Mito e Psicanálise
66 Ana Vicentini de Azevedo
e não órgão genital. Ele renuncia à mãe para manter aquilo que supostamente lhe faz atraente a ela: seu pênis, que ele toma como sinônimo do falo. Já a menina empreende um caminho diverso e mais intricado. Ao se perceber, a si e depois à mãe, sem pênis, ela se toma como sem falo, por-tanto, castrada, tal como a mãe. Essa assunção da castração a faz se afastar da mãe enquanto objeto de amor, por ser este objeto também faltoso, por ele não ter o falo. Assim sendo, ela faz uma torção, e se volta para o pai, ou seu representante, como objeto amoroso, como aquele que poderá vir a lhe dar este fálico objeto de desejo, que terá na criança uma de suas figurações possíveis.
Dessa forma, complexo de Édipo e complexo de castra-
ção — cujo pivô é o falo — articulam-se, marcando dife-renças. O menino sai do complexo de Édipo pela via da castração, ou seja, ele se afasta da mãe sob a ameaça de perder o falo e se encaminha para uma posição análoga à do pai. Já a menina entra no Édipo pela via da castração, e aqui Freud nos lembra que, quando se perde um objeto amoroso, a tendência é tentar substituí-lo através da identificação. A menina então, face à castração, reaproxima-se da mãe, identificando-se com ela.
“Quem nunca sonhou em partilhar o leito materno?”,
é a pergunta de Jocasta na qual podemos condensar, ainda mais do que o esboço citado, a presença desse objeto uni-versalmente desejado na estruturação do psiquismo. Édipo Rei põe em cena, retroativamente, o movimento em direção a ele, ao mesmo tempo em que nos mostra o herói fugindo dele — um trágico destino do qual partilhamos todos, como