Dicionário de Política (Volume 1)

Norberto Bobbio, Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquino · Capítulo 66 de 93

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Dicionário de Política (Volume 1)

Racismo. do despotismo e da escravidão. Esta contraposição terá

grande sucesso em toda história do pensamento

político ocidental. É até nela que se baseia uma das

I. DEFINIÇÃO. — Com o termo Racismo se justificações que Aristóteles encontrou para a

entende, não a descrição da diversidade das raças ou instituição da escravidão, justificação, aliás, que

dos grupos étnicos humanos, realizada pela contrasta com todo o seu pensamento. Segundo ele, há antropologia física ou pela biologia, mas a referência homens que, "por natureza", estão destinados a ser

do comportamento do indivíduo à raça a que pertence livres e a comandar, outros a ser escravos, a ser

e, principalmente, o uso político de alguns resultados comandados, porque privados de alma racional: a esta

aparentemente científicos, para levar à crença da última raça pertenceriam os bárbaros, que não eram

superioridade de uma raça sobre as demais. Este uso livres nem sequer na sua pátria (Política, 1, 2, 1252a) e visa a justificar e consentir atitudes de discriminação que constituíam a grande massa dos escravos na

e perseguição contra as raças que se consideram Grécia. inferiores. Também no mundo romano houve notáveis

Podemos assim passar a algumas distinções: há um fenômenos de Racismo. É grande o desprezo para com

Racismo forte e um Racismo fraco, conforme o peso os bárbaros, como se deduz de Estrabão, de César e

que tem o apelo ao fator da raça ou o maior ou menor mesmo de Tácito. Já não são os persas, mas os

determinismo racial; existe também um Racismo germanos, os gauleses e os celtas que são considerados

meramente teórico (de simples ideologia) e um como inferiores, porque selvagens (feri), É também Racismo que se traduz em política do Governo ou em grande a aversão pelos gregos (os graeculi), mas comportamentos coletivos; existe o mero juízo e a trata-se sempre mais de um mero preconceito cultural

intolerância violenta. Se, através da história, as teorias do que um verdadeiro preconceito racial. Antes e

racistas foram elaboradas sobretudo contra os negros e depois da vinda de Cristo, houve formas, mesmo

os judeus (v. ANTI-SEMITISMO), não se pode decerto violentas, de anti-semitismo nas cidades gregas, que

afirmar que só eles têm sido visados. Pode-se dizer levaram à revolta da Judéia, durante o reinado de

que o Racismo é um fenômeno tão antigo quanto a Nero. A aversão contra os hebreus devia-se ao fato de

política, na medida em que, em nome da identidade eles constituírem um grupo de forte sentido

étnica, é capaz de fortalecer o grupo social contra um comunitário, fiel às suas tradições, costumes e

inimigo verdadeiro ou suposto. Há um Racismo entre usanças. Apesar da mensagem do cristianismo, o anti-

as grandes raças (branca, amarela e negra), mas há semitismo continuou por toda a Idade Média, agora

também entre pequenas raças ou grupos étnicos reforçado pelo fato de se ver nos judeus o povo

particulares (xenofobia, chauvinismo); pode deicida; por isso, o que predomina aqui é o desenvolver-se dentro de uma comunidade política preconceito religioso unido ao cultural, este

pluriracial ou entre comunidades políticas diferentes. simbolizado pela circunstância de os judeus serem

obrigados a viver em guetos.

II. MUNDO ANTIGO E SOCIEDADE MEDIEVAL. — A

cultura grega está toda ela permeada de motivos III. A IDADE MODERNA. — Com o fim do império racistas de sentido fraco, na medida em que é nela e o esboçar-se dos Estados nacionais, inicia-se o

dominante uma clara oposição entre gregos e debate na França sobre a antiga Constituição francesa,

bárbaros, criada durante as guerras pérsicas. E, nesta toda ela baseada no princípio racial, em claro contraste

oposição entre helenos e persas, aflora já o contraste com os romanos. Para Étienne Pasquier (Recherches entre a Europa e a Ásia: a Europa é a terra da sur la France, 1560 s.), a verdadeira Constituição liberdade e da lei, a Ásia a terra francesa se