Mito e Psicanálise

Ana Vicentini de Azevedo · Capítulo 18 de 64

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Mito e psicanálise 29

mítico grego. O primeiro deles nos é dado pelo próprio Freud, na conferência XXXII das Novas conferências introdu-tórias à psicanálise (1933), quando diz que “a teoria das pulsões é nossa mitologia” e que as pulsões “são entidades míticas, magníficas em sua indeterminação”.

Freud começa a cercar essa indeterminação desde os

primórdios de sua elaboração e, já em 1905, nos Três ensaios sobre a sexualidade, indica a íntima relação das pulsões com a sexualidade. Esse princípio energético, que ocupa a zona fronteiriça entre o somático e o psíquico, é inicialmente pensado em termos de uma primeira dualidade: as pulsões sexuais, de preservação da espécie; e as pulsões do ego, ou de autopreservação. Mais tarde, em seu ensaio “Sobre o narcisismo: uma introdução” (1914), essa dualidade é diluí-da por Freud sob o argumento de que o ego toma-se por objeto amoroso, em alguns casos, fazendo com que a pulsão do ego se transforme em pulsão sexual e vice-versa.

Tal concepção é objeto de revisões e reelaborações e,

em 1920, em Mais-além do princípio de prazer, a dualidade pulsional é retomada, e assim permanece até o final da obra de Freud, sob a ótica de dois princípios basais: o das pulsões sexuais e o das pulsões de destruição. A esses dois princípios Freud vai chamar, respectivamente, de Eros e Tânatos. Re-montando ao primeiro Eros, podemos encontrar as princi-pais características que Freud atribuiu à última modalidade de dualismo pulsional. Antes de o olharmos mais de perto, vejamos o segundo Eros.

Este, enquanto filho e servidor de Afrodite, partilha da

função dela — a de aglutinar a multiplicidade de indivíduos;