Mito e Psicanálise
54 Ana Vicentini de Azevedo
perdido. E também por isso, ele será objeto de um encontro sempre faltoso, que o sujeito tentará reeditar, retornar a esse ponto, pela via da repetição, como vimos na primeira seção.
Há uma importante dialética no status desse objeto,
cuja pertença a uma temporalidade mítica deve ser subli-nhada: ao mesmo tempo em que ele é interno, algo do sujeito na completude mítica de seu gozo, ele lhe é externo, estrangeiro, inalcançável, pesando sobre ele a implacável interdição. Esse objeto é chamado, em psicanálise, de a Coisa (do alemão das Ding), no qual pode-se ouvir a noção kan-tiana da Coisa em si (Ding an sich), que marca a experiência do possível. É a partir da relação com esse objeto, como desde sempre perdido e, portanto, como impossível, que serão orientadas todas as outras relações do sujeito com seus objetos.
É no campo da Coisa que podemos situar a Esfinge,
cujo corpo polimorfo traz a marca de um gozo ilimitado, ferozmente mortífero, da pulsão de morte, como vimos anteriormente. Daí sua impossibilidade de habitar o simbó-lico da cidade, e a insuportável “monstruosidade” que lhe atribuiu o coro. Mas, como também mostrou Freud, o que faz o corpo pulsar, o faz de maneira errática, dado que sempre parcial. O gozo sexual, por exemplo, é indicativo, ou melhor, “performático”, dessa incompletude, de que algo sempre falta.
O texto de Sófocles nos dá várias pistas sobre a dimen-
são dessa esfinge, desse enigma que é o corpo como instân-cia gozosa. É importante ressaltar aqui que, ao pontuarmos diversas formas de gozo, estamos tratando de fraturar qual-