Mito e Psicanálise

Ana Vicentini de Azevedo · Capítulo 34 de 64

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Mito e psicanálise 45

Freud; porém, a publicação da pedra fundamental da psica-nálise, A interpretação dos sonhos, nos fornece um indício ainda mais eloqüente. O frontispício do livro traz, com uma força oracular, a invocação do verso de Virgílio na Eneida: “Flectere si nequeo superos, Acheronta movebo” (“Se não posso atingir os deuses superiores, moverei o Aqueronta”). No vocabulário mítico, o Aqueronta designa o rio do mun-do subterrâneo e, por extensão, esse mundo. Através do discurso de um outro, de Virgílio, Freud afirma seu com-promisso com a fundação e sustentação do discurso do Outro, ainda que isto custe, ou implique, revirar o mundo. Tanto o remover mundos quanto a força que o acompanha põem o fundador da psicanálise lado a lado com Édipo, este o duplo do primeiro, antecipando-lhe vários caminhos.

Questões de método. A busca de Édipo pela verdade, no sentido que vimos na primeira seção deste livro é inextricá-vel dos caminhos que são percorridos e que somos levados a percorrer. Hódos, em grego, significa caminho, de onde pode-se derivar méthodos, que se refere à busca de algo, especialmente de saber, de conhecimento, significando tam-bém a maneira pela qual essa busca é conduzida.

Atendendo aos apelos do coro por ajuda, Édipo reafir-

ma sua determinação em curar a cidade de seu sofrimento; afinal, ele já foi antes seu salvador. Essa afirmação é acom-panhada de uma instigante afirmação de posição: ele se declara um estranho (xénos) a toda essa história (lógou) e aos atos (praxthéntos). Assim sendo, para perseguir essa trilha, ele necessitará estabelecer um vínculo com o coro, o