Mito e Psicanálise
Mito e psicanálise 21
Musas. São essas divindades múltiplas e poderosas a com-parecer, de maneira invocativa, no primeiro verso da Odis-séia, de Homero: “Conte-me, ó Musa, sobre o homem de muitos ardis [polytropon].” O pedido é reiterado logo adian-te, no décimo verso: “Destas coisas, ó deusa, filha de Zeus, conte-nos, principiando por onde quiserdes.”
A dupla invocação de Homero à filha de Zeus é indica-
tiva do status da Musa no idioma mito-poético. Além da olímpica linhagem, cabe à Musa a tarefa de falar/cantar através do poeta, de ordenar o canto. Ou seja, é prerrogativa dela decidir o que dizer e como dizê-lo. Conforme vimos acima, essa é a noção de mythos cunhada por Aristóteles. Mito e Musas entrelaçam-se na atividade poética, sendo essas as tecelãs daquele.
Hesíodo é ainda mais eloqüente no que concerne às
Musas, como, por exemplo, nos versos 22-28 da Teogonia:
Elas um dia a Hesíodo ensinaram belo canto
Quando pastoreava ovelhas ao pé do Hélicon divino.
Esta palavra [mython] primeiro disseram-me as deusas
Musas Olimpíades, virgens de Zeus porta-égide:
“Pastores agrestes, vis infâmias e ventres só,
sabemos muitas mentiras [pseúda] dizer
símeis [homoîa] aos fatos
e sabemos, se queremos, dar a ouvir revelações [alethéa]...”
O primeiro ponto a ser destacado diz respeito à cir-
cunscrição da tarefa do poeta à esfera do mythos, que ganha, na tradução de Jaa Torrano, mais uma importante dimen-