Mito e Psicanálise

Ana Vicentini de Azevedo · Capítulo 57 de 64

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Mito e Psicanálise

68 Ana Vicentini de Azevedo

de que a psicanálise não é um discurso filosófico, um sistema fechado, mas uma teorização indissociável da prática clíni-ca, com a qual entretém uma relação rica, tensa, e dialética, relação que podemos ver como uma oscilação entre a ciên-cia e a poesia, entre a precisão e o rigor conceituais e sua dimensão metafórica.

Mais-além de Édipo. Devemos a Lacan, já em seu segundo seminário, O eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise, de 1954-1955, o alerta aos analistas para que prestassem atenção à última peça de Sófocles, Édipo em Colono (401 a.C.), por esta colocar em cena uma dimensão importante do trabalho da — e de uma — psicanálise, levando adiante, pois, a exploração desse discurso do Outro, tanto para o sujeito quanto para a própria psicanálise. “Esta história está amplamente espalhada e não cessa nunca”, diz o coro ao pedir a Édipo que conte novamente sua história.

De maneira sucinta e à guisa de concluir a repetição

desse encontro da psicanálise com o mito de Édipo, de concluir algo que não é definitivo, que “não cessa de não se escrever” e, por isso, está em toda parte, podemos ressaltar uma exclamação de Édipo nessa obra póstuma de Sófocles. “Quando eu não sou mais, é aí que passo a ser um homem?” [anér e não mais ánthropos], pergunta atônito o herói. Mais uma vez, um enigma, um sinal de que há um além do ánthropos decifrado em Édipo Rei.

Sob essa ótica, podemos rever o famoso insight de Édipo na peça anterior — “Ah, tudo está claro” —, quando ele finalmente se dá conta de que matou o pai e desposou a