Mito e Psicanálise
34 Ana Vicentini de Azevedo
Além da circularidade do movimento pulsional que o
mito de Narciso configura, a psicanálise irá encontrar aí uma rica fonte para suas teorizações acerca da identidade e das identificações. Lacan retoma o drama do espelho de Narciso em um ensaio bastante conhecido: “O estádio do espelho como formador da função do eu”, publicado nos Escritos. A criança (l’infans) é capturada pela imagem com-pleta e totalizante de seu corpo, fragmentário e sem coorde-nação, que se forma no espelho. A imagem especular preci-pita-o de um estado de prematuração motriz, inerente à espécie humana, como lembrou Freud, ao regozijo de uma imagem que justamente vai conformar esse corpo despeda-çado em uma ilusória totalidade.
Paralelamente ao júbilo que essa imagem especular
provoca, permanece, tal como para Narciso, o hiato entre ela e o sujeito: ao mesmo tempo em que ela sou eu, ela é outro que não eu. Para estabilizar esse pequeno júbilo deli-rante, há a presença de um terceiro termo, de um grande Outro (na expressão de Lacan), diverso desse pequeno ou-tro identificatório da imagem, que pode aquiescer ou negar a exclamação de Narciso ao se reconhecer: “Iste ego sum.” (Este sou eu.) Dito de outra forma, subjacente a essa imago idealmente completa, há uma tensão paranóica em relação ao que esse Outro pode fazer: reconhecer o reconhecimento ou negá-lo, afirmar o sujeito ou negá-lo. Esse drama, cuja dimensão de ficção, de metáfora, não nos deve passar desa-percebida, adquire o status de uma matriz na estruturação subjetiva e irá presidir às relações do sujeito com o mundo.
O espelho de Narciso mapeia todo um campo visual
onde se constroem e destroem imagens, identidades — ou