Mito e Psicanálise
Mito e psicanálise 39
mútua entre mito e psicanálise, a qual tem levado alguns estudiosos a ver a psicanálise como uma mitologia moder-na. Por um lado, temos, inegavelmente, os traços que Édipo imprime na psicanálise — o mais notável deles sendo o complexo de Édipo.
Essa entrada marcante provoca um movimento de
retorno, uma retroação: a psicanálise, especialmente depois de Freud, também imprime traços nesse mito, na medida em que ela incide nessa dimensão do mito como um con-junto indissociável de um dado relato e de suas leituras ao longo da tradição, conforme apontamos na primeira seção. Em outras palavras, o discurso da psicanálise sobre o com-plexo de Édipo também integra o mito de Édipo, como, aliás, mostrou Lévi-Strauss em seu clássico ensaio “A estru-tura dos mitos”. Portanto, um movimento de vai-e-vem irá guiar nosso olhar sobre o mito na psicanálise, orientando-o por alguns princípios e conceitos advindos das teorizações de Freud e Lacan.
Ao privilegiar traços da trágica trajetória de Édipo,
estamos ressaltando dois aspectos importantes em conso-nância com esses princípios. O primeiro diz respeito ao fato de que tomamos em conta a dimensão do dizer, da enuncia-ção, e não apenas do que é dito, do(s) significado(s) do texto de Sófocles. O segundo ponto refere-se a uma postulação central à nossa reflexão, adiantada acima — a de que Édipo Rei deixa impressos na psicanálise traços muito mais am-plos do que nos faria supor o “batismo” do complexo de Édipo.