Mito e Psicanálise

Ana Vicentini de Azevedo · Capítulo 46 de 64

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Mito e psicanálise 57

pressos pela via do corpo. Isso não apenas indica que o nível da consciência é um aspecto bastante limitado da atividade psíquica, como, sobretudo, mostra que o inconsciente pro-duz seu próprio dizer no corpo, nas ações, nos dizeres, nas fantasias e nos sonhos. Vemos aí também como mais uma vez a dicotomia corpo-alma dilui-se sob a ótica da psica-nálise.

Na escuta da associação livre de seus pacientes, das

minúcias — atos falhos, deslizes — de suas falas, Freud logo aprende que essa associação dá-se simultaneamente a um outro tipo de associação: uma ligação íntima, afetuosa, onde devemos ouvir a forte afetação do sujeito, que se dá entre paciente e analista. A essa relação Freud chamou de trans-ferência, e situou-a no fundamento de seu dispositivo. Con-ceito de difícil formulação sintética, podemos provisoria-mente detectar dois traços marcantes da transferência para Freud: o amor do paciente pelo analista e a colocação em ato, nessa relação, de conteúdos inconscientes.

Para que essa transposição, para que essa operação

metafórica se dê, é necessário que o eu do analista esteja ausente e ocupe, para o analisante, uma posição x, isto é, de enigma, de modo a abrir caminhos para que este possa renunciar ao gozo mortífero da esfinge e ir ao encontro do enigma de sua história, de seu desejo. Tal posição receberá, em Lacan, o nome de grande Outro (A), um termo que possui outras acepções na teorização lacaniana, além do que já foi anteriormente indicado.

A importância basilar da transferência foi sublinhada

por Freud e insistida por Lacan, em sua retomada do