Mito e Psicanálise
Mito e psicanálise 41
Por esse episódio podemos ver como são múltiplas as
formas de relação de Freud com a lendária personagem de Sófocles — e é essa versão do mito que é referência para ele e para a psicanálise. Vamos tomar aqui a figura de Édipo e a Esfinge como emblemática dessa relação. A posição do criador da psicanálise aproxima-se da de Édipo, não na perspectiva de uma leitura ligeira e “aplicada” do ensina-mento psicanalítico, qual seja, a de Freud e seu “complexo de Édipo”. Vamos nos afastar desta e privilegiar uma posição discursiva, onde o foco recai não somente sobre o que é dito, mas sobre posições, sobre lugares de enunciação ocupados pelos sujeitos. Como temos insistido desde o início, não se trata apenas do quê é dito, mas de como se diz algo e a partir de que lugar. Nesse sentido, Freud ocupa uma posição solidária à de Édipo face aos enigmas do psiquismo, tendo buscado, por mais de quatro décadas, respostas a esses enigmas.
“Qual o ser que é ao mesmo tempo bípede, trípode e
quadrúpede?”, pergunta a temida Esfinge a Édipo. “Ánthro-pos”, o ser humano, contesta triunfante o famoso decifrador de enigmas, em uma única palavra. Diferentemente de Édi-po e, talvez, por ter aprendido com ele, Freud toma o tempo de uma vida e centenas de milhares de palavras na tentativa de desdobrar os inúmeros contornos que compõem o enig-ma e sua resposta, aparentemente singela. Se, para Édipo, “ánthropos” é de-finitivo, isto é, marca um fim, um limite — inclusive da própria Esfinge, que se atira num precipício após o desvelamento —, para Freud ele será o ponto de partida. O que constitui esse ánthropos? É em torno dessa