Dicionário de Política (Volume 1)
de todas as saídas de um determinado…
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de todas as saídas de um determinado espaço) ou poder coercitivo a Violência intervém sob a forma de
através da destruição, da danificação ou da subtração punição, quando a ameaça não conseguiu a finalidade
dos recursos materiais. Em ambos os casos, o desejada, e sanciona neste caso a falência do poder.
resultado é o mesmo: uma modificação prejudicial do Na Violência que golpeia e suprime um mártir,
estado físico do indivíduo ou do grupo que é o alvo expressa-se, de uma parte, a superioridade da força do
da ação violenta. perseguidor, mas, de outra, expressa-se também a
Entendido no sentido puramente descritivo, o termo impotência de suas ameaças mais graves para dobrar a
Violência pode considerar-se substancialmente vontade do mártir, que prefere a morte a renegar seu sinônimo de força (para as relações entre estes dois deus. Devem, porém, distinguir-se da Violência as
conceitos v. FORÇA). Ele, porém, distingue-se de relações de poder coercitivo que se baseiam em
maneira precisa da noção de "poder". O poder é a sanções diferentes da força: por exemplo, um prejuízo
modificação da conduta do indivíduo ou grupo, dotada econômico, a retirada do afeto de uma pessoa amada,
de um mínimo de vontade própria (v. PODER) . A a destituição de um cargo, a retirada do respeito de um
Violência é a alteração danosa do estado físico de grupo de amigos ou colegas, etc. Em relação a estes
indivíduos ou grupos. O poder muda a vontade do tipos de poder coercitivo, fala-se muitas vezes de
outro; a Violência, o estado do corpo ou de suas Violência, assim como se fala, algumas vezes, de
possibilidades Violência referindo-se à MANIPULAÇÃO (V ambientais e instrumentais. .) . É Naturalmente as intervenções físicas podem ser indubitável que este emprego de Violência pode achar
empregadas como um meio para exercer o poder ou justificativa na ampla área de significados que é
para aumentar o próprio poder no futuro. Grande parte própria da palavra na linguagem comum, pois os
de quanto vamos analisar mais adiante é dedicada poderes de coerção e de manipulação são todas as
exatamente ao exame das funções que tais intervenções relações nas quais quem exerce o poder obriga o
podem ter nas relações de poder próprias do domínio outro, abertamente ou de maneira velada, a manter
político. Isto, porém, não muda o fato de que, por si uma conduta desagradável e por isso de qualquer
só, independentemente dos seus efeitos mediatos, a modo faz Violência à sua vontade. De outra parte, o uso
intervenção física é Violência e não poder. A distinção indiscriminado do termo Violência, designando todas
entre Violência e poder é importante mesmo sob o estas relações de poder, além das intervenções físicas,
aspecto dos resultados que será possível produz o grave dano de colocar, na mesma categoria, respectivamente obter com estes dois métodos de relações que são muito diversas entre si pelos
intervenção. Com o poder, ou seja, intervindo sobre a caracteres estruturais, pelas funções e pelos efeitos,
vontade do outro, pode-se obter, em hipótese, qualquer conseqüentemente provocando mais confusão do que
conduta externa ou interna, tanto uma ação como uma clareza. Assim sendo, é mais oportuno designar essas
omissão, tanto um acreditar como um desacreditar. relações de poder com os termos mais corretos de
Com o único meio imediato da Violência, isto é, "coerção" e "manipulação", que têm melhores
intervindo sobre o corpo, pode-se obter uma omissão: condições para expressar também aquele elemento de
imobilizando ou prendendo a vítima podemos impedi- opressão que se desejaria evidenciar usando a palavra
la de realizar qualquer ação socialmente relevante, Violência, reservando para a palavra Violência a
mas alterando o estado físico do outro não se pode definição restrita e técnica que apresentamos acima e
obrigá-lo a fazer nada de socialmente relevante. Assim que prevalece na literatura política e sociológica.
como não se pode fazer com que ele acredite em Esclarecida assim a distinção analítica entre
alguma coisa, nem podemos impedir que ele acredite ameaça de Violência e Violência em ato, é preciso
em alguma coisa a não ser que recorramos à medida evidenciar a conexão significativa que existe entre estes
extrema de suprimi-lo. Neste campo, todavia, a dois fenômenos. Numa relação de poder coercitivo,
bioquímica e a farmacologia não estão longe de criar baseada em sanções físicas e dotada de uma certa
instrumentos de intervenção física que poderão anular, continuidade, o uso da Violência como punição para
numa medida maior ou menor os tradicionais limites uma desobediência, enquanto mostra a ineficácia da
da eficácia da Violência. ameaça, no caso particular da desobediência, pode, ao
A distinção entre Violência e poder envolve mesmo tempo, acrescentar a eficácia da ameaça,
também o poder coercitivo baseado nas sanções físicas portanto, do poder coercitivo para o futuro. A eficácia
e comporta, por isso, a distinção entre Violência em de uma ameaça depende, de fato, de um lado, do grau
ato e ameaça de Violência. Com efeito, esta distinção de sofrimento que pode ocasionar o interventor físico
é importante, se prescindirmos de alguns casos- no ameaçado e, de outro lado, o grau de sua limite, pois nas relações do
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credibilidade. A credibilidade da ameaça depende, uma omissão, e a ameaça da Violência ou a sua
por sua vez, de o ameaçado reconhecer que aquele aplicação tem uma função aterrorizadora. Aqui entra o
que faz a ameaça possui os meios para efetuá-la, além segundo ponto: a função de aterrorizar da Violência é
de estar realmente determinado a fazê-lo. Nada prova indispensável, pelo menos, para obter a finalidade
melhor estes dois requisitos de credibilidade da mínima de um Governo, isto é, a manutenção das
ameaça do que o fato de que o elemento ameaçador condições externas que salvaguardem a coexistência
realizou efetivamente e regularmente em ato a pacífica. Esta coexistência pacífica pode abranger
punição em casos anteriores e análogos. somente uma parte da população: os membros de
Este efeito demonstrativo da Violência em ato é pleno direito da comunidade, mas não, por exemplo,
tão importante que a ele se recorre, mesmo além dos os escravos. Não se trata, obviamente, da única
casos de punição: particularmente através de ações finalidade do Governo, nem de sua finalidade
que podemos chamar "demonstrações de força". Este principal. Ao longo da história os Governos
tipo de Violência é usado, geralmente, para instaurar, perseguiram inúmeros fins, muito diferentes entre si.
consolidar ou ampliar o controle coercitivo de uma A manutenção da coexistência pacífica, porém, é
dada situação. A Violência não tem aqui a função de preliminar a qualquer outra finalidade, isto porque
reforçar uma determinada ameaça, mas a de uma somente numa situação pacífica o poder político pode
advertência geral, que tende a consolidar todas as levar a efeito aquelas coordenações e aquelas
possíveis ameaças futuras. Por isso, na análise de um organizações das atividades humanas que são dirigidas
determinado poder coercitivo, baseado na ameaça de para objetivos mais complexos. Ora, manter as
sanções físicas, é preciso ter presente, especialmente condições externas da coexistência pacífica quer dizer
numa dimensão temporal, tanto a ameaça da impedir as ações violentas entre os grupos e os
Violência, quanto a Violência em ato como punição, indivíduos que fazem parte da comunidade; e a
quanto ainda a Violência em ato como ação experiência consolidada das sociedades políticas tem
"demonstrativa". demonstrado até hoje que, para conseguir este
objetivo, é indispensável a ameaça da Violência do
Estado e sua imposição regular em caso de
II. VIOLÊNCIA E PODER POLÍTICO. — Em política a desobediência.
Violência tem um papel crucial. Na política Vale observar que de monopólio da Violência se
internacional, a Violência é, obviamente, um fator pode falar no que se refere às que Weber chamava "as
primário e constitutivo das condutas e das comunidades políticas plenamente desenvolvidas", nas expectativas que nelas se manifestam. Sobre este ponto quais se processa, ao redor de um poder central de
falaremos brevemente mais adiante. Mesmo quando Governo, aquele conjunto de comportamentos que concentramos nossa atenção somente na política chamamos de "política", e que é feito de partidos e interna, a importância da Violência é bem visível. Em facções que buscam a conquista do poder político e de
primeiro lugar, o recurso à Violência é um traço grupos de pressão que buscam influenciá-lo de fora.
característico do poder político ou do poder do Tal, porém, não acontece em muitas sociedades ditas
Governo. Uma das definições mais abrangentes e mais "primitivas", que não têm nenhum poder centralizado difundidas do poder político, que tem sua origem na e onde o aspecto político do agir social ainda não se
filosofia política clássica e, especialmente, no desenvolveu, mas permanece misturado de maneira
pensamento de Hobbes, e foi melhor enunciada em indissolúvel com outros aspectos (religioso, seu sentido sociológico por Max Weber, baseia-se no econômico, etc.) da sociedade. Além disso, mesmo nas
monopólio da Violência legítima. Esta importância da comunidades políticas "plenamente desenvolvidas", o Violência deriva, de um lado, da eficácia geral das monopólio da Violência nunca é absoluto. O Governo
sanções físicas e, de outro, da finalidade mínima e utiliza tipicamente, com continuidade e de maneira
imprescindível de todo Governo. Com referência ao tendencialmente exclusiva, a Violência através de um
primeiro ponto, convém insistir que, salvo exceções ou mais aparelhos especializados (a polícia, o exército)
particulares, a segurança física da própria vida tende a , que dispõem de maneira preponderante em relação a
ser o valor fundamental para todos os homens. Devido todos os outros grupos internos da comunidade de a isto, o controle efetivo da conduta humana é homens e de meios materiais para usá-la. exercido, como último recurso, privando os homens,
Em todas as sociedades políticas existem, porém,
totalmente ou em parte, deste valor fundamental. A
outros usos da Violência que não partem diretamente
eficácia generalizada da aplicação da Violência é,
do poder político. Sobre tais usos o
portanto, superior à da aplicação de sanções de outra
natureza. Isto é ainda mais verdadeiro quando se
procura obter
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Governo faz valer seu monopólio tendencial da determinante, mesmo como fundamento do poder do
Violência, com determinados comportamentos Governo. Entre os sistemas políticos de nosso
característicos. Antes de tudo, temos usos da Violência conhecimento, a Violência tem o papel mais importante
que não partem diretamente do poder político e são entre os que a empregam, não somente para punir, de
declarados "ilegítimos": as extorsões e outros atos maneira preestabelecida, as condutas desviantes, mas
violentos entre particulares, ações violentas de bandos também semear o terror.
de gangsters ou de grupos rebeldes, etc. O Governo A Violência que alimenta uma situação de terror se
opõe a estes usos da Violência, com um sucesso distingue da Violência que sustenta a eficácia
sociologicamente destacado, a sua Violência "legítima". continuativa de um poder coercitivo porque esta é
São conhecidos também usos da Violência que não mensurada e previsível e aquela incomensurável e
partem dos Governos, mas que são por este permitidos: imprevisível. No caso do simples poder coercitivo, a
a Violência, mais ou menos limitada, que o pai pode usar Violência punitiva atinge as condutas desviantes que
no exercício do poder corretivo sobre o filho, a foram determinadas com antecipação e as castiga com
Violência exercida em estado de legítima defesa e assim intervenções físicas, cujo valor é também
por diante. A respeito dos usos "legítimos" da Violência, preestabelecido e medido conforme a gravidade da
o Governo tende a chamar a si o poder de sua desobediência. Este tipo de Violência provoca na
regulamentação exclusiva. Dizer que o poder político população um temor racional e permite o cálculo dos
possui o monopólio da Violência é afirmar que esta é custos dos comportamentos de desobediência. No caso
seu meio específico e tendencialmente exclusivo, mas do terror, ao contrário, a Violência atinge por acaso
não significa afirmar que a Violência é o fundamento comportamentos não prefixados, nos quais se manifesta,
exclusivo e tampouco o fundamento principal do poder ou pretende manifestar-se, também de maneira mais
político. Isto não quer dizer que o terror da Violência indireta e mais incerta, uma crítica ou uma oposição.
seja a única motivação ou a motivação principal que Além disso, a Violência atinge estes comportamentos
leva os membros da comunidade a obedecerem aos não de maneira discriminada e ponderada, mas
comandos do Governo. Mesmo na sociedade dirigida de cegamente, como uma fúria selvagem. Mesmo o
maneira mais tirânica, os governantes não podem pretexto mais tênue pode causar a morte ou a privação
prescindir do consenso, se não de outros, ao menos dos da liberdade pessoal. Este tipo de Violência gera na
membros pertencentes ao aparelho especializado para população um medo irracional, perenemente
o emprego da Violência. E quando qualificamos de ameaçador e sem contornos precisos, impedindo
"legítima" a Violência de que o Governo detém o qualquer cálculo ou previsão. O único modo para
monopólio, existe uma certa zona de consenso, pois a resguardar-se relativamente (e só relativamente) é não
legitimidade da Violência exercida pelo Governo, oferecer nenhum pretexto que provoque a Violência,
conforme determinadas modalidades e dentro de certos abstendo-se de qualquer gesto de crítica ou oposição,
limites, não é simplesmente uma pretensão dos mesmo a mais tênue e inocente. A finalidade principal
governantes, mas corresponde a uma crença dividida da Violência terrorista é exatamente a de truncar e
entre uma parte dos governantes. Em linhas gerais, o paralisar antecipadamente oposição potencial.
poder político funda-se sempre, parcialmente, sobre a É evidente que o recurso às ações terroristas
Violência e, parcialmente, sobre o consenso. O
podem se verificar em diversos contextos, por
consenso, por sua vez, baseia-se, em parte, sobre a exemplo, nos conflitos bélicos e na luta de um grupo
obtenção de interesses próprios mais ou menos rebelde ou revolucionário. O que importa neste caso é
tangíveis e, em parte, na crença em determinados valores
que a Violência terrorista pode ser usada como um
(o direito divino dos reis, a democracia, o comunismo,
método relativamente estável de Governo, como
etc.). Apóia-se também sobre atitudes afetivas (a aconteceu nos regimes totalitários contemporâneos,
identificação com um chefe carismático, o apego onde o terrorismo chegou ao máximo de sua eficácia,
emotivo aos símbolos da comunidade política, como a
empregando modernos meios tecnológicos das
bandeira, o hino nacional, etc.). Não se pode antecipar
polícias secretas e uma rede de espionagem. Aqui o
qual seja o peso relativo da Violência, como fundamento terror tem a função de inibir a oposição em potencial
do poder político, mas deve-se procurar sabê-lo de vez contra a transformação total da sociedade ou contra
em quando por meio da pesquisa empírica. Existem
sua conversão numa perfeita máquina de agressão
Estados nos quais a Violência tem um peso limitado e,
contra o exterior. Além disso, regimes que recorrem
decisivamente, de segundo plano, e Estados nos quais regularmente à Violência terrorista foram
esta adquire uma incidência
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recentemente encontrados na África pré-colonial. salvaguardar o status quo, com a diferença de que a Trata-se dos chamados "despotismos terroristas", que ação de repressão, quando permanece relativamente
se caracterizam por uma forte crença na legitimidade estável o equilíbrio das forças que sustentam o poder
de Violência do déspota e na qual o terrorismo tem a político, é delegada diretamente à Violência considerada
função de prevenir as possíveis crises de integração. "legítima" do Governo, enquanto que a Violência
Deve-se deixar claro que nos regimes que fazem largo contrária é exercida diretamente pelo grupo rebelde ou
uso da violência terrorista, especialmente quando revolucionário. funciona aliada a um sistema de incentivos que A análise que se seguirá das diversas funções
estimula a competição, consegue o efeito não somente políticas da Violência considerará prevalentemente,
de paralisar a oposição potencial, mas também de mesmo se não exclusivamente, estes conflitos internos.
forçar a adesão ao regime dos membros passivos da O conjunto de funções que serão examinadas não tem
comunidade. a pretensão de ser completo; todavia sua discussão
Nos casos mais extremos, o indivíduo se depara poderá contribuir para demolir dois preconceitos de
com duas únicas possibilidades: ser vítima ou ser sentido oposto que são freqüentemente repetidos a
carrasco. Mais freqüentemente a adesão ao regime propósito da Violência: o primeiro, de tipo redutivo, é
aparece como o modo mais seguro para evitar a que a Violência vem a ser um fenômeno marginal, que
possibilidade, que nunca se pode excluir, de chegar a pode ser esquecido ou quase esquecido em uma teoria
ser o alvo da Violência terrorista. Esta adesão é empírica da política; o segundo, de tipo exaltativo, é
acentuada pelas vantagens comparativas que traz que a Violência constitui uma ação criativa porque,
consigo e pela conexa competição, na qual o por si só, tem a capacidade de renovar a sociedade.
indivíduo deve comprometer-se e que absorve grande
parte de suas energias. Assim a Violência terrorista III. OUTRAS FUNÇÕES POLÍTICAS DA VIOLÊNCIA. — O obtém um resultado indireto de transformar em objetivo óbvio e direto do emprego da Violência é
colaboração ativa o que, de outro modo, seria uma destruir os adversários políticos ou colocá-los na
atitude de passividade. impossibilidade física de agir com eficácia. Têm esta
função as guerras de extermínio, os genocídios, a
É evidente que o Governo usa a Violência, não
eliminação da velha classe governante por parte de um
somente com a sua comunidade política, mas também
contra o exterior, na confrontação com outras movimento revolucionário, a expulsão dos opositores
do território do Estado e todas as formas de reclusão e
comunidades políticas e outros Governos, que
de deportação para campos de concentração ou para
dispõem, por sua vez, de um monopólio análogo da
lugares de desterro. Também o assassinato político,
Violência "legítima". O fato da monopolização da
Violência que joga aqui um papel muito importante; que freqüentemente tem um objetivo psicológico
indireto, em certos casos volta-se para a destruição do
isso explica a diferença que existe entre a política
inimigo. Isto acontece especialmente quando no
interna e a política internacional e que torna vã
grupo adversário a autoridade está (ou acredita-se que
qualquer tentativa de construir uma política geral, que
use sempre os mesmos conceitos para interpretar os esteja) fortemente concentrada nas mãos de um único
homem e quando o poder deste chefe depende (ou
fatos políticos internos e os fatos entre Estados. O
acredita-se que dependa) de seus dotes pessoais muito
caráter distinto e irredutível das relações entre os
mais do que do cargo que ocupa. Daí a freqüência dos
Estados apóia-se no fato de que estes se verificam
num contexto (a pluralidade das unidades políticas atentados contra os chefes carismáticos. dotadas dos aparelhos e dos instrumentos da Muito mais comum é o uso da Violência não para
Violência) que torna normal a alternância entre a destruir os adversários políticos mas para dominar
guerra e a paz e onde a estrutura das expectativas sua resistência e vontade. Um caso muito particular é
vigentes considera válida a possibilidade do recurso à o da tortura, caracterizado pelo fato de que a
Violência para resolver as controvérsias. Violência é monopolizada apenas por uma das partes,
que a emprega contra a outra parte indefesa. Os
Até aqui examinamos a Violência exercida pelos
Governos. Já se disse que o monopólio estatal da carrascos, que torturam o conspirador caído na rede da
polícia, o submetem a uma Violência crescente com o
Violência nunca é absoluto, mas apenas parcial.
intento de quebrar sua resistência e de extorquir-lhe os
Acrescentamos agora que a Violência tem importantes
nomes dos
funções também nas relações entre os grupos internos
de um sistema político, especialmente na ação de um
grupo rebelde ou revolucionário. A ameaça e, como
recurso extremo, o uso da Violência fazem parte do
arsenal de armamentos com os quais os diversos
grupos procuram provocar uma mudança política ou 1296 VIOLÊNCIA
companheiros de luta. Mas os relacionamentos de Uma função crucial da Violência de um grupo
grande duração mais importantes são aqueles em que a rebelde ou revolucionário em relação ao ambiente
Violência se faz presente (pelo menos em estado externo é de caráter simbólico. O recurso ao meio
potencial) em ambos os lados da relação. Deste tipo extremo da Violência exprime a gravidade de uma
são em grande parte os relacionamentos de agressão e situação de injustiça e a legitimidade das contra-agressão que se verificam entre grupos e que reivindicações do grupo rebelde. A Violência susta as
podem ser interrompidos nas primeiras fases da luta, regras da ordem social constituída: com a arma
no caso de as partes encontrarem meios para um dramática e terrível da Violência, os homens que a
entendimento que altere ou confirme as velhas empregam quebram a lei e se auto-proclamam
relações de poder. A tensão pode também legisladores em nome da justiça. Esta carga simbólica
intensificar-se numa espiral de Violência cada vez da Violência depende de certas condições: por
maior, que pode explodir num conflito direto e geral, exemplo, a Violência não deve ter sido desvalorizada
como, por exemplo, a guerra no relacionamento entre por um uso endêmico ou por motivos leves; o ato de
Estados. Nas guerras também, menos no caso Violência deve atingir o grupo antagônico, em
excepcional das guerras de extermínio, os beligerantes particular homens e coisas que simbolizem a causa do
empregam a Violência, não para chegar à destruição estado de injustiça do grupo rebelde. As ações
total do inimigo, mas para impor-lhe suas próprias terroristas que atinjam as pessoas não implicadas no
condições. Por esta razão prevalece, geralmente, o conflito perdem por isso, no seu todo ou em parte, esta
interesse para ambos os beligerantes em manter alguns função simbólica. Um método eficaz para afirmar a
canais de comunicação durante o conflito, além da legitimidade das próprias reivindicações pode ser
conhecida política de deixar sempre ao inimigo um também o suicídio individual ou de grupo. Numa
caminho para sair com honra do embate. Isto reduz o situação em que a força adversária predominante não
perigo de arcar com os custos de um prolongamento deixa aberta nenhuma possibilidade de ação operante,
da guerra desproporcional aos fins que se pretendem o suicídio, que pode assumir também uma forma de
atingir. provocação no martírio, libera uma carga simbólica
Nas guerras civis e nas revoluções, a Violência tem, muito intensa e estigmatiza com a marca da injustiça o
em grande parte, a mesma função de vencer a estado das coisas presentes, projetando uma luz
resistência do adversário: um movimento profética sobre o futuro mais ou menos longínquo. É
revolucionário, mesmo quando liquida os velhos bom lembrar que este tipo de Violência, enquanto
governantes, não destrói toda a classe dirigente afirma a legitimidade das exigências do grupo rebelde,
preexistente. Os chefes da revolução buscam ao mesmo tempo contesta perante o ambiente externo
simplesmente impor sua vontade pelo menos a uma a legitimidade dos privilégios ou da situação de
parte desta. A mesma função têm os atos de Violência vantagem do grupo antagônico. Por isso, a Violência
(tumultos, motins, ações terroristas), através dos dos grupos rebeldes ou revolucionários tem
quais se manifesta a rebelião de um grupo no âmbito freqüentemente a finalidade de provocar a reação do
de um sistema político e, paralelamente, os atos de adversário para fazer cair sua máscara de hipocrisia e
repressão da polícia e do exército. Em todos estes mostrar os enganos e as maquinações (verdadeiras ou
casos, a Violência tende, direta ou indiretamente, a presumidas), que lhe permitem dominar sem meios
mostrar a decisão do grupo que a usa, a minar a violentos, minando assim pela raiz a legitimidade de
coesão e a combatividade do grupo adversário, a sua posição de poder. desmoralizar seus membros e, finalmente, a impor-lhe Os atos violentos, mesmo quando não provocam as
uma alteração (ou uma consolidação) em favor da citadas conseqüências simbólicas, provocam, porém,
precedente situação no poder. Mas esta, que diz um efeito notável no ambiente externo, chamando a
respeito ao grupo antagônico, não é a única função da atenção. Nada chama mais a atenção do que a
Violência nos tipos de relacionamentos citados: os Violência, que permite assim a rápida divulgação,
atos violentos têm também importantes funções com para deixar bem visível e no grau máximo a
respeito ao ambiente externo, ou seja, em relação aos importância da reivindicação e do ressentimento. Com
grupos não implicados no conflito e com respeito ao os atuais meios de comunicação de massa, um episódio
mesmo grupo que recorre à Violência. de Violência particularmente clamoroso pode prender Consideraremos brevemente estas outras funções, a atenção de uma enorme parte de toda a humanidade.
tendo presente, principalmente, o caso da rebelião ou Disto se origina, em parte, a recente proliferação de
da revolução no interior de um sistema político. métodos de Violência "espetaculares", como o de
desviar a rota de um avião, os seqüestras de pessoas
de grande notoriedade ou ainda
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verdadeiros massacres. A finalidade principal da diferenciação de tarefas e de papéis, além da
Violência de rebelião ou revolucionária, porém, não é subordinação das diferentes atividades a um único
simplesmente de chamar a atenção, mas sim de centro de comando. De outra parte, um conflito
modificar a seu favor a estimativa que os grupos violento tende a provocar a mobilização das energias
externos fazem da situação, induzindo-os a apoiar e dos recursos dos membros do grupo e, portanto, a
eficazmente as próprias exigências. Nas relações de aumentar a coesão deste. O grau destes dois efeitos da
agressão e contra-agressão, a sustentação externa é Violência externa e seus relacionamentos recíprocos
muito importante e freqüentemente decisiva para o parecem depender, por sua vez, da intensidade de
êxito do conflito. Neste sentido, mesmo os atos de coesão e da solidariedade existentes antes do conflito
Violência mais brutais e indiscriminados podem violento, assim como depende em parte também das
inserir-se ou ser utilizados no âmbito de uma estratégia dimensões do grupo. Quanto maior for a coesão
mais complexa, que visa a conquistar o apoio externo precedente ao conflito, maior será sua sucessiva
e que comporta a divisão entre o papel de uma fração intensificação, enquanto o aumento da centralização
"responsável" e "razoável" do movimento rebelde ou consegue manter-se em limites contidos, especialmente
revolucionário e o papel de uma fração "extremista" e nos pequenos grupos. Quanto menor for a coesão do
"irresponsável": neste jogo entre as partes, a grupo, antes do conflito violento, será mais provável
Violência cega dos extremistas pode aumentar o poder que o grupo se desagregue diante da Violência externa
de contratação dos chefes mais moderados, mas pode ou que a centralização aumente, especialmente nos
também diminuí-lo, conforme as circunstâncias. Em grandes grupos, até o ponto da instauração de uma
geral, a direção que tomará o apoio externo dependerá estrutura de poder autoritária e ditatorial. Um exemplo
de numerosas condições, como as características dos da influência das dimensões do grupo foi dado por
grupos em conflitos, a natureza dos interesses dos certos grupos revolucionários (ou também de
outros grupos relevantes, a organização e orientação da companheiros de armas) relativamente pequenos e
estrutura decisória, a que se pode eventualmente empenhados em conflitos violentos que comportam
recorrer para solucionar o conflito, etc. perigo real de destruição ou de morte. Nestes grupos,
A Violência chama, portanto, a atenção do público e a coesão pode exaltar-se até o ponto de produzir um
uma vez que seja adequadamente intensificada clima de profunda fraternidade, no qual os
restringe a liberdade de escolha dos grupos externos, relacionamentos se baseiam numa absoluta igualdade
forçando os que não estão comprometidos a tomar e onde se verificam freqüentemente atos de grande
partido. Mas, em si, a Violência não pode determinar nobreza e altruísmo. Esta experiência muitas vezes fez
a direção que tomará o apoio externo. Não é um fato surgir a ilusão, comum nas exaltações da Violência, de
insólito que as Violências de um grupo rebelde ou que o embate cruento, o banho de sangue, por si
revolucionário geram um apoio maior a favor do mesmo, tem a virtude de gerar o "homem novo" na
grupo agredido, ou que a repressão violenta exercida base do qual se pode construir uma "sociedade nova",
pelo Governo tenha efeito de suscitar a indignação fundada na igualdade e no desinteresse. Trata-se,
dos grupos externos, deslocando parte de seu apoio porém, de uma ilusão, visto que a fraternidade que se
para o grupo rebelde ou revolucionário. manifesta no curso de um conflito violento é um
fenômeno transitório, que se pode realizar somente
Finalmente, com respeito ao mesmo grupo que a enquanto, permanece um iminente perigo de vida.
ela recorre, a Violência tem a função de favorecer a
Deixamos agora de lado as relações de agressão e
formação de uma consciência de grupo e de
contra-agressão e consideremos uma outra função
estabelecer a identidade e os limites do próprio grupo.
política da Violência, que deriva precisamente do fato
São os atos violentos dotados de uma grande carga
simbólica de afirmação da legitimidade os que têm de que os conflitos violentos com um inimigo
tendem, em determinadas condições, a intensificar a
maior peso na promoção de uma "consciência de
união do grupo. Referimo-nos ao desvio das
grupo" entre os que se encontram na mesma situação
hostilidades contra os chefes políticos ou entre
de desvantagem. Ao mesmo tempo, a Violência separa
o grupo do resto da comunidade e, muito diferentes componentes da comunidade, mediante o
ataque contra um "bode expiatório". É bem conhecida
especialmente, coloca esta comunidade em
a política de descarregar
contraposição com o grupo antagônico contestando sua
legitimidade: a identificação do inimigo tem aqui um
papel importante na busca da própria identidade. No
interior de um grupo já constituído, a Violência
coletiva tende, portanto, a acentuar a centralização e a
cimentar a união entre os membros. De uma parte, a
condução de um conflito violento com o exterior, que
tenha um mínimo de duração, exige uma
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perigosas tensões internas através de uma conduta (1970), Mondadori, Milano 1971; T. R. GURR, Why
agressiva contra o exterior. Esta conduta pode men rebel, Princeton University Press. Princeton
consistir numa campanha propagandística 1970. nacionalista ou contra uma potência estrangeira
específica em atos violentos, mais ou menos [MARIO STOPPINO] esporádicos ou persistentes e de crescente intensidade, até chegar à guerra verdadeira. No caso,
porém, da agressão contra um "bode expiatório", o
Vontade Geral.
alvo da Violência é constituído, geralmente, por um
elemento do próprio grupo. Este tipo de Violência
pode assumir a forma de atos rituais e cerimoniais, Esta expressão indica, no Contrato social de J. f.
que se repetem de maneira mais ou menos regular e Rousseau, a vontade coletiva do corpo político que
operam como válvula de segurança, ou podem visa ao interesse comum. Ela emana do povo e se
desencadear-se contra um grupo interno que, expressa através da lei, que é votada diretamente
favorecido por certas condições históricas, revela-se pelo povo reunido em assembléia; assim é garantida
apropriado para o papel de cordeiro a sacrificar com e não limitada a liberdade do cidadão. De fato, este,
respeito a muitas tensões existentes no âmbito da enquanto é participante da Vontade geral, pode
comunidade. Um exemplo particularmente brutal, e considerar-se soberano e, enquanto é governado, é
ao mesmo tempo eficaz, é o da Violência nazista súdito, mas súdito livre, porque, obedecendo a lei
contra os judeus na fase da ascensão e consolidação que ele ajudou a fazer, obedece assim a uma vontade
do nazismo. Fazendo radicalmente distinção entre que é também a sua autêntica vontade, o seu natural
um socialismo verdadeiramente "nacional" e a desejo de justiça. Onde o homem e o povo não
doutrina do judeu Marx, os nazistas desviaram contra obedecem às leis, devem ser obrigados a isto, o que,
os judeus parte da hostilidade da pequena burguesia para Rousseau, significa serem obrigados a ser
e das classes altas contra o proletariado. Sublinhando livres. A liberdade natural é assim substituída pela
o papel de primeiro plano de diversas personalidades liberdade civil, que consiste em obedecer somente à
hebraicas no setor financeiro internacional, os lei, e em aquiescer à Vontade geral e jamais a uma
nazistas dirigiram contra o povo judeu parte do velho vontade particular. Isto implica uma sociedade de
ressentimento da aristocracia, da pequena burguesia pequenas dimensões, uma cidade-Estado (Rousseau
e das classes baixas contra o capitalismo, chamando pensava em Genebra), na qual seria possível uma
a atenção também para a parte importante que democracia direta. Somente assim o homem pode
numerosos hebreus tiveram na renovação dos realizar sua virtude plena, tanto ética quanto civil.
costumes morais, no teatro e na arte considerada Rousseau distingue a Vontade geral da vontade
"degenerada". Deste modo, os nazistas conseguiram particular, que tende a um interesse particular, e da
dirigir contra os hebreus parte das hostilidades do vontade de todos, que é mera soma de vontades
campo e da província contra a "imoralidade" das particulares e, como estas, tendem ao interesse
cidades que quebrava os velhos códigos tradicionais. privado. A Vontade geral distingue-se especialmente
Não há dúvida de que este bode expiatório permitiu a pela qualidade, pelo seu caráter ético, ou seja, pelo
muitos alemães, especialmente nas camadas interesse comum a que esta aspira e não pelo número pequeno-burguesas, acreditar novamente, desta vez de votos, portanto, teoricamente ela pode ser
sob a forma de um nacionalismo exasperado, na expressa também por uma única pessoa. Rousseau,
reconstituição da unidade e da potência da Alemanha todavia, introduz no Contrato social o critério da
após a derrota da Primeira Guerra Mundial com suas maioria como método empírico para reconhecê-la. A
gravíssimas conseqüências. Vontade geral, mesmo sem ser a rigor a vontade de
todos, declara-se, na prática, através da vontade de
muitos, onde todos os cidadãos participam do direito
B do voto. A Vontade geral vem a ser assim a vontade IBLIOGRAFIA . - G. S OREL , Réflexions sur la
violence, racional do Estado, juntamente com a vontade Paris 1908 (trad. ital. in Scritti politici,
Torino, racional do povo e do indivíduo, cujo querer está em 1963); M. W EBER , Wirtschaft und
conformidade com o do Estado. Com isto, Rousseau
Gesellschaft, Tübingen 1922 (trad. ital. Milano, 1962); L. C entende superar a antítese tradicional entre indivíduo OSER . The functions of social conflict.
Glencoe, III., 1956 (trad. ital. Milano 1967); H. L. e Estado, entre liberdade e autoridade, criando assim
N as bases para a teoria moderna da soberania popular. IEBURG , La violenza política (1969), Guida, Napoli.
1974); E. V. WALTER, Terror and resistence. Oxford University Press. New York 1969; H. ARENDT, Sulla violenza
VONTADE GERAL 1299
A história do conceito de Vontade geral não opinião pública que se expressam nas decisões do
termina com Rousseau. Mesmo se antes de 1789 o partido; mesmo se nelas, também se note a aspiração
Contrato social, pelo menos na França, tem escassa da unanimidade e se admita um único caminho reto e,
difusão, durante a Revolução Francesa torna-se por conseqüência, uma única vontade reta da qual é
popular. A partir daí o pensamento político de expressão a comunidade, a coletividade ou o Estado. É
Rousseau é reivindicado como pertencente à própria opinião comum que também as modernas sociedades
história, tanto pelos partidários da tradição socialistas, cujo socialismo, porém, é estranho à democrática liberal, como pelos que optam pela tradição do marxismo-leninismo, pautam a sua
tradição totalitária democrática. Na Assembléia inspiração pelo Contrato social de Rousseau e pelo Nacional o nome de Rousseau é invocado para conceito da Vontade geral (por exemplo, o chamado
defender o corpo representativo com voz da Vontade socialismo africano). geral ou da soberania popular num momento em que o Não obstante o conceito da Vontade geral, como foi
povo ainda precisa ser "iluminado". A partir dos fins de teorizado por Rousseau, pareça não ter condições para
1791, ao contrário, Rousseau é o ídolo do povo, e a inserir-se na tradição da democracia constitucional,
Vontade geral transforma-se na "vontade do povo". ele é, entretanto, retomado e adaptado por muitos
Particularmente os jacobinos propõem-se a realizar autores para justificar o Governo representativo. Este
um Estado inspirado no Contrato social e fundado na processo inicia-se com Kant, que transforma o conceito
"virtude" e no "patriotismo", mas como se julga que o de Vontade geral naquele imperativo categórico e faz
povo ainda não é suficiente e adequadamente educado dele, tanto o critério da moralidade, como da
para expressar a vontade geral, Robespierre arroga-se legalidade. Fichte inspira-se nele para criar uma
o direito de falar em nome dela ou do povo e acusa filosofia do autoritarismo e da supremacia do Estado.
todo dissidente de inimigo do povo ou do Estado, Em Hegel, ao contrário, o conceito de Vontade geral,
caracterizando, em nome destes princípios, aquele transportado para seu sistema historicista, assume um
período sanguinário da Revolução Francesa, que caráter nacionalista e transforma-se em adesão
passou para a história com o nome de terror (junho voluntária às instituições sociais e políticas, emersas
1793-julho 1794). Depois dele, Babeuf, imbuído historicamente sob a forma de um Estado nacional e
também do espírito de Rousseau, concebe a idéia da constitucional, e no espírito da nação que realiza uma
insurreição popular e da democracia direta. Num cultura nacional e uma constituição histórica. Os
primeiro tempo, ele pensa que a Vontade geral possa escritores liberais franceses da Restauração e de
ser expressa através de uma ditadura popular, mas, grande parte do século XIX refutam o Contrato depois da queda de Robespierre (1794), decide que social, enquanto enxergam na teoria da Vontade geral deve ser um grupo restrito e selecionado a conspirar um perigo para a liberdade individual. No fim do
para tomar o poder e depois representar a vontade do século XIX, o idealista inglês T. H. Green retoma o
povo (Conjuração dos Iguais). conceito de Vontade geral e o introduz no seu
A teoria da Vontade geral é, freqüentemente, liberalismo, identificando-o com uma consciência social
relacionada com o pensamento marxista e com os que regula a lei e por ela é sustentada. B. Bosanquet
seus herdeiros, enquanto que, também para estes, a atribui à sociedade uma "vontade efetiva", com a qual
sociedade livre é aquela em que todos obedecem à a vontade individual coincidiria se o homem fosse
Vontade geral. Trata-se somente de encontrar o tipo perfeitamente inteligente e adequadamente educado. O
certo de sociedade na qual o interesse egoístico tema da Vontade geral não é estranho também às teorias
coincida com o interesse geral, o egocentrismo e o mais recentes do liberalismo, mesmo sendo ele
apego individual aos próprios fins utilitários sejam constantemente transformado, pois a concepção que
anulados e o indivíduo se realize na coletividade. Rousseau tem da liberdade é substancialmente diversa
da do liberalismo: enquanto este se preocupa em evitar
As sociedades totalitárias inspiradas no marxismo-
a extensão dos poderes do Estado, Rousseau acha que
leninismo são citadas, por vários autores, como as a liberdade dos cidadãos somente é possível através da
herdeiras autênticas do espírito de Rousseau: mesmo força do Estado. se nelas a democracia tenha um caráter antiparlamentar
e a vontade do povo pretenda afirmar-se diretamente
[SAFFO TESTONI]
através das decisões da