Mito e Psicanálise
46 Ana Vicentini de Azevedo
qual ele designa, significativamente, como symbolon. Vamos desdobrar algumas partes dessa posição.
O qualificativo “estranho, estrangeiro” que Édipo se
atribui é sem dúvida paradoxal, uma vez que nós, leitores e espectadores, sabemos ser ele um filho nobre de Tebas e, sobretudo, nada estranho ou alheio a esses fatos e ações. Este paradoxo faz ressoar a lógica que marca o discurso trágico em geral e que encontra nesta tragédia uma de suas mais agudas manifestações. Édipo é, ao mesmo tempo, um estra-nho em Tebas e filho de sua mais nobre família; um duplo que encarna o estranho e o familiar.
Esses são atributos que Freud, novamente sob a inspi-
ração da literatura, usará para caracterizar um fenômeno do funcionamento psíquico: o duplo. No ensaio dedicado a este tema, “O Estranho” (1919), Freud cita Schelling, afirmando que “estranho [Unheimliche] é o nome dado ao que deveria ter permanecido secreto e escondido, mas que veio à luz”. Algo que há muito é familiar e se manifesta como estranho, desconhecido; esse é um dos estatutos fundamentais de Édipo, e que a ele caberá reconhecer. Por que métodos, por que caminhos, é a via por onde se desenvolverá a peça.
Édipo pede ao coro símbolos, indícios, sinais parciais,
até mesmo sintomas (todos traduções possíveis de symbo-lon) para que ele possa seguir a trilha da investigação, do conhecimento, em princípio, do assassino de Laio. E aqui perfila-se mais uma dimensão do duplo em Édipo: ele é o investigador e o investigado, o juiz e o réu. Face a um novo enigma, Édipo pede indícios, pistas que possibilitem deci-frá-lo, interpretá-lo. No jogo paradoxal que estrutura a peça,