Mito e Psicanálise

Ana Vicentini de Azevedo · Capítulo 47 de 64

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Mito e Psicanálise

58 Ana Vicentini de Azevedo

caminho, do método freudiano, que a situa como um de seus conceitos fundamentais, juntamente com o incons-ciente, a pulsão e a repetição, os quais têm nos orientado aqui. É também sob a mirada da transferência que temos (re)construído algumas das vias de entrada do mito de Édipo no discurso da psicanálise. Ao destacar esse aspecto estamos apontando também para duas dimensões impor-tantes da relação da psicanálise com o mito de Édipo. A primeira diz respeito à forte relação transferencial que Freud nutria com o mundo clássico, notadamente com o mito de Édipo. A segunda e mais importante questão refere-se ao fato de que essa moldura sofocliana do mito ocupa para a psicanálise uma posição de grande Outro na transferência e, como tal, possibilita a articulação de conteú-dos dessa disciplina, assim como a presença do analista faz para o analisando.

Nessa posição de grande Outro, a tragédia de Sófocles

tem instigado incontáveis tentativas de decifração, de elabo-ração, por parte de Freud e de tantos analistas que o seguem. De maneira destacada, esse Outro tem fornecido formas de representação (em termos freudianos), ou significantes (em termos lacanianos), preciosos e precisos, desde Freud, para a psicanálise fundar-se como discurso e para sua extensão. Aqui também estamos servindo-nos dos significantes desse Outro para pontuar como Freud serviu-se deles na constru-ção de seu método e de como esse método está impregnado por eles. Podemos ver nessa repetição, nesse movimento de retorno da psicanálise para Édipo Rei, a reedição, muitas vezes, de um encontro fortuito, plenamente satisfatório.