Mito e Psicanálise

Ana Vicentini de Azevedo · Capítulo 17 de 64

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Mito e Psicanálise

28 Ana Vicentini de Azevedo

Como o quarto na linhagem de deuses primordiais, e

tal qual seus antecessores Caos, Terra (Ghéia) e Tártaro, Eros não é gerado por dois seres sexuados, como o serão as demais divindades, especialmente as olímpicas. Eros surge do vazio, de Caos, ou de sua própria potência geradora. Tais divindades geram a partir de si próprias, dando-se elas mesmas à luz. Dessa reflexividade resulta que do um geram-se dois, onde o um é marca do Todo, de plenitude, de abundância, da ausência de falta e privações, marca que se afasta do universo do humano, mas que, ao mesmo tempo, marca uma de suas maiores aspirações ou, em um vocabu-lário psicanalítico, uma de suas pulsões.

Esse Eros primevo em muito difere de outro, mais tar-

dio e mais comumente conhecido como Eros, filho de Afro-dite, e que, portanto, vem a um mundo, a um cosmos — lembrando que este termo, em grego, implica ordenação — que já se afastou do Caos, do vazio do primeiro Eros. A ori-gem do segundo Eros dá notícia de divisões, de perdas, de relações que passam pela diferença sexual. Sua mãe, Afrodite (Aphrodíte), nasce dos testículos do pai, Uranos, atirados ao mar pelo filho Crónos (áphros é tanto espuma do mar quan-to esperma). Filha da divisão, da castração, sua missão será atrair, aproximar, unir seres que estão igualmente marcados pela divisão, para que dois possam gerar um, que é três.

Podemos ver, nessa dualidade de Eros, traços de algo

que será muito caro a Freud em sua construção da psicaná-lise: a dualidade pulsional. Dada a complexidade da teoria das pulsões, destacaremos aqui apenas alguns aspectos da relação dessa teorização que identificamos no pensamento