Mito e Psicanálise

Ana Vicentini de Azevedo · Capítulo 12 de 64

Páginas do PDF

Mito e Psicanálise

Mito e psicanálise 23

verdade na Grécia arcaica. Nesse início da Teogonia, a inter-pelação que as Musas fazem a Hesíodo situa a palavra da qual o poeta é porta-voz, em uma “dialética de complemen-taridade antagônica” (na expressão de Jean-Pierre Vernant), a qual funda o ser — no horizonte do não-ser, do silêncio, do esquecimento —, como ser de (e determinado pela) palavra.

Em face desse poder da palavra mito-poética, não é de

se estranhar que, na Grécia arcaica, essa palavra cantada tenha tido o poder de restaurar a saúde dos enfermos, na medida em que os punha em contato com as forças prime-vas e pulsantes da vida que estariam adormecidas ou esque-cidas, arrancando-os da obscuridade mortífera do silêncio para inseri-los em linhagens, nos campos semânticos do que não pode ser esquecido, censurado, sob pena de engendrar — tal como o fez Discórdia, mãe de Esquecimento — dores, sofrimento, doença, lágrimas.

É em profunda solidariedade com esse poder da pala-

vra que a psicanálise se funda como a talking cure, a cura pela palavra, como agudamente batizou-a uma paciente de Breuer, Anna O., cujo tratamento é comentado por Freud em vários de seus escritos. Tal como o poeta arcaico, o analisante dedica-se ao relato (uma das traduções possíveis de mythos). Muitas vezes pleno de ficções, de fantasia, de psêudes, o relato o leva a trazer à luz, a ver, a re-velar, sob a égide de Memória, ou do trabalho da rememoração, dimen-sões de sua verdade, de Verdade.

Encontramos um outro desdobramento possível deste

trabalho do analisante, à luz da mito-poética Verdade, em