Mito e Psicanálise
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10 Ana Vicentini de Azevedo
que vamos estabelecer aqui será norteada, em um primeiro momento, não por um ou outro campo, mas fundamental-mente pela conjunção “e” que liga os dois. Como a gramá-tica nos ensina, e o próprio nome já indica, a conjunção traz junto, conjuga, põe em relação termos ou orações. No caso do “e”, sua qualidade aditiva é facilmente perceptível e, ainda segundo as leis da língua, essa adição dá-se entre termos ou orações de igual função, como, por exemplo, “abra a porta e entre”.
Mas será que, fora desse domínio, pode-se sustentar
essa simetria ou paridade funcional que apregoa a gramáti-ca? Supondo que o período acima houvesse sido retirado de uma narrativa da qual tivéssemos indicações prévias, por exemplo, de que a fechadura estava com defeito, ou de que a personagem-sujeito da ação tivesse problemas impediti-vos em entrar nesse espaço, dificilmente situaríamos ambos os verbos em um mesmo plano de igualdade.
De maneira análoga, podemos pôr em questão — ou
pelo menos em movimento — a conjunção aditiva “e” que articula mito e psicanálise, a qual, em muitas relações dessa ordem, camufla uma posição privilegiada ou hierárquica de um termo sobre o outro. Como a psicanálise tem nos ensi-nado ao longo de mais de um século, dificilmente as relações (sejam elas de que natureza for) se dão em bases paritárias, ou de igualdade.
É, pois, no sentido de explicitar essa dissimetria e de
minimizar inevitáveis hegemonias entre os dois campos que estarão aqui dialogando que vamos trabalhar sob a orienta-ção do quiasma. Conforme a retórica, o quiasma é uma