é fatores lógica e geneticamente relacionados entre eles,
considerado uma parte de um mais amplo e complexo que podem gerar modelos interpreta-tivos divergentes,
sistema social e político, para designar o que não se de acordo com a ordem de peso e valor com que são
considera significativo ou oportuno recorrer ao termo estruturados. Um modelo Capitalismo. Prefere-se usar definições deduzidas 142 CAPITALISMO
que dá valor fundamental à relação trabalho Karl Marx não é a primeira em ordem de tempo, mas
assalariado-capital (segundo a tradição marxista) leva certamente foi, do ponto de vista histórico, a mais
a leituras e a prognoses da dinâmica capitalista muito eficaz. Ela tem um valor exemplar pela perspicácia
diferentes dos modelos construídos sobre a prioridade com que são enunciados os elementos constitutivos e,
dos processos de racionalização do agir (segundo a ao mesmo tempo, contraditórios do Capitalismo.
tradição weberiana). Todavia essa perspicácia crítica não se traduz
De qualquer forma, um ponto é certo: os elementos imediatamente em prognose da efetiva dinâmica da
acima elencados não podem ser circunscritos dentro evolução do Capitalismo. Este hiato entre força da
de um simples subsistema econômico. Nenhum deles análise crítica e incapacidade preditiva desempenhará
(nem o sistema de mercado) pode existir sem fatores um papel paralisante sobre a instância política que
contextuais extra-econô-micos, sejam estes guia os movimentos políticos inspirados no marxismo. imputáveis a puras relações de força de poder ou a A irresoluta questão da chamada "crise do
pressupostos culturais mais profundos. Capitalismo", que é parte integrante do marxismo
Isolar no processo capitalista um conjunto de fatos histórico, está a demonstrar, de um lado, a exatidão de
puramente econômicos é certamente legítimo no algumas análises marxistas, mas, do outro, o mal-
plano da abstração científica e da opera-cionalização entendido do significado e da direção das
da ação econômica. Mas é uma operação redutiva, se transformações internas ao próprio Capitalismo. se considera o Capitalismo como fenômeno social, Particularmente problemática se revelou a categoria
político e histórico. De outro lado, é insuficiente "contradição" — verdadeira pedra angular da
limitar-se a declarar o Capitalismo uma "relação construção conceituai marxista — pela qual o êxito
social", se não se determinam ulteriormente a natureza mortal do Capitalismo é logicamente antecipado como
e os termos dessa relação, mantendo a distinção uma "necessidade natural". analítica entre os vários subsistemas e a recomposição
Para Marx, o Capitalismo se baseia na relação entre
destes na unidade funcional do sistcma-sociedade.
trabalho assalariado e capital, mais exatamente na
Sem presumir compreender todos os temas do valorização do capital através da mais-valia
debate sobre o Capitalismo dos últimos cem anos (até extorquida ao trabalhador. "O trabalho é a substância e
excluindo expressamente a literatura econômica a medida imanente dos valores, mas ele mesmo não
especializada), podemos distinguir algumas grandes tem valor". Ou melhor, o trabalho perde o seu valor
fases importantes para a definição e redefinição do logo que entra no mercado das mercadorias
Capitalismo, considerado como sistema global ou capitalistas, tornando-se ele mesmo mercadoria. sociedade.
O Capitalismo consiste, portanto, num modo de
A primeira fase está idealmente compreendida produção baseado na extorsão da mais-valia através do
entre a análise crítica de Karl Marx e os trabalhos mais-trabalho do trabalhador, que é "explorado"
histórico-sociológicos da escola alemã, já considerada
porque obrigado a vender "livremente" a sua força-
clássica, de Werner Sombart, Ferdinand Tonnies, trabalho a quem possui o dinheiro e os meios de
Ernest Troeltsch e especialmente Max Weber. A produção (o proprietário). Além disso, "o processo de
segunda fase é a prossecução e a revisão quer da produção capitalista, considerado no seu nexo
análise marxista quer das doutrinas liberais clássicas, complexivo, isto é, como processo de reprodução, não
à luz das mudanças sofridas pelo Capitalismo entre o
produz somente mercadoria e mais-valia, mas produz
fim do século XIX e o primeiro vintênio do século e reproduz a própria relação capitalista: de um lado, o
XX. Lembre-se, por exemplo, Rudolf Hilferding, de capitalista e, do outro, o operário assalariado" (assim
um lado, e Joseph Schumpeter, do outro, cuja escreve Marx no primeiro livro de O capital). Nesta produção nos introduz no momento crucial de reflexão
passagem está enunciado com clareza o nexo
crítica em coincidência com a Grande Crise dos anos necessário entre as regras do mercado econômico e a
30. A atividade teórica, publicitária e política de John estrutura da sociedade capitalista. Nesta ótica deve ser
Maynard Keynes e suas conseqüências práticas entendida a primazia do agir econômico a respeito das
absorvem a atenção científica por alguns decênios formas e da institucionalização do agir social. após a Segunda Guerra Mundial. E é com a
Em particular, a dimensão política da relação
emergência das limitações do keynesianismo que se
capitalista está já compreendida na constrição
abre uma nova fase, articulada em torno da forma
"corporativista" do Capitalismo. específica e na necessidade que caracteriza a venda da
força-trabalho por parte do trabalhador. Trata-se de
II. uma pressão exercida, não sobre escravos, mas sobre O CAPITALISMO NA ANÁLISE
MARXISTA. — A análise crítica do comunismo homens juridicamente livres, sobre realizada por
CAPITALISMO 143
cidadãos. Sem as liberdades burguesas não existe racionalização de todos os setores da vida, que
Capitalismo moderno. caracteriza o Ocidente.
A força histórica do Capitalismo moderno consiste É de Sombart a feliz expressão de "espírito do
em proporcionar uma base de legitimação universal, Capitalismo", para designar a soma de atitudes
ultimamente encarnada no Estado liberal, a uma psicológicas e culturais que estão na origem do
relação de dependência econômica. O sistema Capitalismo moderno — a Gulsinnung, a orientação capitalista é legitimado em tdrmos de função, não de ético-intelectual identificada no individualismo, no
domínio direto. O domínio através da economia princípio aquisitivo e, portanto, no racio-nalismo
assume a forma de dependência funcional. Mas é aqui econômico. que se aninha — para Marx A contribuição de Max Weber para a definição de
— a contradição do Capitalismo. A relação tra Capitalismo se coloca no contexto de duas questões:
balho assalariado-capital (ou seja, a lei do valor as origens do Capitalismo moderno, ou seja, os
que está na base da valorização do capital) é o requisitos culturais que permitem o surgimento e o
princípio revolucionário do Capitalismo, mas desenvolvimento do Capitalismo e a questão da
também o seu destino mortal. especificidade do Capitalismo ocidental moderno na
A historicidade do Capitalismo é um outro sua relação com outros modos de produção históricos
componente essencial da concepção marxista. A e extra-ocidentais. natureza da mercadoria do trabalho e do Capitalismo Em A ética protestante e o espírito do capitalismo, como produção de mercadoria não é uma descoberta de Weber, a ética calvinista, graças à idéia de Beruf
de Marx. Era uma aquisição científica e crítica de seus (profissão como vocação), é vista como o fator
mestres burgueses: Smith e Ricardo. Mas estes decisivo para a difusão de uma conduta de vida
ignoraram o caráter histórico e, portanto, transitório ascético-racional, que é pressuposto para o espírito
desse sistema de produção. Marx escreve: "se Ricardo capitalista moderno. acha que a forma de mercadoria é indiferente, isto A conduta de vida e a coerência nas próprias
depende da sua hipótese segundo a qual o modo convicções e crenças são, para Weber, motivo de agir
burguês de produção é absoluto, portanto, um modo autônomo na sua relação com o simples cálculo
de produção sem determinação específica mais econômico e com a pressão do puro poder. É assim
precisa". que, a partir do século XVI, nas áreas geográficas
A intenção do materialismo histórico está na visadas pela Reforma Protestante, se. instaura um nexo
determinação do "desenvolvimento da formação preciso entre credo religioso, conduta moral de vida e
econômica da sociedade como processo de história comportamento econômico, que pode ser definido
natural". Em outras palavras, a instância científica da como "racional" em sentido capitalista. O núcleo
definição marxista de Capitalismo subsiste ou cai pela central desta união é dado pela reavaliação do trabalho
identificação de uma "lei econômica do movimento da e da profissão, que são chave de vocação e sinal da
sociedade moderna". Sem dúvida, Marx tinha eleição divina. identificado as antinomias que estão na base da A asccse intramundana atua com energia contra
dinâmica do Capitalismo; mas atribuiu à qualquer forma de prazer, luxo, esbanjamento ou conceptualização deles um estrangulamento lógico exibição de riqueza, com a conseqüente redução dos
(especialmente pela forma da contradição), que não consumos e poupança de dinheiro e de bens,
lhes permite captar o andamento efetivo e histórico do disponíveis para uma acumulação e um Capitalismo como sistema complexo e como reinvestimento de tipo capitalista. Uma riqueza "civilização". considerada como prêmio para uma prudente
administração dos bens recebidos de Deus é a
III. O CAPITALISMO NA ANÁLISE mentalidade que, a longo prazo, dinamizará os
WEBERIANA. — O estímulo para acertar o mecanismos da economia capitalista. conceito de Capitalismo, nas ciências histórico-sociais Naturalmente — observa Weber — o Capitalismo
do início do século XX, vem do desafio do marxismo, nesse tempo se esvaziou de qualquer motivação
que se tornou doutrina oficial do movimento operário religiosa: a autodisciplina ascética foi substituída pela
e da "questão social", que explode, pondo em disciplina externa do trabalho ou do escritório e a
dificuldade o mundo ideológico e político liberal. ganância dos bens materiais volta a ser o movente do
Os autores que se distinguem no estudo sistemático comportamento econômico.
do Capitalismo são Werner Sombart e Max Weber. O Capitalismo para Weber — e para a vasta
Em ambos, a centralidade marxista da relação capital- orientação científica por ele determinada — é a
trabalho é substituída pela procura de esquemas de dimensão econômica de um mais profundo e peculiar
comportamento individuais e coletivos, atribuíveis ao comportamento econômico chamado racio-nalista, de
processo histórico da que fazem parte os difundidos
144 CAPITALISMO
processos de racionalização burocrático-administra- horizontes (lembrem-se os estudos sobre Capitalismo
tiva e jurídica culminantes no Estado moderno e civilização material de F. Braudel). ocidental. O imponente debate sobre a relação histórica entre
Se o Capitalismo é o momento econômico do protestantismo e origens do Capitalismo (desde os
racionalismo, ele reproduz em si as próprias velhos estudos de R. Tawney às mais recentes
características da ratio: controle e domínio dos meios contribuições coletadas, por exemplo, por S. M.
em relação ao fim, através da calculabilidade, da Eisenstadt e P. Besnard) oferece um quadro muito
generalizabilidade e da previsibilidade. O agir diversificado que, se não falsifica as teses weberianas,
capitalista é um exercício pacífico de um poder de permite rever a problemática de tal forma que rejeita
disposição, posto em ato racionalmente para qualquer simplificação. conseguir lucro através da exploração inteligente das
O Capitalismo do século XVI é reproposto com
conjunturas de mercado. Se quisermos falar de
base na World economy (I. Wallerstein), no sentido de
"essência do Capitalismo", ela consiste nos processos
um sistema econômico que progride enquanto não
de racionalização e otimização das oportunidades do
fica preso num sistema político homogêneo a nível
mercado — inclusive o mercado do trabalho livre.
europeu e internacional (homogeneidade nacional na
A relação de trabalho assalariado e os traços heterogeneidade internacional).
coercitivos ínsitos na organização capitalista do
A organização capitalista coloca em ação seus
trabalho (disciplina de fábrica, a inderrogável
recursos econômicos num campo mais vasto do que o
necessidade de vender a força-trabalho) não
campo controlável por cada instituição política. De
constituem, como tais, a essência do Capitalismo.
fato, na Europa do século XVI, caracterizada pelos
Esta consiste mais do que tudo na exploração racional
seus limites fluidos, cria-se uma World economy, que
das regras de troca em geral — de cujas regras a troca 1
compreende no seu seio mais sistemas políticos e
de força-trabalho contra salário é só um aspecto. Para
concentra em medida crescente empresa e riqueza em
Weber, a coerção inerente à venda da força-trabalho é
mãos privadas, prescindindo das cores nacionais.
um aspecto da "vontade de trabalho", que dá lugar à
Nesta ótica, o protestantismo aparece simplesmente
lógica da troca.
como a religião das áreas impulsoras e centrais deste
O mercado é a transposição econômica da sistema, enquanto a religião católica aparece
incessante luta entre os homens. A economia racional periférica e semi-periférica. é orientada pelos preços monetários, que por sua vez
Sem subestimar a contribuição determinante dada
se formam no mercado pela luta entre os interesses.
pelo protecionismo estatal direto e indireto,
"Sem uma avaliação em preços monetários — isto é,
especialmente na época mercantilista, é certo que a
sem aquela luta —, não é possível nenhum cálculo".
decolagem definitiva do Capitalismo acontece em
A lógica do cálculo formal capitalista é, portanto,
concomitância com a chamada Revolução Industrial.
ligada — através do livre mercado — à lógica da luta
Ela inicia primeiramente na Inglaterra na segunda
entre os interesses. Onde não há livre luta, não há
metade do século XVIII, na França e nos Estados
cálculo racional.
Unidos da América a partir dos primeiros decênios do
Aquela, que para Marx era uma cadeia de século XIX, e somente na segunda metade do mesmo
elementos em contradição (trabalho — mercadoria — século na Alemanha. dinheiro), torna-se em Weber a dinâmica vital da
No seu clássico Problemas de história do
economia racional capitalista. O potencial de crise
Capitalismo (1946), Maurice Dobb assim sintetiza
interna ao Capitalismo não consiste em uma
esta fase: "A Revolução Industrial representa um
presumida contraditoriedade de seus elementos, mas
momento de transição de uma fase primitiva e ainda
na virtual extinção de sua dinâmica por obra de um
imatura do Capitalismo — na qual a pequena
poder burocrático. Weber não auspicia a abolição do
produção pré-capitalista estava permeada da
mercado, que para ele é garantia de cálculo racional e
influência do capital, subordinada a este, espoliada de
de autonomia dos sujeitos: à extinção do mercado sua independência como fenômeno econômico, mas
sucederia somente o despotismo puro e simples do
não ainda totalmente transformada — para a fase em
poder burocrático.
que o Capitalismo, com base na transformação
IV. NOÇÕES técnica, atingiu a realização de seu específico SOBRE A QUESTÃO DAS
processo produtivo, fundado na fábrica como unidade
ORIGENS DO CAPITALISMO E DO SEU DECLÍNIO. — coletiva de produção de massa; com isso se efetua a A pesquisa historiográfica
contemporânea sobre as origens do Capitalismo separação definitiva do produtor da propriedade dos progrediu muito em rela ção às indicações dos meios de produção (ou daquilo que dela tinha ficado), clássicos, com uma documentação sistemática e e se estabelece inovadora que abriu novos
CAPITALISMO 145
uma relação simples e direta entre capitalistas e conseqüências sobre o sistema das representações, em
assalariados". particular sobre a relação entre sindicatos e partidos;
A primeira industrialização se verificou em d) o Estado é co-responsabilizado de forma crescente
coincidência com uma série de fenômenos que é na gestão econômica, não tanto com a criação de
difícil subestimar: aumento da população, êxodo mais setores econômicos diretamente controlados por ele,
ou menos forçado de massas camponesas para os quanto com a expansão da despesa pública e o peso
centros urbanos, primeiros fenômenos de urbanização determinante para a inteira economia da política
com a rápida transformação da tradicional creditícia e fiscal e em geral das estratégias estratificação social, formação do proletariado conjunturais; e) o Estado assume o papel de garante
operário urbano, crescente intervenção do aparelho no processo de institucionalização dos conflitos de
estatal, quer em forma repressiva, quer protecionista e trabalho, em particular do conflito industrial entre as
garantidora. grandes organizações sindicais e patronais, chegando
Estamos a uma espécie de intervencionismo social, que faz da também no período clássico do
liberalismo, como doutrina econômica e prática função arbitrai estatal (seja qual for sua figura
política. Ela é tão forte e eficaz que faz acreditar na institucional) um dos elementos decisivos do
idéia de que o Capitalismo seja uma coisa só com a Capitalismo organizado. igualdade dos cidadãos, a liberdade e a função Estas indicações gerais são suficientes para
puramente administrativa do Estado. A ideologia delinear uma tendência que se faz evidente em todos
liberal e liberalista oculta completamente o momento os sistemas capitalistas no período entre as duas
de coerção, implícito no mercado do trabalho livre e guerras. Aqui tem pouca importância indagar por que,
na concepção individualista do Estado. De fato, em na base destes processos de auto-organi-zação
crescentes camadas da população trabalhadora urbana, capitalista, o movimento socialista (R. Hilferding)
nasce progressivamente uma sensação de tenha erroneamente deduzido uma antecipação do "estranhamento" perante um Estado cesse tipo. Desde princípio socialista de plano. o final do século XIX, surgem e se fortalecem as Tecnicamente, muitas das características acima
grandes organizações proletárias para as quais mencionadas aparecem durante o primeiro conflito
"Capitalismo" soa como sinônimo de sociedade mundial e são testadas nos anos sucessivos. Mas é
desumana e injusta. O sistema capitalista, estabilizado somente na década de 30, no contexto da Grande
em suas estruturas econômicas de fundo, vencidas Crise de 29, que elas gradualmente se configuram
suas batalhas contra os setores atrasados pré- como soma de medidas para restabelecer uma nova
capitalistas, tem que enfrentar e racionalizar sua fase capitalista. "Somente nos anos 30, sob o signo da
primeira transformação. recepção das teorias keynesianas, a política estatal
conjuntural pôde desenvolver-se de tal forma que se
V. TEMAS DO "CAPITALISMO ORGANIZADO". — Entre tornou o meio clássico para a luta econômica.
as definições elaboradas no primeiro vin-tênio do Somente após a afirmação da política conjuntural
século, e retomadas na década de setenta, para anticíclica foi possível falar de Capitalismo assinalar as mudanças de estrutura e de funcionamento organizado desenvolvido" (H. A. Winkler). do Capitalismo, temos a de "Capitalismo organizado". O processo de concentração das grandes empresas
Além dos significados atribuídos a esta definição, e a organização cada vez mais rígida dos mercados de
em diversas ocasiões, por Rudolf Hilferding e por bens, de capitais e de trabalho acompanham a
outros estudiosos, podemos encontrar sintetizados nela sistemática intervenção do Estado na economia. As
os seguintes fenômenos: a) os processos de fronteiras entre setor privado e setor público se
concentração econômica em monopólios, oligopólios, tornam cada vez mais caducas. Os sistemas
cartéis, com a virtual extinção da concorrência e do econômicos "mistos", caracterizados pela presença
mercado, entendidos no sentido liberal; b) o estatal direta (através da empresa pública) e indireta
deslocamento, conseqüência da concentração, do (através de institutos de co-parti-cipação e controle
poder real, especialmente em forma de poder de estatal), não são mais fenômenos anômalos ou típicos
influência, fora do quadro político institucional, em de economias atrasadas em relação aos modelos do
favor das forças econômicas e sociais, cuja ação de Capitalismo avançado, segundo os padrões liberais
pressão se torna eficaz nos momentos críticos de clássicos. decisão política; c) o processo de concentração Tendo presente a experiência americana, econômica é acompanhado por uma paralela convencionalmente considerada hostil a qualquer
organização de massa dos trabalhadores dependentes, estatalismo, tende-se a generalizar um esquema
com relevantes interpretativo para três setores: um privado de
146 CAPITALISMO
bens de consumo aberto à concorrência em sentido investimentos para áreas negligenciadas pelo
tradicional, mas substancialmente marginal e Capitalismo privado. Tudo isto se traduz em
dependente quanto aos recursos materiais e imperativos contrastantes, que marcam as fronteiras
energéticos primários. Estes últimos fazem parte, dentro das quais se movimenta o sistema capitalista de
juntamente com outros gêneros de mercadorias de regime democrático: necessidade de crescimento
largo consumo, de um mercado governado por econômico, estabilidade monetária, intervenção e
oligopólios, que toleram apenas ligeiros movimentos prevenção das crises conjunturais, balança de
de competição. Existe, em seguida, um setor de pagamentos, etc, mas também a necessidade de pleno-
produção de exclusivo domínio estatal e com altíssimo amprego, defesa das classes desfavorecidas,
investimento financeiro e tecnológico (setor espacial, estratégias de redução das desigualdades sociais,
dos armamentos não convencionais, etc), no qual as políticas fiscais eficazes e justas, etc. Na incapacidade
empresas — não importa se privadas ou públicas — de fazer frente, contemporaneamente, a estes
agem sem nenhuma autonomia. Neste setor imperativos, se revela a "crise" do Capitalismo
monopolístico e/ou estatizado, como no setor regulado contemporâneo.
pelos oligopólios, predominam empresas e indústrias
de alta intensidade de capital, enquanto no setor VI. TEMAS DA "CRISE DO CAPITALISMO". — Desde
concorrencial agem empresas e indústrias de alta quando o Capitalismo foi identificado como o fator
intensidade de trabalho. No primeiro setor, os que caracteriza a nossa civilização, se fala de sua crise.
progressos tecnológicos são relativamente rápidos, A doutrina marxista faz dessa crise um de seus
com imediatos reflexos produtivos, enquanto são mais fundamentos, embora o tema hoje seja desenvolvido
lentos e mediatos no setor concorrencial tradicional. em termos muito diferentes dos do marxismo
Estas observações têm aqui somente valor histórico. Toda a questão da crise do Capitalismo do
indicativo da progressiva perda da função central ponto de vista marxista aparece bastante controvertida
reguladora do mercado no Capitalismo (cf. os textos selecionados por L. Colletti e C.
contemporâneo, função integrada se não substituída Napoleoni, O futuro do capitalismo. Fracasso ou
pela ação estatal. evolução?).
Isto não significa que à reduzida função do Mas a idéia da crise do Capitalismo como crise de
mercado corresponda por parte do Estado uma ação toda a civilização burguesa não é exclusiva dos
de plano programada. O Estado contemporâneo se movimentos de oposição social e política. Torna-se
limita freqüentemente a substituir as regras um motivo autocrítico da cultura liberal-burguesa, que
tradicionais do mercado, mantendo as condições da atinge seu cume nas décadas de 20 e 30. Não se trata
sua reprodução. só de humores literários, filosóficos ou publicistas.
De resto, também na fase liberal do Capitalismo, o No Handwõrterbuch der Soziologie de 1931
Estado tinha garantido a reprodução e o (elaborada por Alfred Vierkandt, que coletou as
funcionamento do sistema econômico desempenhando contribuições dos cientistas sociais alemães mais
funções precisas: defesa dos direitos privados da eminentes da época), o "estilo de vida" capitalista é
empresa e adequação do aparelho legislativo às apresentado como um modelo negativo. Ele é
necessidades surgidas, de quando em vez, durante o sinônimo de destruição de todo valor autêntico,
desenvolvimento econômico; defesa da força-trabalho substituição da qualidade pela quantidade, ânsia de
contra a lógica da indiscriminada exploração fortes sensações epidérmicas, obsessão do sucesso,
capitalista (legislação social) e, mais em geral, criação consumismo desenfreado, culto da violência — uma
de infra-estruturas para a reprodução da força-trabalho soma de contravalores em oposição a um idealizado
(transporte, esco-larização, urbanização, etc). mundo pré-capitalista.
Estas funções se encontram enormemente Uma diagnose crítica desse tipo pode estar a serviço
ampliadas e aperfeiçoadas na ação do Estado indiferentemente quer de posições políticas
contemporâneo. Hoje, a importância das infra- pragmático-progressistas quer de posições niilistas,
estruturas materiais e imateriais (pesquisa científica) irracionais e reacionárias, também de cunho fascista.
se tornou decisiva, asim como o apoio contra a Na realidade, dentro da temática da crise do
concorrência internacional (para não falar do papel Capitalismo como crise cultural e de civilização
das despesas improdutivas, tais como os armamentos). convivem elementos disparatados, quer do ponto de
Além disso, o Estado tem a oportunidade de fazer vista analítico, quer do ponto de vista valora-tivo. À
sentir sua presença direta em segmentos econômicos parte a latente vontade de um mundo pré-capitalista,
vitais e a possibilidade de dirigir investimentos e presumidamente harmonizado num universo de
facilitações de valores divididos, existem fenômenos
CAPITALISMO 147
que são imputados distinta e separadamente ao grupos em troca da passividade nos processos de
industrialismo, à secularização, à modernização social formação da vontade política. Desfeita a identidade
e política. Embora não esteja errado chamar das classes e fragmentada sua consciência, o
sinteticamente Capitalismo a todos estes fenômenos Capitalismo avançado remove a crise do sistema, mas
(e, portanto, "crise do Capitalismo" sua patologia), é não destrói suas origens básicas. Encontra-se, assim,
necessário do ponto de vista analítico manter exposto a sempre novas formas de crise econômica
atribuições causais distintas. Fenômenos disfuncionais cíclica, de crise de racionalidade administrativa, de
ou patologias sociais ligadas ao desenvolvimento crise de motivação e de legitimação. A crise de
técnico-industrial não são deduzí-veis da estrutura legitimação, em particular, se produz "logo que as
capitalista como tal, tanto que se encontram também pretensões de ressarcimento em relação ao sistema
em sistemas declaradamente anticapitalistas. aumentam mais rapidamente do que a massa dos
Muitas análises da crise do Capitalismo valores disponíveis, ou quando surgem no seu interior
contemporâneo deslocam o eixo da estrutura expectativas impossíveis de serem satisfeitas com econômica para a sócio-cultural, centrando a atenção ressarcimentos conformes ao sistema". Esta crise, que
sobre os problemas da integração social e do é mais do que tudo carência ou déficit de legitimação,
consenso. Motivações, expectativas, frustrações dá lugar a patologias sociais cada vez mais novas e individuais e coletivas, incompatibilidade e ecletismo nunca resolvidas.
de ideologias e valores, perda do sentido, VII. TEMAS DO "CAPITALISMO CORPORATIVIS-TA". — secularização e volta ao sagrado, privatização dos
Uma outra ótica para recompor alguns indicadores
interesses contra os bens públicos: estes e outros
centrais e críticos do Capitalismo contemporâneo é
indicadores dificilmente se deixam compor (tanto
dada pelos modelos "corporativis-tas". Também estes
menos qualificar) em esquemas unívocos de
têm seu início na presença multiforme do Estado e do
comportamento. Em todo caso, tais comportamentos
setor público nos processos econômicos, que altera os
não são deduzíveis da contradição de princípio entre
tradicionais equi-líbrios entre a ação econômica e a
capital e trabalho, mas são inventariáveis somente no
ação política. Essa presença, todavia, não introduz
interior de uma profunda mudança da estratifi-cação
elementos de uma racionalidade diferente ("de
tradicional, com a conseqüente revolução das
plano"), mas simplesmente instaura uma "troca
expectativas. A mesma luta de classe é levada cada
política", entre os grandes protagonistas organizados
vez mais para a área da balança do Estado e do
do sistema. Nesse intercâmbio são tratados "bens" que
emprego de recursos públicos para fazer frente às
não eram formalmente negociáveis na lógica do
demandas sociais.
mercado capitalista tradicional — isto é, os chamados
Com linguagens e opções políticas diferentes, "bens de autoridade", que dizem respeito ao consenso
autores de inspiração liberal e de inspiração marxista com o sistema político, à autodisciplina do trabalho, abordam estes temas situados entre acumulação e etc. legitimação. A crise do Capitalismo se expressa para Os modelos do "Capitalismo corporativista"
uns em forma de "contradições culturais de identificam o ruído desta troca numa particular relação
Capitalismo" (Daniel Bell), para outros numa cadeia instituída entre os grandes protagonistas do processo
de patologias de que a "crise de legitimação" é a figura capitalista: empresários, sindicatos e Estado. Em
mais forte (Jürgen Haber-mas). Segundo este último termos maximais, estes três atores sociais se declaram
autor, o Capitalismo contemporâneo se subtrai do positivamente interessados por uma gestão quase
êxito fatal de uma verdadeira crise de sistema graças colegial do desenvolvimento, atribuindo ao Estado o
ao papel determinante do Estado, através da expressão papel de garante público. Em termos minimais, os três
do aparelho adminstrativo, da solução quase-política atores admitem a necessidade negativa de não fazer
dos conflitos salariais, dos compromissos que opções unilaterais que, ferindo uma das duas partes,
imunizam o centro contra o conflito de classe, ameaçaria a estabilidade complexiva do sistema.
descarregando seus custos sobre a periferia ou Nesta escala entre máximo e mínimo de corporação,
difundindo-os de forma anônima sobre o sistema as variantes são muitas — da "ação centralizada"
(inflação, crise permanente das finanças estatais, alemã, às tentativas de pacto social inglês, à rejeição
sistemáticos desequilíbrios salariais em prejuízo dos formal de qualquer acordo, também em situações de
grupos sociais mais fracos). corporativismo rastejante.
Enquanto isso, realiza-se programaticamente uma No Capitalismo corporativista se instaura uma
difusa despolitização sob o signo da democracia de relação especial entre política e economia, que
massa. A única base de legitimação do sistema fica reproduz uma lógica de mercado sui generis. Os sendo o ressarcimento a classes e
148 CAPITALISMO
bens que são negociados não são somente salários, IL capitale monopolistico (1966). Einaudi, Turim 1968; ocupação, produtividade, investimentos, etc, mas D. BELL e R. BOUDON, Le contraddizioni culturali del também formas de lealdade e de consenso político. capitalismo. Biblioteca della Liberta, Torino 1978; Deste modo, o corporativismo pode funcionar como Protestantisme et capitalisme. ao cuidado de P. canal de legitimação de um sistema capitalista BESNARD, Colin, Paris 1970; F. BRAUDEL, Capitalismo modificado, de fato, em alguns de seus mecanismos e cililtã maleriale (1967), Einaudi, Torino 1977; Le decisionais. Em perspectiva histórica, ele é fator origini del Capitalismo, por A. CAVALLI, Loescher, portante daquela "arquitetura de estabilidade" que está Torino 1973; Il futuro del capitalismo Crollo o
presente — não obstante todos os sintomas de crise — sviluppo?. por L. COLLETTI e C. NAPOLEONI, Laterza, nos sistemas capitalistas contemporâneos e foi Bari 1970; State and economy in contemporary antecipada na década de vinte, quando se falou até de capilalism, por C. CROUCU, Croom Helm. London "refundação da Europa burguesa" (C. S. Maier). 1979; M. DOBB, Problemi di storia del capitalismo
O corporativismo é, evidentemente, um dos (1946), Editori Riuniti, Roma 1971; The protestam
possíveis modelos de realização e, portanto, de ethic and modernizaiion. por S. N. EISENSTADT, Basic interpretação da relação entre mercado e política do Books, New York 1968; J. K. GALBRAITH, La società Capitalismo. Ele se aplica a alguns sistemas e não a opulenta (1958), Elas Kompass, Milano 1968; L. outros. De fato, Ch. Lindblom, examinando o GALLINO, "Capitalismo", in Dizionario di Sociologia, Capitalismo americano, constata especialmente a UTET, Torino 1978; J. HABERMAS, La crisi della posição privilegiada do "sistema das empresas" na sua razionalità nel capitalismo maturo (1973), Laterza, relação com o sistema democrático de controle, por Bari 1975; F. A. V. HAYEK, Il capitalismo e gli storici ele chamado de "poliárquico". Os mesmos (1954), Einaudi, Torino 1967; R. HILFERDING, IL empresários se tornam, de fato, uma espécie de capitale fmanziario (1910), Feltrinelli, Milano 1961: funcionários M. KALECKI, Sulla dinâmica deli economia públicos, subtraindo importantes
decisões ao controle democrático. Neste caso, as capitalistica (1971), Einaudi, Torino 1975; C.
regras de troca política são claramente a favor das LINDBLOM, Política e mercato (1977), Etas Libri, empresas capitalistas, contra os demais grupos sociais. Milano 1979; C. S. MAIER, La rifondazione deli
Europa borghese (1975), De Donato, Bari 1979; K.
Para definir corretamente a relação entre mercado
capitalista e política democrática, é necessário, então, Marx. Il capitale (1867, 1885, 1894). Editai Riuniti. manter abertas várias estratégias conceituais. Muitas Roma 1964, 1965, 1970; C. OFFE, LO Stato nel análises tradicionais, no cam-do marxista e no campo capitalismo maturo (1972), Etas Libri, Milano 1977:
K. POLANYL, La grande transformazione (1944),
liberal burguês, têm cultivado a pretensão ou a ilusão
Einaudi, Torino 1974; N. POULANTZAS, Classi sociali e
de identificar "a essência" (das Wesen) do Capitalismo — quase um ponto de Arquimedes, entendido ou capitalismo oggi (1974), Etas Libri. Milano 1975; J. removido, o qual seria entendida ou mudada SCHUMPETER, Capitalismo, Socialismo e democrazia radicalmente a estrutura do sistema. Certamente, o (1942), Comunità. Milano 1954; A. SHONFIELD, Il
capitalismo moderno (1965), Etas Kompass, Milano
Capitalismo é caracterizado por constantes
1967; W. SOMBART, Kapitalismus, A. VIERKANDT e G.
identificáveis. Mas no seu concreto funcionamento,
essas constantes dão origem a um conjunto complexo BRIEFS. Gegenwart, I e II, in Handwõrterbuch der e mutável de combinações, que engloba também Soziologie, por A. VIERKANDT. ENKE STUTTGART fatores "não-capitalistas" (especialmente de natureza 1931;. W. SOMBART. Il capitalismo moderno (1902),
UTET. Torino 1967; J. STRACHEY, Il capitalismo
cultural), insubstituíveis para a estabilidade do próprio
sistema. contemporâneo (1956). Feltrinelli, Milano 1957; R. H.
Esta constatação não traz nada contra o fato de que OPOLSKI TAWNEY, La religione e la genesi del capitalismo
(1926), Feltrinelli, Milano 1967; J. T , La
a relação trabalho-capital permaneça a relação central
nascita del capitalismo in Europa (1965). Einaudi.
do Capitalismo. Esta centralidade em si, todavia, não
Torino 1979; Dove va il capitalismo?, editado por S.
parece ser decisiva, nem para produzir no plano
analítico uma definição inequívoca, exaustiva e ALLERSTEIN TSURU (1961). Etas Kompass. Milano 1967; 1.
W , Il sistema mondiale delieconomia
conclusiva do Capitalismo, nem para propor no plano
moderna (1974), Il Mulino, Bologna 1978; M. WEBER,
prático-político soluções seguras para a otimização
L ética protestante e lo spirito del capitalismo (1904-
das virtudes do Capitalismo, ou para a correção de
1905), Sansom, Firenze 1969; Id.. Economia e società
suas distorções — sem falar das perspectivas de seu
supera-mento. O Capitalismo, exatamente porque é INKLER (1922), Comunità, Milano, 1961; Organisierter
Kapitalismus, por H. A. W , Vandenhoeck u.
"relação social" em contínuo dinamismo, solicita uma
Ruprecht, Gòttingen 1974.
constante redefinição de seus elementos, ou, pelo
menos, de sua concreta articulação, que é uma coisa
[GIAN ENRICO RUSCONI]
só com o modo de funcionar das sociedades
contemporâneas.
BIBLIOGRAFIA . - P. H. BARAN e P. M. SWEEZY.
CARISMA 149
Carisma. Nas sociedades modernizadas, bem articuladas e
complexas, se verificou, porém, que os fenômenos
I. CONCEITO CLÁSSICO DE CARISMA. — O conceito carismáticos se manifestam mais freqüentemente
através de grupos e movimentos, surgindo de âmbitos
sociológico clássico de Carisma foi apresentado por
produtivos e reprodutivos delimitados, subculturas,
M. Weber para caracterizar uma forma peculiar de
instituições reguladoras de determinados setores da
poder.
sociedade. É daí que eles emergem para indicar
Este primeiro conceito analisa a existência dos carismaticamente alternativas radicais, não
líderes, cuja autoridade se baseia, não no caráter, circunscritas ao próprio âmbito ou instituição, sagrado de uma tradição nem da legalidade ou partindo da existência de particulares condições de racionalidade de uma função, mas num dom, isto é, na desigualdade, de sofrimento, de insatisfação, capacidade extraordinária que eles possuem. Estes condições em si recorrentes nas sociedades, podendo dons excepcionais se impõem como tais no anúncio e
ser consideradas como próprias das fases normais de
realização de uma missão de caráter religioso, político, desenvolvimento das contradições sociais. Embora o bélico, filantrópico, etc. Aqueles que reconhecem este fato carismático seja em si imprevisível, as sobreditas dom, reconhecem igualmente o dever de seguir o chefe precondições, menos gritantes, estão, sob esta carismático, a quem obedecem segundo as regras que perspectiva, presentes, com maior ou menor ele dita, em virtude da própria credibilidade do amplitude, em numerosos e diversos pontos das Carisma e não em virtude de pressões ou de cálculo. estrutras, muito mais do que se supôs nas primeiras Mais, a influência do Carisma nasce e perdura, se a teorizações. missão é deveras cumprida, isto é, se oferece provas
eficazes e úteis, capazes de robustecer a fé dos Para delimitar esta tese, convirá, todavia, observar
que, na ética prática do bem-estar das sociedades
sequazes. Toda a expressão do processo carismático, as
neocapitalistas, existem tendências sistemáticas à
novas regras, a força, as provas que demonstram a
legitimidade do Carisma e da missão se colocam, de dessagração e ao "consumo", que opõem resistência à
modo difusão e duração dos estímulos carismáticos. revolucionário em relação à situação institucionalizada, mediante uma experiência social
que exige III. A, MUDANÇA SOCIAL: conversão (me-tanóia) nas atitudes e
comportamento dos sequazes, como do próprio chefe. RACIONALIZAÇÃO E CONVERSÃO. — Pondo
como centro dos fenômenos carismáticos um certo
Assim esboçada, a situação carismática é, ao
tipo de relação de autoridade baseada
mesmo tempo, forte e lábil. Seus limites se vão
fundamentalmente no líder, a análise histórica usou
configurando à medida que surge a conveniência de
seus conceitos principalmente no estudo de homens de
dar uma estrutura permanente, formalmente
Estado, líderes religiosos, nacionalistas, militares, e
organizada, ao papel do chefe, dos sequazes e
nas suas qualidades e realizações (Jesus Cristo,
sucessores.
Gandhi, Lenin, Atatürk, Churchill, de Gaulle,
II. C
ONDIÇÕES DO APARECIMENTO DOS FENÔMENOS Nkrumah, Nasser). Esta perspectiva foi notavelmente
CARISMÁTICOS ampliada por estudos recentes sobre os processos de . — Na tentativa de distinguir as
mudança social e sobre a importância dos movimentos
condições típicas do aparecimento dos fenômenos
sociais, dos fenômenos de comportamento coletivo,
carismáticos, os estudos têm-se concentrado na análise
observáveis no âmago e origem das próprias
de vários tipos desse processo.
mutações.
Nos casos em que aparece em evidência o líder e o
As transformações são tanto mais radicais, quanto
plano de salvação por ele proposto, a gênese do
mais questionados forem o tipo de legitimação, o
fenômeno tem sido vinculada ao pavor coletivo de um
povo, de uma minoria religiosa ou étnica a estados de modo de distribuição do poder, o sistema de valores-
total insegurança e de angústia generalizada, diante norma básicos que inspiram e regulam os
comportamentos da coletividade. Baseíuido-nos na
dos quais o carismático é visto como um salvador. Ele
conceituação weberiana, podemos distinguir dois tipos
é acolhido como portador da segurança fundamental,
da esperança, do fim do sofrimento, embora este, ao fundamentais de desenvolvimento: a racionalização e
cabo, possa ter uma expressão de dimensões a conversão. A primeira se realiza através de
apocalípticas, de destruição em termos sociais, de progressiva diferenciação das funções, na qual os
modelos essenciais do sistema se desenvolvem por
morte física.
meio de regras e técnicas mais especializadas,
Estes fenômenos estão associados a condições de
aplicadas a setores sociais mais limitados, com
falta de modernização política e econômica e a êxitos
inovações formais e instrumentais.
de caráter totalitário, ditatorial.
150 CARISMA
A conversão, ao contrarie, se baseia na mudança V. O LÍDER CARISMÁTICO DENTRO DO GRUPO. —
interior, na reestruturação dos valores fundamentais e, Tornamos a encontrar nesta perspectiva a figura do
conseqüentemente, de todos os comportamentos chefe carismático. Este muitas vezes não se acha de
derivados, por uma fé vivida como dom e como dever, fato na origem do movimento; em primeiro lugar, é
vocação essencialmente diversa do comportamento um membro entre outros e só gradualmente
conformista. Tende por si a difundir uma consciência desenvolve aquela capacidade, aquela força de valores e uma prática alternativa em relação aos persuasiva, aqueles resultados capazes de o impor
fins, às normas, às recompensas, às oportunidades como líder, dotado de dons extraordinários na oferecidas pelas crenças dominantes. encarnação da missão própria do movimento. Lá
dentro pode fazer crescer as contradições até o ponto
IV. IMPORTÂNCIA PRÁTICA E TEÓRICA DOS de provocar fendas no movimento originário,
FENÔMENOS CARISMÁTICOS DE GRUPO. — Atendendo à resultando daí um novo grupo formado por aqueles lógica da conversão, é possível considerar ainda os que reconhecem seu Carisma, vendo nele a garantia de fenômenos carismáticos, partindo antes do grupo que uma verdade e eficácia superiores. Se o movimento se vive a experiência coletiva de uma fé e de uma difunde e consegue alcançar o poder legítimo, mesmo conversão tipicamente carismáticas, do que dos líderes fora do grupo dos sequazes, originando um novo reconhecidamente dotados de Carisma. É a fisionomia sistema social, o Carisma se consolida com novos deste tipo particular de comportamento coletivo que apoios, baseados no poder direto e condicionante, caracteriza movimentos sociais e até experiências de exercido até sobre aqueles que, interiormente, não o grupo mais limitadas, que se apresentam como formas reconhecem de nenhum modo. Por isso, na análise de uma nova sociedade em estado nascente. Os destes fenômenos, convém distinguir normalmente as processos coletivos de origem política, religiosa, situações em que o Carisma coincide já com o poder artística, de oposição cultural, etc, que na última formal, numa nação ou numa vasta coletividade, das década se multiplicaram e difundiram, particularmente fases em que nasceu e se foi afirmando. nas sociedades neocapitalistas ocidentais, se oferecem, Estas afirmações são metodologicamente válidas,
na condição de grupo, como alternativa institucional, mormente no confronto das imagens clássicas,
ética e instrumental, o que pode ocorrer a partir de uma fundamentalmente estereotípicas, de famosos chefes
experiência das contradições particulares do sistema de carismáticos, que são corretamente demi-tizados para
produção e de poder, da qual se passa à contestação análise dos seus ligames concriativos com o grupo que
radical dos valores e contradições fundamentais. O reconheceu sua autoridade. poder que o grupo reivindica se baseia em valores que
ele próprio cria e propõe, numa fé e atividade prática VI. RELAÇÃO CARISMA-INSTITUIÇÃO. — Para novas, vividas como algo radicalmente diverso em garantir a continuidade da experiência carismática, é
relação aos "demais", e cuja eficácia se quer indispensável legitimar alguns mecanismos de
demonstrar ativamente, quando menos num sentido transmissão do Carisma e a organização da autoridade
simbólico de ruptura e de reconstrução básica. O grupo e das atribuições da nova instituição que se pretende
carismático apresenta-se a si mesmo, e não tanto a sua consolidar. Têm sido especificados, sobretudo no
teadership interna (que também pode ser carismática estudo de movimentos ligados a um líder carismático, no sentido pessoal do termo), como quadro de alguns dos modos pelos quais o Carisma é transmitido
referência e coletividade de agremiação inteiramente a outros para sobreviver. O ligame do parentesco, novos. Neste sentido, ele oferecerá, no plano particularmente o da descendência com direito à
psicológico, a cada um dos membros, a defesa social e aquisição hereditária, tem sido uma forma bastante uma segurança psíquica profunda, necessárias para a comum de perpetuação do Carisma. O contato com o reconstrução e desenvolvimento da identidade dos carismático é outra modalidade típica da transmissão.
indivíduos, negada na sua condição preexistente e A forma mais importante e passível de ser formalizada
substituída na conversão. Por isso, aqui não se é, contudo, a da outorga do Carisma por ofício. O sublinha tanto a relação de autoridade entre os exemplo histórico da Igreja católica é apresentado
sequazes-fiéis e o chefe-profeta, passividade em face como um caso clássico deste tipo de do dever, quanto o papel ativo de todos os membros do institucionalização. Não obstante a oposição teórica
grupo no processo de criação coletiva de valores, entre o caráter pessoal do Carisma e o caráter formal
verificados na prática comum. da instituição, esta forma de transmissão faz coincidir
os dois termos, somando a força dos dois diversos
tipos de autoridade que aí se reúnem: a autoridade
legal.
CASTA 151
burocrática, e a autoridade por dádiva excepcional. A Grécia, os asclepíadas, que ligavam sua origem ao
instituição assim legitimada possuirá um poder deus Esculápio, constituíam uma Casta sacerdotal que
interno de controle social e um poder de continuidade ia transmitindo, de geração em geração, os segredos
elevadíssimos. da arte médica.
A distinção destas formas é útil para se poder O país onde o sistema social de Castas teve maior
decompor corretamente o processo de legitimação e desenvolvimento foi certamente a Índia. Aqui parece
de organização do fato carismático concreto que, no indubitável, a julgar até pelo próprio nome dado às
entanto, se fundamenta sempre na constância da fé e Castas (varna, cor), que elas tiveram uma origem da experiência habitual do grupo. Na análise da sua racial. A divisão em Castas teria sido imposta pelos
estruturação funcional em ordem a um fim, dentro dos povos árias, conquistadores da índia; assim eles se
termos habituais da psicossociologia da organização, manteriam distantes das populações preexistentes
se observa que esta adota uma rigidez diversa nas subjugadas (dravídicas e pré-dravídicas). Ignoradas
regras relativas aos tipos de conflito externos e nos antigos hinos védicos, aparecem quatro Castas
internos que o grupo tem de enfrentar. num tardio hino do Rigveda: brahmana, os sacerdotes;
ksatria, os guerreiros; vaisia, os agricultores e comerciantes; sudra, os lavradores mais humildes e os
BIBLIOGRAFIA.- F. ALBERONI. Movimento e servos. O número de Castas se multiplicou
istituziont, Il Mulino, Bologna 1981; E. SHILS desmedidamente com o decorrer dos séculos, havendo ,
Charisma. constituído a estrutura de toda a sociedade indiana. order and slatus, in "American
Sociological Review". XXX, 1965; R. C. TuCKER, Religiões universalistas, como o budismo e o
The theory of charismatic leadership. islamismo, não as puderam erradicar. Só o processo de in "Daedalus",
verão de 1968; M. WEBER modernização, agora em marcha, veio abalar sua , Economia e socieià (1922),
Comunità, Milano 1968. solidez.
Sistemas de Castas, embora menos complexos,
[ÍTALO DE SANDRE] encontraram-se noutras partes do globo: na África
oriental (Somália, Galla, Massai), em Ruanda,
Madagascar, Senegâmbia, Polinésia e na América pré-
Casta. colombiana. Nestes últimos casos, existe uma divisão
dicotômica e conflitante da sociedade entre a Casta
nobre (sacerdotes, guerreiros, pastores), racialmente
caracterizada, e o vulgo, geralmente entregue a
(Originária do espanhol e do português, Casta, trabalhos artesanais, tradicionalmente tidos como
"linhagem", deriva do adjetivo latino castus, "puro".) impuros (ferreiros, tecelões, oleiros, carpinteiros).
Grupo social fechado que se reproduz de forma Na história da Europa medieval e moderna, esse
endógama e cujos membros levam vida social diversa caráter de Casta, isto é, de um grupo tenden-cialmente
e, enquanto possível, separada do resto da sociedade. fechado, endógamo, com funções específicas O fenômeno das Castas existiu e subsiste ainda em hereditárias (a atividade militar ou a função pública),
numerosas sociedades pré-mo-dernas. Tem foi mantido pela nobreza, também chamada por vezes importância, política porque, normalmente, numa de Casta aristocrática ou no-biliárquica (v. NOBREZA). sociedade onde existe uma ou mais Castas, o poder
político e os privilégios sociais são distribuídos
levando-se em conta se os indivíduos pertencem ou [GIORGIO BIANCHI]
não a uma Casta. Na origem das Castas o que vale
muitas vezes são as diferenças raciais; outras vezes, é
o crescimento de acentuadas diferenças sociais no seio Castrismo. de comunidades etnicamente homogêneas. É assaz
freqüente as Castas se caracterizarem pela função ASTRISMO E MARXISMO I. C-LENINISMO. — Com o social que os seus membros exercem de forma termo Castrismo, não é possível especificar um hereditária ou exclusiva. No antigo Egito, por conjunto de proposições ideológicas e teóricas que exemplo, havia grupos sociais, identificáveis como constituam um corpo orgânico e que se possam Castas, que se distinguiam por sua específica função
atribuir especificamente a Fidel Castro; os aspectos
social: os sacerdotes, os guerreiros, os comerciantes e
mais relevantes da personalidade e obra do líder
os artesãos; entre os hebreus, a função sacerdotal
cubano não há que buscá-los, como é sabido, na sua
estava reservada exclusivamente aos membros da tribo
"doutrina" ou produção teórica,
de Levi; na antiga
152 CASTRISMO
mas na sua capacidade política. Sob o ponto de vista revolucionária; b) como modelo de construção do
da teoria marxista-leninista e revolucionária, o que socialismo; c) como regime político.
caracteriza o pensamento de Castro é a sua
progressiva e constante evolução das posições II. O CASTRISMO COMO FORMA DE LUTA
iniciais, dernocrático-radicais, para um marxismo- REVOLUCIONÁRIA. — Graças justamente à
leninismo declarado, cujas peculiaridades são, experiência cubana, quando se fala em guerra de
fundamentalmente: o pragmatismo, o empirismo e o guerrilha, ninguém se refere mais a uma simples
ecletismo (tanto que, de vez em quando, tem sido técnica militar, mas a uma forma de luta (armada)
possívíl distinguir nele claros elementos de revolucionária, cujo objetivo é a conquista do poder
populismo, caudilhismo, jacobinismo, etc). político. Na realidade, historicamente, a guerra de
Em suma. como diz R. Debray, "historicamente, o guerrilha foi sempre adotada como tática defensiva,
que se chama Castrismo é uma ação revolucionária particularmente eficaz contra um adversário munido
empírica e conseqüente que, em sua marcha, se de meios e forças mais poderosas, fosse ele um
encontrou com o marxismo". Portanto, com o termo invasor estrangeiro, fosse o próprio poder central
Castrismo se sintetizam determinados aspectos (revoltas endêmicas de camponeses, fenômenos de
peculiares do processo revolucionário cubano, banditismo, guerras de libertação, guerras
mediante um trabalho de análise e abstração a anticoloniais, etc). Mas, nesta primeira acepção, o
posteriori que, às vezes, excedeu não só os reais Castrismo é, ao invés, sinônimo de guerra
acontecimentos de Cuba, como também as próprias revolucionária pelo poder, conduzida de acordo com
intenções e interpretações dos seus protagonistas. uma tática guerrilheira.
Quis-se às vezes fazer de Cuba um modelo capaz de Porém, a novidade do Castrismo é outra. Se ele se
servir de apoio a teses polêmicas nos confrontos da apresenta historicamente como tipo intermédio em
"ortodoxia" revolucionária dos partidos comunistas relação aos outros dois modelos revolucionários
oficiais. É bom realmente salientar que as opções vencedores (o bolchevique da insurreição, e o chinês
socialistas de Cuba se aprofundam e consolidam da guerra do povo), também se situa objetivamente
precisamente nos anos em que entram em profunda dentro das concepções revolucionárias clássicas, para
crise o conceito do Estado-guia e as relações as quais a luta não pode ser senão armada. Mais, na
tradicionais entre os partidos comunistas (a ruptura intenção dos chefes cubanos, a estratégia escolhida
definitiva entre a China e a Rússia, por exemplo, deu- levava em conta ambos os modelos, no sentido de que
se em 1963); num contexto mais geral, é então que à ação militar devia constantemente seguir-se o
ocorre o alinhamento da esquerda em geral. incitamento insurrecional nas cidades, enquanto a
Ao mesmo tempo, se verifica no Ocidente, guerra de guerrilha, reforçada, evoluía
geralmente em polêmica com os partidos comunistas, progressivamente para a guerra do povo. São
um retorno às temáticas revolucionárias e "terceiro- fundamentalmente as circunstâncias reais (mormente a
mundistas", para as quais o sucesso da revolução rapidez dos acontecimentos) que explicam por que é
cubana constituiu claro ponto de referência, que isso não se realizou cabalmente.
especialmente (mas não só) como modelo aplicável A verdadeira novidade do modelo cubano deve,
aos países subdesenvolvidos e coloniais. portanto, buscar-se noutros aspectos. O que autorizou
Não é, pois, de admirar que os modelos em que se Régis Debray a falar de revolução na revolução, foi,
inspirava a evolução da situação cubana parecessem a na realidade, o fato de que, nas experiências históricas
alguns, não só "alheios" à ortodoxia, como também precedentes, o processo revolucionário teve sempre
"contrários", o que fazia com que pudessem ser uma direção política, a do partido (marxista-leninista),
usados, talvez até com violência polêmica, no debate guia e vanguarda do movimento total. De acordo com
mais geral a que nos referimos. essa experiência, era ponto basilar da teoria
Após estas premissas, é mister precisar que o revolucionária moderna (a marxista-leninista ou a ela
Castrismo, como sinônimo de via cubana para o assimilada) que, sem a direção política do partido, à
socialismo, qual se hão de subordinar as próprias exigências assume significados particulares,
conforme for a fase do processo revolucionário a que militares, não é possível a revolução: "Para fazer a
se refere: conquista do poder, transformação das revolução, é necessário um partido revolucionário"
estruturas, construção de um novo sistema político. É (Mao Tsé-tung).
por isso que trataremos separadamente do Castrismo: O caráter de profunda ruptura que diferencia o
a) como forma de luta Castrismo residiria então no fato de que, contrariando
toda a tradição revolucionária, a guerra de guerrilha,
ao privilegiar resolutamente o fator militar, parece
não exigir (rejeitando-a até,
CASTRISMO 153
em certa maneira) uma organização política à parte, condições de miséria e opressão das massas populares
destinada a dirigir os quadros militares. Em outras (em última análise, camponesas) sejam idênticas às
palavras, a vanguarda do processo revolucionário não dos cubanos nas vésperas da revolução, ou seja,
é mais o partido, mas a própria guerrilha, pelo mero praticamente a boa parte dos países subdesenvolvidos
fato de haver empunhado as armas. Tornou-se famosa e certamente a quase todos os países latino-
esta frase de Castro que bem sintetiza tal concepção: americanos. Se a mecânica "exportabi-lidade" do
"Quem fará a revolução na América Latina? Quem? O Castrismo foi, na realidade, desmentida pelos fatos
povo, os revolucionários, com ou sem partido" (o grifo (por exemplo, após o malogro da aventura boliviana
é nosso). A revolução não é, portanto, um longo de Guevara), é fácil, contudo, entender sua
processo em que o trabalho paciente e a organização e repercussão e efeito político entre os revolucionários
educação política a longo prazo desembocam na daquele continente e do Terceiro Mundo. sublevação armada; suas condições, pelo contrário, "... O sucesso do Castrismo no Ocidente, onde uma
são ditadas pela fome do povo, pela reação provocada revolução guerrilheira é naturalmente impensável,
pelo confronto dessa mesma fome, pelo terror tem, como é óbvio, um fundamento diferente,
desencadeado para conter as reações populares e pelas assentando precisamente mais em seu valor de ruptura
ondas de ódio criadas pela repressão" (Che Guevara). dos esquemas consolidados que em sua aplicabilidade.
As massas estão, pois, devido às suas condições de A revolução cubana coincide com a volta, no
miséria e opressão, objetivamente prontas para a Ocidente, a temáticas revolucionárias fortemente
revolução. Será indispensável a condição subjetiva do ligadas, por um lado, a uma visão internacionalista e
partido revolucionário? Não: "Não é sempre antiimperialista, e, por outro, ao crescimento de necessário esperar que se dêem todas as condições movimentos que se colocam "à esquerda" dos partidos
para a revolução; o foco insurrecional poderá criá-las" comunistas, até em situações nacionais. Neste
(Che Guevara). O que é necessário não é, portanto, a contexto, a influência do Castrismo foi muito mais
organização e a direção política, mas um exemplo profunda do que habitualmente se pensa: as teorias da
concreto, ou seja, a criação de um foco guerrilheiro ação exemplar e do detonador social, sustentadas por por um pequeno grupo armado, sua manutenção, e grande parte dos movimentos juvenis criação de outros focos em outras partes do país. É extraparlamentares, foram, bem vistas as coisas, o
quanto basta para que o incêndio se ateie como correlativo bem claro da teoria dos focos. E, mancha de óleo. No curso do processo militar, a conquanto as matrizes culturais sejam diversas, são
vanguarda se consolidará politicamente, aumentará muito semelhantes as posições sustentadas pelos
suas possibilidades políticas, se converterá em atuais grupos terroristas, tanto quando se referem às
verdadeiro guia do movimento total. Paralelamente, se exigências do Partido comunista combatente, como elevará a consciência das massas, seja por meio da quando invocam a prática da violência difusa. propaganda armada, obra das formações guerrilheiras, seja devido às reformas econômicas e III. O CASTRISMO COMO MODELO DE
sociais realizadas nas zonas libertadas. CONSTRUÇÃO DO SOCIALISMO. — O socialismo
Trata-se, em boa medida, de teorizações a pos- cubano, pelo menos em sua primeira fase, que é
teriori, de racionalizações da experiência concreta, propriamente castrista, foi orientado para o que se ressentem tanto do esforço voluntarista desenvolvimento da agricultura e não para a indústria,
realizado pelos castristas ao iniciar a guerrilha, como como aconteceu na Rússia, na China e nos outros
da- polêmica contra as agremiações políticas países socialistas industrialmente atrasados. É de
tradicionais, especialmente o Partido Comunista. De acentuar também que essa opção parece tanto mais
resto, a discordância que marcou toda a fase insólita em relação aos modelos passados, quanto
guerrilheira da revolução cubana, entre sierra mais se pensa que a dominação colonial e impe-
(guerrilheiros da montanha) e llano (organizações rialista havia forçado rigidamente a ilha a uma
políticas da cidade), não versava sobre aspectos economia agrícola de monocultura (cana-de-açúcar).
táticos ou militares, mas antes sobre a própria Justamente por isso, o primeiro objetivo deveria ter
hegemonia da revolução. Uma discrepância que se sido, com muita razão, o da auto-suficiência
prolongou até bem depois da conquista do poder. econômicas cujo pressuposto é exatamente a
A conseqüência mais imediata de uma estratégia industrialização.
deste gênero é que, teoricamente, ela parece aplicável Não podendo acompanhar as diversas implicações
a todas as situações nacionais em que, afora as de um debate que, pela sua complexidade, transcende,
particularidades contingentes, as sem dúvida, o caso isolado de Cuba (atinge, na
realidade, o problema mais geral de
154 CASTRISMO
todos os países "subdesenvolvidos" que se dispõem, As conseqüências destas opções econômicas são,
ou disporão, a percorrer os caminhos da conforme acentuou a crítica, essencialmente duas. Em
independência nacional), será todavia oportuno primeiro lugar, no que toca às relações de classe, o
esclarecer alguns aspectos do problema, nunca apoio ao regime socialista continua confiado às
suficientemente sublinhados, sem os quais passam massas camponesas que, por definição, se supõem
despercebidos, certamente, os termos reais da menos modernizadas que a classe operária e as
discussão, particularmente para o observador camadas urbanas.
ocidental. Em segundo lugar, no que respeita às relações
Em primeiro lugar, Cuba é um pequeno país que, internacionais, a renúncia à auto-suficiência
além do mais, não dispõe de recursos naturais que econômica tem como conseqüência lançar Cuba numa
possam justificar uma industrialização forçada esfera de influência, tornando-a tributária do campo
segundo os modelos do passado, que acima socialista, quer quanto aos produtos industriais, quer
recordamos. Em segundo lugar, embora ela tenha quanto à venda do açúcar. O embargo sobre o açúcar
estado isolada por longo tempo na América Latina, o cubano criou, de fato, uma situação de monopólio da
campo dos Estados socialistas (e o seu potencial demanda por parte dos países do Leste.
industrial) já está em condições de transferir, dentro Quanto ao primeiro ponto, já mostramos como a
do plano da cooperação internacio-nalista, a solução estratificação de classe se caracterizava em Cuba pelo
de muitos problemas que a URSS e a China tiveram predomínio dos operários agrícolas e como o
de resolver por si sós. Castrismo contou com eles, obstinando-se em fazê-los
Além destas circunstâncias reais, que levam, não entrar plenamente no processo revolucionário e no da
obstante, a acolher com reserva todo o esquema gestão socialista das estruturas econômicas (a zafra,
interpretativo excessivamente rígido (de resto, os neste sentido, teve sempre mais um caráter de
próprios modelos soviético e chinês apresentam mobilização social de massa que de atividade
peculiaridades bem marcantes), é preciso acentuar que econômica sazonal).
as condições da ilha antes da revolução não eram as Quanto ao segundo ponto, é indubitável que cada
condições do subdesenvolvimento agrícola, no sentido vez se foi delineando mais uma situação de clara
tradicional do termo: latifúndio de um lado e, do dependência da URSS. No plano econômico, isto é
outro, massas camponesas em condições feudais. A assaz manifesto a partir do malogro do projeto que
plantação de açúcar, estrutura basilar da economia visava a garantir a auto-suficiência financeira com o
cubana, é, na realidade, uma grande empresa agrícola progressivo aumento das exportações de açúcar. O
e, ao mesmo tempo, indústria média de transformação, perdurar das dificuldades econômicas e a
porquanto, normalmente, anexo à plantação, se impossibilidade de dar uma satisfação às demandas
encontra o ingenio ou refinaria; por outro lado, a zafra sociais, traduzida na acentuação dos incentivos morais
não é o simples corte da cana, mas toda a série de sobre os materiais e na perpetuação artificiosa de um
atividades que culminam no refino. O problema real clima de permanente mobilização revolucionária,
da economia cubana não era, portanto, o da terra para acabaram por incidir irremediavelmente sobre a
os camponeses, aliados assim à classe operária e autonomia política do regime. O próprio fracasso das
inseridos nó processo de mobilização revolucionária, guerrilhas e de experiências democráticas como a
para extrair depois do campo os excedentes chilena ajudaram também a perpetuar o férreo
necessários à industrialização. isolamento a que a ilha tinha sido constrangida. Desta
maneira, o papel autônomo reivindicado pelo grupo
O problema de Cuba era o da gestão socialista da
dirigente durante os primeiros dez anos e a aspiração
rede de grandes empresas agrícolas e da criação
paralela de uma estrutura industrial de apoio à de vir a ser Estado-guia dos países não alinhados
atividade econômica de maior relevância, bem como foram sendo pouco a pouco redimensionados. Então, a
de zonas agrícolas de culturas diversificadas e história de Cuba já não é mais a história do Castrismo,
mas de um regime comunista, para todos os efeitos.
intensivas destinadas aos produtos de primeira
necessidade (hortaliças, frutas, leite, etc), tudo, é
óbvio, dentro de um quadro geral de esforço maciço IV. O CASTRISMO COMO REGIME POLÍTICO.
visando ao estabelecimento da necessária infra- — O fascínio pessoal de Fidel Castro e o proeminente
estrutura social (escolas, hospitais, etc). Se estas são papel por ele exercido no primeiro decênio da
as opções estruturalmente determinantes, uma revolução cubana (o decênio propriamente dito do
indústria autônoma de base é um objetivo que, Castrismo), juntamente com a precariedade das
necessariamente, só se pode pôr a longo prazo. estruturas políticas e de Governo do pais, fez pensar
que nos achávamos diante de um
CATOLICISMO LIBERAL 155
regime político típico de poder (legítimo) carismático. BIBLIOGRAFIA- AUT. VÁR., Le radiei storiche
Pelo que concerne diretamente à pessoa de Fidel della rivoluzione cubana, in "Ideologie", n." 5-6,1968;
Castro, posto de parte seu hábito de percorrer a ilha de F. CASTRO, La rivoluzione cubana. Editori Riuniti,
cabo a cabo, misturando-se com o povo e mantendo Roma 1961; R. DEBRAY, Rivoluzione nella rivoluzione
? Feltrinelli, Milano 1967; E. CHE GUEVARA, Scritti,
com ele diálogos imprevisíveis e extemporâneos
discorsi e diari di guerriglia. 1959-1967, Einaudi,
(pense-se, em vez disso, no estilo de Stalin ou Mao),
sua própria oratória, sempre citada como exemplo de Torino 1969; H. THOMAS, Storia di Cuba (1971),
aptidão carismática, é, na realidade, seu oposto. Na Einaudi, Torino 1973; S. TUTINO, L’ottobre cubano,
verdade, para M. Weber, o esquema de argumentação Einaudi, Torino 1968. do chefe carismático é profético, isto é, visa à
[LUCIANO BONET]
revelação, segundo aquela fórmula: "Está escrito, mas eu vos digo...". O estilo oratório de Castro, embora
sempre tenso e apaixonado, embora não descure
Catolicismo Liberal.
nenhum dos ardis do hábil homem de comícios, é,
contudo, sempre rigorosamente di-dascálico e
pedagógico, põe toda a sua eficácia numa O termo Catolicismo liberal é um termo do século
argumentação racionalmente apresentada, ou seja, tem XIX, sem referências com períodos anteriores,
por fim persuadir. A famosa "Autocrítica" de 26 de embora o de "católico liberal" possa talvez ter sido
julho de 1970 é, neste sentido, exemplar. usado (não pelos contemporâneos, mas pelos
Num plano mais geral, podíamos, porém, perguntar narradores de nosso tempo) para indicar sacerdotes ou
se o regime cubano não terá favorecido uma relação leigos de "manga larga" (de consciência liberal e
de tipo carismático na gestão do poder, ou, por outras aberta), antítese dos escrupulo-sos, sempre com medo
palavras, se não terá sido favorecido em Cuba o culto de estar em pecado e que pusessem no mesmo plano
da personalidade, entendido como exaltação de qualquer infração a preceitos religiosos, qualquer que
elementos carismáticos na relação com os fosse sua importância. governantes. Sem querermos discutir se e em que O Catolicismo liberal se delineia na França, na
medida a categoria do poder carismático é, sem mais, Itália e na Bélgica mas com ramificações na Espanha
aplicável à realidade contemporânea, a resposta à e na América Latina, após a Revolução Francesa, para
interrogação é, de qualquer modo, totalmente designar um catolicismo que não só aceita mas
negativa. propugna as formas de Governo liberais, e julga não
Enquanto a relação carismática se define por seu ser oportuna, em qualquer circunstância, a aliança
caráter entre o trono e o altar. imediato e pela sua direção (de alto para baixo), o grupo dirigente cubano pôs sempre o maior No ANCIEN RÉGIME, apesar dos contrastes
empenho em criar estruturas de igregação e freqüentes entre Santa Sé e Estados (quando não
organização da sociedade civil (parido, sindicatos, chegavam ao cisma), a obediência aos preceitos do
comitês de dejensa revolucionaria, soberano constituía um dever também religioso: o etc). Procurava
assim criar, ao mesmo tempo, níveis intermédios entre sonegador de impostos, o contrabandista, quem
a sociedade e o Estado e, com eles, níveis de cunhava moedas falsas estava em pecado; em pecado
autonomia e de relação dialética em face do poder estava também quem criticava em seus discursos o
central. Além disso, ocorreu também em Cuba o que monarca; o confessor tinha que negar a absolvição ao
Weber já havia definido como tendência intrínseca da penitente que recusasse denunciar maquinações contra
autoridade carismática: a de exaurir e, por isso, se o soberano, e seus cúmplices. O rebelde, em seu
institucionalizar. íntimo, mesmo sem ter chegado a ações contra o Após a primeira fase de
consolidação do regime, muito baseada no em-pirismo soberano (que é dependente somente ao juízo de
e na mobilização ideológica, o sistema político se Deus), o negador da potes-tade do príncipe, era um
ajustou, não sem problemas, aos sólidos esquemas das pecador. democracias populares. De resto, a própria figura de Na época da Restauração, especialmente entre o
Fidel Castro foi pouco a pouco adquirindo novas clero se torna patente uma divisão entre aqueles que
dimensões diante do constante robustecimento da se conservam fiéis à idéia do direito divino dos reis e
gestão coletiva do poder e do tecido político que ao princípio da legitimidade, pelo qual são
interliga a sociedade civil. usurpadores aqueles que se proclamam soberanos,
contrastando o direito que caberia ao membro da
família ou à pessoa que recebeu do alto a investidura
(na Espanha, durante a primeira guerra carlista,
grande parte do clero lutou com armas, chefiando seus
paroquia-nos, em favor do pretendente dom Carlos
contra