Mito e Psicanálise

Ana Vicentini de Azevedo · Capítulo 2 de 64

Páginas do PDF

Mito e Psicanálise

Mito e psicanálise 13

designar composições de vários gêneros literários (épico, lírico e dramático), relatos históricos, lendas da tradição oral, bem como a sua própria ordenação, isto é, os tipos de relação que se estabelecem nesses relatos e que os consti-tuem. Tal ambigüidade etimológica espelha a ambigüidade mesma de sentido presente nos relatos míticos: neles, o significado jamais pode ser tomado de maneira unívoca e fixa. Um mesmo elemento ou significante pode estar refe-rido, por exemplo, à vida ou à morte, ou ainda à ressurrei-ção. Isso vale também para a própria definição de mito: por mais rigorosa e elaborada que seja, ela não terá um alcance universalmente válido, genericamente aplicável a toda gama de arranjos discursivos que temos chamado de mito.

Essas características nos defrontam com dois tipos de

dificuldade: por um lado, a variedade daquilo que chama-mos de discurso mítico e, por outro, a variedade de discur-sos sobre o mito que temos desde os primórdios da história. Tais dificuldades acabam por intervir no que designamos como mito. Por essas características, temos que trabalhar com esses dois planos discursivos: o do próprio relato e o da história de suas leituras e interpretações.

Estar alerta a essas dificuldades por um lado, torna

ainda maior o desafio de deslindar mitos. Por outro, cons-titui um indício firme de que não devemos tomá-los como um arquétipo. Dito de outra forma, não devemos tomá-los como um modelo fixo e explicativo do sentido originário, último e definitivo, de questões imersas na história e na cultura, de questões que surgem na e da linguagem e perfa-zem o humano em suas vacilantes significações.