Mito e Psicanálise
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traz, em homofonia, a presença do corpo: Encore, homófo-no a un corps (um corpo) e a en corps (em corpo). De fato, o corpo é uma das esfinges da e para a psicanálise. Ou seja, algo sobre o qual ela tem muito a dizer, algo que está no domínio do (seu) simbólico; algo que lhe (nos) escapa com-pletamente, que emudece mortificamente a palavra — essa é a dimensão real do corpo. A essas duas dimensões, acres-centa-se uma terceira, a imaginária, onde podemos cons-truir imagens, idéias, ideais de beleza, de completude desse corpo, acreditar neles e tomá-los como espelhos onde iden-ticamente nos refletimos, onde projetamos nossos ideais. Três registros, três modos de o corpo estar no mundo e na psicanálise, e que estão, atravessando os tempos e ao mesmo tempo, figurados e encarnados na Esfinge.
Em sua genialidade, Freud cria uma forma de contor-
nar o real do corpo pelo simbólico quando postula o con-ceito de pulsão, conceito que ele próprio reconhece, confor-me já vimos, como sendo “a nossa mitologia”. Tal como a Esfinge, ele situa o pulsional numa zona fronteiriça, entre o somático e o psíquico. Ou seja, é a pulsão que anima o corpo, retendo desse animar sua etimologia latina, anima, alma, como uma das formas de acentuar que a psicanálise opera em bases muito distintas da separação corpo-alma, soma-psyché, que informa uma tradição de pensamento no Oci-dente.
Esse corpo pulsional da psicanálise pulsa em direção a
um gozo, que se caracteriza por um usufruir, de forma ilimitada e imediata, de um objeto que se crê fonte de uma satisfação plena e que, por isso mesmo, está desde sempre