Mito e Psicanálise

Ana Vicentini de Azevedo · Capítulo 21 de 64

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32 Ana Vicentini de Azevedo

sempre perdido. É por isso que, quando falamos em pulsão, não podemos perder de vista sua dimensão parcial.

O paradoxo, figura por excelência do inconsciente,

figura uma vez mais no pensamento mítico grego, que Heráclito expressou tão bem no fragmento 51: “Eles não compreendem como o que está em desacordo concorda consigo mesmo: há uma conexão de tensões opostas, como no caso do arco e da lira”, na generosa tradução de J. Brasil Fontes.

Espelhos espetaculares. Ao indicarmos acima alguns aspectos referentes à teoria das pulsões em Freud, usamos o termo narcisismo, ou equivalente, cuja herança mítica ele próprio reconhece. Um exemplo disso está na conferência XXXII das Novas conferências introdutórias..., em que denomina o ena-moramento do ego por si mesmo de “narcisismo”, termo reconhecido como “tomado de empréstimo do mito grego”.

Narciso imiscuindo-se no domínio de Eros é algo que

não é novidade para a psicanálise, nem, tampouco, uma novidade dela. Como mostrou J.-P. Vernant, em seu “Un, deux, trois... Eros”, o universo mítico de Eros está imerso no universo de duas outras figuras míticas importantes: Narci-so e Dioniso. Vamos contemplar por agora o primeiro e deixar Dioniso para o segundo momento dessa reflexão.

Uma bela ninfa, Eco, costumava entreter com belas

histórias a Hera, a ciumenta esposa de Zeus, para que este pudesse se dedicar a suas infidelidades. Ao descobrir o ardil, Hera inflige a Eco a punição de jamais poder enunciar uma fala própria e somente repetir o que fosse dito por outros.