Mito e Psicanálise

Ana Vicentini de Azevedo · Capítulo 50 de 64

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Mito e psicanálise 61

postumamente em 1940, Freud postula a dualidade dos sexos como “o maior enigma com o qual nos defrontamos”.

Mais uma vez, o emblemático encontro de Édipo e a

Esfinge deve estar em nosso horizonte. Este ánthropos con-tido no enigma — na pergunta da Esfinge e na resposta de Édipo — será modulado por Freud em termos da sexuali-dade, explicitamente pela diferença sexual. Tal como Édipo, Freud busca explicar esse enigma, retendo aqui a etimologia do verbo: ex-plico, desdobrar, desfazer o plissado, ver as dobraduras, as entrelinhas, e não “chapar” o enigma com um sentido, uma resposta. Édipo apenas aparentemente faz isso, ao responder prontamente “ánthropos”, conforme vimos.

Com o intuito de pensar a dimensão pensável da dife-

rença sexual, da assunção psíquica do sexo biológico, Freud encontra articulações frutíferas nos significantes desse Ou-tro que é o mito de Édipo. Édipo é o nome de um processo através do qual o macho se torna homem e a fêmea, mulher. Por entretecer diversas instâncias, figuras e elaborações psí-quicas, esse processo é chamado de complexo.

Freud ainda nos diz que tal mito traz à tona uma

questão central à estruturação do humano, ao psiquismo: as relações fundamentais de parentesco, parafraseando o título de Lévi-Strauss de uma obra capital da antropologia estrutural. Ambos (o autor e essa vertente disciplinar) são solidários à postulação da psicanálise de que a inserção nesse simbólico chamado família e os complexos familiares são estruturantes do humano. O vocabulário freudiano para dizer isso é seu complexo de Édipo.