Mito e Psicanálise

Ana Vicentini de Azevedo · Capítulo 25 de 64

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Mito e Psicanálise

36 Ana Vicentini de Azevedo

Narciso e seu duplo põem em relevo a dimensão visual, Eco, como dublê da palavra do outro, tem por foco a dimensão sonora — a dimensão de uma voz que se quer fazer ouvir, conforme Lacan definiu uma outra modalidade pulsional, a pulsão invocante.

Enamorada de Narciso, Eco não consegue mais do que

repetir as palavras do amado. Ele se afasta com veemência dessas palavras, acreditando estar se afastando daquela que o ama. Isso nos permite dizer que Narciso foge da duplica-ção verbal para cair em um outro (mesmo) equívoco: o enamoramento de seu duplo visual. Com isso Ovídio con-figura um sutil jogo de ilusão-realidade, de engano (psêu-dos) e verdade (alétheia), tão próprio às Musas, à ficção, como já vimos, e que tem na figura do deus Dioniso sua mais engenhosa encarnação. Não é à toa que a estória dessa divindade precede ao episódio de Narciso nas Metamorfoses, como também é Dioniso o deus das artes da cena, que têm na dialética de ilusão-realidade, de presença e ausência, sua principal característica. Será Dioniso que dará início à re-flexão que faremos a seguir sobre a presença do mito na psicanálise.

 

O mito na psicanálise

O que isso tem a ver com Dioniso? Um provérbio da teatral Atenas do V século a.C. tem inspirado muitos comentários e debates sobre seus possíveis sentidos e aplicações: “Isso nada tem a ver com Dioniso.” Alguns comentadores apon-