Mito e Psicanálise

Ana Vicentini de Azevedo · Capítulo 52 de 64

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Mito e psicanálise 63

carnado, mas de uma figura, que, como tal, faz figuração desse lugar terceiro, desse terceiro elemento que cinde a dualidade mãe-criança, marcando essa mãe como interdi-tada ao usufruto, ao gozo da criança e esse pai como um rival, objeto de agressividade e medo.

Está configurada assim a tríade do complexo de Édipo,

a qual encontra na “tríplice encruzilhada” da personagem trágica uma crucial expressão: “Ah, triplos caminhos”, la-menta Édipo ao se dar conta de seus atos. Em sua fuga de Corinto, a fim de escapar dos desígnios do oráculo, segundo os quais ele mataria o pai e desposaria a mãe, Édipo encontra aquele que de fato é seu pai, Laio, no ponto onde se cruzam três caminhos, três direções. Após tê-lo ferido mortalmente, o herói “escolhe” (observando-se aí as reticências que as aspas indicam em relação a essa escolha), dentre as três vias, aquela que o levará a Tebas.

A força do oráculo mostra-se, assim, sobredeterminan-

do a deliberação consciente de Édipo, isto é, uma presença a mais marcando as escolhas, as vias que o sujeito toma. Não se trata, pois, de um determinismo religioso (na ótica trági-ca), ou cientificista (na ótica psicanalítica). Como vemos dramatizado em Édipo Rei, o sujeito é responsável por seus atos, sejam eles conscientes ou não. Nessa encruzilhada ética encontram-se, mais uma vez, a tragédia e a psicanálise.

É por essa intricada teia discursiva que podemos situar

o oráculo como discurso do Outro para Édipo. Aquele é a “Outra Cena”, como Freud chamou o inconsciente, onde se articulam os desejos mais primevos que o arrebatam a Tebas. Por outro lado, é devido a esse poder de dar a ver, de