Mito e Psicanálise

Ana Vicentini de Azevedo · Capítulo 48 de 64

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Mito e psicanálise 59

Porém, a própria repetição nos indica que algo sempre falta nesse encontro, que ele é, pois, um (des)encontro.

Tanto a associação livre quanto a transferência são

fortes indicativos, para Freud, de que o padecimento neu-rótico tem assento em uma base sexual. Diferentemente do que anuncia uma vulgata freudiana, essa base sexual não é um modelo arquetípico — isto é, monolítico — que explica, ou tampona, a própria sexualidade ao postular-lhe um poder explicativo magnânimo. O dito popular “Freud ex-plica” incide nessa vulgata. A psicanálise não nasce como uma tentativa de explicar, de dar sentido a manifestações inconscientes; ela não é uma hermenêutica do inconsciente, como postulam críticos de Freud e até mesmo alguns que partilham de seus ensinamentos. Seu horizonte e caminhos são mais largos, como temos procurado mostrar aqui, onde se cruzam várias fontes e disciplinas na construção dessa ciência humana por excelência, tal qual Lacan a caracteriza.

Dissemos acima que a psicanálise não se reduz a uma

teleologia do sentido, que ela não trabalha apenas na dimen-são do significado, da busca do sentido. Provocativamente, e na esteira dos significantes de Édipo, podemos desfazer essa afirmação, levando o significante “sentido” a deslizar rumo a “direção”, “caminhos”. Um desses principais cami-nhos é o que leva a Édipo.

Uma vez posta a posição transferencial da psicanálise

em relação ao mito de Édipo, este emerge com toda a sua potência metafórica. Édipo funciona para a psicanálise, especialmente para Freud, como uma metáfora que lhe