Mito e Psicanálise

Ana Vicentini de Azevedo · Capítulo 38 de 64

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muito, sobre os caminhos e princípios que mais tarde Freud privilegiará como inerentes ao método psicanalítico.

Citando o poeta alemão Henrich Heine, Freud nos

apresenta um jogo de linguagem bastante ilustrativo dessa herança. Ele menciona uma personagem do poeta; o pobre agente de loteria Hirsch-Hyacinth, que, ao tentar se vanglo-riar de sua relação bastante próxima com o Barão de Roths-child, diz que este o tratou de uma forma muito “familio-nária”. O que é aparentemente um erro de linguagem reve-la-se como um jogo de palavras, um chiste, que ilumina o funcionamento psíquico. Na importante obra Os chistes e sua relação com o inconsciente, de 1905, Freud desenvolve com uma clareza aguda as articulações entre linguagem e funcionamento psíquico esboçadas em A interpretação dos sonhos e nos faz ver que esse tipo de linguagem é revelador de algo que estava obscurecido ou recalcado. Após apresen-tar duas “traduções” do chiste, ou seja, desdobramentos seus que atentam somente para o significado, Freud alerta que, para se compreender essa forma de expressão deve-se atentar para a enunciação ou, em suas palavras, para as “técnicas verbais” aí em jogo, as quais têm íntima relação com a essência do chiste.

A leitura de Freud busca decifrar o processo que trans-

forma em chiste um pensamento X, do tipo: “Rotschild me tratou como um igual, de maneira muito familiar — isto é, na medida em que um milionário pode tratar um inferior.” O método por ele utilizado já nos é “familiar”: um trabalho de decomposição de uma confluência de significantes que