Dicionário de Política (Volume 1)
diferentes dos desejados. A estrutura condicional da
prevalência abstencionista pode, todavia, ser
mensagem dissuasória consiste na ameaça de uma reconduzida ao fato bem conhecido pelos juristas de represália, no caso em que o adversário não se adapte à
que é muito mais fácil impedir do que não promover
vontade do dissuasor, através da predefinição de uma
uma ação ou um comportamento. Mas, se a Dissuasão
situa ção futura que seria danosa para o destinatário.
fosse unicamente impeditiva, não seria impossível
Neste sentido, o recurso à Dissuasão seria alter nativo
colher e interpretar os aspectos dinâmicos da condução
(e preliminar) com relação ao recurso da guerra
do conflito.
(entendendo este termo no seu sentido lato, que vai do
Pelo conceito de Dissuasão se entende, ao
conflito internacional ao conflito entre dois grupos,
contrário, uma referência a uma conotação estrutural
dois bandos ou dois indivíduos), enquanto seu objetivo
de cada conflito. Por exemplo, quando nó contexto
fundamental é de alcançar, através de uma particular
internacional se qualifica a natureza das relações entre
obra de persuasão em relação ao adversário, as mesmas
os blocos dos vários Estados como dissuasória, não se
vantagens que resultariam do sucesso em um conflito,
entende tanto uma referência a cada momento
evitando assim a obrigação de suportar os seus custos.
específico da vida de
Pode-se, todavia, colher um componente dissuasivo
também no exercício do conflito, no
366 DISSUASÃO
relação entre os Estados, mas, de preferência, o fato que a ameaça tenha credibilidade é necessário, antes
de que cada ação se desenvolve num contexto de mais nada, que esta seja atuável e que o
dissuasório e de que cada ação pode ser cumprida destinatário tome ciência disto. Em segundo lugar, a
obedecendo ao estilo da Dissuasão. ameaça deve ser proporcional à gravidade da
eventualidade que se tenciona impedir; por isso ela
III. TÉCNICA DA DISSUASÃO. — Enquanto no caso do não deve ser inferior, nem deve superá-la
conflito violento a ação dos contendores dirige-se demasiadamente, para não parecer excessiva e,
contra a força (militar, política, física, etc.) do portanto, inverossímil. Em terceiro lugar, quem
adversário, o exercício da Dissuasão consiste em formula a ameaça deve ter a capacidade (vontade e
frustrar, no plano da mera eventualidade, as intenções intenção) de executá-la e deve saber convencer disto o
do adversário. O embate dissuasivo pode, portanto, destinatário. Em quarto lugar, a ameaça, cujo
ser imaginado como um embate de vontades e conteúdo não deve, necessariamente, ser o mesmo da
intenções contrapostas. Deste procedimento deriva ação temida, deve dirigir-se a um aspecto no qual o
toda a particular delicadeza da aplicação da técnica da destinatário seja vulnerável e deve parecer de tal
Dissuasão. maneira danosa que convença o adversário da
Considera-se útil examinar especificamente a vantagem da renúncia ao objetivo, considerando o
técnica do exercício da Dissuasão. Antes de mais nada, custo representado pela represália.
a Dissuasão configura-se exatamente, pelo motivo Apoiadas nestas conotações serão desenvolvidas as
acima citado, como uma tentativa caracterizada pela avaliações subjetivas fornecidas pela relação entre as
incerteza: a ameaça dissuasiva é sempre obrigada a forças e o valor atribuído ao que está em jogo.
apoiar-se na esperança de que as palavras sejam
eficazes, enquanto um bombardeamento, uma IV. DISSUASÃO E INTIMIDAÇÃO. — A configuração da
agressão, um ato danoso o são sempre. Sendo o relação entre as forças tem importantes repercussões
objetivo da ameaça o de que esta não se deve realizar, sobre a própria definição da Dissuasão. Até este
a efetiva vontade de agir, no caso em que o provável momento estudamos as posições dos contendores de
adversário não tenha sido dissuadido, é sempre objeto maneira unilateral, sem considerar especificamente sua
de avaliação incerta, enquanto o adversário sabe relação. Somente no caso no qual a relação seja de
sempre que o dissuasor preferiria não executar a paridade (equivalência) é que se dá a Dissuasão.
ameaça. Realmente, a possibilidade de exercitar a Dissuasão
Chegando a este ponto, o dissuasor move-se dentro não pertence apenas a um, mas a ambos os
de um contexto arriscado. O dissuasor corre o risco contendores. Para que ambos possam ter condições de
de que a ameaça não seja bastante eficaz (suficiente) e agir, faz-se necessário que se verifique uma clara
o adversário arrisca-se a ter que sofrer a represália, situação de reciprocidade.
caso resolva agir. Por outro lado, foi exatamente este A possibilidade da Dissuasão pode assim chegar a
último quem provocou a ameaça: a atitude do caracterizar um tipo muito particular de relação:
dissuasor é reativa. Diante da eventualidade de que o aquele que se desenvolve entre duas forças
adversário desencadeie uma ação reconhecidamente equivalentes configura-se com respeito ao poder do
danosa (ou deixe de cumprir uma ação desejada), o qual ambas as forças dispõem, como uma situação de
dissuasor reage formulando a ameaça de represália. A fato. Os poderes contrapostos, pelo fato de serem
Dissuasão é, portanto, uma reação com o fim de equivalentes, não podem ser, um comparado com o
mudar a atitude já assumida ou as intenções expressas outro, mais. que poderes de fato.
do adversário na forma da predefinição da realidade Existe, porém, uma forma de Dissuasão que pode
futura, conforme a fórmula da "profecia que se aparecer também em relação entre desiguais: por
autocumpre" (teorema de Thomas). exemplo, a mãe dissuade o filho de desobedecê-la,
Examinada deste ponto de vista a forma da com ameaça de um castigo; o superior hierárquico
mensagem, torna-se necessário passar às condições de pode dissuadir seu dependente de proceder de um
sucesso da manobra dissuasiva, que são assim determinado modo; a lei dissuade o cidadão, evitando
representadas: 1) pela credibilidade; 2) pela relação ser violada com a ameaça de uma série de sanções. Em
entre as forças; 3) pela importância do que está em todos os casos nos quais os poderes contrapostos não
jogo. gozam de um estado de reciprocidade falar-se-á então,
Enquanto o papel da relação entre as forças é em lugar de relação dissuasiva, de relação de
facilmente compreensível e o da importância do que intimidação, caracterizada pelo fato de que um dos
está em jogo determina o nível quantitativo da ameaça contendores
(conforme a gravidade do caso), é útil deter-se no
requisito da credibilidade. Para
DISTENSÃO 367
desempenha, em relação ao outro, um papel de Distensão. autoridade.
A intimidação depende, portanto, do reconhecido
poder de sanção que pertence, por definição, apenas a Entende-se por Distensão o processo através do
uma das partes. Esta distinção entre Dissuasão e qual as duas superpotências vencedoras da Segunda
intimidação, fundada sobre o princípio do poder de Guerra Mundial, Estados Unidos e União Soviética,
fato ( foram atenuando suas atitudes de recíproca Macht ) e do poder de direito ( Herrschaft ) ,
permite sua aplicação a todas as diferentes formas de desconfiança e hostilidade, próprias do período da
conflito, considerando que a intimidação não é outra guerra fria, a fim de abrir caminho à aceitação de
coisa senão uma forma mais intensa de Dissuasão. normas comuns e tacitamente acordadas de
coexistência pacífica. A Distensão coloca-se,
O último aspecto do fenômeno geral dissuasivo é o
portanto, historicamente, entre a guerra fria e o
do status. Visto que a fórmula dissuasória baseia-se
período de coexistência pacífica, representando do
numa predefinição, assume um relevo notável na
ponto de vista político, seu estágio intermédio.
avaliação dos contendores o dado representado pelas
expectativas que o passado mostrou como inerentes ao A data de início da Distensão pode ser formalmente
papel de cada uma das partes. Em outros termos, na fixada no dia 25 de dezembro de 1952, quando Stalin,
maioria das vezes, os contendores não precisam numa entrevista ao "New York Times" expressou
recorrer à formulação material da ameaça, já que o opinião, contrariamente em relação ao passado, de que
adversário pode prever que o outro buscará dissuadi-lo uma guerra entre os Estados Unidos e a União
de sua intenção. Somente em casos no qual a crise Soviética não deveria ser considerada inevitável e
supere este primeiro estágio é que as ameaças manifestou o propósito de colaborar para acabar com
(recíprocas ou não) se manifestam. a guerra da Coréia. O período no qual começou
concretamente a Distensão é, porém, o que vai da
O status dissuasivo, do qual se reveste uma das morte de Stalin ao fim da guerra da Coréia, e daí por
partes, desenvolve a função latente de prevenir as
diante.
intenções alheias. Esta situação aparece bem mais
Sinônimo e equivalente de Distensão é o degelo,
claramente na relação entre a lei e o cidadão, na qual o
um termo que enfatiza o caráter particular da
status intimidatório da lei é codificado e dirigido diretamente a impedir que esta seja violada, bastando passagem do relacionamento russo-americano, desde
a fase de frieza do período imediatamente sucessivo
apenas sua presença para tornar conscientes as partes
ao fim da Segunda Guerra Mundial (período da guerra
do previsível sucesso do seu aparato coercitivo-
fria), até a fase sucessiva caracterizada
repressivo.
progressivamente pela diminuição da propaganda
Em conclusão, resumindo o relevo político ligado à reciprocamente hostil, pela limitação dos incidentes
análise do conceito de Dissuasão, podemos afirmar diplomáticos, por uma maior e mais serena avaliação
que qualquer sistema de relação social, e em particular das atitudes recíprocas, pela conscientização da
o sistema político internacional e os sistemas políticos possibilidade de uma convivência melhor e,
internos, conhece entre suas normas de funcionamento finalmente, pela instauração de relações mais intensas.
a técnica dissuasória, a qual tem o papel de introduzir
As causas histórico-políticas da Distensão devem
um princípio racionalizador e preventivo da violência
— nem por isso pacífico — nas relações conflituais. ser buscadas na nova maneira de definir as linhas de
poder na Europa (quando se alcançou a estabilidade
da zona ocidental e da zona oriental), na conseqüente
transferência das ocasiões de tensão para outras áreas
BIBLIOGRAFIA.- R. ARON, Pace e guerra tra le
geopolíticas, julgadas pelas duas superpotências como
nazioni (1962), Edizioni di Comunità, Milano 1970; A. menos perigosas para a própria segurança (sobretudo
BEAUFRE. Dissuasion et stratégie. Colin. Paris 1964; no mundo das ex-colônias), na estabilização das
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progressiva passagem da Europa do sistema
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University Press. Columbus 1966; Beyond nuclear mundiais e projeta no exterior os próprios equilíbrios)
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Crane, Russak and Co., New York 1977; The future of
de um sistema de equilíbrios mundiais. Isso explica,
the International strategic system, ao cuidado de R. além disso, por que é que a crise da Distensão, criada
RQSECRANCE, Chandler, San Francisco 1972; T C. a partir da segunda metade SCHELLING, La diplomaria della violenza (1966), Il Mulino. Bologna 1968.
[LUIGI BINANATE]
368 DITADURA
dos anos 70 e sobretudo no início dos anos 80, qualquer razão, ou ainda quando o ditador tivesse
encontra as suas razões na ligação (linkage) que o chegado ao fim da incumbência para a qual fora
mundo ocidental estabeleceu, em face da corrida aos nomeado. Esta rigorosa restrição temporal era o cunho
armamentos e do acentuado dinamismo da URSS no característico da instituição e tinha uma eficaz
Terceiro Mundo, entre estabilidade e Distensão, isto é, repercussão na conduta do ditador, o qual sabia que
entre a manutenção das condições que determinaram o num breve prazo de tempo voltariam a vigorar todos
seu surgimento e a modificação de algumas delas, tais os limites e todos os controles constitucionais. como o respeito pelos equilíbrios estratégico-militares A instituição da Ditadura acima descrita é peculiar
e por um nível aceitável de tensões no Terceiro da República romana, para a qual constituía quase uma
Mundo (teoria da indivisibilidade da Distensão). necessidade, considerando o grau muito marcante de
divisão e de limitação do poder que distinguia sua
fisionomia constitucional: pluralidade das assembléias,
[PIERO OSTELLINO] multiplicidade das magistraturas, sua organização
como um colegiado (com direito de veto), sua breve
duração (ordinariamente um ano). Neste quadro,
Ditadura. pode-se afirmar que, para a República romana, a
Ditadura era a maneira de suspender temporariamente
I. A DITADURA ROMANA E A CHAMADA "DITADURA a sua ordem constitucional a fim de preservar a
CONSTITUCIONAL ". — A palavra Ditadura tem sua integridade e permanência. origem na dictatura romana. O significado moderno A Ditadura desenvolveu esta função durante dois
da palavra é, porém, completamente diferente da ou três séculos, do V ao III a.C, o que permitiu à
instituição que o termo designava na Roma República fazer frente, de maneira eficiente, às breves
republicana. guerras da primeira parte da sua história, assim como
A Ditadura romana era um órgão extraordinário que às várias desordens internas provocadas pela luta de
poderia ser ativado conforme processos e dentro de classes. Mais tarde, quando as guerras se tornaram
limites constitucionalmente definidos, para fazer mais longas e acirradas, a Ditadura começou a perder
frente a uma situação de emergência. O ditador era sua eficácia. nomeado por um ou por ambos os cônsules, em No século III já estava em declínio, mesmo porque
conseqüência de uma proposta do Senado, ao qual tinha sofrido ulteriores restrições e era ativada cada
cabia julgar se a situação de perigo fazia realmente vez com mais freqüência, para obedecer a razões bem
necessário o recurso à Ditadura. O cônsul não podia diferentes da necessidade de superar uma grave crise.
autonomear-se ditador, nem este último podia declarar Apareceu novamente de modo esporádico durante
o estado de emergência. O fim para o qual se nomeava as Guerras Púnicas e desapareceu definitivamente com
um ditador era claramente definido e o ditador a ele o findar do século III. Seu nome, porém, voltou a ser
deveria ater-se. Geralmente, tratava-se da condução de empregado e explorado durante as lutas civis do
uma guerra (dictatura rei gerendae causa), ou da século I, na Ditadura de Sila (82 a.C.) e de César (48 a
solução de uma crise interna (dictatura seditionis 46), mas ressurgiu apenas no nome. A velha
sedandae et rei gerendae causa). Os poderes do instituição republicana era uma recordação do passado;
ditador eram muito amplos: exercia o pleno comando e os Governos de Sila e de. César aproximam-se, na
militar; os cônsules eram a ele subordinados; seus atos realidade, do significado que a palavra Ditadura tem
não eram submetidos à intercessio dos tribunos; adquirido no nosso tempo. gozava do jus edicendi e, durante o período no qual Segundo este uso, a que voltarei com mais detenção
exercia o cargo, seus decretos tinham o valor de lei; e,
em seguida, e que tende a reunir sob a etiqueta de
finalmente, contra suas sentenças penais, o cidadão
Ditadura, muitas vezes com intuito polêmico-prático,
não podia apelar. todos os regimes antidemocráticos ou não-
Assim mesmo, não eram poderes ilimitados. O democráticos modernos, a Ditadura vem a ser algo
ditador não podia revogar ou mudar a Constituição, muito diverso da Ditadura romana. O ponto de
declarar a guerra, impor novos ônus fiscais aos coincidência entre os dois fenômenos é a concentração
cidadãos romanos, assim como não tinha competência e o caráter absoluto do poder. Mas a Ditadura
na jurisdição civil. A Ditadura romana estava moderna não é autorizada por regras constitucionais: circunscrita entre limites temporais muito rígidos. Não se instaura de fato ou, em todo o caso, subverte a
podia durar mais de seis meses e ainda menos no caso ordem política preexistente. A extensão do seu poder em que o magistrado, que tinha nomeado o ditador, não está deixasse o cargo por
DITADURA 369
predeterminada pela Constituição: seu poder não sofre normais do Estado; por isso é muito mais difícil
limites jurídicos. E, embora algumas Ditaduras desvencilhar a instauração, o exercício e o êxito de um
modernas tendam ainda a se auto-apresentar como Governo de crise das perspectivas de luta pelo poder
"temporárias", sua duração não está antecipadamente das forças políticas militantes. Os efeitos desta
fixada: a sua permanência, como a de qualquer outro diferença não podem ser estabelecidos de maneira
regime político, depende das vicissitudes da história. geral, abstraindo-os dos contextos nos quais as
Em resumo, a Ditadura romana é um órgão instituições operam. excepcional e temporário, a Ditadura moderna uma Pelo que nos mostra a história, pode-se relevar que
forma de Governo normal e durável. a Ditadura romana viveu por alguns séculos sem pôr
Aproximam-se da Ditadura romana, nas suas em perigo ou alterar significativamente a ordem
funções precípuas, medidas excepcionais previstas e constitucional. Na Europa e na América promulgadas pelos muitos Estados constitucionais contemporâneas, porém, os diversos tipos de Governo
modernos para superar um estado de emergência, de crise chegaram, muitas vezes, a provocar a
interno ou externo, que não pode ser enfrentado de destruição da ordem institucional e contribuíram
maneira adequada com instrumentos constitucionais seguidamente para alterar, de modo mais ou menos
normais. Este tipo de instituição envolve, geralmente, permanente, a distribuição do poder entre os órgãos
a concentração do poder num órgão constitucional do constitucionais do Estado. Estado (freqüentemente um órgão executivo), a Em segundo lugar, a diferença entre "Ditadura
extensão do poder além dos limites ordinários (por constitucional" e "Ditadura inconstitucional" desvia-se
exemplo a suspensão dos direitos de liberdade dos de um outro ponto de vista que, para os nossos fins, é
cidadãos) e a emancipação do poder dos freios e dos ainda mais significativo. Os dois termos da distinção
controles normais. não são homogêneos. Vale aqui, com maior razão, o
São estes os casos específicos da lei marcial e do que já se disse à respeito da diversidade substancial
estado de sítio, destinados a superar uma crise entre Ditadura moderna e Ditadura romana. A
repentina e violenta e que comportam um acréscimo Ditadura moderna (chamada "Ditadura extraordinário dos poderes próprios do executivo. inconstitucional") é uma forma de Governo mais ou
Também pode-se conferir ao executivo o poder de menos durável. A "Ditadura constitucional" designa
legislar em estado de emergência, como o previsto no procedimentos excepcionais, que são simples Art. 48 da Constituição alemã de Weimar, ou os elementos secundários de uma forma de Governo (em
atribuídos aos próprios Governos pelos Parlamentos geral, a democracia liberal) que se caracteriza por
dos diversos países beligerantes durante a Primeira e a outros tipos de instituições inteiramente diferentes. A
Segunda Guerra Mundial. Para designar os casos primeira Ditadura, se referida a um significado concretos citados ou outros semelhantes, criou-se a descritivo, tem um lugar na classificação dos sistemas
expressão Governo de crise. Foi também proposto políticos; a segunda, na fenomenologia dos meios associar estas instituições à Ditadura romana, extraordinários a que os regimes políticos recorrem denominando-as conjuntamente com a etiqueta de para superar situações de grave crise. Deste modo, a "Ditadura constitucional" (ou limitada), e contrapondo "Ditadura constitucional" distingue-se da "Ditadura
a esta a "Ditadura inconstitucional" (ou ilimitada). inconstitucional", não somente pela diversa
Esta distinção, porém, desvia-se da realidade sob denominação (constitucional e inconstitucional), mas
vários aspectos. Em primeiro lugar, porque a também, e sobretudo, porque o substantivo Ditadura semelhança entre um moderno Governo de crise e a denota nos dois casos dois fenômenos diferentes. Nem Ditadura romana não pode ser levada muito longe. valeria objetar que uma e outra das instituições Ambos 05 tipos de instituição correspondem à compreendidas no conceito de "Ditadura necessidade de fazer frente à situação de emergência constitucional" foram, às vezes, utilizadas para num regime de separação mais ou menos avançado do introduzir uma "Ditadura inconstitucional". O fato de poder, mas existe uma considerável diferença. A que possa produzir-se um nexo de sucessão temporal Ditadura romana é um órgão extraordinário (e por isso ou mesmo genética entre um e outro fenômeno não é fala-se de um ditador e de uma Ditadura). Por argumento suficiente para afirmar que estes pertencem conseqüência, não somente o poder ditatorial, mas o à mesma classe. próprio órgão que o compõe e seu ocupante saem do
quadro político logo que se restabeleça a situação de II. DITADURA, DESPOTISMO, ABSOLUTISMO, TIRANIA, normalidade. AUTOCRACIA, AUTORITARISMO. — Distingui e
O moderno Governo de crise funda-se na atribuição confrontei o uso romano e o uso moderno de
de poderes extraordinários aos órgãos Ditadura. Aqui se poderia perguntar como é que foi
possível ocorrer uma mudança tão
370 DITADURA
substancial de significado. E provável que o elo de positiva, como um órgão capaz de defender a ordem
ligação entre os dois diversos significados tenha de ser constituída em face de crises de emergência mais ou
historicamente buscado na noção de "Ditadura menos graves; conotação positiva é também, pelo
revolucionária", tal como foi utilizada para designar o menos no início, a da "Ditadura revolucionária", como
Governo revolucionário instaurado pela Convenção Governo ditatorial provisório que preparava o
Nacional francesa, a 10 de outubro de 1793, até à caminho para a instauração de uma sociedade mais
consecução da paz, bem como a concepção do Governo justa (a Sociedade dos Iguais). A Ditadura moderna
revolucionário que, segundo as idéias de Babeuf e tem, pelo contrário, uma conotação indubitavelmente
Buonarroti, deveria, suceder à explosão revolucionária negativa. Designa a classe dos regimes
e anteceder o nascimento da Sociedade dos Iguais. antidemocráticos ou não-democráticos modernos.
Nesta espécie de Ditadura, que Maurice Hauriou Como tal se contrapõe, como o termo negativo ao
chamou convencional e Carl Schmitt, soberana, o termo positivo de uma grande dicotomia, à democracia
poder ditatorial não era autorizado pela Constituição, moderna, por sua vez entendida como designação da
nem constitucionalmente limitado. Não era constituído, classe dos regimes liberal-democráticos.
mas se impunha pelos fatos; a sua função não era Neste sentido, a democracia liberal, como termo
superar uma crise parcial do regime vigente: era a positivo da dicotomia, caracteriza-se pela divisão de
função constituinte de fundar um novo regime sobre fato e de direito do poder e pela transmissão da
as ruínas do precedente. autoridade política de baixo para cima; como termo
Na "Ditadura revolucionária", portanto, o poder negativo, a Ditadura se distingue, em contraposição, ditatorial não é apenas um poder concentrado e por uma acentuada concentração do poder e pela absoluto, tal como ocorre tanto na Ditadura romana transmissão da autoridade política de cima para baixo. como na moderna; ele, além disso, se instaura de fato e É de notar, no entanto, que as características não suporta limites preestabelecidos, como só acontece antidemocráticas, apontadas podem ser encontradas na Ditadura moderna. Acrescente-se que a "Ditadura também em regimes políticos habitualmente designados revolucionária" prenuncia outra característica possível por nomes diversos do de Ditadura. Por isso, para da Ditadura moderna: o poder não estava esclarecer ulteriormente o uso moderno de Ditadura, necessariamente nas mãos de um só homem (o parece indispensável uma análise das relações ditador), podia também estar nas mãos de um grupo existentes entre Ditadura e outros termos, usados para (uma convenção, uma assembléia, um partido denominar, total ou parcialmente, os regimes não-revolucionário). É este o caminho que seguirá Marx, democráticos. Dentre eles, os mais relevantes são que chegará ao ponto de falar da Ditadura de uma despotismo, absolutismo, tirania,' autocracia e classe social; mas, assim, a noção de Ditadura perderá autoritarismo. seu significado político específico (ver a este respeito a De despotismo podemos falar em duas diferentes
última seção deste artigo). O ponto em que a "Ditadura acepções. No primeiro sentido, o denominado
revolucionária" parece ainda divergir da moderna e despotismo oriental remonta ao pensamento grego
aproximar-se mais da romana é seu caráter temporário, clássico e designa um regime político marcadamente
sua limitação no tempo. Mas, em primeiro lugar, é de monocrático, que seria típico da Ásia e também da
notar que tal caráter temporário não está mais África, mas que é substancialmente estranho à cultura
garantido ab externo pela Constituição, mas assenta na ocidental. vontade mutável do próprio grupo revolucionário: neste No livro terceiro da Política, Aristóteles compara o sentido, também há Ditaduras modernas que se Governo despótico ao que o patrão (despotes) exerce autoproclamam inicialmente como temporárias, para sobre o escravo e o classifica entre as formas de
depois permanecer de forma mais ou menos duradoura. Governo monárquico, como um tipo de monarquia
É de observar, em segundo lugar, que mesmo nas própria de "muitos povos bárbaros", os quais têm, para
Ditaduras modernas que não proclamam sua esta forma de Governo, uma predisposição natural.
temporariedade existe um traço peculiar que, de algum Mais tarde, o despotismo oriental, de um lado, foi
modo, evoca um caráter temporário: a debilidade ou atribuído, conforme Aristóteles, à índole dos povos
precariedade das regras de sucessão no poder. Logo asiáticos, considerados incapazes de autogovernar-se e
tornarei a este assunto. O que distingue sobretudo, de inclinados à obediência, enquanto, da outra parte,
modo claro, a Ditadura moderna da Ditadura romana, foram constantemente enfatizadas a arbitrariedade e
por um lado, e da "Ditadura revolucionária", por outro, freqüentemente a brutalidade que distinguem sua
é a sua diferente conotação de valor. A Ditadura maneira de exercer o poder. Montesquieu, que
romana possui uma conotação tradicionalmente retomou, dentro desta perspectiva, o conceito de
despotismo, o definiu como um Governo no qual "um,
sozinho, sem leis nem freios, arrasta tudo e
DITADURA 371
todos ao sabor de sua vontade e de seus caprichos" e O despotismo e o absolutismo são semelhantes à
identificou o seu "princípio", ou seja, a paixão que o Ditadura pela concentração e pelo caráter ilimitado do
impulsiona, como medo, o qual "tem de abater todas poder, mas são substancialmente diferentes dela
as coragens e apagar o mais fraco sentido de porque, tanto o absolutismo como o despotismo, são
ambição". monarquias hereditárias e legítimas, enquanto a
Tem sido observado também que este tipo de Ditadura é uma monocracia (ou o Governo de um
regime caracteriza-se pela sacralização do déspota, que pequeno grupo) não hereditária e ilegítima, ou dotada
aparece como um Deus ou como um descendente de de uma legitimidade precária. um Deus ou ainda como um sumo-sacerdote. Na sua conotação histórica, absolutismo e
Na Europa, porém, foi adotado o segundo sentido despotismo ligam-se a uma sociedade de tipo
nos séculos XVII e XVIII, para designar também as tradicional, na qual a participação política da grande
monarquias do Ocidente. Neste caso, despotismo maioria da população é nula, sendo que a monarquia é
perde sua conotação derrogatória e indica qualquer vista como a única forma possível de Governo, pois ela
regime de monarquia absolutista. Deste ponto de tem suas raízes no passado e na origem ou no caráter
vista, o despotismo não é nem bom nem mau, divino. Isto explica por que, com a Revolução
enquanto tal, mas se caracteriza conforme a maneira Francesa, a imposição dos princípios republicanos e a
pela qual o monarca exerce o poder. decadência dos monárquicos, a noção de despotismo
Partindo das idéias de Francis Bacon, que no início iluminado, defendida pela inteligência iluminística,
do século XVII propugnou um despotismo iluminado desapareceu completamente do horizonte cultural e
para instaurar o Governo da ciência, o iluminismo político da época. considerou o despotismo um fato positivo, desde que Sai da cena o despotismo e entra em cena a
este se deixasse guiar pela razão. Os enciclopedistas Ditadura. Esta, ao contrário do absolutismo e do
falaram então de despotisme éclairé e os fisiocratas despotismo, está ligada a uma sociedade em vias de
falaram de despotisme légale (v. DESPOTISMO). transformação, com uma participação política ampliada
Na segunda acepção, despotismo é, praticamente, ou incipiente, na qual foi imposto, ou já se encontra
sinônimo de absolutismo, palavra com a qual se em ascensão, o princípio da soberania popular. Neste
definem, principalmente, as monarquias absolutistas contexto, o regime ditatorial não pode basear-se na
que se instauraram na Europa, entre os séculos XVI e tradição ou na aceitação passiva de grande parte da
XVIII, no contexto histórico da formação do Estado população. moderno (v. ABSOLUTISMO). Na monarquia absoluta, A Ditadura apresenta, preferivelmente, uma ruptura
cada poder (legislativo, executivo, judiciário) da tradição. Instala-se utilizando a mobilização política concentra-se formalmente nas mãos do soberano que de uma grande parte da sociedade, ao mesmo tempo
está livre de qualquer limitação jurídica, desvinculado que subjuga com a violência uma outra parte. E não
das leis (legibus solutus). Nenhuma ordem exterior, pode garantir sua continuidade, de modo ordenado e
civil ou eclesiástica, interna ou internacional, é regular, nem com o processo democrático, de que é a
superior ao monarca absoluto, sobre o qual se negação, nem com o princípio hereditário, que
concentra a inteira responsabilidade do exercício do contrasta com as condições políticas objetivas e com
comando (mesmo quando o rei pode dividir tal sua pretensão de representar os interesses do povo.
exercício com uma equipe de colaboradores). Daí o caráter precário das regras de sucessão no
Por outro lado, o monarca absoluto não se identifica poder.
com a figura do déspota oriental que a tradição nos Como substancialmente análoga à Ditadura moderna
mostra. O estilo de comando dos monarcas absolutos poderíamos citar a tirania grega. É bastante conhecida
não é necessariamente brutal. Geralmente eles não a extraordinária pertinência, em relação à Ditadura
poderiam abandonar-se aos excessos de arbítrio e moderna, das observações de Platão e de Aristóteles
crueldade próprios dos déspotas do Oriente, porque as sobre a tirania. Tal como as Ditaduras modernas, as
monarquias absolutas, mesmo quando não eram tiranias gregas nasciam, geralmente, das crises e da
limitadas pela lei positiva, encontravam um freio nas desagregação de uma democracia ou de um regime
concepções morais predominantes (as chamadas "lei político tradicional, no qual surgia a ampliação do
natural" e "lei divina") e, finalmente, encontravam sua interesse e da participação política. moderação nos obstáculos de fato, que derivavam de Tal como o ditador moderno, o tirano não era um
uma estrutura da sociedade muito diferente da das monarca legítimo, mas sim o chefe de uma facção
sociedades asiáticas. política, que impunha com a força o próprio poder a
todos os outros partidos. Da mesma forma que os
ditadores modernos, os tiranos
372 DITADURA
exerciam um comando arbitrário e ilimitado, A. Hermens e Carl J.. Friedrich, como o termo mais recorrendo amplamente a instrumentos coercitivos. apropriado para designar toda classe dos regimes
Com o tempo, todavia, o conceito de tirania antidemocráticos ou não-democráticos. Nesta acepção
transformou-se, afastando-se em parte do seu sentido geral, porém, a palavra não obteve sucesso, nem na
originário e dando maior ênfase à maneira cada vez linguagem ordinária, nem na linguagem técnica da
mais exclusiva de exercer o poder. ciência política. Em todo caso, mesmo que tivesse
Desenvolvendo um tema já presente em Aristóteles, vingado, não poderia substituir Ditadura em seu
São Tomás distinguiu entre o tirano, que é tal porque sentido moderno, já que a classe dos regimes políticos
não tem título (absque titulo), o que é tirano pelo indicados por autocracia seria, de qualquer modo,
modo como exerce o comando (quoad exercitium) e, mais vasta que aquela a que se refere a palavra
finalmente, o que o é pelas duas razões. Neste sentido, Ditadura. Segundo a acepção geral apontada, deveriam,
também um monarca hereditário pode ser tirano, caso com efeito, ser decerto compreendidas entre as
exerça o poder de modo arbitrário e violento. autocracias todas as monarquias e despotismos
O significado da palavra modificou-se ulteriormente hereditários do passado, que, ao invés, como
nesta direção e, na linguagem política contemporânea, demonstrei antes, hão de ser excluídos do campo do
o uso mais comum da definição se apóia e concentra significado de Ditadura. no modo do exercício do poder, deixando de É análoga, pelo menos em parte, a consideração
considerar a presença ou ausência de um título que se deve fazer a respeito do "autoritarismo", um
legítimo. É claro que, na medida em que isto termo que às vezes também tem sido usado para
acontece, cada vez mais diminui a analogia do designar o conjunto global dos regimes contrapostos
significado entre Ditadura e tirania. aos regimes democráticos. Neste sentido, o denotatum
Diferentemente dos outros termos examinados de autoritarismo é mais amplo que o do significado
anteriormente, autocracia não tem uma precisa moderno de Ditadura, uma vez que inclui também,
conotação histórica. Este termo não foi criado para como a referida acepção geral de autocracia, as
classificar um tipo particular de sistema político monarquias e despotismos hereditários das sociedades
concreto (mesmo quando autocrata era chamado tradicionais. Por outro lado, quando usado com
especialmente o czar da Rússia). Este é um termo referência exclusiva aos sistemas políticos modernos, o
abstrato que se usa com dois significados principais: significado de autoritarismo tende a restringir-se um
um particular e outro geral. No significado particular e pouco, tornando-se indubitavelmente menos abrangente
mais pleno da palavra, autocracia denota um grau que o de Ditadura. No uso mais comum e eficaz, fala-
máximo de absolutismo na direção da personalização se de autoritarismo, contrapondo-o a totalitarismo,
do poder. para designar apenas uma subclasse dos regimes não-
Uma autocracia é sempre um Governo absoluto, no democráticos modernos: os que possuem um grau
sentido de que detém um poder ilimitado sobre os relativamente moderado de mobilização política das
súditos. Além disso, a autocracia permite que o chefe massas e de penetração política da sociedade (v.
do Governo seja de fato independente, não somente AUTORITARISMO).
dos seus súditos, mas também de outros governantes
que lhe estejam rigorosamente submetidos. O chefe de III. CARACTERÍSTICAS FUNDAMENTAIS DA DITADURA. — um Governo absoluto é um autocrata sempre que suas Do que afirmei até agora se depreende um significado
decisões não possam ser eficazmente freadas pelas bastante preciso da Ditadura moderna. Com a palavra
forças intra-governativas. Sob este aspecto, o monarca Ditadura, tende-se a designar toda classe dos regimes
absoluto pode ser um autocrata, mas pode também não não-democráticos especificamente modernos, isto é,
ser, quando divide o poder com alguns colaboradores dos regimes não-democráticos existentes nos países
que tenham condições de limitar sua vontade. modernos ou em vias de modernização (com que se
As Ditaduras são, por vezes, regimes autocráticos, podem assemelhar também as tiranias gregas dos
que se concentram na figura de um chefe e podem séculos VII e VI a.C. e alguns outros Governos
levar muito adiante a personalização do poder. surgidos na história do Ocidente). Temos, no entanto,
Existem, porém, Ditaduras não-autocráticas, nas quais de reconhecer que este significado de Ditadura,
o poder está nas mãos de um pequeno grupo de embora possua uma indubitável dimensão descritiva,
chefes, que dependem reciprocamente um do outro. tem sido freqüentemente usado com fins prático-
Em seu significado geral, autocracia tem sido ideológicos, como alvo de valor negativo a contrapor
usada por alguns teóricos da política e do direito, polemicamente à democracia. É também por essa
nomeadamente por Hans Kelsen, Ferdinand razão que, nos últimos anos, o uso de Ditadura em
sentido moderno, corrente nos anos
DITADURA 373
50 e 60, tende a tornar-se mais raro; e não falta quem regularidade e de previsibilidade à conduta do
queira restringir a palavra ao significado de órgão Governo. Mesmo neste caso não existe nenhuma
excepcional e temporário, próprio da sua origem garantia legal ou institucional que permita dar
romana. validade permanente a esses limites. Em relação aos
Não é esta certamente a ocasião de adentrarmos instrumentos de controle coercitivos que empregam e
numa questão que corre o risco de se transformar em ao grau de sua penetração e arregimentação da
mera questão de palavras. Bastará, antes de ir mais sociedade, os regimes ditatoriais diferem notavelmente
além, deixar firmes estes dois pontos: 1) até hoje um do outro. A respeito deste tema vamos nos remeter
ainda não se encontrou um termo mais adequado que para o exposto mais adiante, a propósito da análise
o de Ditadura para designar, em seu conjunto, os das tipologias das Ditaduras. regimes não-democráticos modernos; 2) em todo caso, Passemos agora ao segundo ponto: o fundo social e
o que vou dizer daqui para a frente sobre as político da Ditadura. O ambiente mais típico dos
características e tipologias das Ditaduras há de regimes ditatoriais é o de uma sociedade abalada por
entender-se como uma série de proposições uma profunda transformação econômica e social, a qual respeitantes, sobretudo, indubitavelmente, aos regimes ativa o interesse e a participação política de faixas cada
não-democráticos modernos. vez maiores da população e faz emergir o princípio da
Tendo isso em vista, começarei por examinar as soberania popular. Não foi por acaso que os contextos
características fundamentais da Ditadura moderna, históricos, nos quais o Governo ditatorial teve maior evidenciadas na discussão da relação da Ditadura com difusão, foram o das cidades gregas dos séculos VII-o despotismo, o absolutismo, a tirania, a autocracia e o VI a.C. e o da época contemporânea, a partir da
autoritarismo. São três, a meu parecer, essas Revolução Francesa. O primeiro período marca a características: a concentração e o caráter ilimitado do passagem nas cidades gregas, da estrutura tradicional
poder; as condições políticas ambientais, constituídas da sociedade com base agrícola e oligárquica, a uma
pela entrada de largos estratos da população na estrutura nova com base mercantil, e artesanal,
política e pelo princípio da soberania popular; a igualitária e democrática. precariedade das regras de sucessão no poder. O segundo período é o do processo conseqüente à
Com referência à concentração do poder, limitamo- industrialização, que destrói a velha sociedade agrícola
nos a lembrar que esta pode referir-se a uma única e aristocrática, amplia as bases de mobilização social e
pessoa ou a um pequeno grupo de pessoas. Sobre as política e faz ver imperiosamente no povo o
diferentes propriedades desses dois tipos de Ditadura fundamento principal da justificação do Governo
voltaremos a falar. Vamos nos deter brevemente no (mesmo se o povo vier a transformar-se em
caráter absoluto do poder ditatorial, pessoal ou proletariado, nação ou raça). Neste quadro e com
oligárquico. O Governo ditatorial não é refreado pela referência ao mundo contemporâneo, a Ditadura pode
lei, coloca-se acima dela e transforma em lei a própria surgir, em primeiro lugar, numa sociedade com um alto
vontade. Mesmo quando são mantidas ou introduzidas grau de modernização econômica e social e de intensa normas que resguardam nominalmente os direitos de mobilização política. Esta é então o resultado de uma
liberdade, ou limitam de outra forma o poder do grave crise do regime democrático, deteriorado por
Governo, estas normas jurídicas são apenas um véu perturbações externas ou internas e suportando
exterior, com escassa ou nenhuma eficácia real, que o movimentos anárquicos das divisões inconciliáveis
Governo ditatorial pode ignorar com discrição mais ou entre os diversos partidos políticos. Conforme o menos absoluta, recorrendo a outras leis que ambiente social no qual ela se instaura, esta Ditadura é contradizem as primeiras ou que criam exceções, durável somente quando adota uma política de utilizando poderosos organismos políticos subtraídos mobilização permanente da população. ao direito comum ou invocando diretamente pretensos Em segundo lugar, a Ditadura pode surgir numa
princípios superiores que guiam a ação do Governo e sociedade com um grau moderado ou baixo de
que prevalecem sobre qualquer lei. Este absolutismo modernização econômico-social e de mobilização
do poder ditatorial torna caracteristicamente política. Neste caso, a Ditadura pode agir como imprevisível e irregular a conduta do ditador ou da assistente do nascimento da democracia liberal ou pode
elite ditatorial. refrear a modernização, para salvaguardar o que ainda
Nas Ditaduras mais moderadas, podem aparecer sobra da ordem tradicional, atuando através de uma
alguns limites concretos postos por grupos dirigentes mobilização intensa somente na fase inicial ou nos
subalternos que mantenham uma certa autonomia. períodos de crise, Estes limites conferem algum grau de
374 DITADURA
e limitando-a radicalmente quando já consolidada. Pode legitimidade popular e a estrutura do poder ditatorial
ainda acentuar coercitivamente o processo de que a nega impõe que sua invocação seja mediada por
industrialização, promovendo uma mobilização social e um fator de ligação. Este fator intermediário pode ser o
política permanente. Finalmente, a Ditadura pode próprio ditador que, com seus dotes extraordinários, é
surgir também numa sociedade não atingida pela considerado capaz de representar diretamente a
modernização, mas na qual os valores e os imperativos vontade do povo (legitimidade de tipo carismático)
do desenvolvimento econômico, social e político, que e/ou um partido político que se autoproclame e se faça
se irradiam dos centros-guias da história mundial, aceitar, pelo menos por uma parte da sociedade, como
impelem uma pequena elite a impor do alto a vanguarda ou guia do povo (legitimidade fundada na
industrialização e o desenvolvimento. Neste caso, a ideologia de partido). Ditadura procura introduzir uma intensa e durável Mas o primeiro tipo de legitimidade é mobilização, apesar de defrontar-se, seguidamente, essencialmente pessoal e temporário, porque quando
com limites muito persistentes na estrutura da falta o chefe carismático não existe nenhuma lei
sociedade tradicional. regular que possa transmitir a outros suas qualidades
Terceiro ponto: o problema da legitimação do poder excepcionais. Isto explica as graves crises de sucessão
e, em particular, das regras da sucessão. Vista deste que se desencadeiam em tantas Ditaduras, com lutas
ângulo, a Ditadura é caracterizada por uma contradição internas entre os membros da elite dominante que
fundamental, visto que concentra o poder e transmite ambicionam ocupar o lugar do velho ditador, e isso
rigidamente a autoridade política do alto para baixo, leva, muitas vezes, até à queda do próprio regime
numa situação na qual prevalece ou está se afirmando ditatorial. o princípio da soberania popular, na qual a Ditadura O segundo tipo de legitimidade que se apóia num
deve, de alguma maneira, apoiar-se para alimentar sua partido confere uma estabilidade muito maior à
permanência no poder. As Ditaduras tendem sempre a Ditadura, porque a vanguarda e o guia do povo é
apresentar-se como expressão legítima dos interesses e formalmente o partido e o partido permanece, mesmo
das necessidades do povo; daí o elemento cesarista que caso venha a faltar fisicamente o ditador. Todavia, até
caracteriza freqüentemente todas as Ditaduras esta forma de legitimidade não tem condições de dar personalistas. Partem também deste princípio todos os vida a um processo ordenado e reconhecido de
artifícios que as Ditaduras adotam para mostrar que sucessão no poder. O partido torna-se base exclusiva
detêm a anuência do povo: desde os plebiscitos às do recrutamento do novo chefe ou dos novos chefes,
grandes reuniões de massa em contato direto com o mas a forma de sua seleção não pode. ser
chefe e com seus representantes, até chegar à regulamentada de maneira aceitável, porque a função
imposição capilar e coercitiva da aceitação suprema de guia ou de vanguarda se autoproclama e se entusiástica do regime por toda a população. auto-impõe e não vigora outro sistema para reconhecer
Assistimos então a uma espécie de democracia o homem ou os homens idôneos para desenvolvê-la,
subvertida, onde o povo é forçado a manifestar uma com exceção do sucesso e da prevalência do mero
completa adesão à orientação política do ditador, a fim fato. Assim sendo, o regime ditatorial torna-se mais
de que este possa proclamar que sua ação apóia-se na estável porque o partido lhe fornece uma couraça de
vontade popular. Todas estas técnicas, porém, não defesa em relação ao exterior. Mostra-se, porém,
conferem à Ditadura a legitimidade democrática, descontínuo e irregular quando se apresenta o processo
porque não podem eliminar o fato crucial de que a de sucessão de um a outro ditador, ou de um a outro
autoridade política é transmitida do alto para baixo, e grupo ditatorial. não vice-versa. Mesmo quando prescindimos de certas
Ditaduras de pura exploração, consideradas IV. TIPOLOGIAS. — Já têm sido propostas diversas radicalmente ilegítimas, a legitimação popular dos classificações de Ditadura com base em vários
Governos ditatoriais parece sempre incerta e ambígua. critérios. As mais significativas apóiam-se na natureza
É evidente a característica fraqueza da Ditadura frente do poder, no objetivo perseguido, nos caracteres da
ao problema da sucessão, quando, como afirma elite dominante, nas propriedades da ideologia e na
Giovanni Sartori, "um absolutismo republicano não base social. pode — enquanto absolutismo — 'eleger' o novo Na natureza do poder, isto é, nos instrumentos de ditador, mas não pode tampouco 'herdar' por causa do controle adotados pelas diversas Ditaduras e
princípio republicano". correlativamente no grau de sua penetração no tecido
Mais detalhadamente podemos dizer que a social se apóia a tipologia mais rica de conteúdo e
contradição existente entre o ambiente que exige a geralmente mais utilizada. Trata-se da dicotomia de
"Ditaduras autoritárias" e "Ditaduras totalitárias".
Conforme a proposta de Franz
DITADURA 375
Neumann, trata-se da tripartição de Ditaduras a figura das "Ditaduras reacionárias", que dirigem
"simples", "cesaristas" e "totalitárias". A "Ditadura seus objetivos para dar novamente vida a valores e
autoritária" (ou "simples") baseia-se nos meios formações sociais do passado, que se encontram em
tradicionais do poder coercitivo (exército, polícia, via de extinção. burocracia, magistratura), possuindo, por isso, escassa Esta tipologia não é de fácil aplicação, seja porque
capacidade de propaganda e penetração direta nas os propósitos proclamados publicamente podem
instituições e nos grupos sociais, conseguindo apenas corresponder somente em parte às metas efetivas de
reprimir a oposição aberta e contentando-se com uma uma Ditadura, seja porque uma mesma Ditadura pode
massa apolítica e com uma classe dirigente disposta a apresentar — conjuntamente — tanto finalidades
colaborar. progressistas, quanto finalidades de tipo conservador
Temos os exemplos da Ditadura de Franco na ou reacionário.
Espanha, a de Salazar em Portugal e a dos coronéis na A segunda dificuldade pode ser superada, dentro de
Grécia (v. AUTORITARISMO). certos limites, introduzindo a ulterior categoria das
A "Ditadura totalitária" emprega, além dos meios "ditaduras mistas" (ou "termidorianas") que se
coercitivos tradicionais, o instrumento peculiar do caracterizam pelo equilíbrio dos objetivos partido único de massa, tendo assim condições de revolucionários e conservadores e que tendem a se
controlar completamente a educação e os meios de instaurar depois de uma revolução brutal e
comunicação e também as instituições econômicas. demasiadamente avançada com relação à formação da
Além disso, pode exercer uma pressão propagandística classe dirigente (típica, neste sentido, é a Ditadura de
permanente e penetrar em cada formação social, e até Napoleão). Também a primeira dificuldade pode, em
na vida familiar dos cidadãos, suprimindo qualquer parte, ser superada se olharmos o real funcionamento
oposição e até as críticas mais leves, através de dos regimes ditatoriais, as castas e as várias classes
especiais aparelhos políticos, de polícia e de terror, sociais que as apóiam. Neste último sentido, Neumann
impondo assim a aceitação entusiástica do regime a afirma que as Ditaduras podem ser a expressão, ou de
toda população. classes destinadas a desaparecer e que, portanto,
Os exemplos clássicos são os da Alemanha nazista e procuram subverter a situação político-social vigente
os da Rússia do período stalinista (v. T para assenhorar-se da velha superioridade (exemplo do OTALITARISMO ,
onde é discutido também o espinhoso problema da nazismo) e que podemos chamar de "Ditaduras
extensão do conceito). Entre estes dois tipos de reacionárias", ou de classes em declínio, que buscam
Ditadura, Neumann coloca as "Ditaduras cesaristas" manter a todo custo, suas posições (exemplo, a
que são, geralmente, Ditaduras pessoais, caracterizadas Ditadura de Franco). Estas últimas podem ser
pelo fato do ditador ser ou sentir-se obrigado a formar chamadas de "Ditaduras conservadoras". Temos
um apoio popular para conquistar ou exercer o poder, também as classes em ascensão, não reconhecidas ou mesmo para ambas as coisas. O elemento cesarista, politicamente, mas que buscam impor seus próprios que comporta um fascínio exercido pelo chefe sobre a interesses. Estas podem ser chamadas "Ditaduras massa, evidenciando assim um claro componente revolucionárias". carismático, geralmente falta nas "ditaduras simples", Neumann afirma também que as "Ditaduras
mas está sempre presente nas "ditaduras totalitárias". revolucionárias" têm vida muito breve, quando as
As "Ditaduras cesaristas" se distinguem das classes em ascensão possuem um alto grau de
"totalitárias" porque não possuem um partido único de amadurecimento político (exemplo, a Ditadura de
massa, nem outros instrumentos de controle e Cromwell ou a de Robespierre), ou então se
penetração total da sociedade. São exemplos de transformam em permanentes, quando as classes em
"ditaduras ascensão possuem um grau muito baixo de cesaristas" não-totalitárias, segundo
Neumann, as de Pisístrato, de Júlio César, de Cola di amadurecimento político (exemplo, a Ditadura de
Rienzo, de Cromwell e de Napoleão. Lenin).
Em relação ao Segundo Duverger, que adota uma dicotomia de fim, distingue-se entre "Ditaduras
revolucionárias" e "Ditaduras conservadoras" ou "de "Ditaduras revolucionárias" e "Ditaduras
ordem". As "Ditaduras revolucionárias" visam abater reacionárias", a maior parte das Ditaduras (tiranias)
ou minar, de forma radical, a velha ordem político- gregas dos séculos VII e VI foram de tipo
social e introduzir uma ordem nova ou renovada. As "revolucionário", enquanto, tanto na Roma do século I
"ditaduras conservadoras" têm como finalidade a.C, quanto na história do século XX, nos defrontamos
defender o com uma concatenação dialética de "Ditaduras status quo dos perigos de uma mudança.
Por vezes se acrescenta, ainda revolucionárias" e "reacionárias". Sempre com
referência às suas metas finais, podemos falar em
"Ditaduras pedagógicas", que têm como finalidade
criar as condições sócio-políticas
376 DITADURA
para a instauração da democracia (parece que foi acabando por colocar uns contra os outros, recorrendo
assim a Ditadura de Pisístrato). às mais duras sanções, e/ou porque usufruem grandes
Temos também as "Ditaduras de desenvolvimento", vantagens materiais e de prestígio em virtude de seus
bastante parecidas com as "Ditaduras pedagógicas", se cargos ou da vizinhança com a fonte do poder. tomarmos como protótico a Ditadura de Ataturk, na A personalização do poder é, às vezes, tão
Turquia, principalmente dirigida a preparar uma acentuada que os próprios traços psicológicos do
democracia política, ou então consideravelmente ditador se tornam um componente significativo do
diferentes, se por desenvolvimento entendermos funcionamento do regime. Uma conseqüência precipuamente o desenvolvimento econômico. Neste freqüente disto é a incapacidade do sistema de
último sentido, as "Ditaduras de desenvolvimento" se perceber e elaborar convenientemente as retroações e,
justificam, geralmente, com base na necessidade que em geral, as mensagens provenientes do ambiente. devem enfrentar as elites modernizantes de muitos A constante preocupação dos colaboradores em
países subdesenvolvidos de construir, de maneira conservar os favores do ditador ou em evitar a sua
coercitiva, as premissas econômicas e políticas do cólera e os efeitos desta tende a distorcer o fluxo das
desenvolvimento, mesmo diante de uma situação informações e das interpretações dos fatos nas direções
evidentemente hostil, seja pelas resistências de velhas mais favoráveis para eles, e que pareçam gratificantes
elites feudais e tradicionais, seja pelo atraso da cultura conforme as preferências e expectativas do chefe.
política das massas. Como conseqüência, o ditador paira sempre numa
As figuras das "Ditaduras pedagógicas" e "de característica atmosfera de irrealidade. Nas "Ditaduras
desenvolvimento" são, sem dúvida, sugestivas, mas oligárquicas", que podem ser regimes relativamente
trazem graves problemas quando de sua aplicação permanentes (como a Ditadura soviética na sua fase
prática, pois sua natureza as impede de ser pós-stalinista), ou formas de transição entre uma e
individualizadas, como as "Ditaduras revolucionárias" outra "Ditadura pessoal", o poder é então e "conservadoras", segundo os critérios usados para as compartilhado pelo restrito número de pessoas que
castas e classes sociais que as sustentam. compõe o organismo ou o grupo de cúpula do sistema
Com referência aos caracteres da elite dominante, (junta, comitê, diretório, tróica, etc). Neste caso, a
os critérios de classificação mais relevantes são o tipo distribuição do poder cria uma dialética de controle e
de origem ou de recrutamento do pessoal político de limitação recíproca entre os chefes, que tira do regime
cúpula e a distribuição interna do poder. Com base no seu caráter de autocracia e, às vezes, tende também a
primeiro critério, distingue-se entre "Ditaduras mitigar — mesmo sem prejudicá-lo em sua substância
militares" (especialmente típicas do continente latino- — o seu caráter absoluto.
americano, mas, atualmente, cada vez mais difundidas Para aumentar o próprio poder ou para não o ver
também noutros lugares) e "Ditaduras políticas", diminuir, cada chefe pode ser induzido a juntar-se
conforme o pessoal de cúpula provenha ou seja com esta ou aquela facção da classe dirigente
recrutado nas fileiras do exército, ou ainda pertença a subordinada, transformando-se, dentro de certos
uma facção da classe política, geralmente um partido limites, no seu representante. Quanto mais esse
político que se transforma em partido único após a fenômeno se manifesta, tanto mais vai aparecendo uma
conquista do poder. certa corrente, mesmo que limitada, de pressões e
Com referência aos regimes ditatoriais já consolidados limitações, que são exercidas de fora sobre o Governo
e que tenham chegado à segunda geração, fala-se ditatorial.
também de "Ditaduras burocráticas" ou "de aparelho", Falaremos agora do critério classificatório que diz
quando o recrutamento da elite se processa através da respeito à propriedade da ideologia. Uma primeira
cooptação dos elementos no interior de uma forma de distinguir as Ditaduras sob este aspecto é a
organização já burocratizada. de considerar o grau de sua elaboração ideológica,
Com base nesse critério, pode-se distinguir entre conforme uma gama contínua, que vai de um grau
"Ditaduras pessoais" e "Ditaduras oligárquicas". Nas mínimo a um grau máximo de elaboração. No limite
"Ditaduras pessoais", todo poder concentra-se nas inferior, podemos colocar as "Ditaduras simples",
mãos do ditador. Seus mais chegados colaboradores caracterizadas por uma distância máxima entre regime
prestam-lhe uma obediência absoluta, porque têm uma e população, onde a elite dominante se mantém unida
fé cega no que acreditam ser seus dotes extraordinários principalmente pelos interesses de exploração. Como
e carismáticos; obedecem-lhe e/ou porque o temem, exemplo, temos certas Ditaduras latino-americanas de
pois o ditador alimenta sistematicamente suas caudilhos do século XIX e também do século XX,
suspeitas e seu terror,
DITADURA 377
tipicamente sem mitos. No limite superior, por um dinamismo transformador bastante escasso, encontramos as "Ditaduras totalitárias", nas quais o tendendo a depender, ao menos parcialmente de forças
esforço de mobilização da população e de seus sociais e econômicas externas e a fazer diminuir ao
recursos é levado até o paroxismo, justificado e longo do tempo, a importância do partido (exemplo: a
guiado pela ideologia, onde cada aspecto da vida e da Itália fascista, o Gana de Nkrumah, Cuba e a Argélia
atividade social obedece apenas aos imperativos de Ben Bella). políticos fundamentais. Na faixa intermédia e numa Finalmente, com referência à base social das sucessão de crescente elaboração ideológica, podemos Ditaduras, Maurice Duverger distingue entre colocar as "Ditaduras autoritário-conservadoras", as "Ditaduras sociológicas", que nascem de uma crise
"cesaristas" e as "autoritário-modernizantes". Em estrutural da sociedade, juntamente com uma crise de
geral, as "Ditaduras revolucionárias apresentam um legitimidade do poder político, e correspondem às
grau de elaboração ideológica maior em relação às necessidades de uma grande maioria da população, e
"conservadoras". As "Ditaduras militares" mostram um "Ditaduras técnicas", que têm origem numa crise
grau menor em relação às "políticas". apenas conjuntural, juntamente com um trauma do
Estudando apenas os sistemas ditatoriais sentimento público, que aparentemente não prejudica
monopartidários, nos quais a ideologia é quase sempre sua legitimidade, e corresponde apenas às a base de sua legitimidade, adquire relevo uma necessidades dos poucos que são seus protagonistas.
tipologia proposta por Clement H. Moore, fundada As "Ditaduras sociológicas" são endógenas, no
numa análise bem mais articulada dos caracteres da sentido de que em sua base existe uma situação que
ideologia. Este autor adota dois parâmetros: a envolve toda a sociedade, enquanto as "técnicas" são
finalidade oficial da ideologia, que distingue entre exógenas, no sentido de que em sua base estão fatores
transformação total e transformação parcial da externos ou fatores internos, porém isolados da
sociedade, e a função da ideologia, distinguindo entre sociedade em seu todo. função "instrumental", isto é, prática de um Esta tipologia foi severamente criticada, persistente guia de ação (que torna a ideologia especialmente por Sartori, seja pela terminologia que
acessível para a crítica racional), e a função adota, seja pela substância da distinção. Do ponto de
"expressiva", isto é, sem efeitos diretos para a ação, vista terminológico, a escolha de Duverger é deveras
mas que expressa um sentido de solidariedade e afirma infeliz. O objeto sociológico não indica uma qualidade
os sentimentos comuns dos membros do partido (o que específica de um fenômeno social, mas sim uma das
torna a ideologia inacessível para a crítica racional). maneiras de estudá-lo. Neste sentido, todas as
Combinando os dois parâmetros entre si, Moore Ditaduras são sociológicas. O adjetivo técnico não
obtém quatro tipos de ideologia: as ideologias expressa, absolutamente, a propriedade parasitária da "totalitárias" que são instrumentais e visam uma Ditadura que o termo deveria indicar. Do ponto de transformação total da sociedade; as ideologias vista substancial, a distinção, fundada como é no "tutelares", instrumentais, que visam apenas uma critério fugidio da correspondência ou não transformação parcial; as "quiliásticas", expressivas e correspondência entre as Ditaduras e as necessidades visando uma transformação total da sociedade; e, da população, parece bastante frágil e inspirada mais finalmente, as "administrativas", expressivas, tendo numa escolha de valor do que num acerto de fato. como finalidade uma transformação parcial. Destes Podemos ainda acrescentar que os exemplos de quatro tipos de ideologia, os três primeiros são "Ditaduras técnicas", apresentados por Duverger, são característicos dos regimes ditatoriais. Podemos, notavelmente heterogêneos e não podem sequer ser portanto, distinguir entre "Ditaduras monopartidárias comparados à estrutura do clássico regime ditatorial de ideologia totalitária", que adotam um grau máximo (as "Ditaduras pretorianas" da época romana, a de dinamismo transformador, apesar de sua clássica ocupação militar ou o domínio colonial estrangeiro, as instabilidade, que impõe o recurso ao expurgo e ao "máquinas" políticas dominantes em algumas cidades terror (exemplo: a Rússia stalinista, a China maoísta, a norte-americanas entre os séculos XIX e XX). Alemanha nazista), e as "monopartidárias de ideologia A tipologia de Duverger, todavia, tem ao menos o
tutelar", que alimentam um dinamismo transformador mérito de indicar um setor de pesquisa muito
mais limitado, mais moderado e muito mais flexível promissor e que até hoje foi escassamente sondado, o
com respeito ao dos outros sistemas totalitários (por que focaliza a base social das Ditaduras. Pensamos que
exemplo, a Tunísia, a Iugoslávia e a Turquia de uma pesquisa precisa e sistemática da natureza e da
Ataturk). configuração da classe dirigente e da classe dirigida e
Temos também as "Ditaduras monopartidárias de do relacionamento entre o Governo, classe dirigente e
ideologia quiliástica", que são caracterizadas classe dirigida,
378 DITADURA
que distinguem as várias Ditaduras, possa ser marxista, o Estado é uma máquina para a opressão de
realmente preciosa, não somente para construção de uma classe por parte de outra. Como também afirmou
uma tipologia pertinente, mas também pelo Engels no Antidühring (1878), a "Ditadura do
esclarecimento de diversos pontos até hoje ainda proletariado" é um semi-Estado ou quase-Estado, que
obscuros e incertos da teoria geral dos regimes não- se extingue quando vem a faltar o objeto da opressão,
democráticos modernos. isto é, a classe dominada. Por esta razão, seu caráter de
Barrington Moore Jr. já demonstrou a fertilidade Ditadura não figura num ordenamento político
desta aproximação, mesmo numa dimensão histórica especial, mas na relação de contraposição e de
muito geral, estudando as origens sociais da opressão entre uma classe dominante e uma classe
democracia, das Ditaduras fascistas e comunistas. dominada.
Com Lenin, o contexto teórico e prático no qual se
situa o conceito de "Ditadura do proletariado" muda
V. A DITADURA DO PROLETARIADO. — Em sensivelmente. De um lado, existe uma precisa
Conexão com a base social dos regimes políticos, conscientização de que a transição entre capitalismo e
temos a noção marxista e leninista de "Ditadura do comunismo constitui uma fase inteira da história. De
proletariado". Tendo seu lugar numa concepção que outro lado, a concepção do partido como "vanguarda
privilegia, de modo radical, o aspecto econômico- do proletariado" e a do "centralismo democrático" são
social, tal noção termina por designar alguma coisa que destinadas a transformar, de fato, a "Ditadura do
não é um estado particular, ou seja, uma forma de proletariado" em específica Ditadura política de
regimento político, mas a relação implícita de partido. Contudo, em Lenin, a expressão "Ditadura do
hegemonia de uma classe social (o proletariado) sobre proletariado" não define um particular regime político,
uma outra (a burguesia). Neste sentido, o significado mas uma relação subjacente entre as classes. Ditadura é
de Ditadura, que é próprio da expressão "Ditadura do um termo genérico que não pode servir para classificar
proletariado", torna-se secundário e anômalo em os Estados, visto que os qualifica a todos.
relação àquele que foi tratado até agora. Esse Em A revolução proletária e o renegado Kautsky
significado tem uma colocação legítima na história das (1918), Lenin argumenta difusamente sobre a tese de
doutrinas políticas, onde faz parte de uma teoria que todos os Estados são Ditaduras, essencialmente
particular e de uma particular justificação do poder. fundadas sobre a violência, enquanto expressões vivas
Assim mesmo, não é utilizável empiricamente na da luta entre as classes contrapostas e inconciliáveis, e
classificação dos regimes, porque não permite correspondentes à dominação e opressão de uma
individualizar uma forma específica de ordenamento classe sobre outra. Num parágrafo da obra Estado e
político. Revolução, que ele acrescentou na segunda edição de
Para Marx — que usou a expressão pela primeira outubro de 1818, escreve com clareza: "As formas dos
vez na Luta de classe na França (1850) e a retomou Estados burgueses são extraordinariamente variadas,
especialmente na Crítica do programa de Gotha mas sua substância é única: todos estes Estados são,
(1875) —, a "Ditadura do proletariado" é a de uma maneira ou de outra, em última análise,
organização do ato revolucionário do proletariado, necessariamente uma "Ditadura da burguesia". A
correspondente à fase intermédia entre a destruição do passagem do capitalismo para o comunismo, Estado burguês e o surgimento da sociedade sem naturalmente, não pode deixar de produzir uma enorme
classes. Marx nunca especificou, e declarou que não se abundância e variedade de formas políticas, porém, a
podia especificar, a peculiar forma política que tal substância será inevitavelmente uma só: a "Ditadura
Ditadura deve assumir. De um lado, a "Ditadura do do proletariado". proletariado" comportava o desmantelamento do Mesmo obedecendo à concepção marxista, este
Estado burguês: a abolição da burocracia, da polícia e significado do termo Ditadura não atinge o problema
do exército permanente, como emerge de sua obra do tipo de regime político que o predomínio (a
sobre a comuna de Paris. De outra parte, a "Ditadura Ditadura) de uma ou de outra classe pode assumir de
do proletariado" comportava o exercício da violência fato e, por isso, não pode, tampouco, atingir a
armada do proletariado por todo o período transitório, possibilidade de que o predomínio de classe assuma
que deveria desembocar na completa extinção do uma forma política específica não-ditatorial. Este Estado e na sociedade sem classes. ponto foi particularmente esclarecido por Norberto
O que é certo é que, para Marx, Ditadura é, Bobbio.
literalmente, "Ditadura do proletariado" sobre a
Aceitando chamar de "Ditadura da burguesia"
burguesia, seja qual for a modalidade política concreta qualquer regime no qual a classe burguesa é a classe
que esta possa assumir. Na concepção dirigente e hegemônica, devemos admitir
DOMINATO 379
que esta Ditadura pode ser exercida de duas formas o período do advento ao poder de Diocleciano (ano
muito diversas: com uma forma de Governo liberal- 284 d.C.) ou, conforme alguns estudiosos, a época que
democrático, e com uma forma de tipo antiliberal e vai desde Constantino (que coincide com a vitória de
antidemocrático, à qual somente a linguagem política Ponte Mílvio, em 312 d.C.) até a queda do Império
comum reserva o termo específico de Ditadura. Romano do Ocidente (476 d.C). Desejando, porém,
Alguma coisa parecida se poderia dizer da "Ditadura obedecer à problemática jurídica (especialmente a
do proletariado". Surge então a questão terminológica privativa, mas também a publicista), devemos então
se convém empregar o mesmo nome de Ditadura para lembrar o período que chega até a morte do imperador
designar dois fenômenos diferentes ou se não é do Oriente Justiniano (565 d.C). oportuno substituir a palavra em um dos dois usos. Recapitulemos brevemente os fatos que ocorreram
Nesta segunda hipótese, Bobbio sugere empregar a desde a queda da dinastia dos Severos até Diocleciano
expressão usada por Gramsci de "hegemonia", para e, depois, até Constantino, a fim de poder ilustrar a
designar a primazia política de uma classe sobre outra. instauração do novo regime jurídico e político. Aceitando, porém, a primeira, devemos distinguir A morte de Alexandre Severo (235 d.C.) abre no
entre uma Ditadura (hegemonia de classe) liberal Estado romano um turbulento tempo de anarquia
(quanto ao seu regime político) e uma Ditadura militar. No breve período da subida ao poder de
ditatorial. De qualquer modo, mesmo quem aceitar a Massimino, o Trácio (ainda 235 d.C.) a Numeriano
tese marxista do Estado como instrumento de domínio (284 d.C), contam-se de fato vinte e quatro
de classe é obrigado a admitir que este domínio pode imperadores. A estes devemos acrescentar os
expressar-se politicamente na forma de um Governo chamados trinta tiranos (isto é, pretendentes ao poder
ditatorial ou na de um Governo não-ditatorial. imperial). As causas desta crise foram
individualizadas de diversas formas pelos historiadores. Uma das teses mais importantes é a de
BIBLIOGRAFIA- N. BOBBIO. Democrazia e dittatura. Rostovzev, que focaliza a existência de uma luta de
in Política e cultura. Einaudi, Torino 1955; A. COBBAN. classes entre os camponeses e os privilegiados
Dictatorship: Its history and theory. London e New habitantes das cidades. York 1939; M. DUVERGER, La dittatura (1961), Hoje, porém, considera-se que na base da crise
Comunità, Milano 1961; C. J. FRIEDRICH, La dittatura existiam muitas causas (políticas, sociais, econômicas,
costituzionale e il governo militare. c. XXVI de militares, etc). Estas causas, interagindo, teriam 2 Governo costituzionale e democrazia (I950 ), Neri provocado uma verdadeira "desintegração" da ordem Pozza, Venezia 1963; B. MOORE JR., Le origini sociali constituída. Nessa crise, a partir do longo reinado de della dittatura e della democrazia (1965), Einaudi. Galieno (de 253 a 260 d.C. reinou juntamente com o
Torino 1969; C. H. MOORE, The single party as a pai, e de 260 a 268 sozinho), inserem-se elementos
source of legitimacy, in Authoritarian politics in inovadores para uma recomposição constitucional
modern society. ao cuidado de S. P HUNTINGTON e C. (que se traduziu, na ocasião, na exclusão dos H. MOORE, Basic Books, New York 1970; F. senadores do comando militar). Uma certa NEUMANN, Note sulla teoria della dittatura, in Lo stato estabilização política começa a surgir a partir do final
democratico e lo stato autoritario (1957), Il Mulino, da anarquia militar propriamente dita, ou seja, no Bologna 1973; C. ROSSITER, Constitutional dictatorship. início do reinado de Aureliano (um dos restitutores Princeton University Press. Princeton 1948; G. SARTORI, ilíricos, que reinou de 270 a 275 d.C). O poder de
Appunti per una teoria generale della dittatura. in Aureliano é decisivamente militar; é muito Theorie und Politik. Festschrift zum 70. Geburtstag für significativo o apelido de domnus et deus que ele
C. J. Friedrich, ao cuidado de K. VON BEYME, Nijhoff, recebeu (embora não seja uma novidade absoluta). 2 L'Aia 1971; C. SCHMITT, La dittatura (1928 ), Após uma última tentativa de restaurar o pleno poder Laterza, Bari 1975. dos senadores, com Tácito e Probo, abre-se,
praticamente, a era diocleciânica.
[MARIO STOPPINO]
Diocleciano, também de origem ilírica, conquistou
sozinho o poder em 285 d.C, criando assim as
premissas para uma série de importantes inovações.
Divisão dos Poderes. — V. Constitucionalismo. Lembramos aqui as relativas à organização territorial
(as províncias fracionadas foram reconstituídas em
dioceses bem mais amplas), ao exército (com a
distinção entre tropas estáveis, distribuídas ao longo
Dominato.
das fronteiras, e exército
I. DA ANARQUIA MILITAR A DIOCLECIANO. — Por
Dominato ou monarquia absoluta entende-se
380 DOM INATO
móvel, que acompanhava sempre o imperador e por mesmo as de ordem dogmática. Temos assim o início
isso dependia de seu comando direto), e às inovações do chamado "papismo cesarista". relativas à economia em geral (com reformas Com as reformas, a opinião mais difundida é aquela
monetárias, fiscais e com a promulgação de um que vê Constantino como um continuador, neste
edictum rerum venalium, isto é, de um tabelamento campo, da obra de Diocleciano, mas não faltam
dos preços). problemas nos quais a posição constantiniana se
A respeito do fundamento constitucional e político destaca decisivamente da de Diocleciano. Além de uma
do poder imperial, podemos falar de uma monarquia ampla reorganização da administração central do
do tipo militar, porque o imperador é aclamado pelo Estado, lembramos a reforma da prefeitura do Pretório,
exército. É duvidoso que ao exército tenha se juntado agora vista como um órgão de Governo com
o Senado. Ao fazermos uma comparação com as circunscrições territoriais (por isso, a multiplicação
monarquias do tipo oriental, devemos admitir que dos prefeitos) já sem poderes militares. mesmo estando presentes na monarquia de
Outras inovações importantes referem-se ao
Diocleciano muitos elementos religiosos, não se pode exército (com um incremento da armada móvel,
ainda falar de uma verdadeira concepção teocrática do diminuindo o poder das de fronteira) e à moeda (com
poder. a cunhagem de uma nova moeda de ouro. o solidus, e
Este fato impede alguns historiadores de com o abandono do curso fiduciário da moeda de
reconhecerem em Diocleciano o autêntico fundador cobre, que era usada para as normais trocas
do Dominato e os leva a identificarem Constantino comerciais). como o verdadeiro autor do novo curso institucional.
Lembramos ainda que, enquanto Diocleciano
Aceitando-se esta interpretação, deve-se sublinhar mais
apareceu, no conjunto de sua legislação individualista,
uma vez a complexidade das passagens, que levam até
como um defensor do direito romano clássico,
a afirmação total e exclusiva de elementos já presentes
Constantino mostra-se muito mais propenso a ceder e
in nuce no primeiro principado, juntamente com a
a dar reconhecimento às normas jurídicas de origem
resistência das formas e dos órgãos da Constituição
oriental. Finalmente, também a fundação de
republicana.
Constantinopla assume, neste quadro, um caráter
simbólico. A parte as razões da decisão imperial, a
II. CONSTANTINO. A INSTAURAÇÃO DO "DOMINATO".
— Após a falência do sistema tetrárquico, inventado por fundação dessa nova cidade significa, praticamente,
que Roma não é mais o único centro do Império e que
Diocleciano para assegurar uma transferência pacífica
a distinção entre a parte ocidental e a oriental tende
dos poderes imperiais. Constantino fica no poder,
cada vez mais a ser institucionalizada.
juntamente com Licínio, em 312 d.C, depois fica
sozinho em 324 d.C. A monarquia de Constantino III. SOCIEDADE E ECONOMIA NO BAIXO IMPÉRIO. — Não
marca a ruptura definitiva com o passado. A forma
é possível, chegando a este ponto, delinear a história
monárquica já não mais se justifica pela necessidade
de preservar o Império Romano da dissolução, mas do Dominato depois de Constantino. Bastará destacar
corresponde a uma precisa escolha política. A que a divisão do Império em duas partes fica
concentração do poder — de todo poder — nas mãos definitivamente estabelecida após 395 d.C. Isto
explica, entre outras coisas, por que a queda do
de uma única pessoa fica definitivamente ligada a uma
visão teocrática, isto é, à concepção do imperador Império Romano do Ocidente não levou consigo o
como representante de Deus na terra, mesmo se Império oriental. Constantino não explora esta situação para aproveitar Nos limitaremos, portanto, a fixar alguns caracteres
suas conseqüências no plano da sucessão imperial. fundamentais da sociedade e da economia do Baixo
Quanto aos eventos fundamentais do reinado de Império.
Constantino, devemos focalizar, em primeiro plano, o O dado mais curioso é o da criação de uma série de
reconhecimento legal do cristianismo, com o famoso vínculos que tornam obrigatórias e hereditárias
édito de Milão (aliás ponto hoje bastante discutido algumas profissões (e pertencer as suas relativas
pelos historiadores). Este édito, não somente acaba corporações). Fenômeno análogo é aquele da difusão
com um período de perseguições (que foram do colonato, pelo qual o colono era obrigado a uma particularmente ásperas com Diocleciano), mas lança as forma de servidão na terra que trabalhava. Sua
bases para uma rápida mudança de posições, que leva a condição jurídica de ser livre transformava-se assim, de
reconhecer ao cristianismo uma posição de clara fato, num estado muito parecido com o do escravo. É
supremacia. Paralelamente, surge um outro fenômeno: evidente que estas novas situações sócio-econômicas
a ingerência do Estado nas questões internas da Igreja, têm uma estreita relação com a decadência do regime
DOUTRINA 581
escravocrata, decadência cujo alcance seria muito afirma que a revolta das classes camponesas, já
discutível. individualizada como crucial em outras ocasiões
Nasce, nesta época (a propósito da qual um históricas, contribuiu bastante para a decadência e, a
historiador falou de socialismo de Estado ou, ao seguir, a queda defintiva da civilização romana. menos, de dirigismo), também, uma empresa pública Os historiadores mais modernos, porém, estão
dedicada à produção das aparelhagens bélicas. inclinados a aceitar visões mais ecléticas, achando que
Certamente a atenção do Estado foi a queda final do Império deve-se a uma série de
particularmente atenta para os problemas monetários, fatores. Entre os dados que melhor documentam a
num ambiente conturbado pela tendência do contínuo extensão da crise, podemos lembrar. a título de
aumento dos preços (em certos momentos, exemplo, a expansão do patrocinium, como um irrefreável); assim sendo, sucederam-se políticas verdadeiro protetorado interessado, dos potentiores, monetárias de vários tipos, inflacionárias e isto é, das classes mais elevadas sobre as classes mais
deflacionárias. Um refúgio contra a desvalorização humildes e indefesas. Muitas vezes, esta proteção
parece ser obviamente a propriedade dos bens reais, e coercitiva era exercida por altos funcionários civis ou
alguns estudiosos falaram até do abandono da militares, mostrando assim o claro desmantelamento
economia monetária para uma volta à economia das instituições do Estado. natural. Ê óbvio, porém, que os vários fatores da crise
Com referência às classes sociais, além daquilo assumiram um peso diferente quando tratados em cada
que já foi dito, vale lembrar a formação de uma tese eclética. Com base nesta perspectiva, é claro que
classe curial, ou seja, de cidadãos pertencentes ao a historiografia marxista tende a a t r i b u i r a máxima
Senado da cidade. Os curiais de todo o Império importância às causas econômicas, muito tinham em comum uma série de problemas e, em especialmente ao declínio da economia escravocrata,
particular, a responsabilidade das obrigações fiscais sem que os escravos fossem substituídos por outras
das comunidades urbanas. Este fato os obrigou, forças de trabalho mais adequadas. Parece-nos, porém,
mesmo em face às diferentes condições econômicas oportuno, para ficar apenas na área econômica, que
de cada cidade, a amadurecer a consciência, essencial sobre as classes tipicamente acumuladoras de bens
identidade do seu estado jurídico. pesava há tempos o ônus da manutenção de um
A classe social mais elevada continuou sendo a do aparelho burocrático e militar de grandes proporções.
Senado (na época existiam dois Senados, um em Finalmente, os fatos mostram que a incidência de cada
Roma e outro em Constantinopla). A cavalaria gozou fator da crise deve ser avaliado num quadro histórico
de vários períodos de maior influência, mas já a muito mais amplo e articulado. partir do século IV ela figurava essencialmente numa
condição inferior à classe senatorial.
IV. A QUEDA DO IMPÉRIO ROMANO. — Falaremos BIBLIOGRAFIA.- F. DE MARTINO. Storia della
agora brevemente da queda do Império Romano e de costituzione romana. Jovene. Napoli 1975, V, 5.º; A. suas causas. É óbvio que nos referimos à queda do H. M. JONES. Il tardo impero romano (1964), trad. Império ocidental, porque o Império Romano do ital., Il Saggiatore, Milano 1973-1974; S. MAZZARINO. Oriente continuará ainda a existir por muitos séculos L' impero romano. 2 II-III, Laterza, Bari 1976; E. STEIN, após Justiniano, até a tomada de Constantinopla Histoire du Bas-Empire. I, 1 e 2, De l'Étai romain à pelos turcos, em .1453 d.C. l'Étai byzantin (284-476), e II, De la disparition de
A propósito deste tema, certamente fascinante, as l'Empire d'Occident à la mort de Justinien (476-565).
teses dos estudiosos são muito contrastantes e (1949), Hakkert. Amsterdam 1968. refletem, freqüentemente, as várias visões de
[ROBERTO BONINI]
conjunto do desenvolvimento histórico. Lembramos
aqui a boa acolhida e as críticas favoráveis que a tese
de Gibbon suscitou. Ele via no predomínio da
religião cristã o mais importante fator da decadência
Doutrina.
romana. Outras opiniões, porém, mostram uma faceta
pessimista da sucessão das várias classes no
Governo. Seeck acha que a queda do Império deve-se O termo assume múltiplos significados, que se
à desenvolveram a partir de sua origem etimológica decadência demográfica da velha classe
aristocrática. Por sua vez, Rostovzev latina doctrina que, por sua vez, vem de doceo,
"ensino". O sentido mais antigo, portanto, é de ensino
ou aprendizado do saber em geral, ou do
382 DOUTRINÁRIO
ensino de uma disciplina particular. Ao longo do tempo uma nova ordem social baseada na renovação dos
perdeu-se como significado primário aquele relativo espíritos e na subordinação da economia à moral cristã,
ao ensino e o termo firmou-se, cada vez mais, como e não sobre o marxismo materialista, com todas as
indicador de um conjunto de teorias, noções e suas conseqüências, como o excessivo poder do
princípios, coordenados entre eles organicamente, que Estado e a desvalorização da pessoa humana.
constituem o fundamento de uma ciência, de uma A Doutrina social-cristã garante a propriedade como
filosofia, de uma religião, etc, ou então que são instrumento de liberdade, mas condena seus abusos
relativos a um determinado problema e, portanto, individualistas. Propõe, então, intervenções do Estado
passíveis de ser ensinados. para limitar a superpropriedade e para centralizar em
O significado mais comum é aquele que se refere a suas mãos a riqueza. Procura tutelar o proletariado,
uma religião e indica seu conjunto de ensinamentos permitindo que ele chegue à propriedade, seja
dogmáticos e morais e de normas litúrgicas, assim mediante a difusão da pequena propriedade agrícola,
como o texto que as engloba. Por antonomásia, na seja através da participação operária na propriedade e
nossa civilização, a Doutrina é a cristã ou o livro que nos lucros das empresas. Além disso, condena,
contém seus princípios, quase sempre de maneira parcialmente, o sistema do assalariado, auspiciando a
simples e explicativa. Na história política e na história evolução da forma salarial e associativa, da qual
da filosofia política e jurídica, porém, têm muita deveria surgir a destruição do predomínio do capital e
relevância outros significados. Em direito, com o a instauração de uma sociedade de proprietários.
termo Doutrina indica-se o estudo e a elaboração das Surge esta Doutrina, primeiro na Itália, depois na
normas jurídicas e a interpretação teórica do direito, Alemanha, França e Inglaterra, onde o sistema
muitas vezes em contraposição com a jurisprudência, capitalista é mais desenvolvido e o marxismo passa a
que se refere à interpretação do direito que o juiz difundir-se cada vez mais. Em 1891, Leão XIII aprova
cumpre em vista de sua aplicação. a Rerum Novarum. Após uma grave crise que culmina
Em política, o termo assume significado particular, nos anos entre 1907 e 1910, quando muitos de seus
especialmente na linguagem diplomática americana, expoentes condenaram o modernismo, esta volta a ter
quando designa a enunciação formal da parte do chefe todo o vigor, particularmente após a Primeira Guerra
do Estado, ou de um homem político, responsável por Mundial.
uma linha política que seu país terá que seguir numa
determinada área das relações internacionais
(exemplo, a Doutrina de Monroe, de 1823, que se [SAFFO TESTONI BINETTI]
resume na fórmula "A América para os americanos", e
enuncia o princípio de que a Europa não deve intervir
Doutrinário.
nos assuntos americanos; a Doutrina de Stimson, de
1932, na qual se declara à China e ao Japão a intenção
do Governo de Washington de não reconhecer O termo indica, em geral, quem obedece rigidamente
nenhuma situação que seja contrária ao Pacto Brian- aos princípios da própria doutrina, prestando atenção à
Kellogg, de 1928; a teoria no seu sentido abstrato, mais do que no prático; Doutrina de Drago, de 1902, na
qual o Governo argentino enuncia suas teses acerca em política, a expressão indica quem segue
das responsabilidades de um Estado em relação a servilmente os princípios de uma doutrina política,
países estrangeiros, com referência às dívidas públicas sem levar em conta a situação concreta.
contraídas pelos Governos que os precederam; a Historicamente, distinguem-se duas claras acepções
Doutrina de Truman, do termo. Em 1747, constitui-se uma "congregação de de 1947, que trata das relações
entre a Europa ocidental e o bloco soviético). Doutrinários" (do latim Congregatio Presbyterorum
Na filosofia política, o termo Doutrina política doctrinae christianae), congregação religiosa na qual
indica, geralmente, um complexo orgânico de idéias, confluem congregações já existentes com o objetivo de
difundir mais amplamente a doutrina cristã. Seu
resultado de uma reflexão metódica e com referência a
fundador reconhecido é Cesare de Bus (1544-1607), na
este significado fala-se de história das Doutrinas
políticas. Finalmente, tem relevância política a partir realidade fundador de uma das congregações
da segunda metade do século XIX, como reação precedentes, que foi suprimida em 1870.
Na história política tem maior relevância o partido
contra as conseqüências do regime capitalista e em
que vem indicado com a expressão "Partido dos
contraposição às instâncias do pensamento marxista, a
denominada Doutrina social-cristã, que seria o Doutrinários" (do francês Les Doctrinaires).
enunciado dos princípios da sociologia cristã,
tendentes a fundar
DOUTRINÁRIO 383
Trata-se de um partido monárquico-constitucional construir a nova nação, contra as tendências da
francês que surge com a restauração de Luís XVIII. extrema esquerda, constituída, em grande parte, pelos
Os seus chefes são: P. P. Royer Collard, F. P. G. homens que, fiéis a um passado de despotismo
Guizot, P. F. H. de Serre, J. C. Beugnot, P. de Barante, napoleônico, acham agora insuficientes as liberdades
C. Jordan, aos quais mais tarde se juntam os mais concedidas pela Carta e também contra os ultras da jovens A. Ch. L. V. de Broglie e Ch. de Rémusat. Não direita, que não admitem limitações à autoridade
obstante o pequeno número de seus componentes, o monárquica e aspiram a uma total restauração do
Partido dos Doutrinários é heterogêneo; sua ideologia, Ancien Régime. em geral, apóia-se num constitucionalismo tendente a Os Doutrinários se consideram técnicos do regime
garantir a ordem pública e, após a experiência da era constitucional, não se preocupam com o problema da
napoleônica, na total aversão ao cosmopolitismo, e soberania, que consideram um atributo exclusivamente
defende a Carta octroyée, de 1814. Esta concede, entre divino. Ocupam-se, especialmente, da sociedade
outras coisas, a igualdade diante da lei; a liberdade de concebida como organismo, do reconhecimento da
consciência, de palavra e de imprensa; a abolição do parte da monarquia, das diversas funções sociais, de
regime dos direitos feudais; confia o poder executivo suas autonomias e liberdades, assim como da tutela
ao rei e o legislativo às duas Câmaras (uma Câmara dos dos direitos constituídos. Querem com isso conciliar a
Pares, nomeada pelo rei e de caráter hereditário, e uma nova França com o seu passado, mas demonstram
Câmara dos Representantes, eleitos por sufrágio escassa visão da realidade quando, falida a conjunção
censitário). A iniciativa legislativa, porém, é de entre seu esquema jurídico ideal e a monarquia dos
exclusiva competência da coroa. Os Doutrinários, Bourbons, não conseguem criar um novo esquema que
portanto, sustentam as principais conquistas da se adapte à realidade da situação. Revolução Francesa e com base nestas querem
[SAFFO TESTONI BINETTI]