Mito e Psicanálise

Ana Vicentini de Azevedo · Capítulo 10 de 64

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Mito e psicanálise 21

Musas. São essas divindades múltiplas e poderosas a com-parecer, de maneira invocativa, no primeiro verso da Odis-séia, de Homero: “Conte-me, ó Musa, sobre o homem de muitos ardis [polytropon].” O pedido é reiterado logo adian-te, no décimo verso: “Destas coisas, ó deusa, filha de Zeus, conte-nos, principiando por onde quiserdes.”

A dupla invocação de Homero à filha de Zeus é indica-

tiva do status da Musa no idioma mito-poético. Além da olímpica linhagem, cabe à Musa a tarefa de falar/cantar através do poeta, de ordenar o canto. Ou seja, é prerrogativa dela decidir o que dizer e como dizê-lo. Conforme vimos acima, essa é a noção de mythos cunhada por Aristóteles. Mito e Musas entrelaçam-se na atividade poética, sendo essas as tecelãs daquele.

Hesíodo é ainda mais eloqüente no que concerne às

Musas, como, por exemplo, nos versos 22-28 da Teogonia:

Elas um dia a Hesíodo ensinaram belo canto

Quando pastoreava ovelhas ao pé do Hélicon divino.

Esta palavra [mython] primeiro disseram-me as deusas

Musas Olimpíades, virgens de Zeus porta-égide:

“Pastores agrestes, vis infâmias e ventres só,

sabemos muitas mentiras [pseúda] dizer

símeis [homoîa] aos fatos

e sabemos, se queremos, dar a ouvir revelações [alethéa]...”

O primeiro ponto a ser destacado diz respeito à cir-

cunscrição da tarefa do poeta à esfera do mythos, que ganha, na tradução de Jaa Torrano, mais uma importante dimen-