Mito e Psicanálise

Ana Vicentini de Azevedo · Capítulo 16 de 64

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rada do que se inscreveu, sem escrita. O discurso mito-poé-tico e a fala, o mythos, do analisante são criações em que se recriam as relações fundamentais, e por isso indeléveis, do humano; em suma, são criações que buscam religar o ho-mem a forças originais, vitais, a Eros.

“Eros, doceamargo”. A complexidade de Eros revela-se de forma pungente quando atentamos para o fato de que ele atravessa vários períodos da produção literária grega, sendo objeto de atenção de diversos tipos de relatos míticos. Eros figura desde a poesia arcaica de Hesíodo; passando pelos poetas líricos, de maneira notável por Safo de Lesbos e Alceu de Mitilene; como também pela poesia trágica, com Sófo-cles; até chegar aos discursos filosóficos de Platão, onde no Simpósio, ou Banquete, o deus é por excelência o objeto do festivo debate de idéias.

Naquela que tem sido aqui nossa principal fonte de

referência, a Teogonia, essa força primeva que é Eros figura logo no início dessa cosmogonia ou desse relato de origem do mundo. Assim nos conta Hesíodo, nos versos 116-122, na tradução de Joaquim Brasil Fontes:

Primeiro que tudo surgiu o Caos, e depois Ghéia de amplo

seio, para sempre firme alicerce de todas as coisas, e o

brumoso Tártaro num recesso de terra longe dos cami-

nhos, e Eros, o mais belo de todos entre os deuses imor-

tais, que amolece os membros e, no peito de todos os

deuses e de todos os homens, domina o espírito e a

vontade ponderada.