Mito e Psicanálise
50 Ana Vicentini de Azevedo
se condensam e se deslocam na formação de uma “estrutura composta”. Esses dois termos em itálico já haviam sido utilizados por Freud na Interpretação dos sonhos como ca-racterísticos da estrutura da linguagem onírica.
À luz da lingüística estrutural (posterior à descoberta
freudiana), e com o intuito de demonstrar que “o incons-ciente estrutura-se como uma linguagem”, Lacan mais tarde vai renomear os processos de condensação e deslocamento em termos de dois eixos que estruturam o funcionamento lingüístico: o metafórico e o metonímico, respectivamente. A forma condensada, metafórica, de “familionária”, se dá com base a um deslocamento metonímico: para que “fami-lionária” possa surgir, o significante “familiar” é deslocado, dejetado, como aponta Lacan.
Entre oidípous e ánthropos temos um jogo similar. Se ouvirmos a resposta de Édipo (ánthropos), atentando não somente para seu significado, mas para sua forma conden-sada, que contém pous, vemos que oidípous foi o significante deslocado, recalcado e, como tal, o que irá inexoravelmente retornar: na busca do herói por sua história, por seu nome.
Faces da Esfinge. Figura que encarna o enigmático por exce-lência, a ponto de ser usada como sinônimo deste, a Esfinge, isto é, a Estranguladora, recebe variados nomes ao longo da peça de Sófocles: “cruel cantor” (v. 36); “o monstro cantor” (v. 391); “virgem profética, com garras curvadas [como as de um leão]” (vv. 1199-1200). Apenas uma única vez ela é nomeada como tal: “a Esfinge de intricado canto” (v. 130), sublinhando sua íntima associação com o enigma.