Mito e Psicanálise
62 Ana Vicentini de Azevedo
“Mamãe eu quero”. O (falso) pudor dos primórdios do século XX reagiu com ânimos exaltados à revelação freudia-na de que a presença da sexualidade se dá já na infância. E, mais, de que a criança é dotada de desejos sexuais por aqueles que se ocupam dela, especialmente de sua nutrição, fonte primeira de satisfação. Essa figura é notadamente a mãe. Isso significa dizer que a mãe estará íntima e indisso-ciavelmente associada à satisfação das necessidades e de-mandas da criança. Subjacente a essa associação, há outra para a criança — o amor da mãe está ligado ao ser alimen-tado, à satisfação de suas necessidades vitais.
Dadas essas funções, já podemos antever uma certa
destinação dessa figura na vida psíquica da criança: a mãe será posta no lugar desse objeto último de satisfação plena chamado de das Ding. Isto é, para a criança, a figura da mãe (ou seu representante), será dotada de todos os poderes para lhe satisfazer, o que ainda equivale a dizer que, para a criança, a mãe lhe tem como único objeto de amor. É como se a criança refizesse a clássica marchinha de carnaval “Ma-mãe eu quero mamar” — e não é à toa que ela é clássica e nem de carnaval — em termos de “mamãe = eu quero = eu tenho” e, portanto, “eu quero mamãe”.
Só que, como vimos, esse objeto de todo gozo é impos-
sível, das Ding é inalcançável, a despeito de algumas leituras que postulam que seu lugar venha a ser ocupado pela mãe. Esta deseja algo além da criança. Esse lugar outro para além da criança como objeto de desejo é ocupado pela figura do pai, para quem se volta o olhar, o desejo da mãe. Importa destacar aqui que não se trata necessariamente do pai en-