Mito e Psicanálise

Ana Vicentini de Azevedo · Capítulo 22 de 64

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Mito e Psicanálise

Mito e psicanálise 33

Mais tarde a ninfa enamora-se do belo Narciso, quem, por sua vez, a rechaça. Desprezada, Eco escolhe uma montanha como seu leito de morte, de onde ouvem-se, desde então, seus ecos.

Indignada, Afrodite intervém e pune Narciso com a

maldição de que “possa ele próprio amar, sem jamais pos-suir o objeto amado”, como nos conta Ovídio (43 a.C.-18 d.C.) em Metamorfoses, a mais importante fonte deste mito. O jovem Narciso dirige-se então a um plácido lago, de águas cristalinas, que nenhum animal ou pastor jamais turvava, e, na busca de saciar sua sede, surge-lhe uma outra sede: “o olhar da bela forma que ele vê.” O jogo de engano no qual Narciso se enreda é resumido por Ovídio: “Ele ama uma esperança sem substância e crê que é substância o que é somente sombra.”

Podemos também ver esse jogo sob a ótica do mesmo

e do outro, do paradoxo que preside à pulsão de Eros: na busca do outro, busca-se o que falta a si mesmo, busca-se a reparação ou ortopedia da falta e, em última instância, a perfeição do Todo. O que o mito erótico de Narciso subli-nha, em cores trágicas, é que essa busca pela completude passa necessariamente pelo outro, mas por um outro não mais tomado como tal, mas reduzido à imagem de si, a um reflexo. É com esse reflexo, com essa “sombra tomada como substância”, que Narciso se identifica e na qual se perde de forma trágica. Ao invés do jogo amoroso da reciprocidade, Narciso põe cruamente em jogo a lógica da reflexividade, da confluência sobre si de sujeito e objeto, encerrando-se em uma circularidade mortífera.