Mito e Psicanálise
Mito e psicanálise 17
consonância com estudiosos de mitologia comparada, a tradição mítica grega situa-se em um nível intermediário entre a filosofia e a religião. Pela presença e participação destes dois últimos discursos na fundação e robustecimento da psicanálise, podemos ver nesse nível intermediário da mitologia grega mais um outro pólo de atração não só para Freud mas também para a tradição humanista no Ocidente, de maneira geral.
Pares antitéticos. Como vimos, a partir de Lévi-Strauss, o objetivo primordial do mito, seja ele grego ou não, é dar conta de contradições, ou fornecer um modelo lógico para superá-las. Ao sublinharmos acima a questão da verdade, como central à lógica mítica grega e à psicanálise, trouxe-mos, en passant, sua antítese: o esquecimento — Léthe, em grego. Essa oposição indica, em primeiro lugar, o fato de que a questão da verdade é, antes de tudo, uma questão de palavra, de linguagem. Vejamos.
Em uma das principais fontes da mitologia grega, o
poema Teogonia, de Hesíodo (c. séc. VIII a.C.), no catálogo dos Filhos da Noite, temos Léthe personificada como filha de Discórdia (Éris). “Éris hedionda pariu Fadiga cheia de dor / Olvido (Léthe), Fome e Dores cheias de lágrimas”, relatam os versos 226-27, na tradução de Jaa Torrano. A personificação do esquecimento traz à luz um importante mecanismo da linguagem mítica — a coexistência de pelo menos dois planos: um referencial, denotativo e abstrato, onde léthe é esquecimento, olvido; e outro metafórico, onde vícios e virtudes humanas tornam-se concretos, encarna-