Mito e Psicanálise

Ana Vicentini de Azevedo · Capítulo 53 de 64

Páginas do PDF

Mito e Psicanálise

64 Ana Vicentini de Azevedo

maneira amplificada, traços da estrutura, que Édipo Rei vai funcionar, para a psicanálise, como o discurso do Outro. Tanto na peça quanto na psicanálise, trata-se de uma dimen-são do dizer, de uma história que o sujeito conhece e desco-nhece, méconnaît, e que ele será responsável por assumir, ou não, seja ao longo do drama, ao longo da elaboração da teoria, de uma análise, de uma vida.

A confusão da Esfinge, do enigma, antecipa a confusão

do que se dará, uma vez transpostos os limites da cidade. Édipo receberá, ao mesmo tempo, o trono e o leito real, ele será um basileús, rei, que se (des)conhece como tyrannos, ele se fará marido, sendo filho, pai sendo irmão, reeditando, de maneira dramática, o enigma do discurso do Outro e do desejo: um ser que ao mesmo tempo conflui três gerações, três temporalidades do humano, a infância, o ser de quatro pés; a velhice, o de três, e a idade adulta, o bípede, na medida em que é filho (da mãe), pai (dos irmãos), e avô (dos sobrinhos). Ou seja, Tebas é o cenário de uma peça terrível, da colocação em ato de dois interditos fundantes do huma-no e da cultura: o incesto e o parricídio, figurados no leito real e no trono que Édipo recebe, ao mesmo tempo.

 

Conclusão

A estrada de Tebas, suas entradas e saídas. A escolha de Édipo, na visada psicanalítica, é uma daquelas instâncias do fun-cionamento psíquico a que nos referimos acima: ela é so-bredeterminada, ou seja, não pertence unicamente ao do-