Mito e Psicanálise

Ana Vicentini de Azevedo · Capítulo 40 de 64

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Mito e Psicanálise

Mito e psicanálise 51

Essa multiplicidade de nomes encontra um importante

paralelo no caráter multiforme dessa figura: corpo de leão (como aludido na citação de Édipo Rei), busto de mulher e asas de águia. Podemos ver essa polimorfia como indicial, como sintomática da natureza refratária da Esfinge a uma captura por um só significante. Ela é indicativa de que não há na linguagem um único significante — nome ou forma — que possa descrevê-la ou, melhor, circunscrevê-la a uma única dimensão significativa. Muitos nomes para uma só coisa: os nomes alertam para que talvez não se trate de uma única coisa. Em se tratando da Esfinge, estamos face a uma multiplicidade de referências, a uma força metafórica im-pactante, que atordoa até a linguagem.

Esta polimorfia, iconográfica e verbal, é corroborada

espacialmente. A Esfinge está situada em uma posição limí-trofe, às portas de Tebas, onde podemos ver uma alusão aos limites que demarcam o que pertence ao domínio do hu-mano e do selvagem, do que pode ser dito e do que deve ficar de fora, interdito; em suma, uma alusão aos limites que perfazem o humano.

De fato, o que ela diz (o enigma) corrobora tal posição,

na medida em que é um semi-dizer, um dizer que não diz tudo, mas indica, dá sinais, pistas. Nesse sentido, o dizer da Esfinge se aproxima de um atributo do oráculo, como nos apontou Heráclito: “O oráculo de Delfos não diz nem sub-trai nada, apenas dá sinais [semaínei].” Este atributo nos permite aproximar, sob a ótica da psicanálise, o enigma e o oráculo do discurso do Outro. Algo que se diz, mas que também interdiz.