Mito e Psicanálise

Ana Vicentini de Azevedo · Capítulo 20 de 64

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sugerido aqui, de que Eros, em sua duplicidade na tradição mítico-grega, antecipa e recobre o dualismo pulsional que Freud postulará mais tarde. Como Safo de Lesbos sabia-mente caracterizou-o, no fragmento 19: “Eros é doceamar-go.” Em outras palavras, Eros é duplo, é aquele que engendra e desfaz, é o “tecelão de mitos”, o mythóplokos, que, com sua astúcia, tece redes de sedução, de enganos; como também, em última instância, dá nome a essa outra força primordial que nos leva a buscar Nirvana.

Talvez seja por isso que Sófocles, em sua Antígona, o tenha descrito como “Eros invencível na batalha ... Nenhum dos imortais te pode escapar, nem tampouco os mortais, e aquele que te possui é louco”. Na visão trágica de Sófocles, Eros, aquele que ao mesmo tempo repousa “sobre o rosto de uma donzela”, “promove a discórdia entre aqueles do mesmo sangue”. Sobretudo, como imortal, Eros sobrepõe-se aos próprios imortais, é uma força que nem os não-mor-tais (os que negam a mortalidade) podem subjugar, aniqui-lar, matar.

Sob a aguda ótica trágica, podemos retomar o dualis-

mo pulsional de Freud não mais em termos de “vida x morte”, mas de vidamorte, e ressoar o Freud de Mais-além do princípio de prazer. Há aí, fundamentalmente, um movi-mento pulsional por excelência, que busca a repetição de uma experiência primordial de satisfação. Isto é a primazia da pulsão de morte em sua complexidade dialética. Como encena a trágica figura de Antígona, e a psicanálise mais tarde reafirma, a reedição dessa satisfação total está parado-xalmente fadada ao fracasso, uma vez que seu objeto é desde