Mito e Psicanálise
52 Ana Vicentini de Azevedo
Também a psicanálise tem-se ocupado dos limites do
dito, do interdito e do entredito, como estamos apontando neste livro. Nesse sentido, a Esfinge tem confrontado muitos analistas desde Freud, instigando-os, por sua força metafó-rica, a reflexões, avanços e reparos acerca do objeto e método psicanalíticos, ao mesmo tempo em que perfazendo leituras desse mito. Com base nesse cruzamento, e num vocabulário lacaniano, podemos situar a Esfinge entre o simbólico (ou seja, a dimensão do dito), e o real (o registro que se refere ao que não cabe na linguagem, como veremos a seguir).
É no corpo da Esfinge onde temos a mais pulsante
expressão, ou en-carn(e)-ação, dessa confusão de catego-rias, dessa deformação que lhe conforma. O bestial toma corpo nas asas da águia e nas formas de leão que lhe com-põem, onde não podemos deixar de indicar também um embaralhar de espaços, de lugares e formas de estar no mundo: um animal do ar e outro da terra, ao mesmo tempo, como o ser do enigma. Também, ao mesmo tempo e no mesmo lugar (no corpo), a Esfinge apresenta não somente características humanas, como, sobretudo, um humano já sexuado, mulher. Uma tal profusão de confusões, de para-doxos só poderia despertar um interesse ímpar a olhares psicanalíticos.
O corpo-esfinge. “Eu tenho grandes aflições por ter corpo, sem corpo que aflições teria?” Essa incisiva presença do corpo, como figura no Tao Te King, é ecoada por Lacan quando nos incita a nos maravilharmos mais por ele, no seminário Mais, ainda, de 1972-1973, cujo título em francês