Mito e Psicanálise
56 Ana Vicentini de Azevedo
A confusão de categorias sexuais que promove a Esfin-
ge é tecida cuidadosamente no texto de Sófocles. Após ter sido interpelada por duas vezes no masculino, ela é chamada de “virgem”, ou seja, é sexualizada, ainda que fora do domí-nio da sexualidade civilizada, de onde estão excluídas as virgens. Tal operação de exclusão é corroborada pela ani-malização que acompanha a “virgindade” da Esfinge: ela é uma virgem com garras de leão. Esta con-fusão de mascu-lino e feminino, de humano e animal, é emblemática da natureza do enigma a que Freud se devotou a deslindar.
Lições do corpo. Tal como a atenção do Édipo-investigador, que se volta para os sintomas que o coro poderia lhe dar, também a investigação freudiana será orientada por sinto-mas, por aqueles que as histéricas mostravam a Charcot, e que tanto ensinaram a Freud. É na escuta desses corpos que se paralisam, desfalecem, desses sujeitos contorcidos em dor que Freud começa a se dar conta de que há aí algo mais do que o método da hipnose (Charcot) ou da catarse (Breuer) poderiam dar conta de identificar, de elaborar, de decifrar. Freud suspeita que esses sintomas sejam como que inscri-ções que fazem parte de uma história, e que é essa história que deve ser retraçada, contada e ouvida, por uma outra via, através de um outro método, diverso daqueles propostos por seus antecessores.
A esse método, tratado por talking cure, Freud vai acrescentar a associação livre, cuja inspiração advém da observação de que a dimensão do que era dito por seus pacientes comportava aspectos antitéticos, muitas vezes ex-