Mito e Psicanálise
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melhor, identificações —, relações amorosas e revela, como em um baixo-relevo, um outro registro subjacente a esse cenário imaginário. Ama-se a si próprio através do outro e assim se confunde a reciprocidade do amar e ser amado, da voz ativa e passiva, tão cara, por exemplo, à tradição cristã. Uma confusão de vozes verbais que pode ser vista pela ótica de uma voz marcante da língua grega, a voz média, de valor reflexivo, cuja importância para a gramática da psicanálise foi ressaltada tanto por Freud quanto por Lacan no que concerne às vias e aos desvios da pulsão.
Ao recusar todos os jovens (homens e mulheres) que
por ele se apaixonaram, notadamente Eco, Narciso desmon-ta o campo visual fundante do amor, a reciprocidade do ver e ser visto. E, na reflexividade do fazer-se ver, nos leva a perceber um campo que a psicanálise mais tarde nomeará por pulsão escópica. Na sua aguda percepção de poeta, Ovídio nos mostra como Narciso é capturado por um olhar que o fascina. Esse olhar é o que a psicanálise vai destacar, posteriormente, como o objeto dessa pulsão que se caracte-riza pelo fato de o sujeito poder se ver, tal como um flecha atirada que retorna para o sujeito, conforme pontuou La-can. Daí a inquietante estranheza que o duplo Narciso espetacularmente suscita: um olho perfurado por um eva-nescente olhar. O insuportável desse (des)encontro leva à morte de Narciso, ficando, de resto, seu “adeus”, melancoli-camente repetido por Eco.
Dessa fortuita conjugação dos mitos de Eco e de Nar-
ciso, que se atribui a Ovídio, podemos identificar paralelis-mos importantes para nossa reflexão: se, por um lado,