Mito e Psicanálise

Ana Vicentini de Azevedo · Capítulo 58 de 64

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Mito e psicanálise 69

mãe. Tal assunção dizia respeito ao reconhecimento de uma dimensão de sua história e à reintegração dessa dimensão não-sabida ao que ele imaginava ser sua história, seu ser. Um reconhecimento que também será objeto privilegiado do percurso de uma psicanálise: “O que ensinamos ao sujeito reconhecer como seu inconsciente é sua história”, lembra Lacan em “Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise”, publicado nos Escritos.

Mas Édipo em Colono nos ajuda a pôr em relevo que em psicanálise não se trata apenas de pedagogia, de apren-dizado, de dar sentido (inconsciente) a atos e condutas. O final de Édipo Rei nos mostra um Édipo que toma pé de sua história, que se assume como mácula, ou, num vocabu-lário psicanalítico, que assume a castração enquanto aceita-ção de limites. Esses limites, como bem mostra o analista francês Jean-Pierre Winter, dizem respeito não somente ao que sou, mas, sobretudo, ao que não sou. E ele acrescenta: “O que não sou é o Outro sexo.”

Podemos ouvir a exclamação interrogante de Édipo —

“agora que não sou é que sou um homem?” — como um além da assunção da história, da castração, como uma reconciliação com esse não ser, traço fundamental em Édipo em Colono. Uma posição que a psicanálise marcará como um “fim de análise”, um mais além do sujeito, ou seja, uma aceitação e assunção desse grande Outro cuja última palavra é “morte”, ou como disse outra personagem freqüente na cena analítica, Hamlet: “O resto é silêncio...”

Ao final de Édipo em Colono, o herói desaparece em uma obscuridade indevassável, em uma cripta da qual nada