Mito e Psicanálise
60 Ana Vicentini de Azevedo
permite articular conceitos, orientações, caminhos, como temos indicado até aqui. Mas é talvez na formulação do complexo de Édipo onde essa força metafórica se dê de maneira mais contundente.
Lacan nos indica, em Televisão, que o mito é algo que permite ver, de maneira ampliada, as operações da estrutu-ra; é como se essa forma discursiva pusesse em primeiro plano o que estava ativo nos bastidores, comandando o espetáculo, embora imperceptível no nível da consciência. Já Lévi-Strauss, por sua vez, em sua Antropologia estrutural, aproxima o mito da ciência em termos de seus propósitos: ambos buscam dar conta da questão das origens, ainda que por vias bastante diversas, ou até opostas. Esses dois aspec-tos informam a entrada do mito de Édipo na psicanálise e, por isso, é importante não os perdermos de vista ao consi-derarmos o olhar de Freud sobre esse mito.
Édipo: significante fundador. Se a sexualidade está na etiolo-gia das neuroses, ela o está de maneira sutil, polimorfa, diversa, como assinalamos acima, na moldagem e modula-ção que faz o humano. Uma das características mais mar-cantes da sexualidade humana reside, para Freud, justamen-te na diferença sexual. Em seu estudo sobre o caso Schreber, “Notas psicanalíticas sobre um relato autobiográfico de um caso de paranóia”, de 1911, Freud indica, em uma nota de rodapé, que seria um autêntico estado de graça, uma bên-ção, se e quando finalmente pudéssemos estar livres da diferença entre os sexos. Em 1938, no “Esboço de psicaná-lise”, que seria um de seus últimos trabalhos, publicado