Mito e Psicanálise

Ana Vicentini de Azevedo · Capítulo 9 de 64

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inconsciente estrutura-se como uma linguagem” e que o próprio Freud tenha insistido na importância de os analistas conhecerem o desenvolvimento da linguagem, a etimologia, a fim de poderem entender e trabalhar na tradução da “linguagem do sonho”.

O “par antitético” Verdade-Esquecimento mostra agu-

damente, avant la lettre, esse princípio basal da psicanálise: a dualidade como estruturante da vida psíquica. Uma dua-lidade em especial põe-se em relevo na metapsicologia freu-diana, onde, mais uma vez, temos a presença bussolar da mitologia grega: Eros-Tânatos (pulsão de vida-pulsão de morte). Antes de visitarmos essas duas divindades e, mais ainda, muito antes de tratá-las como pulsão, fiquemos um pouco mais com Verdade.

“A verdade tem estrutura de ficção.” Em uma leitura ligeira e comum, o título acima, de Lacan, poderia ser visto como um caso exemplar de opostos: “verdadeiro x falso”. Esse par difunde-se de tal forma na tradição ocidental de pensamen-to, que o fundador da moderna lógica matemática, o alemão Gottlob Frege (1848-1925), avança a idéia de que todas as proposições se subdividem em duas categorias: as proposi-ções que têm como referência o verdadeiro e as que têm como referência o falso.

Em se tratando de Verdade, conformada pelo pensa-

mento mítico grego, e esposada pela psicanálise, estamos muito distantes de Frege. Mais uma vez, a Teogonia, de Hesíodo, nos faz caminho. A primeira palavra do poema é já um sinal de alerta: Mousáon, das Musas, ou através das