Mito e Psicanálise
18 Ana Vicentini de Azevedo
dos, têm vida própria e, assim sendo, são obras dos homens. Note-se, a esse respeito, que Discórdia é a única, dentre os filhos da noite, a se reproduzir, a engendrar outras mazelas da vida humana. Essa justaposição entre o sensificador e o concretizante a que alude a epígrafe de Guimarães Rosa no início, essa ambígua tensão entre a abstração e a concretude é produtiva, na medida em que permite ao discurso mito-poético inscrever a noção de esquecimento no campo se-mântico da noite, da morte, das trevas, do silêncio, da dor e do sofrimento.
Do outro lado temos Alétheia, literalmente, o não-es-quecimento, ou seja, uma força positiva que se afirma na e pela negatividade, em tensão com uma força negativa, o esquecimento e sua linhagem, que se afirma positivamente. Ao invés de uma oposição excludente, que vigoraria em uma lógica clássico-racional, temos a constituição de um par dialético, onde um termo está implícito no outro. Tal ambi-güidade perfaz, por excelência, a lógica da linguagem mítica, que se caracteriza por transbordar o princípio da não-con-tradição (princípio este que é marca do discurso racional-filosófico). É nessa fonte mito-lógica onde a psicanálise irá encontrar sua maior báscula, residindo aí a sustentação mais notável para a afirmativa de Lévi-Strauss de que há já muita psicanálise no mito. Dito de outra forma, o mito põe na cena da palavra, da linguagem, muito do que a psicanálise vai mais tarde explicitar, a partir da lógica do inconsciente, tanto em sua teoria quanto em sua prática clínica.
Ao longo de toda a sua obra, Freud tratou de firmar e
afirmar essa filiação da psicanálise direta ou indiretamente