Mito e Psicanálise
44 Ana Vicentini de Azevedo
cia, desestabilizando o eu em sua crença numa consciência autotransparente e idêntica a si mesma. O “isso existe” de Freud pode ser lido em sua ressonância analítica: o (id) isso existe, o que equivale a dizer que o isso fala para além do dito, do sentido consciente.
Ao se inteirar dos males que afligem Tebas, e das
recomendações do oráculo para que o assassino de Laio seja punido, Édipo se lança na mais inabalável e obsedante empreitada no sentido de desvelar o criminoso e, assim, remover a mácula que polui a cidade. Essa busca por saber quem é o assassino — que faz com que Édipo Rei seja considerada a primeira detective story da literatura ocidental —, é a dimensão mais palpável de uma outra busca de Édipo sobre a verdade que, no início da peça, Tirésias diz nutrir, mas que, como ele próprio também indica, será revelada, ainda que “velada pelo silêncio”.
Tal revelação, porém, não é da ordem de uma epifania
religiosa, de uma revelação total; haverá sempre algo que não poderá ser dito, como indica o dramático gesto de Édipo ao cegar-se. Trata-se, então, de um velar e desvelar, ao mesmo tempo, trata-se de uma (re)velação. Em um voca-bulário psicanalítico, podemos dizer que a verdade desse sujeito que não sabe que sabe vai se dizer, ou melhor, se semi-dizer, dentro e a despeito dos muros de silêncio ergui-dos pela própria linguagem.
A busca da verdade, marcada pelo jogo dionisíaco do
velar e desvelar, tem fecundas ressonâncias na postura de Freud ao longo de toda a sua obra. A atração pelos versos de Sófocles já nos dá uma pista sobre a posição ética de